quinta-feira, 31 de agosto de 2017

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (1951)

NOTA 8,0

Clássico conta história onírica e
ao mesmo tempo bizarra deixando em
aberto possibilidades de interpretação
e um leque de personagens fantásticos
Desde os primórdios do cinema a literatura sempre foi uma grande fonte de inspiração, mas algumas obras são tão complexas e fascinantes que permitem as mais distintas interpretações, assim podem render diversos filmes com enfoques diferentes. Alice no País das Maravilhas, a versão em animação da Disney para o livro homônimo de Lewis Carroll publicado em 1865, tomou certas liberdades criativas para agradar ao público infantil, como a exclusão de certas sequências e perfis, mas nem por isso abriu mão de passagens e personagens um tanto controversos. O roteiro, inacreditavelmente trabalhado por nada mais nada menos que treze autores, narra as aventuras, receios e descobertas da garota do título. Esperta e curiosa ela acha sua rotina muito chata e cheia de regras e adora viajar na sua imaginação idealizando seu mundo perfeito. Quando se depara com uma cena inusitada, um coelho trajando roupas, portando um relógio de bolso e correndo repetindo diversas vezes que está atrasado, a jovem não pensa duas vezes antes de segui-lo. Ela cai em um buraco muito profundo até chegar a uma espécie de antessala com uma minúscula porta. Ao comer um biscoito que surge do nada orientada por uma maçaneta falante, Alice consegue atravessar para um tipo de outra dimensão, um lugar habitado por criaturas excêntricas e onde absolutamente tudo que parece improvável pode acontecer. A narrativa então foge do estilo linear e adota uma estrutura episódica com esquetes que embora possam ser apreciados de forma independente tem na garota do título o elo entre todos. Ela não é uma heroína, tampouco uma princesa e não tem nem mesmo uma missão concreta a cumprir, simplesmente é uma jovem que como qualquer outra é curiosa, emotiva, insegura, tem seus momentos alegres e de perspicácia e, principalmente, é sonhadora. A dualidade representada pelo bem e o mal, a certeza e a dúvida, a felicidade e a tristeza se faz presente a todo o momento visto que os personagens, sem exceção, apesar de graciosos carregam uma aura de mistério ou melancolia.

Os diretores Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske seguiram com fidelidade algumas das convenções narrativas que fizeram a fama da Disney em suas primeiras décadas como a interação entre humanos e animais, os cenários estatísticos, porém, multicoloridos e minuciosos, e o uso de trilha sonora quase de forma ininterrupta com efeitos ou acordes mais altos em alguns momentos para chamar a atenção de quem assiste para detalhes de cenas, geralmente intervenções humorísticas. O coral utilizado nas canções, pouco inspiradas, pode gerar estranheza por conta da desafinação, mas ao que tudo indica é uma escolha proposital dos diretores enquanto a edição ágil surge como um dos pontos altos oferecendo certa coerência a tantos episódios bizarros. A técnica de animação utilizada obviamente envelheceu bastante e deixou a produção com ares de monótona em certas passagens, mas nada que tire o encanto do visual dos personagens construídos com riqueza de detalhes, como os rechonchudos irmãos gêmeos Tweedle-Dee e Tweedle-Dum, a Lebre Maluca e o próprio Coelho Branco. Destaque para a sequência em que Alice entra no reino das flores. Rosas, orquídeas, margaridas, entre outras espécies, ganham feições humanas, mas sem perder suas características naturais como plantas. Com um cuidado ímpar, outros personagens que aparecem mesmo por poucos segundos também foram merecedores de atenção por parte da equipe de criação, como os sapos instrumentos, o cavalo vassoura e o cãozinho faxineiro. É uma pena que criações tão interessantes visualmente não ganhem o mesmo tratamento narrativo, não são aprofundadas. As exceções ficam por conta do Chapeleiro Louco, que de maluco não tem nada e se faz de sonso para se divertir às custas dos outros, a Rainha de Copas, uma líder orgulhosa e com ares de ditadora embora seu visual nos remeta ao de uma bonachona, e o Gato Risonho, uma espécie de conselheiro traquinas, um amigo que ajuda Alice nos momentos difíceis, mas lhe direcionando por caminhos torpes ou enigmáticos. Dentro de um universo onde absolutamente tudo pode acontecer, a sequência mais bem estruturada, com começo, meio e fim, acaba sendo o conto das ostras curiosas que não obedecem a mãe e caem na lábia de dois vigaristas, sendo que um deles não se furta a trapacear o parceiro. Contada para Alice ainda no início de sua visita pelo estranho reino, ela não captou a moral da história e se deixou levar por sua bisbilhotice.

O longa deveria ter sido produzido em meados da década de 1930 e a ideia inicial era realizar um filme com atores reais interagindo com figuras animadas, estilo já testado antes com Alô, Amigos! e A Canção do Sul. Em 1924, a Disney já havia feito uma série que misturava animação e live-action baseada na mesma obra intitulada "Alice Comedies". Por conta da Segunda Guerra o estúdio estava dando preferência a curtas-metragens para economizar, assim compilações de desenhos eram lançados em circuito comercial, mas fracassavam já que a época não inspirava momentos de diversão e o público praticamente vivia recluso com medo. Somente a partir de 1946, quando o conflito já havia terminado, é que a história de Alice começou a ganhar corpo já definido que seria uma animação, a melhor forma de aproveitar as diversas possibilidades do livro de Carroll. Hoje considerado um clássico, na época do lançamento não fez o sucesso esperado, não só por seu estilo diferenciado, mas também colaborou a intensa campanha negativa feita pela imprensa que destacava as liberdades tomadas para adaptar a história ao público infantil. O tempo é o senhor da razão como diz o ditado. Hoje a obra é considerada à frente do seu tempo e são reconhecidos os esforços  para manter ao máximo o espírito da obra original, com sequencias que apenas seguem a fértil imaginação da protagonista sem obrigações com qualquer tipo de lógica. Tal fato pode ser interpretado como uma alusão ao ritual de passagem da infância para a adolescência, o que explicaria, por exemplo, suas constantes mudanças de tamanho, seja comendo biscoitos ou cogumelos, e seu temperamento oscilante, ora doce e ingênua como uma criança e ora explosiva e agressiva como uma jovem rebelde. Contudo, como já dito, a obra permite inúmeras interpretações por conta do enredo onírico e subjetivo. Economizando nas cenas engraçadas e investindo em um tom soturno em algumas partes, Alice no País das Maravilhas pode não entreter completamente as crianças pequenas, mas para os adultos revela-se uma interessante viagem surreal que por trás de todo seu colorido e fantasia deixa muitas indagações e reflexões no ar.

Animação - 75 min - 1951

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