domingo, 19 de maio de 2019

A LEOA

Nota 8,5 Doença rara é abordada com maturidade, sensibilidade e dramaticidade no ponto ideal

Assim como a produção de muitos países chega na base do conta-gotas ao Brasil, o cinema norueguês também raramente tem a oportunidade. Nesse ponto, os serviços de streaming são positivos oferecendo uma grande vitrine a títulos pouco divulgados que podem vir a ser conhecidos não apenas por um público mais seleto, mas também por populares que tem total condição de compreenderem seus conteúdos como é o caso de A Leoa cujo mote principal é o preconceito. Em meados de 1910, Eva (Mathilde Thomine Storm) nasceu com um problema genético raro que aumenta excessivamente a quantidade de pêlos por todo o corpo, a então pouco conhecida hipertricose. Desde os primeiros minutos de vida sofreu com a rejeição do próprio pai, Gustav (Rolf Lassgärd), além de ter perdido a mãe durante o parto. Crescendo praticamente fechada em casa, não podia sequer se aproximar das janelas, e cheia de sonhos a serem realizados como o direito a estudar, a menina ainda criança procurou enfrentar o preconceito de seu pequeno vilarejo, mas talvez não imaginasse o tanto de dificuldades que enfrentaria. A única pessoa com quem a pequena podia contar é com sua ama de leite Hannah (Kjersti Tveteräs), depois também sua tutora, que nunca demonstrou estranheza por sua aparência, sempre fora muita amável e a protegia quando julgava que seu pai passava dos limites da super proteção, embora sempre fosse com as melhores intenções e também para ele próprio não sofrer humilhações. Criando um mundo próprio enclausurada, Eva acaba por desenvolver uma inteligência acima da média, principalmente quanto a cálculos matemáticos com o que viria a trabalhar no futuro, porém, na adolescência vivenciou momentos libertadores ao ingressar em um grupo circense composto por outras pessoas portadoras de anomalias, mas nem por isso incapazes ou desprovidas de algum dom em especial. Nesta fase de sua vida ela também experimenta pela primeira vez a atenção sincera de seu pai que a leva para uma viagem à Copenhagen onde ocorreria uma conferência entre cientistas para debater moléstias de pele.

sábado, 18 de maio de 2019

CRIATURAS (1986)

Nota 6,5 Longa já nasceu envelhecido, mas assume com orgulho e bom humor sua vocação trash

A hora do... espanto, calafrio, pesadelo, lobisomem, mortos-vivos e por aí vai. Na década de 1980 era comum no Brasil o batismo de fitas de terror e ficção científica com tal início, uma forma de pegar carona no sucesso alheio ou de turbinar produções capengas. Nessa toada chegou aos cinemas o longa A Hora das Criaturas, como também foi comercializado nos tempos do VHS e ainda é batizado em raras apresentações na TV fechada. Todavia, seu nome original e também comercializado em DVD é Criaturas, denominação mais eficiente visto que é o primeiro de uma franquia que rendeu outros três filmes que apenas acrescentavam o numeral correspondente ao título minimalista. E ainda bem que parou no quarto capítulo, afinal o primeiro já espremia leite de pedra, mas mesmo assim tornou-se uma pérola trash e um marco nostálgico no gênero horror. A trama começa quando pequenos seres extraterrestres estão prestes a serem levados a uma prisão espacial para serem aniquilados, mas conseguem roubar uma nave e vão parar obviamente na Terra, onde mais? Os Critters são criaturas peludinhas, dotados de dentes pontiagudos e olhos vermelhos, soltam espinhos pelas costas, se movimentam rolando como bolas e se comunicam por meio de uma linguagem específica. Eles aterrissam em uma pequena cidade rural dos EUA próximo à fazenda de Jay Brown (Billy Green Bush), que até então levava uma vida tranquila ao lado da esposa Helen (Dee Wallace), da filha adolescente April (Nadine Van der Velde) e do arteiro caçula Brad (Scott Grimes), um experiente criador de bombinhas (característica que terá importância no decorrer do filme). Rapidamente os pequenos alienígenas invadem a propriedade dessa família e fazem sua primeira vítima devorando Steve (Billy Zane, em início de carreira), o namoradinho de April bem na hora que tentava ter sua primeira vez com a mocinha. Inevitável a piada: pensou que ia se dar bem comendo a gatinha e acabou literalmente comido! Os pestinhas ainda devoram as fiações da casa, assim cortando a luz e a linha do telefone e deixando os Brown isolados, contudo, Brad consegue fugir e passa a observar o comportamento dos Critters que tem um apetite descomunal e em compasso com seus crescimentos acelerados.

domingo, 12 de maio de 2019

PEQUENO DEMÔNIO

Nota 7,0 Parodiando o clássico A Profecia, longa faz humor com maturidade e sem escrachos

A Netflix não quer ser apenas a maior exibidora de filmes via streaming. Também quer ser reconhecida como uma grande produtora de conteúdo audiovisual e desde que causou frisson com Beasts of no Nation, que curiosamente não teve seu título traduzido para o português, a empresa entrou de cabeça na indústria cinematográfica e já conta com um respeitável catálogo. Bem, pelo menos em termos de quantidade. Há quem diga que a produtora investe em roteiros que parecem ter sido rejeitados para cinema e até mesmo como telefilmes. Como em qualquer outra companhia do ramo, existem bastante títulos esquecíveis, mas garimpando podem se achar boas surpresas como a comédia Pequeno Demônio que bebe diretamente na fonte do clássico A Profecia (o original dirigido por Edgar Wright). O boa-praça corretor de imóveis Gary (Adam Scott) casou-se recentemente com Samantha (Evangeline Lilly) e na bagagem da esposa veio a tira-colo o filho dela, o pequeno Lucas (Owen Douglas). Por mais que se esforce o padrasto não consegue se aproximar do enteado que vive imerso na solidão, mas não demora muito a perceber que o melhor a fazer é manter distância do menino. Coisas estranhas começam a acontecer, se já não fosse bastante suspeito o moleque ter como brinquedo preferido um fantoche na forma de um bode chifrudo, e o rapaz passa a suspeitar que o garoto está envolto a algum segredo sombrio e há quem o queira convencer que se trata do anticristo em carne e osso. Com a ajuda da masculinizada colega de trabalho Al (Bridget Everett), Gary começa a investigar mais a fundo a história de Lucas desde o seu nascimento. É aí que as peças se encaixam e o corretor descobre o porquê de nos tempos do namoro a companheira ter evitado ao máximo o contato entre os dois homens de sua vida. Ajudando a amarrar a trama, várias referências a outros títulos de horror podem aguçar a curiosidade dos espectadores e deixar o programa mais divertido, como a aparição de sinistras gêmeas evocando O Iluminado e a televisão fora do ar que ecoa vozes em lembrança à Poltergeist. Em homenagem menos explícita, até It - A Coisa é citado em uma hilária sequência durante uma festa de aniversário.

sábado, 11 de maio de 2019

RISCO DUPLO

Nota 5,0 Digna de telefilme, trama bem amarradinha e ágil escamoteia previsibilidade e furos

Tem filmes que são bem fraquinhos, esquecíveis rapidamente, mas é intrigante como durante suas exibições conseguem prender a atenção e por alguns instantes até serem considerados boas produções. No auge das videolocadoras, muitas fitas de baixo orçamento ou de argumentos capengas ganharam notoriedade e o gênero suspense policial é um dos que mais se beneficiou nesta fase. Se não fosse encabeçado por um astro já de décadas e uma estrela em ascensão certamente Risco Duplo não chegaria a ser exibido nos cinemas e aportaria diretamente nas prateleiras dos videoclubes. O roteiro de David Weisberg e Douglas Cook é extremamente genérico, mas nem por isso deixa de ser razoavelmente interessante. Libby Parsons (Ashley Judd) estava muito feliz com a viagem de veleiro que faria com seu marido Nick (Bruce Greenwood), mas nem podia imaginar que o passeio se tornaria seu pior pesadelo e mudaria irremediavelmente seu futuro. Após alguns drinks e uma intensa noite de amor, a moça desperta sem o companheiro ao lado e com o corpo todo ensanguentado e à procura desesperada por ele acaba encontrando a arma do crime, uma faca de cozinha. Com o artefato em mãos, ela é surpreendida por um barco da guarda costeira acionado pela própria vítima dizendo que havia sido violentamente atacado. Beneficiária de uma polpuda apólice de seguro, inevitavelmente ela é acusada por assassinar o marido cujo corpo nunca foi encontrado. Condenada à alguns angustiantes anos de prisão, Libby decide entregar seu filho pequeno aos cuidados de Angie (Annabeth Gish), sua melhor amiga, a fim de evitar que a criança fique sob a tutela do Estado, mas estranha quando após as primeiras semanas de encarceramento o garoto deixa de visitá-la. Depois de muita insistência ela consegue localizar a amiga e fazer uma ligação, é quando descobre que Nick armou sua morte fictícia para roubar o dinheiro do seguro e que está vivendo muito bem ao lado do filho e da amante, cujo nome revelado não deixa ninguém boquiaberto.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

A NOIVA (2017)

NOTA 5,0

Apesar da expectativa gerada
por ser russo, terror decepciona
ao copiar estilo hollywoodiano,
dos chavões aos deslizes
É sabido que Hollywood produz muitos filmes de terror e mesmo requentando ideias ainda mantém aquecida a indústria do cinema americano. Países orientais tiveram sua fase de evidência com o gênero enquanto da Espanha vez ou outra pipocam algumas produções de arrepiar que carimbam o passaporte de diretores e roteiristas para trabalharem nos EUA. Contudo, nos últimos anos, verifica-se que outros países sem tradição com fitas de horror estão buscando explorar tal território, ainda que de forma tímida. Só pelo fato de ser oriundo da Rússia, o longa A Noiva já aguça a curiosidade, porém, justamente por criar expectativas acaba decepcionando. Escrito e dirigido por Svyatoslav Podgaevskiy, o filme usa como argumento uma antiga lenda local a respeito de que os mortos podem sobreviver através das fotografias que tem o poder de aprisionarem suas almas e assim mantê-las no mundo dos vivos. Para explanar rapidamente tal tradição, a introdução se passa em meados do século 19 quando, inconformado com a perda da pretendente às vésperas do casamento, o noivo (Igor Khripunov) decide fotografá-la com uma maquiagem sobre as pálpebras fechadas dando o efeito de olhos esbugalhados. Porém, ele vai além e tenta transferir a alma da falecida para o corpo de uma virgem sacrificada em um ritual, mesmo que o resultado não a traga de volta à vida por completo. Ele poderia ter o espírito da amada novamente, mas jamais o seu corpo. De início arrepiante, ficasse a trama ambientada neste período o longa certamente seria bem mais interessante, porém, há um salto no tempo de dois séculos para acompanharmos a história de Nastya (Victoria Agalakoya), uma jovem que está prestes a realizar seu sonho de se casar com Vanya (Vyacheslav Chepurchenko), aquele que acredita ser o homem da sua vida. Contudo, somente após a cerimônia civil é que ela vem a finalmente conhecer a família do rapaz em uma viagem até o vilarejo onde ele viveu. Ela é recebida de forma muito amistosa por todos da casa (obviamente isolada), principalmente por Liza (Aleksandra Rebenok), sua cunhada, mas aos poucos vai percebendo que a velha residência esconde obscuros segredos.

domingo, 28 de abril de 2019

PORQUE CHORAM OS HOMENS

Nota 6,5 Apresentando mais um recorte a respeito da Segunda Guerra, longa peca pela lentidão

O nome Johnny Depp liderando um elenco geralmente garante ao filme certa visibilidade, mas o drama Porque Choram os Homens não se beneficiou de sua fama, talvez porque sua alcunha geralmente esteja ligada a produções extravagantes e o próprio costume encarnar personagens bizarros. Aqui ele aparece de cara limpa, o que já não chama muito a atenção, mas também acaba ofuscado já que não é o protagonista. A estrela da fita é a talentosa Christina Ricci, com quem o ator já havia feito par no terror A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça um ano antes. As funções se inverteram e dessa vez ela tem o papel principal, mas infelizmente em um filme bonito visualmente, mas de narrativa lenta que injustamente não agradou nem mesmo a crítica. A história começa na Rússia em 1926, quando o pai da pequena Fegele (Ricci) vai para os EUA, então conhecido como América, em busca de trabalho e enriquecimento. Algumas noites após ficar aos cuidados da avó, a garotinha descobre a respeito de um ataque em solo americano em que todas as casas de um vilarejo foram incendiadas. Órfã de mãe e agora também de pai, a judiazinha é enviada com alguns poucos trocados junto a um grupo de camponeses que pretendiam entrar de forma ilegal na América, contudo, sem saber falar uma palavra sequer em inglês, ela acaba desembarcando na Inglaterra onde recebe o nome de Suzie por uma família adotiva. Aos poucos ela vai descobrindo seu talento para cantar e na juventude já esquecera seu idioma natal. Buscando desenvolver seu dom, ela se muda para Paris, entra para uma companhia de dança e conhece a desinibida Lola (Cate Blanchett), uma mulher mais velha e experiente que deseja subir na vida custe o que custar, de preferência com o apoio de um marido rico. A vida das amigas muda radicalmente quando a oportunista começa a ter um caso com Dante (John Turturro), um arrogante e famoso cantor de ópera italiano, enquanto Suzie se aproxima de César (Depp), um cigano que conhece durante uma de suas apresentações. Com a invasão da Alemanha à Polônia, inicia-se a Segunda Guerra Mundial, conflito que irá interferir diretamente na vida destas quatro pessoas.

sábado, 27 de abril de 2019

O QUARTO DOS ESQUECIDOS

Nota 2,0 Desperdiçando gancho histórico, suspense segue lugar comum e preso a clichês insossos 

Um dos grandes problemas dos filmes de terror e suspense contemporâneos é o fato de suas histórias transcorrerem em universos onde o medo não existe. Com exceção a algumas experiências de diretores europeus, principalmente espanhóis, casas assombradas por eventos macabros do passado não assustam mais. O piso de madeira que range, as portas e janelas que abrem e fecham sozinhas e a penumbra que costuma pairar dentro e fora de construções antigas já não causam sustos há um bom tempo e são passíveis de causar risos fáceis. Por investir em truques manjados como esse, O Quarto dos Esquecidos é de fato esquecível, completamente. Por conta de problemas financeiros da empresa produtora, o longa ficou no limbo por dois anos até que recebeu sinal verde para ser lançado, mas já com expectativas nulas e fazendo jus ao seu título original, algo como "O Quarto das Decepções". Como de costume em longas do tipo, os protagonistas decidem se mudar para uma casa isolada em busca de sossego afim de se recuperarem de uma fase conturbada. Dana (Kate Beckinsale) e o marido David (Mel Raido) chegam ao casarão cheios de expectativas positivas para superarem o trauma da morte acidental da filha recém-nascida. O casal tem um outro rebento, o pequeno Lucas (Duncan Joiner), o que contradiz a aquisição de uma mansão para apenas três moradores, ainda mais um local em ruínas. A justificativa é que a moça é arquiteta e pretende ocupar sua mente e tempo livre conduzindo a reforma, contudo, seus planos acabam sendo atrapalhados conforme passa a ser atormentada por bizarras visões, principalmente após descobrir um quarto escondido que não consta na planta da construção. Obviamente sua sanidade é colocada em xeque e ao espectador resta apenas esperar por sustos previsíveis e pela revelação sobre o misterioso passado da casa que, diga-se de passagem, não vai fazer ninguém ficar sem fôlego.

domingo, 14 de abril de 2019

TODOS OS CÃES MERECEM O CÉU

Nota 3,0 Abordando o mundo dos gângsteres, longa não dialoga com crianças e nem com adultos

Na Irlanda, ou melhor, na New Orleans da agitada e revolucionária década de 1930, o submundo do crime está efervescente. Um gângster todo poderoso que chefia uma casa de jogos clandestina na cidade quer se livrar a todo custo de seu terrível ex-sócio. Para isso lhe prepara um ajuste final: remete o rival para as portas do céu. O argumento aponta para um filme sério e violento, digno de uma produção estilo noir, isso se os personagens não fossem cãezinhos coloridos e falantes. Todos os Cães Merecem o Céu parte de uma premissa ousada, transpondo um universo adulto e cinzento tentando buscar a sintonia com o público infantil através de uma paleta de cores fortes e vívidas e de animaizinhos simpático. O roteiro de Mitchel Savage nos apresenta ao pastor alemão Charlie Barkin que acaba sendo traído e assassinado pelo inescrupuloso bulldog Cicatriz, até então seu sócio em negócios ilegais. Quando chega ao céu seu espírito consegue tomar posse do relógio da vida, um artefato mágico que lhe dá o direito de voltar ao mundo dos vivos e assim ter a chance de se vingar. Nesse retorno ele acaba descobrindo a arma secreta para o enriquecimento ilícito e contínuo de seu algoz. O bandidão mantém em cativeiro a graciosa orfãzinha Ana Maria que tem a habilidade e a sensibilidade para conversar com os animais, assim Cicatriz consegue saber antecipadamente os vencedores dos páreos de corridas de cavalos, ratos e até de tartarugas. Inicialmente o malandro Charlie também pretendia tirar proveito de alguma forma do dom especial da garotinha, mas acaba se afeiçoando a ela e decidindo protegê-la. E assim os dois, com  a ajuda do bassê Sarnento, procuram uma maneira de dar uma merecida lição em cicatriz e acabar com seu império de crimes.

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...