domingo, 16 de setembro de 2018

MÚSICA DO CORAÇÃO

Nota 7,5 Drama com temática batida se sustenta graças ao carisma e talento de Meryl Streep

Wes Craven gravou seu nome na História do cinema com filmes de terror que enraizaram na cultura pop mundial, como A Hora do Pesadelo e Pânico, mas o diretor, roteirista e produtor também tinha seu lado mais sensível como prova o edificante Música do Coração. O longa poderia ser apenas mais um título a explorar a desgastada relação de um educador bem intencionado com um grupo de alunos desestimulados, mas com Meryl Streep no papel principal a fita escapou do limbo e como de costume seu perfeccionismo na composição do papel a levou a concorrer ao Oscar. Na época esta era a sua 12ª indicação ao prêmio e então igualava ao recorde de nomeações alcançada pela saudosa Katherine Hepburn. Baseado em fatos reais, a atriz interpreta Roberta Guaspari, uma mulher que precisava dar novos rumos a sua vida após o baque de ser abandonada pelo marido e com dois filhos para criar e decide fazer uso de seu talento para a música, mais especificamente com o violino. Ela então encontra dificuldades para conseguir uma vaga em alguma escola devido aos cortes de custos com atividades extracurriculares, principalmente as ligadas as artes e cultura, mas acaba sendo aceita em uma instituição pública no subúrbio de Nova York após insistir muito com Janet Williams (Angela Bassett), uma reticente coordenadora do colégio. Munida de cinquenta violinos, um investimento por sua conta e risco, Roberta começa a dar as suas aulas a um grupo de crianças pouco interessadas em arte, mas surpreendendo a todos com sua força de vontade ela alcança seu objetivo e seu programa de música consegue sobreviver por uma década até que um corte de verbas ameaça seu sonho. E o roteiro de Pamela Gray se resume a isso, mas um grande acerto é não ter enveredado pelo caminho lacrimoso e dramático ao extremo. A situação dos alunos de Roberta, e porque não dizer a sua própria vida, já são bastante delicadas, não havia porque forçar a barra para o chororô. Até a trilha sonora dispensa tal viés, deixando espaço apenas aos acordes dos violinos se destacarem em momentos oportunos.

sábado, 15 de setembro de 2018

A MORTE TE DÁ PARABÉNS

Nota 3,0 Investindo mais no humor que no horror, bom argumento é desperdiçado 

No final da década de 1990 houve uma explosão de fitas de assassinos mascarados voltadas aos adolescentes. Tudo bem, na época produtores queriam tirar leite de pedra do fenômeno Pânico, mas é preciso ter consciência que uma hora a fonte seca. É claro que hoje em dia ainda existe público para fitas do tipo, ainda que em pequeno número, mas é preciso ter grana sobrando no banco para investir em produções que já nascem fadadas ao fracasso. A Morte Te Dá Parabéns não tinha como fazer sucesso. É uma reunião de clichês que buscou algum diferencial com viagens no tempo, mais especificamente uma jovem condenada a reviver inúmeras vezes o dia de sua morte. Bem, novidade aí não há nenhuma. Um personagem preso a um mesmo período e tendo a chance de contornar erros e fazer as coisas reverterem a seu favor já foi a temática da comédia Feitiço do Tempo, da fita de ação Contra o Tempo e do drama de guerra No Limite do Amanhã, por exemplo. A possibilidade de poder escapar da morte driblando as armadilhas de um serial killer se encaixa perfeitamente a proposta da volta no tempo, mas é preciso ter traquejo para lidar com a fórmula, algo que falta ao diretor Christopher Landon, de Como Sobreviver a Um Ataque de Zumbi. A trama tem como protagonista Tree (Jessica Rothe), uma universitária egocêntrica, falsa, displicente com a família e que adora usar os homens e descartar, ou seja, uma figura desprezível. A ideia é justamente causar repulsa no espectador para pouco a pouco ele se envolver com a jornada de redenção da jovem. A intenção pelo menos era das melhores, mas o plano posto em prática... No fim do dia de seu aniversário ela é assassinada por alguém que se esconde por uma ridícula máscara de bebê gorducho, todavia, acorda como se nada tivesse acontecido, mas logo percebe que as situações do fatídico dia se repetem continuamente. Essa é a chance, ou melhor, as diversas chances de tentar escapar da morte e descobrir a identidade do bandido revivendo de forma diferente todos os acontecimentos que podem ter contribuído para seu assassinato.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

UM MOMENTO PODE MUDAR TUDO

NOTA 6,0

Longa aposta na velha fórmula
dos opostos que se atraem, no caso
uma amizade improvável, para
abordar doença degenerativa
A discussão sobre a esclerose lateral amiotrófica (ELA), problema que faz com que o portador perca o controle sobre seus músculos, é o tema do drama Um Momento Pode Mudar Tudo, que traz como protagonista a oscarizada Hilary Swank em um papel difícil. Após várias tentativas frustradas em emplacar em blockbusters e comédias românticas, a atriz aqui volta ao cinema mais introspectivo e reflexivo na pele de Kate, uma designer e pianista clássica que foi surpreendida com o diagnóstico da doença degenerativa que a fez perder os movimentos das mãos e das pernas. Logo que os primeiros sintomas se manifestaram ela já percebeu que sua relação com o marido Evan (Josh Duhamel) nunca mais seria a mesma coisa. Acostumados a frequentar festas e reuniões na casa de badalados amigos, pouco a pouco os convites cessam por conta das dificuldades para a moça se locomover e, obviamente, também por preconceito. Ao mesmo tempo, a intimidade do casal também vai minando já que um simples toque pode machucá-la. Necessitando de cuidados especiais diários, Kate decide contratar uma cuidadora, mesmo com o marido sendo contra a ideia, porém, uma garota um tanto improvável para a tarefa. Bec (Emmy Rossum) não tem talento para exercer tal função, sua experiência se resume a um trabalho voluntário em um asilo, e tampouco equilíbrio para controlar sua própria vida cheia de excessos. Todavia, uma amizade inusitada surge entre elas, o que ajuda a enferma não só a superar os obstáculos impostos por sua condição, mas também a enfrentar a crise em seu casamento. Tudo que Kate precisava era de alguém que a ouvisse, compreendesse e não a tratasse como um estorvo com prazo de validade a vencer.  O roteiro dedica-se a construção da amizade entre essas duas mulheres tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão necessárias uma a outra. Enquanto uma é retraída, introvertida e organizada, a outra é bagunceira, desbocada e liberal. O convívio e a troca de experiências diárias trará o equilíbrio para ambas.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

K-19 - THE WIDOWMAKER

NOTA 6,0

Retratando episódio propositalmente
esquecido da Guerra Fria, longa peca
por sua duração excessiva, não se definir
por um gênero e se repetir diversas vezes
A Guerra Fria, tal qual a Segunda Guerra Mundial, já serviu e continuará servindo como cenário de inúmeros filmes, seja pelo enfoque da espionagem ou nas corridas armamentistas e especiais dos EUA e da antiga União Soviética. A diretora Kathryn Bigelow, anos antes de consagrar-se a primeira mulher a vencer o Oscar de direção por Guerra ao Terror, já demonstrava apreço por histórias densas e de conflitos políticos como revela K-19 - The Widowmaker, baseado em fatos reais narrados pelos sobreviventes do submarino homônimo ao filme. Suas versões do episódio só vieram à tona após o fim da URSS, visto que antes disso foram obrigados a selar um pacto de silêncio sobre o ocorrido para não mancharem o nome de uma nação. Sem rodeios, logo na sequência inicial somos apresentados ao K-19, o primeiro submarino nuclear soviético que seria enviado até as geleiras do Pacífico Norte pata testes com mísseis. Estamos em 1961 e os comunistas competem com os norte-americanos pela supremacia bélica mundial. Mikhail Polenin (Liam Neeson), o capitão da embarcação, era contra lançá-lo ao mar, afinal ainda faltavam reparos para garantir a segurança do submergível, mas seus apelos não foram considerados. Após a falha ser constatada em um primeiro teste, o posto de comando é passado para Alexei Vostrikov (Harrison Ford), que fica encarregado da primeira missão do K-19 que seria lançar um míssil-teste em região de alcance a Nova York e Washington de forma que a máquina de guerra funcionasse como um elemento dissuasivo impedindo um possível ataque americano aos soviéticos. Contudo, as coisas se complicam quando o veículo começa a apresentar consecutivos problemas colocando em risco a vida de toda a tripulação. Logo no momento do embarque, um médico que acompanharia o trajeto morre atropelado e é prontamente substituído por um senhor com inclinação a enjôos. Sinal de alerta aceso. A tripulação empreende uma desesperada corrida contra o tempo não somente para salvar suas próprias vidas como também para evitar o início de uma Terceira Guerra Mundial. Em pleno auge da Guerra Fria, um acidente nuclear poderia ser interpretado como uma agressão militar.

terça-feira, 31 de julho de 2018

FALA SÉRIO, MÃE!

NOTA 6,0

Comédia aposta no choque entre
gerações, mas faz humor apenas com
situações triviais e não se aprofunda
na parte dramática do conflito
Enquanto Paulo Gustavo e Leandro Hassum mantém uma disputa acirrada pelo posto de grande nome masculino do cinema de humor nacional, correndo por fora ainda Bruno Mazzeo e Marcelo Adnet para tal posto, do lado feminino Ingrid Guimarães reina absoluta desde que lançou De Pernas Pro Ar, produção despretensiosa que termina como uma trilogia de sucesso. Embora com poucos filmes no currículo, a atriz tem o aval de seu público televisivo que se acostumou principalmente com seus trejeitos e sua maneira ágil de contar piadas. Contudo, em Fala Sério, Mãe! ela parece mais comedida e obrigada a dividir o protagonismo. Sua personagem começa narrando o longa, mas antes mesmo de meia hora de projeção a própria entrega que chegou o momento de outra pessoa continuar a história a seu modo. Então a bola é passada para a estrelinha teen Larissa Manuela, já a alguns anos um rosto representativo do SBT, mas que aqui viu a chance de se aproximar do universo da Globo, canal que fatalmente mais cedo ou mais tarde irá pertencer. O filme é um tanto clichê explorando os conflitos entre gerações a partir de situações cotidianas e banais. Adaptada do livro homônimo de Thalita Rebouças (um nome de sucesso considerável no cambaleante mercado editorial brasileiro), a trama começa nos apresentando Ângela Cristina (Ingrid) que pouco depois de se casar descobre estar grávida e como toda mamãe de primeira viagem está cheia de dúvidas e expectativas. Os primeiros minutos são dedicados a apresentar os tropeços dela e do marido Armando (Marcelo Laham) nos cuidados com uma criança, como as noites em claro quando tinham ainda uma bebezinha e tentar solucionar pacificamente pequenos conflitos quando a menina passa a ter vida social mais intensa, mas eles gostaram tanto de ser pais que não demorou muito e já tinham em casa três crianças. O ideal seria que o roteiro se preocupasse em mostrar as dificuldades do casal para lidar com as peculiaridades de cada filho ao mesmo tempo em que percebiam que a relação íntima deles dava sinais claros de fragilidade, um argumento bem mais consistente. Contudo, tal linha poderia fugir das verdadeiras intenções: um programa família com apelo juvenil.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

A OUTRA (2008)

NOTA 7,0

Longa aborda a história de
Maria, irmã mais nova da polêmica
Ana Bolena, mas se preocupa mais
com a estética do que com o enredo
A história de Anne Boleyn (que viveu entre 1500 e 1536), ou mais popularmente conhecida como Ana Bolena, é bastante curiosa e já foi levada para as telas do cinema e da televisão algumas vezes. A Outra tenta ser a versão definitiva de sua trajetória apoiando-se em uma requintada produção e, principalmente, no talento e força da interpretação de Natalie Portman que mescla falsidade, luxúria, persuasão e perversidade para compor o perfil da polêmica inglesa. Contudo, como o título deixa claro, o longa destaca também os acontecimentos envolvendo a irmã caçula da jovem, a imaculada Maria, vivida contidamente por uma Scarlett Johansson atípica. A moça é uma figura praticamente ignorada nos livros de História, mas também marcante na trajetória da corte do rei Henrique VIII, interpretado por Eric Bana. Tendo como base o livro "A Irmã de Ana Bolena", de Philippa Gregory, o roteiro de Peter Morgan condensa vários anos das vidas destes personagens em aproximadamente duas horas de narrativa, assim não há espaço para trabalhar os perfis de forma multifacetadas. A inescrupulosa é assim até o fim, a bondosa é capaz de sucumbir a traições e humilhações sem reivindicações e o homem disputado pelas irmãs é um otário que não sabe o que quer da vida. Henrique Tudor tinha o poder de mandar e desmandar na vida de todos, inclusive no que dizia a respeito de suas intimidades, mas haviam coisas que não poderia interferir. Ele vivia um casamento infeliz com Catarina de Aragão (Ana Torrent), da Espanha, tudo porque ela não lhe deu o tão esperado filho homem que daria continuidade a sua linhagem e assumiria o trono. O rei então passa a procurar nas redondezas alguma jovem que pudesse realizar seu sonho... Ou seria obrigação?

terça-feira, 19 de junho de 2018

DIVINOS SEGREDOS

NOTA 5,0

Apesar do elenco estelar, mescla
de drama e comédia derrapa
por trama extremamente feminina
e arrastada por flashbacks
Filmes estrelados por Sandra Bullock estão para as mulheres tal qual as ações do brucutu Vin Diesel estão para os homens, mas nem sempre seu nome encabeçando o elenco garante o sucesso. Ao menos não no Brasil. O drama com pitadas de humor Divinos Segredos passou em brancas nuvens por aqui, mas nos EUA foi um sucesso surpreendente. Em Hollywood é comum atrizes de meia idade e veteranas reclamarem da carência de bons papeis, mas aqui um seleto grupo feminino encontrou uma chance de ouro. Só faltou que a história equilibrasse melhor a dose de estrogênio. É simplesmente um filme feito por e para mulheres que não dá brechas para a plateia masculina, a não ser os homens mais sensíveis (homo ou héteros, tanto faz). Callie Khori, vencedora do Oscar pelo roteiro do longa símbolo do feminismo Thelma e Louise, então fazia sua estreia como diretora após um longo hiato na carreira, quando roteirizou apenas a comédia romântica O Poder do Amor protagonizada por Julia Roberts. Dá para perceber que ela sabe bem como agradar seu público-alvo e no filme em questão caprichou no elenco, mas talvez devesse também ter assumido as rédeas do texto. Roteirizado por Mark Andrews, baseado no romance homônimo de Rebecca Wells, o filme começa apresentando um grupo de amigas que na adolescência formaram uma irmandade e se autointitularam como as Irmãs Ya-Ya. Ao longo dos anos elas estabeleceram regras de convivência e mantiveram a amizade por toda a vida. Isso até que a relação ficou estremecida quando uma delas não gostou nada de ver as companheiras se metendo em um problema pessoal. Siddalee Walker (Bullock), ou simplesmente Sidda, há muitos anos se mudou com a cara e a coragem para Nova York a fim de tentar a carreira como dramaturga, mas o principal motivo era deixar a casa de Vivi (Elle Burstyn), sua instável mãe. Tudo corria bem até que certa vez a moça concede uma entrevista a uma famosa revista e acaba tendo suas palavras deturpadas pela jornalista, assim quando comenta sua relação com a mãe dá a entender que teve uma infância e juventude infeliz. Um balde de água fria cai em cima da matriarca ao ler a matéria e se elas já não tinham muito contato antes agora o rompimento seria inevitável.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

SRA. HENDERSON APRESENTA

NOTA 8,0

Registrando um período da vida de
importante nome da sociedade britânica,
longa resgata a história de uma espécie de
refúgio da alegria em tempos de guerra
Judi Dench é um tipo específico de atriz. Seu trabalho é reconhecido pela crítica, mas não tem a popularidade de uma Meryl Streep, mesmo tendo participado de vários filmes da série de James Bond, o agente 007. Sua postura austera e predileção por papeis dramáticos e de época também colaboram para criar em torno dele uma aura quase intransponível, por isso no mínimo é curioso vê-la no papel-título de Sra. Henderson Apresenta, uma agradável comédia com fundo dramático. Baseado em fatos reais, a trama enfoca uma época da vida de Laura Henderson, uma das mais destacadas e excêntricas personalidades da sociedade londrina no período que antecedeu a Segunda Guerra graças a sua casa de espetáculos, a Windmill. A  história deste teatro já havia sido contada no longa No Coração de Uma Cidade, datado de 1945 com Rita Hayworth, mas sem tocar no nome da mulher que deu vida ao local, mas omiti-la é praticamente um sacrilégio. Após ficar viúva, aos 69 anos de idade, ela descobre que não resta muita coisa para senhoras sozinhas fazerem, a não ser bordar ou participar como voluntária em instituições de caridade. O único benefício desta condição, nos casos das ricaças, seria poder gastar a vontade sem dar satisfações a ninguém, mas ao contrário de suas amigas que compram joias sem necessidade e praticam caridade para se manterem em evidência, ela quer aproveitar para fazer tudo o que não pôde na juventude e ajudar a sociedade londrina a seu modo. Seu principal projeto é recuperar a tradição do teatro musical que perdeu espaço para o cinema a partir do advento dos recursos sonoros. Assim, quando encontra um grande estabelecimento abandonado em um subúrbio de Londres ela não pensa duas vezes e o compra para transformá-lo em uma casa de espetáculos diferenciada. A ideia era ter diversas apresentações dia e noite, nunca fechar as portas, mas ela se dá conta que não sabe como administrar um negócio do tipo. Para ajudá-la a resgatar o estilo de teatro vaudeville ela então contrata o agente teatral Vivian van Danmm (Bob Hoskins), mas a convivência desde o início é marcada por troca de farpas e guerra de egos. A semana de estreia do primeiro espetáculo do teatro Windmill supera as expectativas, mas logo a viúva passa a perder dinheiro visto que a concorrência passa a copiá-la e a dividir o público com espetáculos também ininterruptos.

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