domingo, 6 de janeiro de 2019

TURMA 94 - O GRANDE ENCONTRO

Nota 5,0 Com humor crítico, argumento sobre aceitação e maturidade cairia melhor a um drama

Ambiente universitário, descolados versus manés, Jack Black no elenco... Tá aí! Eis mais uma comédia escrachada, daquelas que rimos do início ao fim do constrangimento alheio. Quem assistir Turma 94 - O Grande Encontro pensando assim irá se decepcionar. O filme realmente diverte e se apoia em algumas situações vexatórias, mas é uma daquelas produções que tem muito mais conteúdo do que deixa transparecer a embalagem. Fala sério, com um título como o que ganhou no Brasil, de fato, é para espantar qualquer espectador. Escrito e dirigido pela dupla Andrew Mogel e Jarrad Paul, roteiristas de Sim Senhor, a trama tem como protagonista Dan Landsman (Black), um zero à esquerda na época do colégio e que ainda na vida adulta é um frustrado inveterado. Ele não consegue manter contato social com ninguém, a não ser com seus filhos, sua esposa (Katherine Hahn) e seu chefe (Jeffrey Tambor), talvez mais por necessidade do que por prazer. Mesmo não sendo muito popular, ele se impôs a missão de organizar a reunião que marcaria o reencontro dos estudantes após duas décadas. A festa tem tudo para ser um fiasco, a começar porque praticamente nenhum ex-aluno confirmou presença com antecedência e Landsman tem certeza que ele próprio é o problema, todos o detestam. No entanto, ele descobre por acaso que um dos antigos colegas, o popular Oliver Lawless (James Marsden), agora vive em Los Angeles e se tornou um famoso ator. Assim ele decide ir procurar o cara para convencê-lo a participar da festa, assim usando-o como chamariz para bombar o evento, mas é claro que as coisas não saem bem como o esperado. Landsman acaba caindo em um emaranhado de mentiras que ele próprio inventa e sua vida até então pacata muda completamente... E para pior.

sábado, 5 de janeiro de 2019

ENIGMAS DE UM CRIME

Nota 2,5 Apesar da boa premissa, suspense intricado decepciona com trama confusa e devagar

Um serial killer, teoricamente uma pessoa desequilibrada, teria a inteligência de utilizar conceitos matemáticos para arquitetar seus assassinatos? Enigmas de Um Crime, título genérico e desmotivador, tenta convencer o espectador que a resposta é sim, todavia, não chega a atingir plenamente seu objetivo. Baseado no romance de Guillermo Martinez, o roteiro de Jorge Guerricaechevarría e Álex De La Iglesia, este também assinando a direção, é uma reunião mau aproveitada de clichês de ideias já vistas e revistas em diversos outros filmes. A trama aborda temas ligados a religião, números, simbologias e medicina, uma variedade muito grande de assuntos que fatalmente confunde o espectador já fatigado pelo ritmo vagaroso. Uma série de assassinatos estão assombrando a cidade de Oxford e a esperança dos moradores da região está nas mãos de apenas dois homens: Martin (Elijah Wood), um jovem estudante que acaba de chegar à famosa universidade local para fazer sua pós-graduação na expectativa de sorver o máximo de conhecimento do inglês Arthur Seldom (John Hurt), um prestigiado e veterano professor de matemática. Tão logo o rapaz chega e já se vê envolvido em meio a um crime bárbaro ao encontrar o corpo da Sra. Eagleton (Anna Massey), de quem era inquilino, e na cena do crime estranha a presença de um símbolo. Em um curto espaço de tempo outros assassinatos semelhantes ocorrem e ao que tudo indica os crimes estão ligados por códigos, simbologias e equações matemáticas que também podem esconder ligações religiosas. A única coisa que se tem certeza é que o assassino procura saciar sua vontade de matar atacando pessoas que já estiveram à beira da morte, mas que conseguiram uma segunda chance para viver, ainda que breve. Agora o professor e o estudante, cuja relação é cheia de altos e baixos, precisam juntar suas habilidades para desvendar o mistério e montar esse complicado quebra-cabeças e na medida que Martin chega perto da verdade aumenta a sensação de insegurança e incompreensão com o mundo ao seu redor. Pena que Iglesia perca as rédeas ainda antes da metade e se intimide nos momentos de catarse, assim entregando um suspense frio que promete muito e cumpre pouco ou quase nada.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

CONTOS PROIBIDOS MARQUÊS DE SADE

NOTA 9,0

Enfocando os últimos anos de vida
do autor que deu origem a palavra
sadismo, longa é ágil e interessante,
 mas fica a dever em 
perversão
Não se engane pelo título. Pomposo e ao mesmo tempo lascivo, Contos Proibidos do Marquês de Sade tem todos os elementos de um grande filme de época, mas não apresenta conteúdo libidinoso gratuitamente. Quem espera muita nudez e tórridas cenas de atos sexuais se decepciona com certeza. A pornografia surge em forma de prosas e versos de autoria do famoso escritor, mas no fundo o longa deseja discutir obsessões e o deslumbramento que a crueldade desperta no ser humano. Nascido em 1740 e vindo a falecer em 1814, Donatien Alphonse François estudou em um internato jesuíta e teve uma brilhante carreira militar, mas não foram tais predicados que lhe deram fama. Encarnado com perfeição e vigor pelo talentoso Geoffrey Rush, o Marquês de Sade escandalizou a França pós-revolucionária com atitudes infames e seus contos pervertidos repletos de erotismo, violência e até mesmo obscenidades envolvendo religião. Em seu livro "Justine e 120 Dias de Sodoma", por exemplo, não se ateve a apenas falar sobre sexo, mas também agregou ao tema espancamentos, orgias, objetos de masturbação e tortura, líquidos afrodisíacos e tudo o mais que pudesse ser considerado perversão. Visto como uma ameaça à sociedade vitoriana, acabou internado em um sanatório condenado ao confinamento e silêncio pelo resto de sua vida. Na realidade, de natureza violenta, sua vida foi marcada por idas e vindas a prisões e sanatórios. O roteiro de Doug Wright, adaptado de sua própria peça teatral, aborda os últimos anos de vida do escritor em um hospício na cidade Charenton onde encontra certo apoio e até abusa de benevolência do padre Abbé Coulmier (Joaquin Phoenix), que tem fé que o paciente sublimará seus impulsos. Contudo, o interno continuou com sua escrita prolífera graças a ajuda de Madeleine (Kate Winslet), uma camareira da instituição que levava escondidos os manuscritos junto com os lençóis para lavar e os entregava a um editor que publicava os livros clandestinamente causando frisson e escandalizando Paris.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

DE VOLTA PARA CASA (2011)

NOTA 8,0

Intimista e com atenção voltada
ao que acontece a uma pessoa após
um trauma, longa francês recicla
temática do sequestro e foge de clichês
A publicidade do baseado em fatos reais é a arma de muitos cineastas para fazerem com que seus trabalhos sejam vistos, mas há quem prefira a discrição, seja para se preservar de polêmicas ou até mesmo problemas com a justiça. O diretor e roteirista francês Frédéric Videau não deixou claro seus motivos, mas o fato é que logo no início do drama De Volta Para Casa ele faz questão de afirmar que o que veremos a seguir é acerca de um caso puramente ficcional, mas na realidade há muitos elementos na narrativa que lembram ao caso de Natasha Kampusch, uma garota austríaca que foi sequestrada aos dez anos de idade e mantida enclausurada em um porão até completar dezoito anos. O próprio cineasta se esquivou de qualquer culpa afirmando que o episódio lhe serviu apenas como referência, mas enfatizou que esta história é sobre Gaëlle (Agathe Bonitzer), personagem que criou, detentora de seus próprios conflitos, e ponto final. Ao contrário do perfil que imaginamos de uma pessoa que passou pela experiência de crescer longe da família e sob pressão constante, a jovem não é apresentada como uma pobre vítima e sim como uma adolescente rebelde e impulsiva que aprendeu ao longo dos anos a conviver com Vincent (Reda Kateb), seu sequestrador. O longa começa com a jovem já sendo subitamente libertada, mas a narrativa segue entre idas e vindas no tempo oferecendo ao espectador um quebra-cabeças a ser montado, uma fragmentação que faz alusão a confusão mental dela ao ser obrigada a confrontar uma realidade totalmente alheia a que estava acostumada. A trama então segue duas linhas narrativas paralelas e de épocas distintas. O momento atual mostra sua readaptação à sociedade, principalmente a reintegração com sua família, e em flashbacks são revelados detalhes a respeito da complexa relação que mantinha com seu algoz. Por ter feito a passagem de criança para adolescente sem referências de comportamentos de outros de idades semelhantes, Gaëlle também tem um perfil quase bipolar, alternando momentos de extrema infantilidade e outros de maturidade súbita.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

MALDITAS ARANHAS!

NOTA 7,0

Resgatando o espírito dos filmes B,
longa tem raízes no terror, a fobia
por animais repugnantes, mas encontra
o tom no humor despojado e proposital
Sucessos no passado e com público cativo, produções protagonizadas por animais modificados geneticamente e com instinto assassino aflorado nunca deixaram de ser feitas, simplesmente foram acolhidas pelas videolocadoras e canais de TV. Salas de cinema dificilmente abrem espaços para fitas do tipo, mas Malditas Aranhas!, do então estreante diretor neozelandês Ellory Elkayem, conseguiu quebrar essa barreira, ainda que timidamente. Não importa, o pouco espaço que conquistou foi o bastante para ganhar publicidade com matérias em jornais, revistas e sites destacando a importância do resgate dos filmes trash, aquelas produções assumidamente toscas e geralmente ligadas aos gêneros de terror e ficção científica que marcaram a década de 1950. Alguns anos mais tarde, com o surgimento dos videoclubes, o subgênero foi resgatado lançando novas pérolas cujo baixo orçamento não é problema, pelo contrário, geralmente é um fator essencial para tirar uma ideia do papel. O pontapé para esta produção que leva a assinatura da dupla Dean Devlin Roland Emmerich, respectivamente produtor e diretor de filmes como Independence Day e o Godzilla de 1998, que apesar da avalanche de efeitos especiais tem a essência dos filmes B em seus DNA, surgiu quando eles assistiram ao primeiro curta de Elkayem sobre uma aranha que cresce desenfreadamente quando exposta a substâncias tóxicas e aterroriza uma dona de casa. Filmado em preto e branco, sua homenagem ao estilo foi seu cartão de visitas para assumir o comando de uma superprodução em Hollywood. Bem, quase isso. É certo que tinha em mãos uma grana razoável, mas o lance era propositalmente atingir resultados imperfeitos, principalmente quanto ao uso da computação gráfica. Também não havia preocupação em apresentar um roteiro redondinho, tampouco personagens com profundidade. No clima de paródia, a grande questão era recriar a ambientação e as situações tragicômicas que agitavam as antigas matinês. Ponto para Elkayem que divide os créditos do texto com Randy Kornfield e Jesse Alexander.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

NOTA 9,0

Drama mostra lado pouco
esplendoroso da Índia através da
história de rapaz de origem humilde
que literalmente vence na vida
Entra ano e sai ano e muita gente continua com suas simpatias e rituais em busca de ajuda para conseguir uma vida financeira confortável. Bem, já que a maioria tem esse desejo, a dica é fechar o ano assistindo Quem Quer Ser Um Milionário?, elogiada e premiada produção americana que mostrou ao mundo uma Índia realista, pobre, repleta de problemas, mas ainda assim com uma população esperançosa. A sugestão não é só pelo fato de ter dinheiro envolvido na história, mas principalmente pela mensagem de otimismo e reflexiva que o filme nos deixa. A câmera do eclético diretor Danny Boyle apresenta o cotidiano do povão que por coincidência não difere muito da realidade das áreas menos favorecidas brasileiras. Até mais interessante que o próprio filme em si é a sua trajetória desde a concepção até o clímax, a festa do Oscar. Um diretor que já trabalhou com a juventude rebelde, lidou com zumbis, frequentou uma ilha aparentemente deserta e se aventurou pela ficção científica em uma época em que o gênero estava praticamente sepultado, só prova que ele não tem medo de experimentar, testar novos temas e ambientações. Por isso não é para se estranhar a sua audácia de voltar suas atenções para um país pouco conhecido e procurar o que havia de mais comum e pobre por lá. O que é espantoso mesmo é a recepção acalorada do público e crítica americana a uma obra com diversos diálogos em língua estrangeira, o hindu, o idioma oficial da índia, o que exige o uso de legendas, coisa que os ianques detestam. E o fenômeno não foi só por lá. Com uma mensagem universal, o longa fez uma carreira brilhante por onde passou e conquistou quase todos os prêmios disponíveis da temporada. O único senão é que o elenco foi esnobado nessas festas, algo já esperado por serem desconhecidos até então e pela origem indiana (foram selecionados entre os populares e aprenderam a atuar “pegando no batente”). Curiosamente, na própria Índia houve rejeição a este trabalho, muito porque condenaram a opção de explorar o universo de favela, mas se a história exige tal cenário não se pode fazer nada. Se a ambientação causa incômodo por expor mazelas sociais, o cinema nada mais fez que mostrar a realidade. Queixas devem ser direcionadas a governantes e afins para mudar esse quadro. O realismo da obra se deve muito ao auxílio do dramaturgo e cineasta indiano Loveleen Tandan, contratado para ceder uma minuciosa pesquisa sobre seu país, mas cuja importância foi tanta que acabou recebendo o crédito de co-diretor.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

JUNTOS E MISTURADOS

NOTA 5,0

Terceira parceria entre Adam
Sandler e Drew Barrymore mostra
sinais de desgaste da dupla, mas estilo
de humor do ator ainda domina a fita
Adam Sandler e Drew Barrymore trabalharam juntos pela primeira vez em 1998 no pouco lembrado Afinado no Amor, interpretando dois jovens de perfis completamente opostos que se apaixonam à primeira  vista. Com uma premissa batida destas o ostracismo da fita é perfeitamente justificável. Mais sorte a dupla teve no reencontro seis anos mais tarde em Como Se Fosse a Primeira Vez. Com seus nomes já valendo peso de ouro e uma história bem mais elaborada, a do cara que precisa diariamente reconquistar uma garota que sofre de um estranho tipo de amnésia, essa comédia romântica caiu no gosto popular e se tornou campeã de reprises na televisão. A química do casal sem dúvidas é o grande trunfo da fita, não menosprezando o enredo levemente diferenciado. Se o passar de alguns poucos anos os beneficiou em termos de amadurecimento, tanto pessoal quanto profissional, que tal mais um reencontro, agora uma década depois? Sandler certamente deve ter pensado nisso quando convidou a atriz para dividir as atenções em Juntos e Misturados, mas o resultado não mostra avanços e sim retrocessos para seus currículos. A história começa com o primeiro encontro a sós de Jim (Sandler) e Lauren (Barrymore), mas o jantar mais parece uma aula prática de como fugir de um relacionamento. Da escolha do local, um restaurante famoso por suas garçonetes gostosonas vestindo roupas insinuantes, passando pela atenção especial dedicada ao que está passando na TV e até chegar ao prato principal com camarões apimentados que culmina em um escatológico fim de noite, a introdução não é nada convidativa. Depois disso eles acabam se cruzando vez ou outra por acaso, sempre em meio a situações embaraçosas, até que se veem obrigados a dividir uma mesma suíte em uma viagem para a África. Por uma daquelas estranhas coincidências roteirísticas, somos forçados a engolir que o passeio a um resort de luxo com tudo pago caiu dos céus para ambos. Detalhe, o público-alvo do lugar são casais a fim de curtir uma segunda lua-de-mel, a maioria levando a tira-colo os filhos, uma peculiaridade que vem a calhar ao casal-torto. Jim é um pai viúvo que não tem o menor traquejo para cuidar de suas três filhas, oferecendo uma criação masculinizada, o que inclui cortes de cabelo em barbearia e roupas esportivas que compra com desconto na loja em que trabalha.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

DIVÃ A 2

NOTA 1,5

Pegando carona no sucesso alheio,
comédia já erra ao tentar se passar de
uma continuação e as coisas só pioram com
texto enfadonho e atuações desmotivadas
Até crianças devem saber o significado da expressão popular comprar gato por lebre, mas parece que os envolvidos na produção de Divã a 2 o desconhecem. Ou são assumidamente caras-de-pau. Utilizando o mesmo estilo de diagramação e cores para seu material publicitário e ainda destacando em seu título o dois em numeral, muito facilmente qualquer desavisado ao ver alguma propaganda desta comédia pode acreditar que seja a continuação do grande sucesso estrelado por Lilia Cabral seis anos antes. Fique bem claro, os longas são totalmente independentes, nada a ver um com o outro. A produtora detentora da marca provavelmente queria iniciar uma franquia cujo alicerce seria apenas o argumento, assim não tendo a necessidade de recorrer a uma mesma equipe de trabalho o que poderia inviabilizar projetos. Do Divã original só sobrou a proposta de personagens problemáticos com a necessidade de conversarem, extravasarem suas emoções. Contudo, sai de cena os conflitos de uma mulher madura e entra no lugar os dilemas amorosos de uma balzaquiana, ou seja, o diferencial é trocado pelo trivial. Elenco, direção e roteiristas foram substituídos por sangue novo, o que no caso não significa necessariamente que temos novidades. Se no longa de 2009 tínhamos uma história consistente baseada no romance homônimo de Martha Medeiros, aqui temos que nos contentar com um fiapo de enredo, uma desculpa esfarrapada que os roteiristas Leandro Matos e Saulo Aride encontraram para conseguirem pagar suas contas. A ocupadíssima médica ortopedista Eduarda (Vanessa Giácomo) e o hiperativo produtor de eventos Marcos (Rafael Infante) casaram-se e tornaram-se pais muito jovens e como tantos outros casais com trajetórias parecidas estão vivendo uma crise precoce no relacionamento. Separados após dez anos de convivência, cada um procura individualmente resolverem seus conflitos com a ajuda de terapeutas. Enquanto desabafam, o público vai tomando conhecimento de suas vidas através de flashbacks, como se os discursos deles próprios já não fossem o suficientes para entendermos suas situações. É o velho hábito do cinema nacional em entregar tudo mastigadinho ao público, este que por vezes não percebe que sua inteligência está sendo subestimada.

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