sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

CHICAGO

NOTA 10,0

Drama, comédia, suspense
ou policial? Só mesmo um
espetáculo  musical como este

para agregar tantos gêneros
Os musicais nos últimos anos têm conseguido reencontrar seu público e conquistar novas plateias. Tivemos desde a recepção morna da adaptação cinematográfica da peça Os Produtores até a overdose mundial que se tornou Mamma Mia! e Hairspray – Em Busca da Fama. O gênero estava há décadas estagnado e sem muita apreciação por parte dos espectadores comuns e críticos, mas Hollywood nunca o esqueceu. Muitos espetáculos que aliavam perfeitamente dramaturgia, dança e cantoria bombavam nos palcos mundo a fora e chamavam as atenções de produtores que desejavam levar toda aquela magia para as telonas, mas faltava alguém se arriscar primeiro para em seguida outros apostarem as fichas. Assim, um ano após os diversos prêmios e a excelente bilheteria mundial de Moulin Rouge – Amor em Vermelho chegava diretamente da Broadway para as telonas, com muito fôlego e brilho, Chicago, um delicioso musical que veio para vingar uma grande injustiça feita ao seu antecessor. O Oscar praticamente ignorou a produção do diretor Baz Luhrmann que deu um novo fôlego ao gênero, mas teve que se redimir no ano seguinte premiando com seis estatuetas, inclusive a de Melhor Filme, este filme regado a muito jazz do estreante na direção de cinema Rob Marshall. Criado pelo famoso diretor e coreógrafo Bob Fosse, o mesmo de Cabaret e All That Jazz (mesmo nome de uma das canções mais conhecidas de Chicago), dois grandes sucessos nos palcos e nos cinemas da década de 1970, muita gente achava impossível levar a história de duas mulheres em busca da fama a qualquer preço para as telonas devido aos diversos números de dança e troca de cenários e figurinos, mas o infalível faro para o sucesso de Harvey Weinstein, o produtor Midas da Miramax, deu sinal verde para a produção. Claro que houve a preocupação de rejeição por ser um musical, principalmente pelos jovens, mas confiaram que uma dupla de belas e talentosas atrizes como protagonistas seria a solução. E assim aconteceu. Apesar de um ótimo elenco coadjuvante, a alma do longa se deve aos esforços de Catherine Zeta-Jones e Renée Zellweger, respectivamente Velma Kelly e Roxie Hart, ambas em busca do sucesso e se trombando na cadeia. A primeira se apresentava em uma casa noturna junto com a irmã, mas acabou presa após cometer um duplo assassinato contra o namorado e sua parceira de palco. A outra, sonhando em ser famosa, acaba confiando demais em um mulherengo que lhe promete facilitar seu caminho ao estrelato e quando descobre que tudo que ele dizia era mentira cometeu o ato impensado de atirar em seu peito.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

FIM DOS DIAS

NOTA 2,5

Excessivamente longo e com tema
repetitivo, longa foi apenas mais uma
produção oportunista a explorar o medo do
fim do mundo às vésperas do novo milênio
O final do ano de 1999 foi atípico. um misto de entusiasmo e tensão pairava no ar em todos os cantos do planeta. A chegada do ano 2000, também confundida com a virada para o novo milênio que na verdade aconteceria somente no reveillon seguinte, era embalada por diversas teorias apocalípticas a respeito do fim do mundo e cientistas e especialistas em informática se preparavam para passar a ceia de plantão com o intuito de evitar o chamado bug do milênio, uma falha de alguns softwares que poderiam não atualizar a mudança de data corretamente e acabar retrocedendo o relógio no tempo trazendo graves problemas para alguns setores como, por exemplo, o financeiro que sofreria prejuízos com taxas de juros e prazos de cobranças absurdamente alterados. Para o pessoal de Hollywood pouco importava o impacto  no dia-a-dia das pessoas, o que estava em jogo era aproveitar o climão e soltar os demônios. Literalmente! E nem Arnold Schwarzenegger escapou dessa onda. Longe das telas desde o fracasso de Batman e Robin, o ator foi obrigado a ficar pouco mais de dois anos afastado do trabalho por conta de uma cirurgia cardíaca e seu retorno foi marcado pelo oportunismo. Autoexplicativo até no título, Fim dos Dias é uma colcha de retalhos e não deixa dúvidas quanto a razão de ter sido produzido. No final daquele ano muitas produções foram lançadas a toque de caixa explorando temáticas sobrenaturais, a maioria descaradamente reciclando porcamente o argumento do Diabo vindo à Terra para procriar. O longa dirigido por Peter Hayams, de Timecop - O Guardião do Futuro, bebe nessa fonte e não desperdiça nenhuma gota. Tudo que já se viu em outros filmes do tipo é reaproveitado. Schwarzenegger interpreta Jericho Cane, um ex-policial que após perder a esposa e filha em um assalto planejado perdeu totalmente a fé e agora vive depressivo e entregue ao vício em bebidas. O perfil é bastante manjado, mas dramático demais para o talento restrito do ator mais acostumado a lidar com armas do que com pessoas.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O HOMEM BICENTENÁRIO

NOTA 7,5

Boa premissa e tema
polêmico acabam rendendo
menos que o esperado em
drama simplista e familiar
Em um passado não muito distante muitos acreditavam que logo nos primeiros anos do século 21 seria possível viver em modernos e equipados apartamentos tal qual a família Jetsons, os automóveis se assemelhariam a aeronaves e poderíamos programas férias na Lua ou em Marte. O cinema sempre ajudou a alimentar tais fantasias, mas o fato é que já passou mais de uma década de um novo milênio e nenhum desses devaneios tornaram-se realidade. Ok, muitas coisas modernas e antes inimagináveis ganharam corpo e formas e hoje fazem parte do nosso cotidiano, diga-se de passagem, algumas invenções totalmente dispensáveis, mas muitas outras extremamente bem-vindas. Televisões, computadores, celulares e outros eletrodomésticos ganham atualizações anualmente e podem ser vistos como armações para fazer o consumidor gastar dinheiro, não é a toa que muitos equipamentos duram de um a três anos no máximo e quando precisam de consertos as peças são raridades. Por outro lado, a tecnologia ajuda e muito na área de saúde como, por exemplo, proporcionando qualidade de vida à deficientes físicos e mentais, acidentados e acometidos de graves doenças. Além dos membros e até órgãos artificiais implantados em corpos humanos, hoje já é possível utilizar computadores e robôs para ajudar na recuperação do intelecto, fala, audição, visão e locomoção de muitos pacientes. Estes temas rendem boas discussões, tem seus prós e contras e, como já dito, são fontes de inspiração para a sétima arte. Talvez pela complexidade do assunto o público e crítica acabaram por não dar o devido valor ao eficiente drama O Homem Bicentenário, que traz um enredo instigante, mas que foi simplificado pelo diretor Chris Columbus. Se os humanos ainda sonham com a eternidade e cada vez mais parecem ser máquinas controladas pelo tempo e pelos modismos, o que levaria um robô a querer ganhar vida de verdade? Em pouco mais de duas horas o cineasta de sucessos familiares como Esqueceram de Mim e Uma Babá Quase Perfeita tem a chance de realizar o trabalho de sua vida, mas a desperdiça. Não que o filme seja ruim, longe disso, mas o tempo é muito curto para desenvolver um roteiro que fala sobre educação, família, sonhos, alegrias, tristezas, direitos, ética, enfim, há um leque enorme de possibilidades a serem trabalhadas, mas que não competem à um projeto comercial. Todavia não devemos levar ao pé da letra tal definição para todos os filmes que visam lucro. Uma obra que quer chegar até os populares não precisa obrigatoriamente ser de puro escapismo, mas pode e deve conter elementos que o elevem do patamar de um produto regular ou apenas para diversão, como neste caso em que entretenimento e conteúdo casam bem, ainda que o resultado final pudesse ser bem melhor.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

ENQUANTO VOCÊ DORMIA

NOTA 8,0

Longa que ajudou Sandra Bullock
a se tornar símbolo de comédia
romântica mantém seu frescor,
doçura e simplicidade intactos
Pode ser coincidência ou não. Quando Sandra Bullock se livrou do ônibus desgovernado de Velocidade Máxima, filme que alavancou sua carreira, não demorou muito e um outro meio de transporte viria a cruzar seu caminho, só que desta vez de forma mais leve, sem tanta adrenalina. Na comédia romântica Enquanto Você Dormia ela interpreta Lucy Moderatz, uma solitária funcionário do metrô de Chicago que fantasia uma possível relação amorosa com um passageiro que diariamente e no mesmo horário passa por lá, todavia, eles nunca trocaram uma palavra sequer. Ele é Peter Callaghan (Peter Gallagher), um jovem bem-sucedido que na véspera de Natal finalmente cumprimenta a moça ao comprar seu bilhete, mas poucos minutos depois acaba sendo abordado por um grupo de criminosos, se desequilibra e cai nos trilhos do metrô. Lucy imediatamente o socorre e o acompanha até o hospital onde, em um de seus devaneios, deixa escapar na frente dos familiares do rapaz que está em coma seu desejo de se casar com ele. A partir de então ela passa a ser considerada a noiva que ele tanto falava, mas jamais havia apresentado, o que traz certo conforto à família neste momento difícil. Assim Lucy assume tal papel e ganha a chance única de poder transformar seu amor platônico em algo real e de quebra ser acolhida pelos parentes do acidentado suprindo sua solidão. A farsa ia de vento em popa mesmo quando Peter recobra a consciência e ela o faz acreditar que está sofrendo de amnésia e por isso não a reconhece, mas as coisas saem do controle quando ela conhece Jack (Bill Pullman), o irmão mais velho de seu noivo, por sinal bem mais divertido e agradável que o esnobe caçula. Lucy se apaixona de imediato e tem seu sentimento plenamente correspondido, mas como viver esse amor sem machucar os demais membros do clã dos Callaghan, inclusive o próprio noivo supostamente desmemoriado?

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

UM HERÓI DE BRINQUEDO

NOTA 7,0

Com os costumeiros exageros das
produções natalinas, longa diverte e
traz uma atemporal crítica ao espírito
consumista que impera no fim de ano
Que saudades do tempo em que as crianças acordavam no dia 25 de dezembro empolgadas para ver se ganharam os brinquedos que pediram de Natal. Hoje muito cedo elas estão trocando as cartinhas para o Papai Noel por mensagens diretas aos pais através de celulares e ipads que provavelmente serão trocados por produtos idênticos entregues comodamente por sites de empresas loucas para destroçarem lojas físicas. Qual a graça de uma festa sem surpresa, magia e principalmente corre-corre de última hora? Assistir Um Herói de Brinquedo é nostalgia pura, é lembrar de uma época em que os brinquedos já flertavam com os avanços da tecnologia, mas ainda assim deixavam espaço para a imaginação da criançada rolar e não as escravizavam. O gostinho de lembrança boa é acentuado ao ver o grandalhão Arnold Schwarzenegger fazendo caras e bocas a cada tropicão ou vacilo ao tentar realizar o desejo do filho. Ele vive Howard Langston, o típico homem de negócios que coloca o trabalho à frente da família, não raramente frustrando a esposa Liz (Rita Wilson) e o pequeno Jamie (Jake Lloyd). Após perder a apresentação de caratê do garoto na qual ele trocaria de faixa, para tentar compensar mais um furo ele promete dar ao menino qualquer coisa que pedisse para o Natal. O filho então pede algo aparentemente muito simples: um boneco do "Turbo Man", o brinquedo sensação da época oriundo de uma série de TV. Teoricamente ele poderia ser encontrado facilmente em qualquer loja de brinquedos ou departamentos, mas não às vésperas dos festejos natalinos. Todas os estabelecimentos estão com estoques zerados, mas Langston se propõe a cumprir sua promessa custe o que custar e assim ele se mete em uma série de enrascadas em uma verdadeira odisséia em busca do boneco tendo em sua cola o carteiro Myron Larabee (Sinbad), um trapaceiro que também fez a mesma promessa ao filho.

domingo, 24 de dezembro de 2017

KRAMPUS - O TERROR DO NATAL

Nota 7,0 Apesar do título, longa não assusta, mas prende atenção com seu exercício de estilo

Natal é época de reunir a família, trocar presentes e plantar a discórdia. É isso mesmo! Todos sabemos que desavenças fazem parte das relações entre parentes o ano todo, mas parece que o estresse causado pelos preparativos dos festejos de fim de ano acentuam os problemas e quando todos estão reunidos fica difícil manter a pose e as desavenças vem a tona. O resultado é que cada vez mais o espírito natalino está em decadência e Krampus - O Terror do Natal tira proveito disso. O casal Sarah (Toni Collette) e Tom Engel (Adam Scott), embora esteja passando por uma crise, recebe alguns parentes para passarem o Natal juntos, todavia, Max (Emjay Anthony), o filho caçula, se desilude com as tantas alfinetadas entre os parentes e o desrespeito com os símbolos natalinos. Seus tios Linda (Allison Tolman) e Howard (David Koechner), acompanhados de nada menos que quatro filhos, só ajudam a aumentar a tensão com seus comentários desagradáveis e fora de hora. Já a tia Dorothy (Conchata Farrell) ferve o sangue de qualquer um com seu jeito inconveniente de ser e agir enquanto a calada vovó Omi (Krista Stadler) parece a mais sensata de todos, mas a maior parte do tempo parece alheia ao que acontece à sua volta. Irritado, o menino acaba rasgando a cartinha que havia escrito para o Papai Noel pedindo que os festejos voltassem a ser agradáveis como antigamente e jogando os pedaços para o céu deixando explícita sua ira e decepção. Seu pessimismo, no entanto, acaba despertando uma força demoníaca materializada na forma do Krampus, uma criatura que representa o espírito maligno que ataca as pessoas desacreditadas no Natal. Como a sombra do bom velhinho, ele não vem para presentear e sim para punir e sua primeira vítima é Beth (Stephanie LaVie Owen), a irmã mais velha de Max, que preocupada que o namorado não atende o telefone decide enfrentar uma forte nevasca para ir à sua casa e desaparece misteriosamente, assim como parece ter acontecido com toda a vizinhança.

sábado, 23 de dezembro de 2017

TAL MÃE, TAL FILHA

Nota 7,0 Juliette Binoche se destaca em em comédia em que mãe e filha se descobrem grávidas

Uma cinquentona que leva a vida sem responsabilidades tal qual uma adolescente se vê inesperadamente grávida de seu ex-marido ao mesmo tempo que sua filha um tanto mais ajuizada também anuncia que está esperando um bebê. O argumento de Tal Mãe, Tal Filha é típico de historinhas água-com-açúcar americanas e até poderia cair como uma luva a uma comédia popular brasileira daquelas que levam multidões aos cinemas, no entanto, é o ponto de partida de uma simples e divertida produção francesa. Para dar visibilidade ao filme, não por acaso a versátil e mundialmente conhecida Juliette Binoche, prata da casa, assume o papel de Mado, uma mulher de meia-idade que não tem trabalho fixo, tampouco objetivos de vida, e que se comporta como uma jovem rebelde desde que foi abandonada pelo marido Marc (Lambert Wilson). Perambulando pelas ruas de Paris montada em uma chamativa moto cor-de-rosa, a espevitada senhora dificilmente perde o bom humor e suas atitudes infantis chegam a ser confundidas até com mal de Alzheimer, mas nada que a faça perder o rebolado. Já sua filha Avril (Camille Cottin) está na casa dos trinta anos, é bem-sucedida profissionalmente e apaixonada por Louis (Michaël Dichter), seu marido que não trabalha, apenas estuda. Pouco vaidosa, por vezes bronca e bastante metódica, a jovem vive trocando farpas com a mãe que vive de favor em seu apartamento. Cada um pode e deve viver como bem entender, isso desde que seja respeitada a individualidade e privacidade dos demais e é nesse ponto que a relação delas estremece. A princípio a diretora e roteirista Noémie Saglio parece se ater ao clichê do choque entre gerações reciclando piadas previsíveis e impregnadas de vícios ianques, contudo, quando mãe e filha se descobrem grávidas praticamente simultaneamente a trama ganha outros rumos. Abobalhada com a ideia de ser mãe e avó e coagida por Avril, Mado aceita a ideia de fazer um aborto, mas atrapalhada como sempre se esquece de tomar no tempo certo o medicamento (fique claro prescrito por um obstetra, diga-se de passagem, um tanto estranho) e decide levar a gravidez adiante em segredo até onde puder, ou seja, a omissão não vai muito longe.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

TINHA QUE SER ELE?

NOTA 4,0

Com piadas de conflitos de gerações
e de rivalidade entre genro e sogro,
comédia oferece o trivial e perde chance
de explorar perfil de jovem excêntrico
O ator Ben Stiller interpretou um rapaz que passou por vários sufocos para tentar conquistar o sogrão vivido por um desconfiado e esperto Robert DeNiro em Entrando Numa Fria e suas continuações, produções sempre tentando manter as situações cômicas no limite para poder passar pelo crivo de uma censura mais branda. Com piadas de teor sexual a vontade e investindo pesado em diálogos repletos de palavrões,  Tinha Que Ser Ele? basicamente conta com o mesmo argumento, os problemas e desconfianças entre futuros parentes, mas no caso é o sogro que vai passar um dobrado nas mãos do namorado da filha. Ned Flaming (Bryan Cranston) viaja com a esposa Barb (Megan Mullally) de Michingan até a California para conhecer o genro Laird Mayhew (James Franco), um multimilionário do ramo de tecnologia e dos games cuja personalidade expansiva e sem papas na língua de imediato batem de frente com o jeitão careta do pai de Stephanie (Zoey Deutch). Desde quando viram o rapaz por acaso ao fundo numa videoconferência com a filha, diga-se de passagem, ele se despindo sem pudor algum, os pais da jovem já ficaram com um pé atrás quanto a este relacionamento, contudo, mal sabiam eles o que estava por vir. Convidados para passar o Natal na mansão do jovem empresário levando a tira-colo o caçula do clã Scotty (Griffin Gluck), os Flamings se deparam com um cara completamente excêntrico que não se intimida em cumprimentar a sogra com beijinho de leve na boca, tatuou a família da namorada nas costas e até fez uma pista de boliche adornada com seus rostos antes mesmo de conhecê-los e, talvez o pior de tudo, embora muito inteligente tem seu vocabulário bastante reduzido e a cada dez palavras que emite oito são "foda". Ned desde o início deixa claro que reprova o namoro, mas seu genro tinhoso vai fazer de tudo para ganhar a bênção para se casar, até mesmo apelar para o truque apelativo de que o sogro não vai perder uma filha e sim ganhar um novo filho.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

NOTA 8,0

Embora suavize o quanto pode as
feridas do nazismo, drama consegue
emocionar e divertir de forma equilibrada
e conta com elenco afiado e cativante
O nazismo é uma das temáticas de época mais exploradas pelo cinema. A intensa e controversa ditadura do alemão Adolf Hitler já rendeu diversos filmes, cada qual abordando um viés diferente seja por meio de um acontecimento específico, consequências de algum fato ou a maneira como um grupo de pessoas ou até mesmo um único indivíduo vivenciou tal período. Baseado no best-seller de Markus Zusak, em A Menina Que Roubava Livros temos um modesto retrato da época pelos olhos da esperta e sensível Liesel Meminger (Sophie Nélisse), ou melhor, a história da garota está inerentemente atrelada às atrocidades do regime alemão e curiosamente nos é contada por ninguém menos que a própria Morte (que se faz presente pela voz soturna de Roger Allam no original). Sim, o espectro que tantas boas almas levou por conta da guerra se interessou pela menina quando veio buscar seu irmão mais novo durante a viagem que faziam rumo a um subúrbio da Alemanha para serem adotados por uma nova família depois que a mãe fora acusada e perseguida por comunismo. A popularmente chamada de "ceifadora de almas" poupou a jovem certamente por ter sua curiosidade aguçada já que ela surrupia durante o sepultamento do irmão um livro que o coveiro deixou cair, uma espécie de manual para rituais funerários. Por que uma criança se interessaria por tal leitura? A Morte então passa a acompanhar a trajetória de Liesel desde sua chegada à rua Paraíso, de fato um local que parece transpirar tranquilidade, mas seus moradores apenam tentam levar uma rotina normal, no fundo vivem em constante clima de tensão já que nunca se sabe quando haverá uma batida policial ou uma bomba pode ser lançada por lá. Em troca de dinheiro um casal de meia-idade, adoradores do nazismo apenas de fachada, aceita dar asilo à Liesel que curiosamente aos dez anos de idade ainda era analfabeta, porém, demonstrava uma enorme vontade de saborear a descoberta das palavras. Essa é a deixa para que Hans Hubermann (Geoffrey Rush), seu afetuoso pai adotivo, possa estreitar laços com ela ensinando-a a ler e a escrever.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

LADO A LADO

NOTA 9,0

Com dois papéis femininos de
peso, drama sobre tolerância,
amizade e relações familiares
é uma opção excelente até hoje
Já faz algum tempo que as sociedades de todos os países em geral estão sofrendo reformulações. O conceito da família unida e feliz hoje em dia já não é mais uma unanimidade. Embora muitos núcleos familiares em ruínas ainda prefiram viver uma felicidade de fachada, outros clãs preferem assumir a separação. Ou melhor, os pais decidem pela ruptura quando os desentendimentos começam a ser mais constantes que os momentos de alegria, mas os filhos são um elo para sempre entre eles. O pai e a mãe têm o direito de tocarem suas vidas como bem entenderem, podendo manter relações cordiais ou não, mas e se caso eles encontrem um novo amor? Tal pessoa deve ser incorporada como um novo membro da família? Muitos anos já se passaram desde o lançamento de Lado a Lado, mas ele ainda continua um bom exemplo de filme para colocar em discussão tais relações. Perdoar e compreender o outro são algumas das mais importantes e difíceis tarefas que o ser humano tem e uns dos temas mais comentados talvez desde os primórdios das civilizações, o que implica intimamente no aprendizado de conviver com seus semelhantes em harmonia. São justamente esses itens que conduzem a narrativa escrita por Ron Bass que soube lapidá-los e escrever um texto que equilibra com perfeição situações dramáticas e outras de humor sutil protagonizadas por mulheres que irradiam veracidade, um convite e tanto para unir duas grandes estrelas de Hollywood. A trama gira em torno da rivalidade existente entre Jackie (Susan Sarandon) e Isabel (Julia Roberts). A primeira é a ex-esposa de Luke (Ed Harris), com quem teve dois filhos, Anna (Jena Malone) e Ben (Liam Aiken). Já a segunda é a atual namorada deste chefe de família que se encontra em uma complicada situação. Mantém uma relação amigável com a antiga mulher, mas esta não tolera a sua nova companheira e não perde a chance de criticá-la e envenenar a relação. O filho caçula até aceita a nova união do pai, mas sua irmã é uma adolescente que se revolta, pois ainda deseja a reconciliação dos pais. Luke por sua vez tenta de tudo para que sua namorada seja aceita por todos. Entre discussões e fofocas, a trégua entre Jackie e Isabel acaba por acontecer de uma maneira inesperada. A mãe das crianças revela que está com um grave câncer e agora precisa aceitar o fato que sua então inimiga mais cedo ou mais tarde tomará conta de seus filhos. Só que até as duas entrarem em um acordo muita coisa pode acontecer.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

AS AVENTURAS DE BOBBY

NOTA 7,0

Apesar do título e inocência do
enredo, longa é baseado em uma
tocante história real e propõe
reflexões e fatos históricos
Um cachorrinho meigo e um garotinho estampam a capa do DVD cujo título é o sugestivo As Aventuras de Bobby. Eis aí mais um típico filme para divertir a criançada e dar um pouco de sossego aos adultos enquanto elas estão entretidas. Bem, na realidade ta aí um produto que vem para desmitificar preconceitos. Sem falar uma palavra sequer, felizmente, o cãozinho é a arma para fisgar o público infantil, porém, a essência da história pode ser tediosa aos pequenos, principalmente por não ter muito humor ou aventura. A base do roteiro de Richard Mathews e Neville Watchurst traz certos pontos mais comuns ao universo dos adultos, tais como poder e dinheiro, mas por outro lado o filme pode ser inocente demais para o público mais velho, ainda que traga mensagens universais como fidelidade e solidariedade. De qualquer forma, o diretor John Henderson, também co-roteirista, consegue equilibrar de maneira satisfatória elementos que conjugam bem com estes dois universos distintos, resultando em um agradável filme-família. Logo no início acompanhamos o cachorrinho Bobby salvando seu dono, o vigia noturno John Gray (Thomas Lockyer), do ataque de um touro e sendo aplaudido pelos populares que elogiam a coragem e a força de um bichinho tão pequeno e aparentemente frágil. Ele é o xodó também de Ewan Adams (Oliver Golding), garotinho que, embora muito inteligente, está desperdiçando sua infância trabalhando no moinho do arrogante Sr. Duncan Smithie (Sean Pertwee), um empresário mau caráter que quer lucrar explorando seus funcionários com jornadas e condições de trabalho proibitivas. Gray gostaria muito de ajudar o menino a mudar os rumos de sua vida, assim como o Reverendo Lee (Greg Wise) que há tempos tenta com seus sermões mudar os pensamentos provincianos da população de Edimburgo, na Escócia, também conhecida como a Cidade Velha. Gray estava com a saúde debilitada e veio a falecer antes de ver qualquer tipo de mudança, mas conseguiu ter tempo para dar à Ewan um livro sobre homens que ajudaram a mudar a História do mundo, um incentivo para o menino procurar fazer o que ele não conseguiu. Bobby sentiu muito a perda do dono e diariamente, inclusive a noite, fugia para o cemitério e permanecia próximo ao túmulo. James Brown (James Cosmo), o zelador do local que se encontra nas terras da igreja, bem que tentava afastá-lo seguindo as normas de que animais eram proibidos, mas o cãozinho sempre voltava.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

EU, MINHA MULHER E MINHAS CÓPIAS

NOTA 7,0

Lançado em pleno boom do tema
clonagem, longa lançava olhar cômico
sobre a fantasia de ter uma cópia de si
mesmo para substitui-lo em certos momentos
Quem nunca disse em uma hora de aperto que gostaria ou precisaria ser mais de um para poder realizar tudo que tivesse vontade ou necessidade, mas sem se cansar ou gastar muito tempo? Vez ou outra de fato esta seria a melhor solução para os problemas, mas a comédia Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias prova que a ideia não é das melhores. O filme foi realizado quando a clonagem ainda era um assunto mais restrito a cientistas, mas os roteiristas Mary Hale, Lowell Ganz, Babaloo Mandel e Chris Miller já estavam antenados com o futuro e investiram na ideia. Pouco depois do lançamento do filme é que o mundo tomou conhecimento do famoso caso da ovelha Dolly, o primeiro ser vivo clonado da História, notícia que certamente veio a ajudar o filme a ter procura nas locadoras. Infelizmente não chegou a ser um sucesso absurdo e hoje é até uma produção esquecida, mas merecia uma segunda chance. Somos apresentados ao arquiteto Doug Kinney (Michael Keaton) que está se sentindo pressionado tanto na vida profissional quanto na pessoal, o típico homem da classe média americana. Além de dar conta do trabalho ele ainda tem suas obrigações como chefe de família e precisa dar atenção à esposa Laura (Andie MacDowell) e participar da criação dos filhos, Jennifer (Katie Schlossberg) e do pequeno Zack (Zack Duhame), assim ele sente que sobra pouco tempo para cuidar de si mesmo. Por esse motivo ele aceita participar de uma arriscada experiência que poderia tanto significar sua salvação como também ser sua desgraça. A sugestão de Leeds (Harris Yulin), um geneticista amalucado, é que o rapaz se submeta a um experimento de clonagem para fazer uma cópia de si mesmo que poderia substituí-lo em diversas tarefas cotidianas. Contudo, as coisas fogem do controle e esse substituto passa a reivindicar vida própria. Quando se dá conta, Kinney já está com três clones soltos por aí, todos idênticos na aparência, mas cada um com uma personalidade distinta e que acabam por tumultuar muito mais a vida do arquiteto ao invés de ajudá-lo.

domingo, 17 de dezembro de 2017

DUPLEX

Nota 9,0 Humor negro e piadas escrachadas pontuam comédia em que veterana dá um show

Quem não tem ao menos uma história engraçada ou irritante envolvendo um velhinho sem noção ou literalmente pentelho que atire a primeira pedra. É fato que conforme a idade avança o idoso acaba perdendo um nível considerável de sua capacidade intelectual e bom senso, mas alguns representantes dessa faixa etária muito bem de saúde acabam se aproveitando da generalizada condição para se dar bem e tirar o melhor proveito da situação. É mais ou menos nisso que provavelmente pensou Danny DeVito ao aceitar dirigir Duplex extraindo o máximo de humor de situações anárquicas do início ao fim. A direção não poderia ser de outra pessoa que não uma experiente no campo do humor. Aos politicamente corretos, que fique claro que a índole da personagem idosa do filme não deve ser encarada como uma ofensa as pessoas acima dos 60 anos, até porque no final existe uma justificativa hilária para seu comportamento no ágil e eficiente roteiro de Larry Doyle. Quem é ela? A senhora Connelly (Eileen Essel) é a inquilina de Alex Rose (Ben Stiller) e Nancy Kendricks (Drew Barrymore), um jovem casal que tinha um sonho de consumo: ter um belo duplex no famoso bairro do Brooklyn, na cidade de Nova York. Quando eles enfim encontram o apartamento dos seus sonhos, precisam enfrentar um problema que pouco a pouco torna-se um perturbador pesadelo. A antiga e simpática moradora do segundo andar se recusa a deixar o local e pelas leis do inquilinato americano ela não pode ser despejada. O casal tenta viver pacificamente com a vizinha, mas a senhora apronta tudo que pode e mais um pouco para deixá-los irritados 24 horas por dia literalmente. Até mesmo quando eles tentam dormir a velhinha está com todo pique para aprontar algo. Assim, o casal passa a perceber o real preço de seus sonhos, mesmo com o acréscimo do dinheiro do aluguel que recebem dela. No limite da situação, para conseguirem finalmente o imóvel só para eles, Alex e Nancy começam a planejar várias tentativas de tirá-la do local e pensam até mesmo em matar a aparente doce velhinha.

sábado, 16 de dezembro de 2017

SEGREDOS NA NOITE

Nota 4,0 Boa premissa e bons ganchos são desperdiçado em suspense arrastado e sem clímax

Robin Williams é um ator sinônimo de comédia devido aos seus trabalhos consagrados no gênero, no entanto, seu talento também já foi emprestado com sucesso a dramas e suspenses, mas é uma pena que nem sempre essa fuga do terreno seguro seja proveitosa como prova Segredos na Noite. O problema não é especificamente o ator, que está cativante como de costume, mas seu personagem é limitado demais para os conflitos que carrega, assim como a história criada por Armistead Maupin, Terry Anderson e Patrick Anderson que parece nunca sair do lugar. Muitas cabeças para pensar em um roteiro tão fraquinho e que poderia ser perdoado caso o clímax compensasse, mas parece que nunca chegamos a tal ponto. O que poderia ser um suspense razoável acaba sendo mais parecido com um drama arrastado por vezes sustentado a um fiapo de enredo. Contudo, existem bons ganchos na trama, porém, extremamente mal aproveitados. Baseado em fatos reais que deram origem a um romance do próprio Maupin, a trama gira em torno de Gabriel Noone (Williams), o apresentador de um famoso programa noturno de rádio no qual faz relatos sobre assuntos cotidianos e conquistou uma audiência cativa ao expor seu relacionamento com Jess (Bobby Cannavale), um homossexual portador de HIV e muitos anos mais jovem. A exposição fez com que a relação dos dois estremecesse e o rapaz decide ir embora de casa e nesse momento difícil o radialista acaba se entretendo com uma misteriosa história. Ele recebe do amigo Ashe (Joe Morton) o esboço de um livro redigido por um grande fã seu, Pete Logand (Rory Culkin), um adolescente de 14 anos que relata os abusos que sofreu dos próprios pais que realizavam orgias com outros adultos e as filmagens eram vendidas pela internet. Após tais crimes serem descobertos, a justiça determinou que o garoto fosse criado pela assistente social Donna (Toni Collette) com quem Noone passa a manter contato por telefone. A identificação acontece principalmente porque o garoto também é aidético, mas não teve chances de se tratar como Jess, assim ele constantemente é internado no hospital por conta de complicações respiratórias e tinha nas palavras de seu ídolo o conforto necessário para suportar a doença.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O NEVOEIRO

NOTA 9,0

Apesar do estilo trash, longa
coloca em discussão um tema
importante e tem um final
de dar nó na garganta
Stephen King é praticamente uma grife cinematográfica. Muitas de suas obras, geralmente ficções ligadas aos gêneros terror e suspense, já foram adaptadas para as telonas, mas nem sempre de forma bem sucedidas. Febre literária nos anos 80 e 90, as obras do autor chamaram a atenção até mesmo dos comitês de premiações que não deixaram passar despercebidos os lançamentos de Um Sonho de Liberdade A Espera de um Milagre, por exemplo, trabalhos com veias dramáticas e profundas. Todavia, nos últimos anos King não tem tido sorte ao ceder os direitos de seus livros para produtoras de filmes e até a mídia já está mais fria em relação ao seu nome. Sendo assim, um bom projeto com sua assinatura nos créditos praticamente passou em brancas nuvens. Podemos dizer que O Nevoeiro é um filme B com pedigree. O diretor e roteirista Frank Darabont, o responsável pelas adaptações cinematográficas dos dois aclamados dramas do escritor já citados, desta vez recorreu a um conto que foi publicado no Brasil há décadas atrás no livro “Tripulação de Esqueletos” e arrancou elogios dos poucos que assistiram. Mas sempre há tempo para corrigir injustiças. Bem, nem sempre como fica comprovada na surpreendente conclusão deste suspense que termina melhor que o próprio conto que o originou. A história é desenvolvida quase que totalmente dentro de um único cenário, um supermercado, local onde um grupo de pessoas se refugia de um estranho e gigantesco nevoeiro. O problema é que tal efeito proveniente de uma tempestade esconde bizarras criaturas que parecem querer exterminar a humanidade. David Drayton (Thomas Jane) é um dos indivíduos que está enclausurado no local junto com o filho Billy (Nathan Gamble) e que acaba por liderar os planos de fuga e de enfrentar a névoa, porém, seu instinto de herói bate de frente com as ideias da Sra. Carmody (Marcia Gay Harden), uma fanática religiosa que com seus discursos apocalípticos acaba por fazer a cabeça de muitos e ajuda a aumentar o pânico. Dessa forma, uma verdadeira guerra é instalada dentro daquele espaço claustrofóbico entre as pessoas que desejam lutar pela sobrevivência e aqueles que simplesmente aceitam a ideia de morrer acreditando que essa é a vontade de Deus e que não se pode contrariá-la. É justamente nesta inversão do medo que reside a força desta produção. O que amedronta mais está dentro ou fora do mercado?

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

AMOR EM JOGO

NOTA 6,5

Apesar de um pequeno detalhe,
a mocinha ter como rival um
esporte, comédia romântica dos
irmãos Farrelly é bem trivial 
Comédias românticas já têm um público cativo por natureza, assim como a atriz Drew Barrymore que virou sinônimo do gênero. Assim, para uma produção água-com-açúcar ser sucesso contar com essa estrela no elenco já é meio caminho andado, no entanto, a equação não deu muito certo com Amor em Jogo, um dos filmes mais comportados dos irmãos cineastas Bobby e Peter Farrelly, mas ignorado pelo público. Aliás, a assinatura deles que geralmente é destacada na publicidade de seus longas neste caso passou despercebida, mas a obra não é ruim e cumpre fielmente seu objetivo de entreter e exaltar o amor. Barrymore faz o que pode para reciclar o perfil da mocinha romântica que parece já ter incorporado à sua personalidade. Ela interpreta Lindsey, uma solteirona e ambiciosa consultora de negócios, porém, nem um pouco sisuda ou antipática, pelo contrário, sua alegria é contagiante. Não é a toa que o professor de colegial Ben (Jimmy Fallon) se apaixonou a primeira vista quando acompanhou alguns alunos para conhecerem o local de trabalho da garota. Ele seria o par perfeito. Divertido, amável, charmoso, mas com um pequeno defeito: ganha bem menos que ela. Todavia, a atração instantânea de ambas as partes supera qualquer problema, inclusive um embaraçoso e literalmente enjoativo primeiro encontro, mas como a vida real não é conto de fadas é claro que chega o momento em que o príncipe vira sapo. As amigas de Lindsey começam a colocar caraminholas em sua cabeça, afinal como um rapaz com seus trinta e poucos anos e com tantas qualidades poderia estar solteiro? O roteiro de Lowell Ganz e Babaloo Mandel, mesma dupla do saudosista Splash – Uma Sereia em Minha vida, descarta explorar as desconfianças quanto sua sexualidade e parte logo para a resposta. Desde muito pequeno Ben é fanático pelo time de beisebol Red Sox e sua casa mais parece uma lojinha de bugigangas onde tudo leva a logomarca do grupo. Como em dias de jogo não adiantava marcar qualquer compromisso e por tabela alguns dias antes também ficavam comprometidos por conta da euforia para ver seu time em campo, nenhuma mulher aguentava namorar o rapaz por muito tempo, só mesmo estando muito apaixonada para aceitar ser trocada por um bando de marmanjos.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O ENVIADO (2002)

NOTA 4,5

Tema polêmico e rico em
possibilidades é desperdiçado
em longa que se enrola entre
clichês e gênero indefinido
Em tempos em que a vida de um ser humano parece não ter valor algum diante dos bens materiais é até bom assistirmos obras que ressaltem a ideia de que uma morte no trânsito ou em um assalto não deve ser considerada apenas como um número a mais nas estatísticas, mas sim como uma perda irreparável para um núcleo familiar, uma pessoa que jamais terá substituto. Ou será que existiria tal possibilidade? O Enviado procura responder a essa pergunta, mas acaba se enrolando com as inúmeras possibilidades que o tema oferece. A indefinição entre ser um drama, suspense, terror ou representante de ficção científica acabou não só colaborando para a má reputação desta produção perante os espectadores, mas até para a equipe envolvida nas filmagens o resultado final deve ter deixado um gostinho amargo. O enredo até que tem certa lógica, mas a forma como os atores atuaram dá a impressão de que nem eles mesmos sabiam qual seria a conclusão da trama. Contudo, a premissa do roteiro de Mark Bomback é bem interessante.  Paul Duncan (Greg Kinnear) e sua esposa Jessie (Rebecca Romijin-Stamos) de uma hora para a outra passaram a viver as dores de uma tragédia devido ao falecimento precoce do único filho do casal, Adam (Cameron Bright), que morreu aos oito anos de idade vítima de uma imprudência de um motorista distraído. Não demora muito e eles são procurados pelo cientista Richard Wells (Robert De Niro) trazendo uma proposta tentadora e ao mesmo tempo duvidosa. Através da clonagem ele poderia trazer Adam de volta a vida de certa forma. Jessie faria uma inseminação artificial e geraria um filho idêntico ao falecido, incluindo as características de personalidade e emocionais, mas para tanto haveria a necessidade de colher uma amostra de células da criança em um período limite antes que todas elas perdessem a vitalidade.  Os Duncans hesitam em um primeiro momento, mas a vontade de ter o filho de volta fala mais alto e eles aceitam participar deste experimento clandestino de um laboratório especializado em reprodução humana. Para evitar comentários, o casal muda inclusive de cidade para poder criar o novo Adam (mantiveram o mesmo nome) longe do medo da criança ser apontada como uma aberração. Dessa forma esta família ganhou uma nova chance de ser feliz e tudo corria bem até que o garoto completou oito anos, a mesma idade com a qual sua “matriz” havia falecido. Como em qualquer projeto experimental, neste caso não havia total certeza que o resultado final seria livre de problemas ou surpresas. O clone somente tinha a memória do que o original vivenciou até sua morte. A partir de então este novo ser aparentemente tem o livre arbítrio para traçar sua trajetória e passa a demonstrar um comportamento suspeito e agressivo.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

LOUCAS POR AMOR, VICIADAS EM DINHEIRO

NOTA 6,0

Explorando o filão de golpistas
que se dão mal por suas inabilidades
para o crime, comédia é previsível
e com atuações histriônicas
Filmes sobre roubos e golpes a bancos e a milionários podem ser praticamente considerados subgêneros de ação, suspense e até de comédias. É bem grande a lista de títulos que investem em tais temas, desde bobagens lançadas diretamente em DVD protagonizadas por atores novatos ou fracassados até produções milionárias e com elenco de peso. As mulheres também têm vez nesse filão, mas geralmente repetem os papéis. Elas podem ser gostosonas que seduzem bobões bem de vida ou mal amadas cheias de grana que se apaixonam pelo primeiro vigarista que lhe dê um mínimo de atenção. Desde o boom das fitas VHS filmes do tipo já sofreram as mais diversas modificações e as fórmulas já foram requentadas a perder de vista, sendo que hoje dificilmente um trabalho do tipo surpreende sendo resumido a um passatempo indolor e perfeito para passar uma tarde de pernas pro ar ou chuvosa. Vendo por esse lado, o do puro entretenimento, é curiosa a enxurrada de críticas negativas que recebeu Loucas Por Amor, Viciadas em Dinheiro, uma comédia ligeira e que funciona bem em quase toda sua duração. A história começa nos apresentando à Bridget Cardigan (Diane Keaton), uma dona de casa de classe média que é surpreendida com a notícia de que pode perder sua casa e seu confortável estilo de vida quando seu marido Don (Ted Danson) é rebaixado de posto em seu trabalho. Tentando evitar que isto aconteça, ela resolve procurar um emprego, mas o problema é que ela nunca fez atividade alguma fora de casa, sempre viveu como uma dondoca. Com sorte ela acaba conseguindo um trabalho como zeladora no Federal Reserve Bank, o Banco Central americano, um local onde o que não falta é dinheiro. O problema é que as cédulas que estão dando sopa por lá vão parar no lixo pelo simples fato de estarem desgastadas. Para Bridget isto é um desperdício e logo ela bola um plano para conseguir roubar algumas notas, afinal de contas elas já não têm serventia para os donos da empresa, mas para a faxineira elas significariam a salvação de seu padrão de vida. Após fazer amizade com Nina Brewster (Queen Latifah), uma mãe solteira, e Jackie Truman (Katie Holmes), uma jovem avoada que nada tem a perder ou a quem dar satisfações, Bridget coloca em prática seu engenhoso plano. Ela é responsável pela limpeza e tem acesso a praticamente todos os cantos do banco. Já Jackie leva os carrinhos com o dinheiro coletado até Nina que por sua vez tem a missão de acionar a máquina que tritura as cédulas. Cansadas de serem sempre subestimadas, cada uma tem agora a chance de se sentir importante em algo e ainda lucrar com isso, mas a rápida mudança de vida do trio e seus excessos de compras chamam a atenção dos agentes fiscais que passam a investigá-las. O que era para ser um único roubo acabou se transformando em um hábito.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

LONGE DELA

NOTA 9,0

Atriz estréia na direção e
assina roteiro de drama
com tema difícil, mas de
leve digestão neste caso
Um casal que consegue manter ao menos o carinho e o respeito desde a juventude até a velhice é algo digno de admiração em tempos em que a instituição do casamento já não é levada mais a sério e muitos compromissos são desfeitos até mesmo na hora de dizer o tão esperado sim diante das famílias e amigos. Infelizmente os relacionamentos duradouros uma hora precisam ser encerrados e nesses casos é a própria vida que se encarrega de cortar os laços. É nessa ruptura que está a força dramática de Longe Dela, elogiado trabalho de estréia como diretora da atriz canadense Sarah Polley que também assina o roteiro. Ela não tem nenhum grande sucesso de público em seu currículo, sendo mais conhecida por sua atuação no terror Madrugada dos Mortos, porém, ela já participou de bons títulos independentes e foi dirigida por cineastas de renome, acumulando assim experiências diferenciadas sobre o ato de filmar, preferindo muito mais destacar uma troca de olhares sinceros a um texto rebuscado que poderia não exprimir tudo o que ela gostaria de dizer. É seguindo esse método que Sarah conseguiu cativar a crítica que certamente colaborou para que seu primeiro trabalho atrás das câmeras viesse a participar de festivais e premiações, chegando a festa do Oscar concorrendo nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz para a veterana Julie Christie que também conquistou merecidamente o Globo de Ouro de atriz dramática pelo papel de Fiona Anderson, uma senhora que vive um casamento feliz há mais de quatro décadas com Grant (Gordon Pinsent), responsável pela visão que temos dos fatos que levou este casal a se afastar. Suas vidas tranquilas são drasticamente alteradas quando sua esposa passa a apresentar sintomas constantes de perda de memória. Grant desconfia que ela está sofrendo do mal de Alzheimer, mas Fiona não acredita até o momento em que passa a se informar mais sobre a doença e percebe que aos poucos o seu problema não tiraria apenas a sua qualidade de vida, mas também a do companheiro de tantos anos. Sendo assim, ela decide ser internada em uma clínica para pessoas com problemas degenerativos. Uma das regras do local é que os pacientes não podem receber visitas durante o primeiro mês para facilitar a sua adaptação, mas quando Grant finalmente consegue reencontrá-la vem a decepção, pois ela já não o reconhece mais. Fiona está agora muito próxima de Aubrey (Michael Murphy), outro paciente da instituição, o que faz com que Grant tenha que se contentar com sua nova condição de amigo ao mesmo tempo em que tenta ajudá-la a se lembrar do passado e de quem ele realmente é. A chance de se reaproximar de seu grande amor é quando a esposa de Aubrey, Marian (Olympia Dukakis), o retira subitamente da instituição também temendo a aproximação do marido e de Fiona.

domingo, 10 de dezembro de 2017

UM MONSTRO EM PARIS

Nota 7,0 Apesar de problemas narrativos, animação francesa conquista com visual refinado

Já faz algum tempo que filmes de animação deixaram de ser uma opção exclusiva para a criançada, assim aumentou a pressão dos estúdios em cima dos realizadores. Não basta contar com a bilheteria dos pais ou responsáveis que levam as crianças aos cinemas. É preciso também chamar a atenção de quem não tem a desculpa de ter um pimpolho para acompanhar. Talvez a maturidade mínima exigida dos enredos para se alcançar tal objetivo tenha colaborado para desenhos animados fora do eixo Hollywood ganharem mais visibilidade. Não é só uma trama mais elaborada o chamariz, mas a própria origem diferenciada das produções pode ser um convite para adultos. Sim, ainda há quem ache coisa de intelectual ou chique gostar de filmes franceses, por exemplo, ainda mais se for uma animação que ousa brigar por espaço com os gigantes norte-americanos. No entanto, mesmo amparado por elogios da crítica especializada, Um Monstro em Paris não caiu no gosto popular. A trama escrita por Stephane Kazand Jian e Bibo Bergeron, este também autor da história original e responsável pela direção, se passa na bela Paris de meados da década de 1910. O jovem Emile é apaixonado por filmes e sonha em viver um romance de cinema com Maud, a moça que trabalha na bilheteria das salas de exibição, no entanto, sua timidez o impede de se declarar e ele acaba se contentando em viver um amor platônico. Como projecionista, o rapaz a vê diariamente no trabalho e alimenta o sonho de poder fazer seus próprios filmes, o que poderia ser possível com uma câmera que seu amigo Raoul lhe dá. Metido a galã e vendendo animação, esse homem inventa engenhocas quando tem folga de seu trabalho como entregador de mercadorias, mas uma de suas missões irá acabar em desastre. Certa noite, Raoul e Emile vão deixar uma encomenda na estufa de um professor de botânica, mas na ausência dele deveriam procurar seu macaco-assistente, o esperto Charles. Tudo muito simples, mas a dupla quis se divertir com a tal câmera dentro do laboratório e acabaram criando um gigantesco girassol que não aguentou o próprio peso e tombou sobre as prateleiras de produtos químicos.

sábado, 9 de dezembro de 2017

PAIXÕES PARALELAS

Nota 4,0 Demi Moore divide-se em dois papéis em filme de Hollywood com jeitinho europeu

Mais cedo ou mais tarde todos têm ao menos uma vez na vida um momento em que se pegam questionando: e se eu tivesse feito outras escolhas, como seria meu futuro? O tema abre caminho para várias discussões, mas o escolhido pelo diretor Alain Berliner para desenvolver o drama romântico Paixões Paralelas não foi dos melhores. De origem belga, este profissional despontou com o elogiado e premiado Minha Vida em Cor-de-Rosa e rapidamente Hollywood o seduziu, mas sua estreia no cinema americano não foi bem avaliada. A atriz Demi Moore, na época ainda queimada pelos resultados do polêmico Striptease lançado três anos antes (e pelo visto ainda um fardo que carrega), tentava novamente impor seu nome como de uma atriz séria e disposta a desafios, tanto que aceitou interpretar dois papéis. Marie é uma jovem viúva que ganha a vida fazendo críticas literárias e mora em uma bucólica cidade na França na companhia de duas filhas pequenas. Todas as noites ela sonha ser outra mulher e com uma rotina completamente diferente. Em Nova York, Marty é uma executiva bem-sucedida, solteira e sem filhos, mas que sonha com a vida de Marie. Qual delas é real? Conforme ambas investigam e recorrem a ajuda de conversas de cunho psicológico, vão sendo dadas dicas para o público participar da narrativa, mas o ritmo lento compromete o envolvimento total. Todavia a primeira parte consegue deixar o espectador inquieto (no bom sentido) e as dúvidas aumentam quando surgem os interesses amorosos das personagens. Marie envolve-se com o escritor William Leeds (Stellan Skarsgard) enquanto Marty finalmente deixa de lado o estereótipo da mulher independente e deixa o amor entrar em sua vida ao se sentir atraída pelo homem de negócios Aaron Reilly (William Fichtner), mas obviamente um deles é pura fantasia. O roteiro criado por Ron Bass e David Field narra as duas tramas de forma paralela. A vida de uma começa quando a outra está sonhando e vice-versa. Seus pretendentes sabem que algum mistério as envolve, mas reagem de formas distintas ao problema. Leeds parece sentir ciúmes do possível rival e Reilly, por sua vez, encara a situação com mais seriedade e está disposto a ajudar a mulher que ama a encontrar uma resposta.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A MORTE CONVIDA PARA DANÇAR

NOTA 2,0

Supostamente um remake de fita
da década de 1980, longa apenas
reaproveita título para nova história,
ou melhor, para requentar clichês
Na época do colégio muitos jovens sonham com o baile de formatura e a cultura americana através do cinema e da televisão propagou pelo mundo todo a ideia de que o evento é como um rito de passagem para a maioridade simbolizando o momento de assumir responsabilidades, tomar importantes decisões, enfim, tornar-se um adulto com A maiúsculo. Todavia, para a protagonista de A Morte Convida Para Dançar a tão aguardada noite acaba se tornando um pesadelo. Donna Keppel (Brittany Snow), após muito tempo se se divertir, aguardava ansiosamente pela festa de fim de ano da escola e planejava aproveitá-la ao máximo ao lado do namorado Bobby (Scott Porter) e de seus amigos Claire (Jessica Stroup), Lisa (Dana Davies), Ronnie (Collins Pennie) e Michael (Kelly Beatz), porém, tudo dá errado graças ao seu passado que volta a lhe atormentar. No início do colegial a garota teve aulas com Richard Fenton (Johnathon Schaech), um professor que se apaixonou por ela de maneira obsessiva, mas que não teve seu amor correspondido. Ele então passou a persegui-la achando que deveria a proteger de tudo e de todos que pudessem lhe causar algum mal, inclusive afastá-la de seus próprios pais que ele assassina friamente. O roteiro de J. S. Cardone, do suspense juvenil O Pacto, começa enfocando justamente esse brutal crime hediondo, o que deveria instigar o espectador a descobrir quais as consequências deste episódio. O problema é que a trama apenas requenta clichês de outros filmes de seriais killers, copiando inclusive seus defeitos não deixando de lado nem mesmo a figura do detetive metido a esperto, mas que no fundo é um idiota sem função na trama afinal qual a graça de uma produção do tipo quando já sabemos desde o início a identidade do vilão? Bem, nas mãos de gente talentosa isso não seria um empecilho, porém, sob os cuidados de despreparados a trama resume-se a uma bobagem que nem mesmo um clima adequado de tensão consegue estabelecer.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

PLANO DE VOO

NOTA 7,0

Jodie Foster segura a atenção em
suspense claustrofóbico tenso
do começo ao fim requentando
clichês que intrigam o espectador
Tramas de suspense desenvolvidas dentro de aviões costumam render bons filmes (excluindo obviamente coisas do tipo Serpentes a Bordo), talvez por conta do ambiente claustrofóbico que não raramente sufoca tanto os espectadores quanto os personagens, ainda que muitos evitem produções do tipo por medo desse tipo de viagem ou justamente por viverem na ponte aérea. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, filmes assim sumiram do mercado, mas não demoraram mais que três anos para voltarem com força total. Um dos primeiros a ser lançado após o jejum foi Plano de Voo, que também marcava a volta de Jodie Foster às grandes bilheterias. O diretor alemão Robert Schwentke, no entanto, quis fugir do lugar comum e não colocou a turbulência como vilã do longa e também evitou tocar na ainda recente ferida da História americana (quer dizer, tocou levemente, não tinha como resistir a tentação). O roteiro de Peter A. Dowling e Billy Ray coloca a atriz duas vezes vencedora do Oscar para dar vida à Kyle Pratt, uma mulher que no momento está sofrendo com a recente morte de seu marido decorrente de um acidente doméstico. Junto com a filha Julia (Marlene Lawston), de apenas seis anos, ela está fazendo uma viagem de Berlim à Nova York para levar o caixão do marido para ser velado e enterrado junto a sua família. O início pode parecer um pouco confuso pela falta de informações que temos sobre as personagens, mas tais detalhes vão sendo oferecidos conforme as conversas que surgem dentro do avião, uma forma do espectador criar empatia com os coadjuvantes, alguns de suma importância para a trama enquanto outros nada mais fazem que embaralhar a história mais adiante.  Mãe e filha acabam cochilando durante a viagem, mas quando Kyle acorda se desespera ao não ter mais a garotinha ao seu lado. Nenhum funcionário ou membro da tripulação tem alguma pista de onde ela estaria, pior, sequer viram ela embarcando ou sentada ao lado da mãe. Com a aeronave em pleno voo, ela não teria para onde fugir, o que leva as suspeitas de que a menina teria sido sequestrada e escondida em algum compartimento da nave. Ou teria sido tudo fruto da mente da recente viúva que chegou a imaginar estar acompanhada de uma criança? O longa então é dedicado as inúmeras tentativas desta mulher provar que não está louca ao mesmo tempo em que tenta encontrar a desaparecida.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

STIGMATA

NOTA 4,0

Com tema polêmico, longa
tenta se equilibrar entre sérias
discussões sobre fé e sustos
fáceis para prender atenção
Explorar questões sobrenaturais sempre rendeu muito dinheiro à indústria do cinema, principalmente para o norte-americano, mas quando se pretende lidar com o tema aliado aos mistérios que envolvem a religião católica a coisa complica. Tratar de assuntos bíblicos em filmes que na verdade pretendem provocar sustos é como mexer numa ferida e no caso de Stigmata literalmente é o que acontece. A trama escrita por Tom Lazarus e Rick Romage começa em uma cidade no sudoeste do Brasil chamada Belo Quinto (vilarejo fictício e que nos envergonha ao mostrar nosso país com ares de terras mexicanas ou de algum lugar parado no tempo), local que recebe a visita do padre Andrew Kiernan (Gabriel Byrne). Ele foi mandado pelo Vaticano para investigar o caso de uma igreja que abriga a estátua de uma santa que verte lágrimas em sangue. Curiosamente, o estranho fato começou a ocorrer no dia em que o padre responsável pela basílica faleceu. Enquanto Kiernan fotografava a escultura um garoto furtou um rosário que estava junto ao corpo do falecido e vendeu o artefato para uma desavisada turista que o envia de presente para Frankie Paige (Patricia Aquette), sua filha que vive em Nova York. Ela é uma jovem cabeleireira que leva uma vida pacata, mas desde que recebeu o tal presente uma série de estranhos acontecimentos começaram a lhe perturbar. Em pouco tempo ela passa a ser vítima de estigmas, fenômeno que provoca feridas idênticas às que marcaram a crucificação de Jesus Cristo e que supostamente acometem algumas pessoas de uma hora para a outra. Seriam sinais de dádiva ou de algo demoníaco? Para Frankie tais chagas representam um terrível pesadelo que desvirtua seu cotidiano completamente.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O DIA EM QUE A TERRA PAROU (2008)

NOTA 3,0

Refilmagem de clássico de
ficção científica traz mensagem
ambiental, mas ela se perde entre
trama enfadonha e efeitos visuais 
Existem muitos títulos de sucesso do passado que para as novas gerações são motivos de muita curiosidade, principalmente aqueles que marcaram época e cujo conteúdo tinha algum tipo de ligação com a realidade ou mensagem necessária para aquele momento. Guerra dos Mundos, por exemplo, foi uma bem sucedida ficção científica que usou o conflito entre os humanos e os extraterrestres como uma alusão a um conflito bélico (quando o conto foi redigido) e posteriormente como uma metáfora ao comportamento dos humanos que diante de uma ameaça abandona qualquer tipo de princípio visando seu bem estar. Steven Spielberg resolveu refazer o clássico em 2005 e acabou colhendo muito mais comentários negativos que o esperado, mas em compensação engordou em bons punhados de milhões de dólares sua conta bancária e a de sua produtora. Já o diretor Scott Derrickson, de O Exorcismo de Emily Rose, se deu mal tanto em bilheterias quanto em repercussão com o seu O Dia em que a Terra Parou, refilmagem da ficção homônima datada de 1951 na qual um alienígena vinha para a Terra com as melhores intenções, impedir que a violência humana se espalhasse pela galáxia (era o tempo das famosas bombas atômicas e a exploração do espaço avançava a passos largos), porém, é óbvio que sua recepção não foi nada amigável. Mais de meio século separa a obra assinada por Robert Wise e sua refilmagem e embora a violência só tenha se intensificado, a nova versão optou por levantar a bandeira do ambientalismo, mas sem deixar de criticar a conduta dos seres humanos com seu inerente ar superior, o que inevitavelmente gera conflitos nos mais variados campos. Sim, por trás de todo o verniz de blockbuster made in Hollywood existe um conteúdo a ser amplamente discutido, mas infelizmente ele acaba sendo sucumbido pelos efeitos especiais que, diga-se de passagem, neste caso parecem um tanto exagerados em vários momentos. Keanu Reeves é o cabeça do elenco interpretando Klaatu, o alienígena que aterrissa em pleno Central Park, em Nova York, junto com um gigantesco robô, batizado pelos americanos de Gort, ambos saídos de uma estranha esfera colorida. Na realidade, logo de cara não vemos o astro, mas nos deparamos com uma criatura envolta em uma espécie de gordura protetora, algo que mais a frente é comparado a um material que se assemelha a placenta de um bebê. Faz sentido afinal é essa camada nojenta que está protegendo o extraterrestre que para surpresa de todos se apresenta como um humano comum. A explicação, bem criativa, é de que os seres de outros planetas já estavam de olho nos terrestres há muito tempo e provavelmente já estiveram entre nós e realizando experimentos. Assim conseguiram recolher DNA humano para criar uma “armadura” para Klaatu, o que também justificaria sua rápida adaptação a nossa atmosfera e o poder de se comunicar normalmente em idioma local.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

SUNSHINE - ALERTA SOLAR

NOTA 5,0

Longa é um bem intencionado
projeto, mas perde o rumo em
meio a avalanche de efeitos especiais
e sonoros que dispersam atenção
Alguém ainda se interessa por ficções científicas? Já houve uma época em que as produções que abordavam viagens intergalácticas eram sucesso, mas o gênero está em franco declínio há muitos anos. Ainda assim, vez ou outra algum cineasta ousa investir em temáticas do tipo, muitas vezes acreditando que sua assinatura será o suficiente para chamar a atenção do público e mesmo que a obra não saia perfeita sua trajetória profissional poderia poupá-lo do achincalhe. Com direção de Danny Boyle, dos cultuados Cova Rasa e Trainspotting, o suspense de ficção Sunshine – Alerta Solar coleciona críticas negativas e positivas em proporções semelhantes, mas é certo que o pé atrás com o gênero que a maioria cultiva é um fator que realmente pesa na avaliação. Produtos do tipo acabaram ficando reféns de um nicho específico de público e não adiante o nome de um cineasta ou de algum ator famoso nos créditos para servir de chamariz. Quem não curte o gênero dificilmente embarca na trama e a tendência é resumir o filme a uma simples desculpa para oferecer um espetáculo visual, mas vazio de conteúdo e emoção. Roteirizado por Alex Garland, autor do livro “A Praia” que gerou um longa homônimo (e mal avaliado pelo público) também dirigido por Boyle, a história se passa em 2057 quando o Sol está prestes a se extinguir e consequentemente a humanidade também se vê ameaçada já sentindo os reflexos das baixíssimas temperaturas que assolam a Terra. A última esperança para a sobrevivência do planeta é a espaçonave Icarus II que tem a difícil missão de levar uma potente bomba atômica capaz de reacender a estrela, uma espécie de realimentação de sua fonte de energia. Durante a viagem e sem contato com a base a tripulação descobre o sinal de pedido de socorro da Icarus I, a nave enviada sete anos antes com o mesmo objetivo, mas cujas razões de fracassar são desconhecidas. O grupo então fica dividido. Alguns pensam em voltar à primeira espaçonave para pegarem equipamentos que podem ser úteis e achar explicações para seu sumiço e outra parte defende que seja seguido o planejamento original traçado previamente.  A decisão recai sobre Capa (Cillian Murphy), um especialista em física que escolhe a primeira opção e a mudança de trajetória acaba causando problemas sérios. Mais que lutar pela própria sobrevivência, esses corajosos homens e mulheres sentem a pressão de preservar o futuro da humanidade.

domingo, 3 de dezembro de 2017

OS PEQUENINOS

Nota 7,5 Apesar de previsível para agradar crianças, longa conquista adultos com sua nostalgia

Qual criança nunca imaginou que pequenas criaturas podem habitar o interior das paredes ou do chão da sua casa? Tal fantasia povoa o universo infantil há décadas tanto que em meados dos anos 50 a escritora Mary Norton sentiu-se instigada a desenvolver tal argumento dando origem a fábula “The Borrowers”, que também é o título original do filme dirigido por Peter Hewitt que no Brasil ganhou a genérica alcunha de Os Pequeninos. Em inglês o nome tem um significado mais irônico, algo traduzido como “aqueles que tomam emprestado”, e realmente é quase isso que eles costumam fazer. Medindo aproximadamente dez centímetros, eles têm facilidade para entrar sorrateiramente na casa dos humanos e fazer alguns empréstimos de objetos, mas que na verdade jamais são devolvidos. Tudo o que colocam as mãos eles inventam uma maneira para aproveitar em suas casas, ou melhor, casa. Sim, no singular mesmo. Aparentemente ao longo dos anos o grupo destes pequeninos homenzinhos acabou se dissipando até que sobrou apenas a família Clock cujo patriarca, o Sr. Pod (Jim Broadbent), luta diariamente para manter a sobrevivência de todos. Constantemente ele acompanha seus filhos Arrietty (Flora Newbigin) e Peagreem (Tom Felto) no trajeto até o interior da casa da família Lender, de quem são de certa maneira vizinhos ou até mesmo inquilinos, em busca de alimentos e bugigangas conquistados através de planos meticulosamente estruturados como se fossem planos de guerra ou resgate, mas a fonte está para secar. Joe (Aden Gillett) e Victoria (Doon Mackichan) se surpreendem ao escutarem da boca do advogado Ocious P. Potter (John Goodman) que sua tia recém-falecida não fez um testamento comprovando que ela deixava para eles a casa onde vivem, mas o casal jura que tal documento existe, porém, se não for encontrado rapidamente eles perderão o direito de reivindicar a propriedade. Na verdade trata-se de uma trapaça do inescrupuloso e rechonchudo advogado que não vê a hora de demolir a residência e construir no lugar a “Pottersville”, um espaço que abrigaria mais de vinte famílias bem de vida onde atualmente apenas um clã decadente reside.

sábado, 2 de dezembro de 2017

PASSAGEM SECRETA

Nota 6,5 Drama aborda como judeus tentavam sobreviver na Europa durante a Santa Inquisição

Costumamos ligar a perseguição aos judeus ao período do Holocausto, mas tal situação vergonhosa já vem de longa data, de tempos em que nem o Brasil havia sido descoberto. E quem pensa que os alemães são os únicos grandes vilões desse triste capítulo fique sabendo que antes deles outros povos também demonstraram cruelmente sua aversão ao judaísmo, como os espanhóis. O drama Passagem Secreta especula através de um pequeno grupo de personagens como parte da Europa estava reagindo aos tempos da inquisição. Em 1492, a Espanha decretou que todos os judeus que não se convertessem ao catolicismo seriam conduzidos ao exílio ou até mesmo julgados, podendo ser levados à execução em praça pública ou não. Representantes do governo invadiam as casas para confiscar dinheiro, joias e bens materiais de valor e quem contestasse a ação era eliminado imediatamente. As irmãs Judith e Sara viram ainda pequenas muitas atrocidades, mas foram salvas por seus pais que aceitaram que elas se tornassem cristãs. Rebatizadas respectivamente de Isabel (Katherine Borowitz) e Clara (Tara Fitzgerald), elas se separaram da família e foram viver na cidade de Antuérpia onde, embora ainda tendo que esconder suas origens, as irmãs tiveram alguns anos de felicidade. Isabel, a mais velha, nunca se casou, mas conseguiu para Clara um casamento arranjado com outro judeu convertido que morreu quinze anos depois tentando ajudar membros de sua religião. A inquisição voltava a assombrar os “hereges” e o testamento do falecido guardava surpresas. Deixando a dúvida de que poderia ter tido um caso com a cunhada, algo não explorado no roteiro, ele deixa todos os seus bens para Isabel e a tutela da única filha, Victoria (Hanna Taylor Gordon). Em comum acordo elas decidem ir viver em uma das propriedades da família em Veneza, na Itália, cidade rica em cultura e tolerância e também um importante ponto comercial devido as facilidades de acesso pelo mar, porém, ainda teriam que bancar as católicas e adorando ídolos falsos. Todavia, a mudança coincide com uma brusca ruptura na harmonia do clã. Até então as irmãs nunca tinham tido problemas de convivência, nem mesmo por conta da tal herança.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

OS GOONIES

NOTA 10,0

Aventura leva espectador
praticamente a uma outra
realidade, um tempo em que ser
criança era bem mais divertido
Hoje quando se fala em filme de aventura para toda a família os títulos que surgem em nossas mentes certamente são aqueles protagonizados por super-heróis ou então as narrativas desenvolvidas em reinos fantásticos onde tudo pode acontecer. Alguns deles são realmente excelentes, mas não há como negar que a maioria só existe por causa da tecnologia, seja por uma necessidade real ou apenas uma desculpa para fisgar público com um visual arrebatador. Se analisarmos bem, boa parte das produções desse tipo vendem embalagem e pouquíssimo conteúdo. É claro que se você questionar alguma criança ou adolescente ou até mesmo uma pessoa com seus vinte e poucos anos, idade já impregnada dos vícios negativos da geração imagem é tudo, sobre a qualidade das aventuras contemporâneas eles vão dizer que elas são excepcionais e que os efeitos especiais são essenciais. Por outro lado, se a mesma questão for feita a um adulto ou jovem que viveu intensamente os anos 80 a resposta tende a ser diferente, cabendo comparações aos popularmente conhecidos clássicos da “Sessão da Tarde”, aqueles filmes símbolos de uma geração que misturavam diversos gêneros, predominando a aventura, mas que além de oferecerem um visual arrebatador também continham histórias que dialogavam plenamente com seu público-alvo, crianças e adolescentes que ao mesmo tempo que procuravam manter o espírito infantil vivo também eram obrigadas a amadurecerem precocemente assumindo responsabilidades, mesmo que simples tarefas do dia-a-dia. Para resumir a conversa, estes tais clássicos oitentistas tinham alma, vida, emoção de pessoas apaixonadas por cinema que desejavam levar ao espectador a mesma explosão de sentimentos que sentiam quando iam a uma matinê no cinema, sensações que poderiam ser renovadas na época com o advento das fitas VHS e as reprises na TV. Hoje o gênero de aventura se resume a imagens e sons de última geração oferecidos com campanhas de marketing agressivas, mas pouco conteúdo e emoção. O papo é combustível puro para um duelo entre as antigas e novas gerações, mas o objetivo desse texto é relembrar Os Goonies, mostrar sua importância como registro histórico de uma época e agradar aos nostálgicos, mas quem curte um bom cinema também não deve se sentir fora da conversa. Com produção assinada por Steven Spielberg e direção de Richard Donner, dois nomes emblemáticos da cinematografia da época (um até hoje em evidência, o outro sobrevivendo à custa de produções medianas), este é um daqueles filmes únicos que surgem de tempos em tempos para marcar época. Em cada cena estão impressos importantes elementos que ajudaram a caracterizar a tão saudosa década de 1980 como a trilha sonora, os figurinos, hábitos de consumo e, claro, a ingenuidade e o companheirismo inerente a qualquer grupo de jovens que se uniam em uma espécie de clubinho param se divertirem e ajudarem uns aos outros. Para não dizer que tudo que é feito hoje em dia no gênero se resume ao lado comercial, Super 8 foi lançado com o intuito de homenagear esse passado cinematográfico. Não por acaso Spielberg também é o produtor da fita.

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