segunda-feira, 18 de setembro de 2017

WALT NOS BASTIDORES DE MARY POPPINS

NOTA 8,0

Embora se alongue e ainda assim
esconda alguns fatos sobre os bastidores
do clássico Mary Poppins, fita conquista
com força de seus protagonistas e nostalgia
Por pouco uma das histórias mais clássicas do cinema e dos estúdios Disney não teve um final feliz. Não seria nenhuma tragédia, não houve incêndio e tampouco mortes, mas por um triz o mundo poderia ficar sem um dos mais belos e singelos contos já levados às telas por conta de uma acirrada briga de bastidores. Walt nos Bastidores de Mary Poppins aborda a difícil produção do longa de uma das babás mais famosas de todos os tempos. Lançado em 1964, o longa conquistou cinco Oscars, entre eles o de Melhor Atriz para a inglesa Julie Andrews estreando no cinema no papel-título, uma mulher com poderes mágicos que transforma a amarga rotina de uma família com seu otimismo e alegria. Dizem que na infância as filhas de Walt Disney (Tom Hanks) se apaixonaram pelo livro publicado em 1934 pela escritora australiana Pamela L. Travers (Emma Thompson) e ele fez uma promessa aparentemente bastante simples para quem criara um verdadeiro império da cultura e do entretenimento: transformar as páginas de papel em belas imagens em celulóide. Contudo, não bastava seu dinheiro, fama e poder. Mais do que tudo era preciso vencer a empáfia da criadora que não via com bons olhos o tipo de trabalho do mestre das animações. Durante mais de duas décadas ela resistiu as investidas do magnata, mas quando se viu em apuros financeiros, devido a crise literária que enfrentava a concorrência da televisão e do próprio cinema como meios de entretenimento, aceitou negociar os direitos de sua obra com a condição que pudesse acompanhar de perto o trabalho da equipe por trás das câmeras. Saindo a contra-gosto de sua pacata rotina em Londres para o agitado cenário de Los Angeles, mais especificamente em Hollywood, na realidade ela queria forçar a desistência do projeto uma vez que inseriu no contrato a cláusula de que poderia vetá-lo caso não aprovasse certas liberdades de criação.  A relação de Travers com seu livro não é meramente profissional ou intelectual, mas acima de tudo íntima e nostálgica, o que justifica seu comportamento irascível descaradamente fazendo inúmeras exigências para tentar desanimar a todos. Entrando na pré-estreia de braços dados com Mickey Mouse, o longa tenta fazer média e mostrar a escritora até se divertindo em alguns momentos, mas na realidade odiou o filme e nunca mais cedeu os direitos de suas obras para adaptações.

sábado, 19 de agosto de 2017

O IDIOTA DO MEU IRMÃO

Nota 5,5 Carisma e talento do protagonista segura as pontas em comédia que carece de clímax

O título certamente cairia como uma luva para um filme estrelado por Adam Sandler ou alguém do seu estilo fanfarrão, mas a alcunha O Idiota do Meu Irmão não deve ser levado ao pé da letra. Trata-se de uma comédia americana no melhor estilo independente, ou seja, acerca de personagens cheios de defeitos e problemas e que a certa altura da vida se veem forçados a reatar laços familiares, o típico tema desse tipo de produção. Ned (Paul Rudd) é um rapaz que sempre levou a vida na flauta como popularmente se diz. Vivendo do que ganha em uma barraquinha de orgânicos na feira, ele tira um extra vendendo maconha por fora, mas se dá mal quando cai na armadilha de um policial que mesmo fardado se faz passar por viciado. Desligado e ingênuo, o feirante acaba sendo preso em flagrante, porém, com sua bondade extrema ele acaba ajudando outros presos e tendo bom comportamento na cadeia, assim é liberado alguns meses antes do previsto sob regime de liberdade condicional. Todavia, a vida do lado de fora das grades não parou e sua namorada Janet (Kathryn Hahn) já está vivendo com outro homem e ele acaba sendo acolhido pela irmã Liz (Emily Mortimer), uma mãe de família neurótica que está sendo traída por Dylan (Steve Coogan), seu marido que praticamente não lhe dá atenção. Entretanto, sua companhia acaba trazendo alguns problemas de relacionamento para essa família e que o obrigam a passar alguns dias com suas outras irmãs, a frustrada repórter Miranda (Elizabeth Banks), que justamente agora ganha uma boa chance de trabalho, e a lésbica não tão convicta Natalie (Zooey Deschanel), que anda balançando quanto a seus reais sentimentos pela namorada Cindy (Rashida Jones). Nas temporadas que passa na casa de cada uma delas Ned vai as enlouquecendo com suas manias e atitudes sem noção ou pudor, principalmente seu costume de falar absolutamente tudo que lhe passa pela cabeça sem filtrar informações.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

CHRISTINE - O CARRO ASSASSINO

NOTA 8,0

Marco do terror, longa aborda
a carência de um jovem suprimida
pelo amor à um veículo que assume
uma posição de controle em sua vida
Ter medo de dirigir é algo bastante comum, mas ter fobia de um carro, em sua figura propriamente dita, é um tanto estranho. Contudo, o mestre do terror John Carpenter provou com Christine - O Carro Assassino que tal repulsa tem fundamentos e faz total sentido. Claro que isso no âmbito da fantasia, mais especificamente dentro do universo de outro mestre do gênero, o escritor Stephen King. A trama se passa em 1978 e tem como protagonista Arnold Cunningham (Keith Gordon), ou simplesmente Arnie, um adolescente não muito popular, sempre ameaçado pelos valentões e que vive à sombra de seu melhor amigo, Dennis Guilder (John Stockwell), o astro do time de futebol do colégio e alvo de desejo das garotas, o estereótipo do jovem de sucesso. O tímido rapaz ainda tem que conviver com sua mãe repressora, Regina (Christine Belford), que parece não querer que ele cresça. Sua vida muda completamente quando avista em um ferro-velho a carcaça da velha Christine, um glamoroso exemplar do Plymouth Fury vermelhão embora deteriorado, e torna-se obcecado pelo veículo. Ele junta suas economias e o compra passando a dar-lhe mais importância do que a tudo e a todos, inclusive sua família e Leigh (Alexandra Paul), a garota por quem era apaixonado. Dennis tenta ao máximo alertar o amigo sobre sua mudança de comportamento e obsessão pelo seu novo brinquedinho, mas diante das agressões e repulsa que passa a sofrer pouco a pouco começa a se afastar. Desse ponto em diante já é possível prever os próximos acontecimentos. Nesta relação de amor entre homem e máquina, onde o carro assume praticamente uma postura humana quanto ao ciúme e senso de justiça, o jovem Arnie não percebe suas mudanças de personalidade, mas tem consciência de que está encobrindo crimes cometidos pelo seu veículo que literalmente ganha vida quando se trata de proteger seu dono a quem deve sua segunda chance de sobrevivência. Detalhe, seu velho rádio interno serve como forma do possante se expressar, sempre com boas canções de rock, mas cujas letras são escolhidas a dedo para amedrontar qualquer um que estivesse dentro ou fora dele.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

UM AMOR DE VIZINHA

NOTA 4,0

Colocando novamente dois grandes
astros na condição de protagonistas,
romance não foge do convencional e nem
oferece oportunidades para brilharem
Michael Douglas e Diane Keaton já foram nomes disputadíssimos por diretores. Cada um com uma estatueta do Oscar em casa e com alguns sucessos de público e crítica nos currículos, é uma pena que nos últimos anos tenham sofrido com o preconceito da idade. A aura brilhante que carregavam pouco a pouco minguou e com os convites cada vez mais escassos se viram obrigados a aceitar participar de qualquer bobagem. Não que precisassem de dinheiro, mas para continuarem a se sentirem vivos e com dignidade, mesmo que fossem relegados a papéis coadjuvantes e muitas vezes desnecessários. O primeiro e tardio encontro da dupla em Um Amor de Vizinha os elevou novamente a condição de protagonistas, porém, um projeto apagadinho e que não oferece a oportunidade de mostrarem que o físico de um ator obviamente envelhece, mas seu talento permanece intacto ou até aperfeiçoado. Nesta comédia romântica voltada para a terceira idade Douglas vive Oren Little, um agente imobiliário sessentão que precisa realizar uma última grande venda para então usufruir de uma boa aposentadoria. A casa em questão é sua própria moradia onde agora vive sozinho após a morte da esposa e a partida do filho Luke (Scott Shepherd) viciado em drogas com quem não tem contato há anos. Rabugento, egoísta e solitário, mas com uma polpuda conta bancária, ele é a prova de que dinheiro não compra felicidade. Sua vida muda quando é obrigado a receber a neta em sua casa, Sarah (Sterling Jerins), prestes a completar dez anos e que até então não conhecia, enquanto seu filho cumpre uma temporada na prisão. No entanto, é óbvio que inicialmente ele não tem o menor traquejo com a menina, assim ela passa alguns dias hospedada com Leah (Keaton), uma adorável e prestativa vizinha, mas com quem Oren vive trocando farpas, para variar. Todavia, eles tem algo em comum: dificuldades para lidar com assuntos mal resolvidos do passado, principalmente perdas.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

DIAS INCRÍVEIS

NOTA 6,0

Mais um exemplar da safra de
comédias sobre homens que não querem
amadurecer, filme não aprofunda o tema,
apoiando-se no humor dos protagonistas
Prorrogar ao máximo a juventude, esse é sem dúvida o maior sonho de todas pessoas e o cinema por diversas vezes se aproveitou de tal devaneio, mas a mensagem final geralmente é a mesma: viva intensamente o momento, envelhecer é preciso. Passar por procedimentos estéticos e viver de remédios ditos milagrosos apenas retardam rugas, mas algum sinal de que a idade avançou mais cedo ou mais tarde aparecerá. E como lidar com o espírito da juventude que teima em não amadurecer? Pensando nisso, tem uma turma de atores americanos que se especializou em lidar com tal temática e praticamente criou um subgênero para a comédia. Nos últimos anos tem se popularizado as fitas de humor focando as desventuras de trintões e quarentões que precisam na marra aceitar que já não são adolescentes, mas sempre que tentam dar um passo adiante parece que há uma força sobrenatural que os puxa para retroceder outros dois. Dias Incríveis segue bem essa linha e traz um trio bastante representativo encabeçando o elenco e que resolve exorcizar as mágoas da vida adulta voltando aos bons tempos da escola literalmente. Mitch (Luke Wilson) sofreu uma decepção amorosa quando voltou de viagem e encontrou a namorada em sua casa praticando swing. Frank (Will Ferrell) conseguiu se casar, mas basta o mínimo contato com alguma lembrança dos tempos de escola para que perca as estribeiras e não se importe de sair pelado correndo pelas ruas. Já Beanie (Vince Vaughn) também casou e tem filhos, mas não trai a mulher, embora sinta saudades de quando era livre e sem as responsabilidades de assumir uma família. Quando Mitch aluga uma casa dentro de um campus universitário, os amigos logo lançam a ideia de montar uma república estudantil à moda antiga, ou seja, um lugar para homens se reunirem e darem altas festas com muita música, bebidas e mulheres, muitas mulheres. Logo na primeira balada tem a presença luxuosa do rapper Snoop Doggy. Como pagaram seu cachê?... Bem, isto é uma comédia, então vale tudo, até mesmo um cantor famoso acostumado com multidões aceitar fazer um pequeno show em um jardim.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O SEGREDO DA CABANA

NOTA 8,0

Com base em uma trama comum
de fitas de horror, longa desconstrói
chavões do gênero e surpreende com
final que reverencia monstros sagrados
Um grupo de jovens decide passar um final de semana em uma isolada cabana no meio de uma floresta, uma viagem movida a bebidas, drogas, sexo e.... Mortes! Tal argumento caberia como uma luva para centenas de títulos, assim como se encaixa perfeitamente para O Segredo da Cabana, mas não se engane com a alcunha genérica. Este não é um filme de terror convencional, mas uma produção ímpar que ao mesmo tempo reverencia, desconstrói e também parodia (não no sentido pejorativo) chavões do gênero tendo como referência óbvia o cultuado (e também odiado em proporções semelhantes) The EviL Dead – A Morte do Demônio. Quando Sam Raimi realizou sua obra maldita ele ainda era apenas um aspirante a cineasta, mas transbordava criatividade e paixão por fazer cinema. Provavelmente não lhe passava pela cabeça de que o filme que realizou aos trancos e barrancos e na base de trucagens caseiras viria a se tornar um modelo para tantos outros diretores, ainda que os trabalhos dos pupilos por acaso inevitavelmente deixassem transparecer certa deficiência de personalidade. Não é o caso da fita em questão. Basicamente deitando e rolando sobre os principais clichês do cinema de horror, a fita nem de longe lembra o estilo tosco e debochado da série Todo Mundo em Pânico graças ao tom de homenagem adotado pelo diretor Drew Goddard, co-roteirista do superestimado Cloverfield - Monstro no qual precisou segurar as rédeas de sua imaginação em nome do suspense. Em sua estreia na direção, agora ele pôde  literalmente exorcizar seus monstros. A metalinguagem se faz presente do início ao fim revelando os mecanismos que sustentam as produções de terror. A aguardada viagem que os estudantes planejavam a meses na realidade é uma armação da equipe de um macabro reality show onde cada um deles tem um personagem definido de acordo com suas personalidades para fins de estudos de psicologia ou algo assim. Dana (Kristen Connoly) é a puritana e certinha do grupo, Jules (Anna Hutchinson) é garota sexy e burra, Curt (Chris Hemsworth) é o esportista metido a valentão, Holden (Jesse Williams) faz as vezes do nerd sedutor e Marty (Fran Kranz) é o chapadão da galera, porém, com inteligência acima da media e o único a sacar os clichês dos filmes de terror que passam a atrapalhar a viagem.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

NÃO É MAIS UM BESTEIROL AMERICANO

NOTA 5,5

Parodiando comédias e romances
teens, longa é acima da média para
seu estilo e com boas citações a filmes da
época e também clássicos da década de 1980
No ano 2000 Todo Mundo em Pânico foi produzido com uma ninharia e faturou alto, muito alto, achincalhando os filmes de terror e alguns sucessos da época de outros gêneros. Não demorou muito para produtores despertarem interesse pela paródia de gêneros e assim é que surgiu Não é Mais um Besteirol Americano, uma brincadeira em cima de comédias e alguns poucos dramas voltados para os jovens. O título original seria algo como "não é outro filme de adolescentes", mas tanto ele quanto a alcunha que ganhou no Brasil não vendem corretamente a ideia da fita. Este é sim mais um filme para adolescente e também é mais um besteirol americano, porém, que surpreendentemente conta com algumas boas piadas como a inserção de um número musical com as entonações e coreografias calcadas no exagero do exagero. A trama principal, parodiando Ela é Demais, tem como protagonista Janey Briggs (Chyler Leigh), uma estudante de um tradicional colégio para riquinhos e metidos, mas quem não segue um padrão estético definido automaticamente é marginalizado. É bem o caso. Mal vestida, com óculos chamativos e um rabinho de cavalo broxante, ela não tem muitos amigos e sonha em se tornar uma famosa artista plástica. Sem querer ela acaba entrando na mira de Jake Wyler (Chris Evans), o bonitão do colégio que aposta com os colegas que conseguirá transformar a garota mais feia do pedaço na rainha do baile de formatura. Enquanto isso, o time de futebol americano dos estudantes, liderado pelo próprio Jack assumindo o lugar do capitão Reggie Ray (Ron Lester), seu melhor amigo que corre risco de vida após um acidente, está enfrentando problemas no campeonato que estão disputando por despreparo do novo líder, a desculpa perfeita para as líderes de torcida darem aquela forcinha se exibindo em minúsculas roupas e em coreografias sensuais para os rapazes, como a piriguete Priscilla (Jaime Pressly).

domingo, 13 de agosto de 2017

O PAIZÃO

Nota 7,5 Despretensiosa e divertida, comédia já ditava o estilo de trabalho de Adam Sandler

Muitos homens fogem como o Diabo da cruz quanto a ideia de se tornarem pais. Assumir responsabilidades, ter que alterar suas rotinas e de certa forma perder a liberdade que tanto se orgulham de ter são alguns dos empecilhos de colocar um filho no mundo. E o que dizer de caras dispostos a encarar o desafio por amor a uma criança que literalmente bate à sua porta sem mais nem menos? Esse é o plot da comédia O Paizão, mais uma entre tantas comédias semelhantes no currículo de Adam Sandler, na época já um astro nos EUA, mas no Brasil um ilustre desconhecido. Na trama que o próprio assina como produtor e o roteiro em parceria com Steve Franks e Tim Herlihy, ele dá vida ao boa-vida Sonny Koufax, rapaz formado na faculdade de direito, mas que se contenta com a merreca que ganha trabalhando como cobrador em um pedágio em Nova York, ao contrário de seus amigos que exercem a profissão e ganham altos salários. Sua preocupação no momento é a todo custo provar para namorada Vanessa (Kristy Swanson) que não é nenhum inútil e assim reconquistá-la. O pé na bunda era o que ele precisava para acordar para a vida e amadurecer. No entanto, essa mudança de vida só é possível a partir do momento que conhece o pequeno Julian (papel revezado pelos gêmeos Cole e Dylan Sprouse), um garotinho de cinco anos que é abandonado com um bilhete da mãe pedindo para procurar certo homem. Sonny não é o tal cara, mas de imediato compra a ideia da adoção pensando em reconquistar a namorada, mas não esperava se afeiçoar tanto ao menino. A transição de adolescente fanfarrão para adulto responsável é feita de maneira convincente. O roteiro aborda várias situações em que ele educa o garoto como se fosse um amigo dando conselhos ao outro, claro que a maioria reprováveis, mas dentro de seu universo perfeitamente aceitáveis, até seus amigos aprovam. Somente quando é criticado por alguém de fora de seu circuito de amizades é que lhe cai a ficha dos erros que está cometendo.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

PETS - A VIDA SECRETA DOS BICHOS

NOTA 7,0

Apesar do ritmo frenético, tramas
paralelas e personagens cativantes,
animação fica a dever a diversão e
curiosidade prometidas em seu título
Quem nunca imaginou o que deve fazer seu bichinho de estimação quando ele está sozinho em casa? Será que ele dorme o tempo todo? Fica admirando a paisagem pela janela? Ou na mesma posição que fica quando seu dono se despede pela manhã permanece até a sua volta? Explorar tal ideia é o argumento que sustenta Pets - A Vida Secreta dos Bichos. Ou assim deveria ser. A publicidade do filme vendia a fantasia de que na ausência de seus tutores por algumas horas os animais curtiam baladas alucinantes e zoavam a torto e a direito com outros vizinhos pets. Umas duas ou três cenas de fato traduzem este espírito anárquico, mas o roteiro em si apresenta uma outra proposta explorando a jornada de personagens reencontrando o caminho de casa, mas também aprendendo como é a vida longe do conforto de seus lares. Max é um cãozinho com pedigree acostumado aos paparicos de sua dona e que aproveita todas as regalias de seu apartamento durante o dia enquanto ela sai para trabalhar. Quando ela volta ele a enche de carinhos como retribuição, mas certa noite uma surpresa faz seu mundo perfeito cair. Ela chega em casa acompanhada de Duke, um vira-lata peludo e grandalhão com quem agora terá que aprender a dividir as atenções e seu espaço físico. À primeira vista os cãezinhos já se estranham, não só pelo ciúme, mas também pelo choque de personalidades, afinal um é extremamente mimado e organizado enquanto o outro é espaçoso e desordeiro. Em uma das brigas que travam eles acabam indo parar no meio da rua e passam a ser caçados não só pelo controle de zoonoses como também por um bando de malvados felinos e por uma gangue de animais rejeitados. A dupla então se mete em uma série de aventuras enfrentando o trânsito caótico de Nova York, o submundo das tubulações de esgoto e os perigos oferecidos pelas construções e monumentos da cidade. E assim o filme se resume a muita ação e poucos conflitos. Os animais correm de um lado para o outro, soltam piadinhas visuais ou em diálogos aqui e ali, mas seus perfis são bastante limitados. Sabemos apenas o estritamente necessário para diferenciar os mocinhos da turminha do mal, embora é bom destacar a inversão de personalidade de alguns poucos personagens.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A CASA DAS COELHINHAS

NOTA 3,0

Apesar do argumento principal
explorar a valorização da imagem,
comédia dispensa aprofundamentos e
pega leve até mesmo com piadas picantes
Não é só no Brasil que a revista Playboy já não goza mais do prestígio de outrora. Com a popularidade da internet, a publicação deixou de ter o gostinho de proibido que aguçava adolescentes e que garantia milhões de dólares mensalmente na conta bancária de seu criador Hugh Hefner. Todavia, ainda há muitas garotas que sonham em se tornar coelhinhas, nome carinhoso dado as ninfetas que estampam as edições, e a famosa mansão de mesma alcunha continua enraizada no imaginário masculino. Nela vivem lindas jovens com corpos esculturais e que passam dia após dia se divertindo em festas a beira piscina e com pouquíssima roupa. Bem, na verdade essa imagem da Mansão Playboy é mais uma especulação, mas não deve ser muito diferente do que vemos na comédia A Casa das Coelhinhas, que não só homenageia ao mesmo tempo que debocha do status ilusório que este universo paralelo adquiriu, como também retrata uma problemática intrínseca à cultura jovem dos EUA. Se você não é popular você não existe. Será mesmo? Shelley Darlingson (Anna Faris) é uma das dondocas que habita o casarão, mas ao atingir 27 anos, o que em sua "carreira" é como se já beirasse a terceira idade, ela acaba sendo expulsa. Na verdade ela é vítima de uma de suas coleguinhas invejosas que arma uma cilada que a faz crer estar sendo dispensada, isso sem ter tido a honra de ser fotografada para algum ensaio. Como nunca trabalhou ou estudou, simplesmente viveu de pernas para o ar e fazendo caras e bocas, a moça se vê sem rumo e vai bater na porta de uma irmandade onde apenas patricinhas populares e ricas vivem, mas para sua surpresa é logo de cara dispensada. Transtornada, literalmente ela cai na frente da Zeta Alpha Zeta, o lar que abriga as estudantes desajustadas, problemáticas e nerds. O local está sob ameaça de ser fechado pela universidade por falta de interesse de novas moradoras em dividir o espaço e então Shelley encontra a maneira perfeita para pagar sua estadia: ajudando as garotas a mudarem de vida, tornando-as atraentes e alvo de cobiça dos rapazes, assim a casa viraria sinônimo de alegria e diversão e atrairia novas hóspedes. Detalhe: ela vira a líder das perdedoras sem nem mesmo ser uma estudante, contrariando uma regrinha básica das tais irmandades. Todavia, sua personalidade altiva perante a postura cabisbaixa de suas pupilas a rotulam naturalmente como um ser superior, um modelo a ser seguido.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A FAMÍLIA FLYNN

NOTA 7,5

Baseado em fatos reais, drama
comove com história de reencontro
de pai e filho com passado conturbado,
mas arrastado último ato prejudica obra
Saber lidar com os infortúnios da vida não é nada fácil. Assumir fracassos ou frustrações menos ainda. Histórias baseadas em fatos reais do tipo sempre foram uma grande fonte de inspiração para o cinema, mas o que não é comum é que o próprio personagem da vida real participe da realização de seu filme autobiográfico. A Família Flynn não só é inspirado no livro de memórias "Another Bullslit Night in Suck City" escrito pelo romancista Nick Flynn como ele próprio é um dos produtores. A narrativa aborda suas difíceis lembranças da infância e juventude e seu complicado relacionamento com seu pai. Interpretado por Paul Dano na fase adulta, Nick é posto para fora de casa após trair a namorada e está precisando de um emprego que lhe ofereça estabilidade. Já alimentava o sonho de ser escritor há um bom tempo, mas ainda assim duvidava de seu próprio talento e o destino parecia lhe negar a chance de melhorar de vida. Em suas andanças acabou conhecendo dois rapazes de índole duvidosa e foi morar com eles em um imóvel que ocupavam ilegalmente. Vivendo no submundo, inevitavelmente acabou caindo no vício das drogas e só não deu continuidade a sua degradação graças ao apoio de Denise (Olivia Thireby), uma jovem que trabalha em um abrigo para sem-tetos. Eles começam a namorar e ela lhe consegue um emprego no local. Quando acredita que as coisas estão melhorando, sua tranquilidade é abalada por um telefonema de Jonathan (Robert De Niro), seu pai que não via e nem mesmo conversava há quase vinte anos. Quando o filho era pequeno ele foi preso por alguns delitos, o que explica o afastamento entre eles, mas também sempre foi um homem desajustado, violento, alcoolatra, preconceituoso e homofóbico. Parece que todos os adjetivos negativos se encaixam na descrição de seu perfil que também engloba a mania de grandeza e o sentimento de superioridade. Considerando-se um grande contador de histórias, acredita que os EUA teve apenas três grandes escritores e é óbvio que ele seria um deles, embora por toda a sua vida tenha se dedicado a escrever um calhamaço sem fim que ninguém nunca leu, mas que autointitula como o maior romance americano de todos os tempos.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O MISTERIOSO CASO DE JUDITH WINSTEAD

NOTA 3,0

Apesar da boa proposta, montar um
documentário com edição de imagens de
um caso de possessão demoníaca,
fita entedia com ritmo lento e poucos sustos
Zumbis, assassinos mascarados, monstros, casas assombradas, eventos sobrenaturais... O gênero terror possui diversas vertentes e é interessante que os estilos e temas acabam marcando determinadas épocas. A década de 1980 ficou rotulada pelas fitas de horror trash, a década seguinte pelo revival dos seriais killers e os anos 2000 pelo ápice do cinema gore. Em paralelo as vísceras expostas e torturas sem limites, os primeiros anos do novo milênio também serão lembrados por uma técnica em específico que se encaixa em todos os estilos citados no início: o found footage. Compilação de imagens de vídeos caseiros, o recurso caiu como uma luva para ajudar a contar histórias de arrepiar supostamente reais, mas tudo que é demais não tarda a enjoar. Desde o final de 1999 quando A Bruxa de Blair causou frisson e faturou alto vendendo a ideia de um filme exclusivamente editado a partir de fitas encontradas em uma floresta onde adolescentes desapareceram, muitas outras produções tentaram repetir o sucesso imbuídos do espírito altruísta de que para fazer cinema basta uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. A realidade não é tão fácil assim e com exceção de Atividade Paranormal filmes do tipo costumam dar prejuízos o que nos leva a questionar o porquê de alguns diretores ainda apostarem no estilo. O Misterioso Caso de Judith Winstead procurou dar um gás para à técnica assumindo a identidade de um documentário, mas para um filme cujo principal objetivo é aterrorizar o espectador o casamento de gêneros falhou. Fora um ou outro momento, no geral não impacta e tampouco assusta na medida necessária. Acompanhamos com tédio a história escrita e dirigida por Chris Sparling, do pouco visto Enterrado Vivo, apesar de seus esforços para oferecer algo diferenciado.  A trama nos apresenta o Dr. Henry West (Willian Maphother), cientista que em meados da década de 1970 criou o Instituto Atticus, local para estudos psicológicos voltado para pessoas com habilidades especiais.  Muitos pacientes foram submetidos a diversos testes para verificação de atividades paranormais, alguns poucos casos de fato comprovados e tantos outros considerados fraudes, mas nenhum deles desafiou tanto a equipe médica quanto o episódio da jovem do título.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

MORTDECAI - A ARTE DA TRAPAÇA

NOTA 3,0

Estranha e confusa, comédia
comete o pecado de não ser engraçada
e atuação afetada de Johnny Depp
revela necessidade de se reciclar
Johnny Depp é reconhecidamente um ator que não tem vergonha em literalmente vestir um personagem e por muitas vezes se entregou de corpo e alma às bizarrices de seu amigo pessoal Tim Burton, o diretor com quem mais trabalhou. Com outros no comando, é fato que ele tem certas dificuldades e não rende o esperado. Uma rara exceção foi a criação do excêntrico Jack Sparrow em parceria com Gore Verbiski que dirigiu os três primeiros filmes da série Piratas do Caribe. Não é a toa que nos demais episódios das aventuras pelos sete mares o ator apenas repetiu trejeitos e caras e bocas, seus diretores não souberam extrair vivacidade do papel. Sim, Depp é o tipo do ator que parece deixar transparecer quando não está a vontade em uma produção e é essa a sensação que temos ao assistir Mortdecai - A Arte da Trapaça, mais uma tentativa do astro em provar que não precisa ser refém de personagens (não tão) bizarros e tampouco se aposentar representando um pirata trapaceiro, bêbado e de sexualidade duvidosa. Contudo, não se pode dizer que com este filme esperava ser levado a sério, afinal o objetivo é fazer graça com as peripécias do personagem-título. Charles Mortdecai é um conhecido negociador de obras de artes que conhece muito bem as artimanhas e vigarices que movimentam este meio. Ele próprio é um vigarista de mão cheia. Casado com Johanna (Gwyneth Paltrow) e tendo Jock (Paul Bettany) como seu fiel escudeiro, ele está passando por dificuldades financeiras, o que o obriga a colocar a venda algumas das preciosidades de seu acervo pessoal. Sabendo da crise, o inspetor Martland (Ewan McGregor) pede a ajuda de Mortdecai para solucionar o mistério em torno do assassinato de uma restauradora de quadros que no momento de sua morte trabalhava em um valiosa pintura do espanhol Goya que sumiu. Ele aceita a tarefa, pois ao final poderá ter sua dívida com o governo abonada e assim viaja na companhia de seu guarda-costas para várias partes do mundo para descobrir o paradeiro do quadro, deixando assim o caminho livre para o inspetor dar em cima de sua mulher por quem é apaixonado desde a juventude.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

AS MEMÓRIAS DE MARNIE

NOTA 8,5

Suposta última obra de tradicional
estúdio de animação tem alguns tropeços
narrativos, mas nada que diminua o apreço
pela delicadeza do texto e das imagens
Fundado em 1985, o estúdio japonês de animação Ghibli ficou conhecido pelos belas e emocionantes histórias que se propôs a contar, sempre evocando temas difíceis ao público infantil tais como abandono, rejeição, doenças, guerras, fobias dos mais variados tipos e até mesmo a morte. O segredo do sucesso está na forma delicada como esses assuntos são abordados, diluídos em roteiros bem construídos e com personagens que evoluem, assim as produções da companhia agradam as mais variadas idades. Conquistam crianças com seu colorido aquarelado e diferenciado e os adultos com suas narrativas cheias de conteúdo complexo e ao mesmo tempo pureza ímpar. As Memórias de Marnie carrega em sua essência todas as características que fizeram a fama do estúdio, mas carrega junto o triste rótulo de ser a derradeira produção da casa. Na verdade não é um adeus definitivo da fértil e criativa empresa que presenteou o mundo com verdadeiras jóias como Meu Vizinho Totoro, A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado entre tantas outras. Hayao Miyazaki e Isao Takahata, seus fundadores, resolveram tirar um período sabático afim de reorganizar o estúdio, afinal ambos já são idosos e precisam pensar em nomes para assumir o legado. Gente de talento certamente não vai faltar, inclusive há algum tempo muitos colaboradores conseguiram alçar seus voos solos dentro da própria empresa, como é o caso de Hiromasa Yonebayashi, animador do Ghibli desde 1997 e que já tinha provado seu talento como diretor-solo em sua animação de estreia O Mundo dos Pequeninos. A suposta última produção do estúdio narra a experiência única e enriquecedora vivida pela jovem e solitária Anna que perdeu seus pais muito cedo e desde então vive com Yoriko, sua tutora, que preocupada com a saúde frágil da garota e suas constantes crises de asma decide mandá-la para uma temporada em um bucólico vilarejo junto aos seus tios Setsu e Kiyomasa. Sempre introvertida e com dificuldades para lidar com as pessoas, principalmente da sua mesma faixa etária, ela encontra na habilidade para desenhar a melhor forma para se expressar.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

RECÉM-CASADOS

NOTA 4,5

Apesar da ideia levemente diferente
de mostrar as confusões de um casal
após o suposto felizes para sempre,
comédia busca risos em situações fáceis
Para muitos casais os dizeres "que sejam felizes até que a morte os separe" deveria ser substituído imediatamente ao subirem ao altar pela frase "que sejam felizes até que o casamento os separe". Parece incoerente, mas é a mais pura verdade. Enquanto namoram tudo parece maravilhoso e os planos para trocar alianças parecem completar a felicidade. Porém, bastam oficializar o compromisso que a impressão é que o mundo perfeito desmorona. É a partir do ponto que geralmente encerra as histórias de amor do cinema que se desenrola a trama do filme Recém-Casados, inesperado sucesso que em 2003 conseguiu o feito de desbancar O Senhor dos Anéis - As Duas Torres do topo das bilheterias americanas, prova da força do gênero comédia romântica em solo ianque. Em outros países, como no Brasil, a fita não foi arrebatadora, apenas cumpriu sua função de entreter alguns poucos adolescentes que se divertem com piadas escatológicas e de duplo sentido, mas até que a trama tem seus momentos de fato divertidos e conta com protagonistas carismáticos. O mulherengo Tom Leezal (Ashton Kutcher) é um radialista apaixonado por esportes, mas vai ter que aprender a dividir seu coração com Sarah McNemey (Brittany Murphy), uma patricinha por quem cai de amores literalmente por acidente. Para desgosto da família da moça que sonhava com um partido de mais posses e ambições, eles passam a morar juntos em um mês e antes mesmo de completarem um ano juntos resolvem se casar e partir rumo à romântica cidade de Veneza, na Itália. Contudo, ainda no avião rumo a viagem de lua-de-mel, as coisas começam a desandar. Acidentes, mal entendidos, brigas, gente metendo o bedelho no relacionamento... Tudo colabora para o passeio ser infernal e minguar a relação dos pombinhos. Tem ainda um quê de preconceito quanto a diferença social entre eles, mas nada para se levar a sério.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A BOA MENTIRA

NOTA 7,0

Drama de sudaneses chama a
atenção em seu início, mas quando
chegam aos EUA trama perde força e
suposta protagonista revela-se secundária
O continente africano ao longo de seu desenvolvimento foi marcado por inúmeros conflitos por conta de preconceitos étnicos ou religiosos e questões políticas envolvendo disputas territoriais e exploração da escravidão, entre outras tantas razões. Desses eventos, sejam de pequeno ou grande porte, são poucos os que chegaram a conhecimento público com riqueza de detalhes. Os livros de História são pequenos para abordar tanto conteúdo, até porque em regra geral nos é ensinado apenas questões relacionados ao continente norte-americano e de alguns países europeus e asiáticos que foram ou ainda são considerados grandes potências. Ainda bem que temos o cinema para nos apresentar e servir de registro de passagens importantes da evolução (ou não) da civilização e consequentemente do mundo como um todo. A Boa Mentira traz o retrato de mais um triste e pouco conhecido capítulo vivido pelo povo africano, mais especificamente de um grupo de jovens sudaneses forçados a abandonar a sua pátria e se adaptar a toque de caixa à cultura e ao agitado e doentio cotidiano dos ianques. Em meados da década de 1980 um conflito por terras e riquezas levou uma tribo no Sudão a ser dizimada por militares e os sobreviventes foram obrigados a se aventurar pelo deserto em busca de um lugar seguro. Entre eles estão os irmãos de sangue Marmere (Arnold Oceng), Abital (Kuoth Wiehl) e Theo (Femi Oguns) e os irmãos de coração Jeremiah (Ger Duany) e Paul (Emmanuel Jal). Após muitos sofrimentos e privações sob o calor escaldante da infância à juventude, incluindo ter que beber urina para não morrerem de sede, o grupo consegue chegar a um campo de refugiados no Quênia. Somente Theo não conseguiu chegar ao fim da travessia, pois se entregou aos guerrilheiros para salvar os demais. A sorte volta a sorrir para os jovens após mais de uma década de incertezas, quando mesmo após uma onda de xenofobia instaurada após o 11 de setembro de 2001 surge uma oportunidade de intercâmbio para os EUA onde seriam acolhidos por voluntários e contratados em pequenos comércios e fábricas. Todavia, o tal sonho americano revela-se frustrante desde o desembarque no aeroporto, o que explica o título.

terça-feira, 4 de julho de 2017

MINHA MÃE É UMA PEÇA 2

NOTA 7,0

Sequência das peripécias da
mãezona tresloucada é tão boa
quanto o filme original, mas acende o
sinal de alerta quanto a repetição de temas
Ela está em cena de novo! Minha Mãe é Uma Peça 2 traz de volta Dona Hermínia, a mãe superprotetora, falastrona e que não leva desaforo para casa, mas também uma mulher invariavelmente engraçada, carismática e fácil identificação com o público. Não é a toa que seu primeiro filme foi a maior bilheteria do cinema nacional em 2013 e sua continuação praticamente dobrou o número de espectadores. O segredo de tanto sucesso atende pelo nome de Paulo Gustavo, um fenômeno popular mesmo estando fora da maior vitrine publicitária do Brasil, a Rede Globo. Melhor dizendo, ele não é um contratado, mas sempre está em cartaz com algum seriado de humor no Multishow, canal fechado pertencente ao mesmo conglomerado de comunicação, e seus filmes ganham propaganda maciça na programação do plim-plim. Só não é ou foi um global ainda talvez porque seu estilo de fazer comédia não se encaixe em um padrão para toda família. É curioso que o cotidiano de Hermínia, que criou com inspiração em sua própria mãe, conquiste desde crianças até velhinhos, mesmo com palavrões e algumas poucas piadas de duplo sentido. Todos tem alguma tia, prima, vizinha ou até mesmo uma mãe nesse mesmo estilo e é praticamente impossível não dar algumas gargalhadas com suas atrapalhadas e jeito desbocado de ser. Mais uma vez com roteiro do próprio ator em parceria com Fil Braz, a sequência também se apoia totalmente sobre a protagonista que continua com suas exageradas preocupações a respeito do que seus filhos fazem ou deixam de fazer. Mais velhos e ligeiramente menos imaturos, os pimpolhos agora querem deixar Niterói, no Rio de Janeiro, e desbravar novos horizontes, mais especificamente a cidade de São Paulo. Marcelina (Mariana Xavier) continua a mesma esfomeada de sempre, mas decide ocupar parte de seu tempo ocioso investindo em um curso de teatro. Já Juliano (Rodrigo Pandolfo) está batalhando um emprego em um conceituado escritório paulista de advocacia e em dúvida quanto a sua sexualidade. Se antes se assumia um gay convicto, agora acredita que pode ser bissexual ou até mesmo um hétero pegador. E Garib (Bruno Bebianno), o primogênito, mais uma vez não recebe atenção do roteiro e é acionado apenas para lembrar que agora Hermínia também é vovó, notícia que encerrou abruptamente o filme original.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

MINHA MÃE É UMA PEÇA - O FILME

NOTA 8,0

Adendo "o filme" no título serve para
lembrar que estamos vendo um produto
feito para o cinema apesar de sua
estética e ritmo de humorístico de TV
Podem criticar à vontade, mas é inegável que se hoje temos produções nacionais suficientes para brigar por espaço com badalados filmes estrangeiros isso se deve a arrecadação de nossas comédias. E não são aquelas de humor cabeça que passam anos em produção para depois ficar uma semana em cartaz ou que apenas gastam incentivos do governo para massagear o ego de seus realizadores. O que dá dinheiro são aquelas bem populares com jeito de episódio de seriado da Globo com duração acima da média. Neste subgrupo se encaixam também as adaptações teatrais, textos que fizeram sucesso nos palcos e buscam ampliar seu público chegando a lugares onde as peças não teriam condições de serem apresentadas. Todavia, Caixa 2, Polaróides Urbanas  e Fica Comigo Esta Noite são apenas alguns exemplos de tentativas frustradas de se fazer essa transição dos palcos para a telona. Já A Partilha, E aí... Comeu? e Trair e Coçar é Só Começar conseguiram resultados mais satisfatórios em termos de repercussão popular, mas não podemos deixar de citar o fracasso do badalado projeto de Irma Vap – O Retorno. A onda de adaptações do tipo já poderia ter sido abolida há algum tempo, mas como lidar com a tentação de lucrar alguns trocados com projetos simples e de cronograma curto, ainda mais com o benefício de uma publicidade extra de uma boa carreira no teatro? Minha Mãe é Uma Peça – O Filme teve um lançamento sustentado pelo marketing de que mais de um milhão de espectadores assistiram ao espetáculo durante os seis anos em que foi encenado Brasil afora. A razão do sucesso atende pelo nome de Paulo Gustavo, comediante que despontou na mídia feito foguete mesmo sem o respaldo do “plim-plim”. Apesar de toda superexposição que teve repentinamente, o humorista não é contratado da Globo, fez seu nome basicamente no teatro e foi catapultado ao estrelato participando de seriados e programas de canais fechados (embora pertencentes ao grupo dos globais). Após atuar no filme Divã, ele virou uma espécie de arroz de festa. Vira e mexe está dando entrevistas ou fazendo participações especiais na TV, tornando-se um rosto tão famoso e enjoativo quanto de Fábio Porchat, Bruno Mazzeo ou Marcelo Adnet, todos coincidentemente bombando nos cinemas com produções de humor rasteiro e clichê tão similares que fica até difícil saber quem protagonizou o quê.

domingo, 2 de julho de 2017

A CHEFA

Nota 3,0 Feito para atriz principal brilhar, comédia é rasteira e com argumento mal desenvolvido

Quem é Melissa McCarthy? Até o sucesso de Missão Madrinha de Casamento, que lhe rendeu uma inesperada indicação ao Oscar como coadjuvante, ela era apenas uma ilustre desconhecida, aquela gordinha engraçada que você sabe que já viu em algum filme ou série, mas cujo nome não sabia ou lembrava. Sua primeira cena em A Chefa, coincidência ou não, lembra bastante a postura da atriz em aparições públicas após as indicações a prêmios: cheia de marra e vendendo a imagem de uma pessoa vitoriosa e amada por todos. Michelle Darnell, sua personagem, faz a abertura do show de um rapper e é ovacionada por milhares de pessoas inebriadas por sua aura de sucesso. Dona de várias empresas e autora de um best-seller de auto-ajuda, ela faz questão de destacar que se tem muito dinheiro e poder é graças a muita dedicação ao trabalho, mas nos bastidores ela é odiada por aqueles que são obrigados a conviver com sua tirania e futilidade. Claire (Kristen Bell), sua assistente há anos, nunca reclamou dos mandos e desmandos, mas está aguardando uma promoção faz tempo e quando decide colocar a empresária contra a parede é tarde demais. Investigada em um caso de corrupção e espionagem empresarial, a magnata que até então se considerava intocável e que tudo seu dinheiro poderia comprar acaba indo parar atrás das grades. Meses depois lhe é concedida liberdade condicional, mas agora todo seu patrimônio está confiscado e apenas Claire que tanto humilhou e explorou é quem oferece ajuda, muito por insistência de Rachel (Ella Anderson), a filha pequena de sua ex-colaboradora que é mãe solteira. Michelle então vai morar por alguns dias no pequeno apartamento delas, mas espaçosa como ela só a estadia acaba se estendendo a perder de vista e a convivência inicialmente é bastante conturbada. Contudo, o roteiro simplifica tal relação ao máximo e num passe de mágica  a harmonia reina absoluta entre elas a ponto de firmarem uma sociedade para venderem brownies, a especialidade de Claire na cozinha.

sábado, 1 de julho de 2017

O CADÁVER DE ANNA FRITZ

Nota 8,0 Fita espanhola prende atenção com trama sobre questionamentos morais, culpa e desejo

Já faz algum tempo que o cinema espanhol é considerado o berço do horror, tanto que Hollywood rapidinho começou a assediar diretores e roteiristas espanhóis que ganharam fama com suas produções de terror e suspense ou até mesmo passou a financiar projetos estrangeiros do estilo. Guillermo Del Toro sem dúvida é o nome de destaque dessa onda graças a seu trabalho não só de direção, mas principalmente como produtor, e assim bons produtos com sotaque latino conseguiram distribuição em outros países. O caminho foi aberto para tantos outros realizadores, entre eles muitos jovens talentos que com orçamentos enxutos e muita criatividade lançam pequenas jóias, como é o caso de O Cadáver de Anna Fritz. Interpretada por Alba Ribas, a mulher do título (fictícia, fique bem claro) foi uma jovem e bela atriz que teve uma carreira curta, porém brilhante e os mais conceituados cineastas do mundo todo desejavam trabalhar com ela, trunfo que poucos tiveram o privilégio. Sua morte prematura e repentina inevitavelmente acabou virando notícia de destaque e aguçou a curiosidade de muita gente. Pau (Albert Carbó) trabalha no hospital em que o corpo dela foi levado para autópsia, mas antes que o médico legista a veja ele não resiste e a fotografa nua para enviar as imagens aos amigos Javi (Bernat Saumell) e Ivan (Christian Valencia). Drogados e inconsequentes, os rapazes correm para a clínica e ficam extasiados com a beleza da atriz. É quando Javi tem a péssima ideia de realizar um mórbido fetiche: transar com o cadáver. Pau, mais sensato e tímido, tenta resistir a tentação, mas acaba também praticando necrofilia e no clímax da relação é surpreendido por algo inimaginável e que vai transformar a noite deles em um verdadeiro pesadelo.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

A CIDADE DOS AMALDIÇOADOS

NOTA 6,5

Apesar de conter certo teor crítico,
conceito se perde em trama arrastada
e com vários aspectos que tornaram o
filme envelhecido desde o lançamento
Crianças endemoniadas, psicologicamente perturbadas ou simplesmente malvadas por natureza já renderam ótimos filmes de horror e suspense. O Exorcista, A Profecia e Colheita Maldita são alguns exemplos de produções de sucesso, mas há muitas outras que não conseguiram o mesmo nível de repercussão ou status, como é o caso de A Cidade dos Amaldiçoados. Mais conhecida por ser o último trabalho para o cinema do saudoso Christopher Reeve antes do acidente que o deixou paraplégico, a fita fracassou nas bilheterias e os críticos foram impiedosos em suas avaliações. Sem fôlego para ser considerado um clássico como os filmes citados, ao menos hoje o longa tem a seu favor o aspecto nostálgico. Além do chamariz de contar com o eterno Super-Homem como protagonista, a trama tem um ritmo bastante lento e mínimos efeitos especiais, atmosfera e estética que fazem a fita nem parecer ter sido realizada em meados da década de 1990. Poderia muito bem ter sido lançada nos tempos áureos do diretor John Carpenter, contemporânea a obras como Halloween - A Noite do Terror ou Christine - O Carro Assassino, todavia, pelo enredo e direção pouco inspirados certamente não escaparia de ser rotulado como um dos piores trabalhos do cineasta considerado um dos mestres do terror. Reeve interpreta Alan Chaffee, um homem comum que se vê envolvido com um problema sobrenatural após se tornar pai. Certo dia, exatamente as dez horas da manhã, a pequena cidade de Midwich é vítima de um estranho fenômeno no qual sua população e até mesmo os animais permanecem desmaiados por algum tempo. Quando recobram a consciência ninguém se lembra de nada, mas passados alguns dias constata-se que as mulheres em idade fértil estão grávidas. O período de gestação coincide com o estranho episódio e chama a atenção que até mesmo virgens, jovens viúvas e aquelas cujos companheiros não estavam no vilarejo naquele dia agora carregam um feto no ventre. O governo dos EUA escala a Dra. Susan Verner (Kirstie Alley) para investigar os casos e ela propõe total assistência médica e ajuda financeira vitalícia às crianças desde que seus desenvolvimentos possam ser acompanhados periodicamente por uma equipe médica especializada.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

CADÊ OS MORGAN?

NOTA 6,0

Encontro de dois queridinhos do
público feminino se apoia em piadas
previsíveis sobre choque cultural, mas
carisma dos atores eleva a produção
Sarah Jessica Parker caiu nas graças do público feminino com o seriado e os filmes Sex And The City. Hugh Grant construiu sua carreira tendo com alicerces sua cara de bom moço e charme inglês e se tornou um sinônimo de comédias românticas, tendo como um de seus ápices Um Lugar Chamado Notthing Hill. Um encontro cinematográfico entre eles demorou, mas aconteceu no despretensioso Cadê os Morgan? no qual vivem Meryl e Paul, ela uma corretora de imóveis de sucesso e ele um requisitado advogado. Workaholics assumidos, o tempo passou e eles não tiveram filhos, o que certamente balançou a relação. A gota d'água foi uma pulada de cerca do rapaz, mas prestes a assinarem o divórcio ele quase consegue fazê-la desistir da ideia após um jantar romântico. Isso se a noite não terminasse com o casal testemunhando um assassinato e visto o rosto do criminoso. Agora eles são obrigados pelo FBI a abandonarem Nova York e entrarem para o programa de proteção às testemunhas, assim são enviados à pequena cidade de Ray no interior dos EUA e ganham até novo sobrenome. Sem celular, internet e TV a cabo para se distraírem, o casal ainda será forçado a voltar a morar sob um mesmo teto, pelo menos por alguns dias, e serão acolhidos por um outro casal, o xerife Wheeler (Sam Elliott) e sua esposa Emma (Mary Steenburgen), mais experientes e em plena harmonia. A convivência obviamente fará com que os Morgan repensem a relação. E não é só isso. O cotidiano tranquilo do interior também os faz rever suas rotinas ensinando-os a valorizar as coisas simples da vida. O roteiro de Marc Lawrence, também diretor, é limitado a fazer graça contrastando os costumes e bucolismo do campo com a agitação e neuroses metropolitanas. Algumas piadas são previsíveis, como reclamarem do silêncio absoluto a noite e a sufocante pureza do ar. Outras soam exageradas, como ter à mão um manual de instruções para se proteger se porventura um urso invadir seu jardim. Todavia também há boas sacadas envolvendo a política da boa vizinhança que impera na cidade. Todos se conhecem e se ajudam.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A ÚLTIMA PREMONIÇÃO

NOTA 2,0

Calcado em clichês e com

atuações apáticas, longa tenta
surpreender com final surpresa que
no fundo é um tremendo engodo
O título nacional vende bem o peixe. Ou seria vende mal? A Última Premonição tem a proeza de entregar em apenas duas palavras o desfecho de uma história completamente insossa, porém, há quem aponte o último ato como uma cartada certeira para compensar a chatice do restante do filme. Surpreendente ou não, o desfecho não é o suficiente para poupar o diretor Kevin Greutert de umas boas broncas. Parece que se esforçou propositalmente para criar uma das piores produções de suspense dos últimos anos. Assim como em Jessabelle - O Passado Nunca Morre, seu trabalho anterior tão ruim quanto este, o cineasta se cercou de praticamente todos os clichês possíveis, a começar pelo gancho da protagonista traumatizada que se muda para um local isolado para recomeçar a vida. O casal Eveleigh (Isla Fisher) e David Maddox (Anson Mount) decidem deixar a cidade grande e adquirem uma chácara no interior onde pretendem reativar um abandonado vinhedo. Contudo, logo são questionados sobre a coragem de investirem seu tempo e suas economias em um local onde nada rende frutos, um sinal de que deveriam repensar se fizeram um bom negócio. Ganhar dinheiro para eles na verdade é o de menos. O que desejam é oferecer uma melhor qualidade de vida para o filho que estão esperando e esquecer as lembranças de um acidente de carro no qual a moça se envolveu há cerca de um ano e que resultou na morte de uma criança. Eveleigh desde então vive atormentada, principalmente agora que vai ser mãe, mas a mudança de endereço parece só ter piorado as coisas. Dia e noite ela é torturada por vozes, pesadelos, barulhos estranhos e visões de um vulto encapuzado. Para variar ninguém vê ou escuta tais alucinações e como sua atual residência é envolta de mistérios por conta de um episódio do passado a jovem acredita estar tendo visões de alguma tragédia ocorrida por lá, mas como o infeliz título deixa explícito não se tratam de memórias despertadas e sim previsões de algo que irá acontecer, mas Eveleigh só se dará conta disso tarde demais.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

DOIS É BOM, TRÊS É DEMAIS

NOTA 3,5

Com Owen Wilson apenas
reciclando o papel de marmanjo
imaturo, comédia não traz novidades
e se arrasta com piadas previsíveis
Você se lembra da comédia Duplex? Drew Barrymore e Ben Stiller interpretavam os simpáticos protagonistas começando a vida a dois de maneira bastante conturbada. Embora moradora do segundo andar, a velhinha vivida pela divertida Eileen Essell aprontava mil e uma para tirar o casal do sério propositalmente. Analisando de maneira bastante simplista, Dois é Bom, Três é Demais praticamente conta a mesma história com destaque para o personagem de Owen Wilson, também produtor da fita. Ele vive Randolph Dupree, o encosto da vez, porém, sem querer querendo. Sem ter onde morar e desempregado, ele acaba sendo acolhido por Carl Peterson (Matt Dillon), que acredita ter a obrigação moral de ajudar seu melhor amigo desde os tempos do colégio, uma amizade sincera embora os dois tenham perfis completamente opostos. O problema é que o jovem executivo acaba de se casar com Molly (Kate Hudson) e mal terá tempo para aproveitar o lar doce lar. Compreensiva, a esposa não faz objeções quanto ao ato de caridade, mas não tarda a se arrepender. Da posse da mensagem gravada na secretária eletrônica, passando pelo inconveniente de ter que dividir o banheiro da suíte dos pombinhos e chegando ao cúmulo de um aviso de não perturbe na porta de entrada para não atrapalhar uma transa, Dupree é um mala sem alça que leva ao pé da letra mensagens do tipo "fique à vontade" ou "sinta-se como se estivesse em sua casa". O que era para ser uma estadia de alguns dias, acaba se prolongando indefinidamente. Ao invés de procurar emprego, coisa que até tenta fazer, mas sempre ele próprio se desqualificando às vagas, o marmanjão gasta seu tempo brincando com as crianças e adolescentes da rua, organizando reuniões com amigos e não perde a chance de dar pitacos na vida do casal recém-formado e careta. Ele até tem consciência que erra e tenta se redimir com algumas boas ações, mas nunca aprende com seus deslizes. Sempre sendo perdoado, só lhe cai a ficha que é um fardo para os amigos quando literalmente coloca fogo na casa com mais uma de suas aventuras sexuais.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

OLIVER TWIST (2005)

NOTA 5,0

Adaptação de Roman Polanski de
clássico literário é esteticamente bela,
mas fica a dever em emoção e é estranha
à filmografia do premiado diretor
Clássico é sempre clássico e não pode ficar restrito a uma geração. Seja através da releituras literárias, adaptações para o cinema, televisão ou teatro ou tão somente ter algum trecho como fonte de inspiração para qualquer outra manifestação artística, é importante que obras de relevância do passado façam parte da cultura de épocas futuras. Pode-se inspirar nos originais para uma versão modernizada ou simplesmente seguir à risca os escritos sem permissão para ousadias, mas em ambos os casos existe o risco de errar. O clássico romance de Romeu e Julieta ou a trágica história de Hamlet são alguns exemplos de histórias que atravessam gerações, contadas e recontadas das mais variadas formas, mas certamente se algum diretor de cinema lançar a ideia de uma nova adaptação de qualquer uma destas obras será detonado nas redes sociais.  Com sua adaptação engessadinha de Oliver Twist o cultuado cineasta Roman Polanski não chegou a ser um grave alvo de chacotas, mas talvez tenha sentido o pior dos castigos para alguém que trabalha com artes: seu filme foi ignorado pelo público e crítica. Mesmo premiado no Festival de Toronto, o drama ganhou lançamento limitado nos EUA e em vários outros países. E infelizmente não podemos dizer que tenha sido uma injustiça. Visualmente belo, o grande problema deste trabalho está no roteiro que conta uma história que apesar de batida conquista inicialmente, mas perde o vínculo emocional com o espectador ao estender demais o drama do pequeno protagonista. O carismático Barney Clark defende o personagem-título, um garoto órfão que recebe em um orfanato um sobrenome um tanto sofisticado, porém, sua vida passa longe de luxos e riquezas. Pelo contrário. Sua infância é marcada por tristezas, abusos e miséria. À mercê da sociedade londrina do início do século 19, hipócrita e sem escrúpulos, o menino foge do cruel sistema de caridade governamental, no qual é submetido a trabalho escravo, e consegue ser adotado pela família do Sr. Sowerberry (Michael Heath) que vive da venda de caixões, mas sua sina de maus tratos não tem fim. Após uma desavença com Noah (Chris Overton), seu irmão de criação, o órfão é espancado e trancado em um frio e escuro porão. É quando decide fugir e se aventura a buscar melhores condições de vida.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

OS CROODS

NOTA 8,0

Abordando assuntos atuais tendo
como pano de fundo a idade da pedra,
animação tem ritmo frenético e boas
piadas, mas no fim se rende às tradições
Desde que Toy Story foi lançado tornou-se uma obsessão dos estúdios realizar animações com tecnologia de ponta e narrativas que agradassem não só as crianças, mas também aos adultos, estes que as vezes parecem ser o verdadeiro público-alvo de algumas fitas. Não basta mais apenas fazer a alegria dos filhos. Virou regra que os pais fiquem tão ou mais satisfeitos que os pequenos com o programa-família. Os Croods cumpre bem a tarefa de agradar a todas as idades contando uma história divertida e cujo subtexto debocha de assuntos sempre atuais, como a alienação e o medo. A grande sacada é tratar de assuntos contemporâneos e de fácil identificação tendo a idade da pedra como ambientação. Gru é o patriarca da família do titulo, um dos poucos grupos que sobreviveram as mudanças físicas e climáticas do planeta escondendo-se literalmente do mundo. Rude e avesso a novidades, ele acredita que a única maneira de manter seus parentes em segurança é alimentando seus medos, assim praticamente tudo é motivo para se meterem em qualquer buraco para se esconderem, principalmente a noite que com os possíveis perigos que carrega soa como um presságio de morte para o brucutu. Contudo, por mais que fosse cauteloso, ele não tinha o poder de parar o tempo, as coisas mudam constantemente e sua filha mais velha Eep já começava a apresentar sinais de rebeldia típicos de adolescentes afoitos para explorar novos horizontes. Com essa relação conflituosa estabelecida, a animação é calcada no processo de descobertas e adaptação dos Croods há uma nova realidade, tudo mediado por um jovem chamado Guy que se junto ao grupo trazendo conhecimentos do outro lado do mundo, como o conhecimento de lidar com o fogo. Física e emocionalmente mais evoluído que o tal clã, além de ser bem mais racional, o rapaz logo chama a atenção de Eep, mas seu estilo moderninho de ser e de viver bate imediatamente de frente com o jeitão super protetor e antiquado de Gru, este que mesmo sendo um boçal sempre fora respeitado como alguém sábio e com espírito de liderança. Perder tal papel para ele era inadmissível, tampouco dividir as atenções, ainda mais para o paquera da filhota.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A FAMÍLIA BÉLIER

NOTA 8,0

Apesar de não se aprofundar, longa francês
acerta ao abordar a realização de um
sonho estendendo a discussão sobre como
tal decisão pode afetar outras pessoas
Uma garota descobre por acaso seu talento para a música, mas para poder viver de seu dom terá de enfrentar diversas dificuldades, incluindo romper laços afetivos e afins. Hollywood há décadas aproveita tal argumento, principalmente para abastecer o entretenimento doméstico, um jeito fácil e barato que antes abastecia videolocadoras e hoje preenche a programação dos canais por assinatura. A tática também é utilizada quando há o desejo de lançar como atriz uma já famosa cantora. Mariah Carey, Britney Spears e Christina Aguilera tentaram carreira nas telonas, mas felizmente parecem ter tido noção da extensão de seus talentos e desistiram a tempo de evitarem ser alvo de eternas chacotas. Outras já tiveram mais sorte em transitar entre a música e o cinema como Cher, Beyoncé Knowles e Madonna, ainda que a diva loura colecione alguns lampejos de sucesso como atriz em meio a diversos fracassos. Filmes cujo real objetivo é promover cantoras dificilmente não deixam de ser meros passatempos esquecíveis desde sua concepção inicial, mas eis que diretamente da França chega uma agradável surpresa desta seara. A simpática comédia-dramática A Família Bélier ganha pontos em diversos quesitos, entre eles o elenco afiado e a narrativa que, embora não seja original, não se restringe a realização de um sonho individual, lançando um olhar mais amplo ao abordar as consequências de uma decisão para toda uma família. A trama tem como protagonista Paula, interpretada por Louane Emera que ficou famosa em território francês por participar do programa local "The Voice". A personagem vive em uma pequena cidade do interior e ajuda a família a cuidar da fazenda de onde tiram o próprio sustento. Mais do que ordenhar vacas ou semear pastos, a garota é quem faz o elo entre seus parentes e a sociedade. Rodolphe (François Damiens) e Gigi (Karine Viard), seus pais, e também Quentin (Luca Gelberg), seu irmão caçula, são surdos-mudos e Paula atua como intérprete se encarregando de traduzir a linguagem de sinais para amigos e vizinhos, além de mediar as negociações das vendas dos queijos que eles próprios produzem. Contudo, sua voz tem potencial para algo muito maior.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

AS BRANQUELAS

NOTA 2,0

Apesar de se sustentar sob uma
farsa tosca e mal arquitetada,
comédia é um sucesso de popularidade,
talvez justamente por ser mal feita
Quando vai ao ar a chamada de que mais uma vez A Lagoa Azul ou Ghost - Do Outro Lado da Vida vai ser exibido na "Sessão da Tarde" são inevitáveis as piadinhas quanto ao prazo de validade dos filmes (há controvérsias quanto a isso) e sobre a falta de bons programas para rechear a TV aberta. A lista de repetecos da clássica faixa de filmes da Globo é gigantesca, porém, o que é oferecido pelos canais pagos também não fica muito atrás. Reprises de fitas populares como De Repente 30, A Sogra e Como Se Fosse a Primeira Vez batem cartão com frequência em variados canais semanalmente, mas o caso da comédia besteirol As Branquelas é digno de uma análise mais profunda sobre números de audiência, perfil dos espectadores ou simplesmente para constatar a falta de conteúdo dos canais por assinatura. Praticamente todos os dias o longa é exibido em algum canal, isso quando também não é exibido duas vezes ou até mesmo simultaneamente. Qual o segredo para tanta popularidade? Aparentemente nenhum, apenas mais um certeiro golpe de sorte dos irmãos Marlon e Shawn Wayans que já tinham tirado a sorte grande com o deboche Todo Mundo em Pânico. Eles vivem respectivamente Marcus e Kevin Copeland, agentes do FBI que estão com o emprego por um fio após fracassarem feio em sua última missão. Dispostos a mostrar serviço eles embarcam por conta própria em uma secretíssima operação. Eles descobrem que as milionárias irmãs Wilson, Brittany (Maitland Ward) e Tiffany (Anne Dudek), duas patricinhas loucas por fama e diversão, estão na mira de sequestradores. Contudo, o caso é entregue aos agentes Vincent Gomez (Eddie Velez) e Jack Harper (Lochlyn Munro), uma dupla tão atrapalhada quanto os outros dois detetives que acabaram incumbidos da simplória e ingrata tarefa de escoltarem as jovens socialites durante um fim de semana em Beverly Hills. Elas vieram especialmente para participarem de um badalado evento em que sonham ser o centro das atenções e estamparem a capa de uma famosa revista. De fato elas vão roubar a cena, ou melhor, suas substitutas.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A TROCA

NOTA 9,0

Angelina Jolie carrega nas costas
drama baseado em fatos reais que se
estende além do necessário, mas ainda
assim uma opção de primeira e requintada
Histórias baseadas em fatos reais costumam dividir opiniões. Muitos compram a ideia de que realmente tudo que se vê na tela de fato aconteceu enquanto outros tem a sabedoria de compreender que muitas passagens são adaptadas ou até mesmo inventadas em prol dos objetivos de seus realizadores. Com A Troca, drama de época dirigido por Clint Eastwood, não foi diferente, sendo que a produção colheu um considerável número de críticas negativas. Ou melhor, em partes. Tecnicamente o longa é correto, com reconstituição de época, fotografia e iluminação de primeira, mas em questões narrativas muitos condenam a opção pelo melodrama rasgado e que estende além do necessário o drama vivido por Christine Collins (Angelina Jolie), embora ele propicie facilmente a identificação com o público. Em meados de 1928, em Los Angeles, a telefonista sai de casa em um sábado a tarde para trabalhar tranquilamente não imaginando que aquela seria a última vez que poderia abraçar e beijar seu pequeno filho Walter. Quando volta ele simplesmente sumiu sem sinal algum de que possa ter ocorrido algum tipo de violência ou furto em sua casa. De imediato ela procura ajuda da polícia que age desdenhosamente no caso. Após cerca de cinco meses de angústia finalmente vem a notícia de que o garoto fora encontrado, mas na verdade Christine é forçada a aceitar uma criança em sua vida. Na época o Departamento de Polícia local estava com sua credibilidade abalada e precisava com urgência de uma boa ação para recuperar seu prestígio. Atordoada com o assédio da mídia e dos populares, além de sua própria excitação com a boa nova, Christine aceita levar o suposto Walter para casa, mas no fundo sabe que está se agarrando em vão em um breve momento de conforto. Persuadida a acreditar que o menino está diferente tanto física quanto emocionalmente por conta do trauma do sumiço e pelo passar do tempo, ela tira a prova dos nove comprovando a ausência de um sinal de nascença no corpo da criança. Revoltada, ela decide enfrentar a justiça, mas acaba caindo em uma perigosa armadilha na qual sua vida é colocada em risco para manter uma farsa orquestrada por gente poderosa e influente. Mulher, mãe solteira e corajosa, Christine passa a ser vítima de preconceito e rejeição. Tachada como louca, ela chega inclusive a ser internada em um hospital psiquiátrico onde sofre diversos abusos e humilhações. Nessa fase ela conta com o apoio do Reverendo Gustav Briegleb (John Malkovich), que bem relacionado consegue colocar boa parte da imprensa e dos populares a seu favor e a ajudou a manter sua determinação viva em busca da verdade.

sexta-feira, 17 de março de 2017

A MORTE LHE CAI BEM

NOTA 8,0

Com protagonistas de peso e com
boa química, comédia ácida sobre o preço
da vaidade poderia ir além, mas nota-se
preocupação maior com efeitos especiais
O título cairia como uma luva para uma obra do excêntrico e mórbido Tim Burton, mas o fato é que A Morte Lhe Cai Bem passou bem longe das mãos do cineasta e caiu direto no colo de Robert Zemeckis, na época em evidência por conta do sucesso da trilogia De Volta Para o Futuro e do incrível encontro entre desenhos animados e atores reais que conseguiu com Uma Cilada Para Roger Rabbit. Sua então nova missão seria comandar uma comédia ácida e crítica a respeito do culto exagerado à beleza e até mesmo do sucesso, porém, mais uma vez colocando os efeitos especiais em destaque, mas nem por isso suplantando o trabalho do elenco talentoso e que deixa transparecer o quanto foi divertido atuar nesta produção. A trama roteirizada por David Koepp e Martin Donovan começa em meados da década de 1970 quando a pretensiosa atriz Madeline Ashton (Meryl Streep) está estreando seu show musical em um teatro. Enquanto se esgoela e requebra no palco o quanto pode, na plateia o público se divide entre caretas e fugas repentinas em sinal de reprovação, mas ainda assim ela consegue conquistar a atenção de um espectador em especial. Ernest Menville (Bruce Willis) é um bem-sucedido cirurgião plástico que se encanta a primeira vista com a atriz e de imediato é correspondido. Bem, por parte dela não era necessariamente amor e sim interesse em seus talentos profissionais que poderiam lhe economizar alguns milhões com procedimentos e produtos estéticos, além de alimentar seu prazer egoísta em mais uma vez atrapalhar a vida de Helen Sharp (Goldie Hawn), a noiva do médico. Escritora frustrada e mal amada, ela acaba perdendo o companheiro para a rival de longa data que já lhe roubara outros tantos namorados. Depressiva e sem rumo, a autora se entrega totalmente ao ócio e à gula e chega até a ser internada em um hospital psiquiátrico. Quando chega no fundo do poço acaba reagindo motivada pelo desejo de vingança e anos mais tarde eis que ressurge em grande estilo para colocar seu plano em prática.

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