segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

NOTA 9,0

Drama mostra lado pouco
esplendoroso da Índia através da
história de rapaz de origem humilde
que literalmente vence na vida
Entra ano e sai ano e muita gente continua com suas simpatias e rituais em busca de ajuda para conseguir uma vida financeira confortável. Bem, já que a maioria tem esse desejo, a dica é fechar o ano assistindo Quem Quer Ser Um Milionário?, elogiada e premiada produção americana que mostrou ao mundo uma Índia realista, pobre, repleta de problemas, mas ainda assim com uma população esperançosa. A sugestão não é só pelo fato de ter dinheiro envolvido na história, mas principalmente pela mensagem de otimismo e reflexiva que o filme nos deixa. A câmera do eclético diretor Danny Boyle apresenta o cotidiano do povão que por coincidência não difere muito da realidade das áreas menos favorecidas brasileiras. Até mais interessante que o próprio filme em si é a sua trajetória desde a concepção até o clímax, a festa do Oscar. Um diretor que já trabalhou com a juventude rebelde, lidou com zumbis, frequentou uma ilha aparentemente deserta e se aventurou pela ficção científica em uma época em que o gênero estava praticamente sepultado, só prova que ele não tem medo de experimentar, testar novos temas e ambientações. Por isso não é para se estranhar a sua audácia de voltar suas atenções para um país pouco conhecido e procurar o que havia de mais comum e pobre por lá. O que é espantoso mesmo é a recepção acalorada do público e crítica americana a uma obra com diversos diálogos em língua estrangeira, o hindu, o idioma oficial da índia, o que exige o uso de legendas, coisa que os ianques detestam. E o fenômeno não foi só por lá. Com uma mensagem universal, o longa fez uma carreira brilhante por onde passou e conquistou quase todos os prêmios disponíveis da temporada. O único senão é que o elenco foi esnobado nessas festas, algo já esperado por serem desconhecidos até então e pela origem indiana (foram selecionados entre os populares e aprenderam a atuar “pegando no batente”). Curiosamente, na própria Índia houve rejeição a este trabalho, muito porque condenaram a opção de explorar o universo de favela, mas se a história exige tal cenário não se pode fazer nada. Se a ambientação causa incômodo por expor mazelas sociais, o cinema nada mais fez que mostrar a realidade. Queixas devem ser direcionadas a governantes e afins para mudar esse quadro. O realismo da obra se deve muito ao auxílio do dramaturgo e cineasta indiano Loveleen Tandan, contratado para ceder uma minuciosa pesquisa sobre seu país, mas cuja importância foi tanta que acabou recebendo o crédito de co-diretor.

domingo, 30 de dezembro de 2018

UM PORTO SEGURO

Nota 5,0 Mais uma obra do romancista Nicholas Sparks apenas recicla sua velha fórmula

Assim como o nome do escritor Stephen King se tornou um chamariz para a indústria de cinema em menor proporção podemos dizer que a alcunha Nicholas Sparks também tem o seu valor. Autor de best sellers românticos com boa dose de drama, suas obras passaram a ser cobiçadas por produtores desde que Diário de Uma Paixão tornou-se instantaneamente um clássico do gênero. Não a toa é seu trabalho mais bem acabado estruturalmente e o que mais difere na lista do que já fora adaptado. Um Amor Para Recordar, Noites de Tormenta e Um Homem de Sorte, por exemplo, em comum possuem um casal bonitinho e carismático que se une contra todas as adversidades que possam surgir a fim de impedir que vivam esse amor, mas cuja trajetória culmina em algum final impactante ou traumático. Todas são obras tipicamente "sparkinianas", produções que contam histórias alienantes, mas inegavelmente com graça e beleza. Adaptado por Leslie Bohem e Dana Stevens, Um Porto Seguro engrossa tal lista apresentando mais um romance água-com-açúcar marcado por reviravoltas previsíveis. Após uma briga doméstica, Katie (Julianne Hough) foge de casa toda coberta de sangue e passa a ser perseguida pela polícia, mas consegue escapar e busca por acaso refúgio em uma bucólica cidadezinha no litoral dos EUA. No local, além de arranjar uma bela casa e um descontraído trabalho em um estalar de dedos, ela acaba fazendo amizade com Jo (Cobie Smulders), uma vizinha confidente, e após relutar um pouco inicia um romance com Alex (Josh Duhamel), o dono da mercearia local, viúvo boa-praça e pai de duas crianças. Como manda a cartilha de Sparks, o namoro é contemplado com dias ensolarados, bela paisagem natural, torcida dos amigos e muitas juras de amor. Tudo vai bem na vida da moça até que o passado volta para reencontrá-la através do obstinado detetive Tierney (David Lyons). É através de suas investigações e flashbacks que pouco a pouco vamos descobrindo o que Katie tanto luta para manter em segredo.

sábado, 29 de dezembro de 2018

SEGREDO DE SANGUE

Nota 4,0 Intrigas manjadas tentam segurar trama que não se aprofunda no tema possessividade

Jessica Lange já viveu seus tempos de glória, sendo uma das atrizes mais requisitadas na década de 1980, mas após conquistar seu segundo Oscar por Céu Azul em 1995 parece que o cinema a esqueceu. Ou seria o contrário? Ao aceitar co-estrelar o suspense Segredo de Sangue, genérico desde o título, parece que a estrela já não fazia mais questão alguma de ver seu nome emparelhado ao lado de outras grandes intérpretes em premiações renomadas. Só assim para explicar a sua até então inédita indicação ao Framboesa de Ouro, um mimo para os piores do cinema. Ela dá vida à Martha Baring, uma milionária de meia-idade acostumada a controlar a vida de Jackson (Jonnathon Schaech), seu único filho, um rapagão que mesmo morando em Nova York, longe dos olhos da mamãe, não foge de sua vigilância. Ela sabe que ele tem suas aventuras sexuais, mas jamais se preparou para o momento em que o rapaz decidisse lhe apresentar sua futura nora de fato. Eis que ele decide voltar à fazenda onde cresceu e visitá-la para os festejos de fim de ano levando a tiracolo não apenas a noiva Helen (Gwyneth Paltrow), mas sim a mãe de seu herdeiro que já cresce em seu ventre. O casal buscava refúgio após uma traumática situação de violência, porém, mal sabiam o que os esperava no campo. Lembram-se da reação de Jane Fonda em A Sogra ao ser apresentada à namorada do filho? Sua personagem no exato momento que conhece a futura nora começa a imaginar que está torturando a moça. Lange tem reação parecida, mas na cabeça de sua possessiva criação não paira uma cena besteirol com direito a enfiar a cara em um bolo e sim uma sequência de episódios para perturbar psicologicamente a jovem que acreditava estar sendo recebida naquela casa com total cordialidade. Contudo, não demora muito para ela se sentir desconfortável sob o mesmo teto que a sogra, principalmente quando descobre que ela rejeita e maltrata Alice (Nina Foch), a avó de seu marido.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

JUNTOS E MISTURADOS

NOTA 5,0

Terceira parceria entre Adam
Sandler e Drew Barrymore mostra
sinais de desgaste da dupla, mas estilo
de humor do ator ainda domina a fita
Adam Sandler e Drew Barrymore trabalharam juntos pela primeira vez em 1998 no pouco lembrado Afinado no Amor, interpretando dois jovens de perfis completamente opostos que se apaixonam à primeira  vista. Com uma premissa batida destas o ostracismo da fita é perfeitamente justificável. Mais sorte a dupla teve no reencontro seis anos mais tarde em Como Se Fosse a Primeira Vez. Com seus nomes já valendo peso de ouro e uma história bem mais elaborada, a do cara que precisa diariamente reconquistar uma garota que sofre de um estranho tipo de amnésia, essa comédia romântica caiu no gosto popular e se tornou campeã de reprises na televisão. A química do casal sem dúvidas é o grande trunfo da fita, não menosprezando o enredo levemente diferenciado. Se o passar de alguns poucos anos os beneficiou em termos de amadurecimento, tanto pessoal quanto profissional, que tal mais um reencontro, agora uma década depois? Sandler certamente deve ter pensado nisso quando convidou a atriz para dividir as atenções em Juntos e Misturados, mas o resultado não mostra avanços e sim retrocessos para seus currículos. A história começa com o primeiro encontro a sós de Jim (Sandler) e Lauren (Barrymore), mas o jantar mais parece uma aula prática de como fugir de um relacionamento. Da escolha do local, um restaurante famoso por suas garçonetes gostosonas vestindo roupas insinuantes, passando pela atenção especial dedicada ao que está passando na TV e até chegar ao prato principal com camarões apimentados que culmina em um escatológico fim de noite, a introdução não é nada convidativa. Depois disso eles acabam se cruzando vez ou outra por acaso, sempre em meio a situações embaraçosas, até que se veem obrigados a dividir uma mesma suíte em uma viagem para a África. Por uma daquelas estranhas coincidências roteirísticas, somos forçados a engolir que o passeio a um resort de luxo com tudo pago caiu dos céus para ambos. Detalhe, o público-alvo do lugar são casais a fim de curtir uma segunda lua-de-mel, a maioria levando a tira-colo os filhos, uma peculiaridade que vem a calhar ao casal-torto. Jim é um pai viúvo que não tem o menor traquejo para cuidar de suas três filhas, oferecendo uma criação masculinizada, o que inclui cortes de cabelo em barbearia e roupas esportivas que compra com desconto na loja em que trabalha.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

EXORCISTAS DO VATICANO

NOTA 2,0

Mais um filme pretende abordar
o já surrado tema das possessões
demoníacas, mas apenas repete clichês
e erros de outras produções semelhantes
É preciso reconhecer a ousadia de quem ainda se atreve a fazer um filme sobre exorcismo, afinal qualquer produção que aborde o tema já nasce com uma assombração em sua cola chamada O Exorcista. Os anos passam e o longa continua imbatível e assustador, a obra máxima sobre o assunto. Centenas de outros filmes tentaram repetir tal êxito, inclusive tentaram em vão transformar o clássico de William Friedkin em uma franquia, mas todos se perdem em teorias tentando explicar o inexplicável ou se entregam a efeitos especiais (ou as vezes defeitos visuais) achando que eles podem sustentar roteiros vazios. Exorcistas do Vaticano é mais um filme genérico para engrossar a lista deste subgênero do terror. O roteiro de Michael C. Martin e Christopher Borelli não consegue trazer absolutamente nada de novo para diferenciar a produção. Em Los Angeles, a jovem Angela (Olivia Taylor Dudley) vive uma vida pacata ao lado do namorado Pete (John Patrick Amedori), mas sem a aprovação de seu pai, o coronel Roger Holmes (Dougray Scott). Tudo muda quando durante uma festa de aniversário ela se fere acidentalmente com uma faca e vai parar na emergência de um hospital. Conforme o tempo passa o ferimento em seu dedo não cicatriza e infecciona cada vez mais ao passo que a moça começa a agir de forma estranha ao mesmo tempo que passa a ser acompanhada e observada por corvos. Em uma de suas várias idas e vindas ao hospital, Angela provoca um acidente de táxi que a deixa em coma por dezenas de dias e a equipe hospitalar começara a cogitar a possibilidade de realizar a eutanásia uma vez que a paciente não manifestava nenhuma atividade cerebral e vivia com a ajuda de aparelhos. Neste momento difícil, seu companheiro e seu pai recebem o conforto do padre Lozano (Michael Peña) que colocará sua própria fé em cheque ao presenciar eventos incomuns. Prestes a confirmação do óbito a moça milagrosamente volta à vida, é quando o demônio começa a manifestar que tomou conta do corpo dela. Depois de causar uma verdadeira carnificina no hospital, o religioso entra em contato com um grupo secreto do Vaticano liderado pelo cardeal Brunn (Peter Andersson) e o vigário Imani (Djimon Hounsou), mas quando eles vão ao encontro da jovem já é tarde demais e o exorcismo talvez não seja a melhor solução.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

UM PLANO PERFEITO

NOTA 4,5

Comédia romântica francesa
tenta se aproximar do estilo de
Hollywood, mas peca com casal
protagonista com pouca química
Quando se fala em cinema francês automaticamente nos vem a cabeça referências melodramáticas, de erotismo, contemplação ou reflexão. Quem ainda acredita que a indústria de filmes de lá sobrevive de produções destinadas a um público mais cult e maduro é quem parou no tempo, precisa rever seus conceitos. Diretores, produtores e roteiristas locais estão cada vez mais procurando diversificar os estilos e, para o bem ou para mal, se aproximar dos padrões das produções de Hollywood visando uma penetração maior no mercado. Em outras palavras lixo em embalagem de luxo. Não exageremos. Se dos EUA recebemos muita porcaria, o cinema europeu com pegada mais comercial no mínimo traz certa dose de refinamento como verificamos, por exemplo, em Um Plano Perfeito. O título genérico nos remete de imediato a uma produção de ação ou suspense, mas na verdade trata-se de uma comédia romântica que poderia perfeitamente ser estrelada por alguma queridinha dos ianques e faturar alto, mas a protagonista escolhida, a alemã Diane Kruger, infelizmente não conta com uma grande legião de fãs, embora esbanje beleza, seja talentosa e tenha iniciado sua carreira em solo norte-americano. Após chamar a atenção no épico Tróia, mas não a ponto de ofuscar Brad Pitt, a atriz fez várias fitas comerciais por lá, mas mantendo sempre um estreito laço com a cinematografia europeia alternando roteiros mais elaborados com outros cuja função é simplesmente oferecer uma diversão escapista. No longa dirigido por Pascal Chaumeil, que já havia investido no gênero em Como Arrasar Um Coração, Kruger interpreta Isabelle, uma bela balzaquiana que faz parte de uma linhagem de mulheres que, coincidência ou não, só conseguem um casamento feliz e duradouro quando trocam alianças pela segunda vez. A relação com o primeiro marido sempre acaba em brigas, separação e até mesmo morte, o que as leva a crer que sofrem de alguma espécie de maldição que perpetua geração após geração.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

ESQUECERAM DE MIM 2 - PERDIDO EM NOVA YORK

NOTA 8,5

Repetindo os acertos do primeiro
filme, comédia perde um pouco a
graça pela falta de ineditismo, mas
ainda assim diverte e reforça valores
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas aconteceu para a família McCallister. Em Esqueceram de Mim 2 - Perdido em Nova York, o garoto Kevin (Macaulay Culkin) mais uma vez foi esquecido, mas desta vez no aeroporto. Com viagem marcada para a ensolarada Flórida, o clã quer esquecer os apuros que vivenciaram dois anos antes no Natal com o menino sozinho na fria Chicago, porém, novamente se atrasam e saem de casa às pressas. O frenético corre-corre dos membros para ajeitar tudo de última hora e até mais um ataque de fúria do loirinho para deixar de ser alvo de chacota são propositalmente copiados do produção anterior, uma maneira de mostrar que apesar de tudo os McCallister continuam os mesmos. Desta vez eles tem total certeza que não esqueceram nada e muito menos ninguém, mas o arteiro caçula tinha que aprontar das suas. Distraído mexendo na mochila de Peter (John Heard), seu pai, ele acaba se confundindo e seguindo o homem errado, embarcando sem querer para Nova York. Munido de cartão de crédito e muita curiosidade, o garoto não pede ajuda para reencontrar os parentes e inventa uma trolagem para se hospedar em um luxuoso hotel, mesmo sob as desconfianças do afetado Sr. Hector (Tim Curry), o concierge que passa a cercá-lo. Mais uma vez Kevin lança mão de áudios de filmes e também de gravações amadoras para espantar todos que queiram atrapalhar suas férias regadas a luxos e guloseimas. Mais complicado que segurar a farsa, é que novamente o moleque vai estar na mira de Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), a mesma dupla que assaltara a sua casa e que ele ajudou a colocar atrás das grades, mas eles fugiram e já bolam planos para novos assaltos. Agora os alvos são as lojas de brinquedos, estabelecimentos que faturam alto no Natal, mas quando descobrem a chance de se vingar, caçar Kevin torna-se o principal objetivo da dupla culminando em mais uma série de torturas que o menino planeja desta vez aproveitando-se do apartamento em reforma de um tio que está viajando. Como no longa anterior, todas as situações se encaixam perfeitamente para nosso pequeno herói deitar e rolar. E como se diz, em time que está ganhando não se mexe, assim Chris Columbus novamente assumiu a direção e John Hughes ficou responsável pelo roteiro, mas ambos não se esforçam a criar nada de novo, apenas reciclam o que já foi testado e aprovado.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

ESQUECERAM DE MIM

NOTA 9,0

Clássico absoluto natalino, as peripécias
de um esperto menino para se defender
de bandidos ainda diverte gerações
e desperta a nostalgia dos adultos
Natal é sinônimo de recordações, alegria e família. Reunindo tais características nada mais tradicional que nessa época do ano relembrarmos o clássico das sessões da tarde Esqueceram de Mim, o surpreendente sucesso do longínquo ano de 1990, mas que parece atual de tão fresco que permanece em nossa memória. Custou uma ninharia e terminou sua carreira nos cinemas como a maior bilheteria daquele ano e a oitava maior da década. E olha que quase ninguém apostava no projeto de uma comédia protagonizada por um guri inteligente e astuto que apronta mil e umas para se livrar de uma dupla de criminosos. Macaulay Culkin dispensa apresentações. Mesmo para quem não é daquela época, certamente tem conhecimento que ele foi um dos atores mirins mais bem sucedidos de todos os tempos, mas também lembrado como um exemplo de como a fama mal administrada pode destruir uma vida, ou quase isso. O ator cresceu e ao invés de ganhar espaço na mídia para divulgar seus filmes o que vinha a público eram os desdobramentos de sua disputa judicial com os próprios pais para ter direito a administrar a fortuna que acumulou em tempo recorde. Problemas familiares é praticamente porta aberta para outros problemas e ele se envolveu com drogas, bebidas e polêmicas, incluindo uma criticada amizade com o cantor Michael Jackson com alusão a pedofilia. Fisicamente desfigurado e com semblante depressivo, o fato é que poucos lembram de sua imagem adulta. Seu nome automaticamente nos remete a figura ambígua do moleque com carinha ingênua e sorriso maroto e confundi-lo com seu personagem é perfeitamente normal. Kevin McCallister tem um perfil de fácil identificação, o que justifica a longa vida do filme. Carismático, engraçado, arteiro, esperto e equilibrando-se entre a inocência inerente a sua idade e certa dose de maturidade precoce, ele tira sua família do sério constantemente, mas chega ao ápice da pentelhice às vésperas do Natal quando sua família está prestes a aportar na França. Pais, irmãos, tios e primos. São quinze pessoas dentro de uma bela mansão vivenciando a agitação pré-viagem, excitação certamente compartilhada pelo espectador anualmente na noite que antecede os festejos, você viaje ou simplesmente fique em casa com parentes e amigos. A impressão de que a noitada não tem fim e as agradáveis sensações de liberdade, conforto e alegria nos toma.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

OS PICARETAS

NOTA 9.0

Steve Martin e Eddie Murphy
unem seus talentos em inteligente
comédia que tira sarro e de certa forma
homenageia a indústria do cinema
O lendário programa "Saturday Night Live" lançou grandes nomes do humor que migraram para o cinema, entre eles Steve Martin e Eddie Murphy. Representantes de épocas distintas da atração, suas carreiras foram calcadas em comédias sendo que o primeiro tem predileção por atuar em seus próprios roteiros e o segundo é famoso por gostar de interpretar mais de um personagem em um mesmo filme. Unindo os gostos da dupla, Os Picaretas é uma divertida sátira ao universo que eles mesmos habitam. Hollywood é um lugar que alimenta muitos sonhos, mas não tanto quanto o número de decepções. Muitos filmes já abordaram a obsessão pelo sucesso a qualquer preço no cinema, mas faltava uma comédia digna a abordar o tema. Eis que em 1999 o roteiro de Martin chegou as mãos do diretor Frank Oz. O ator dá vida a Bobby Bowfinger, um produtor e diretor afogado em dívidas que precisa de um grande estouro de bilheterias para dar a volta por cima e nada melhor que um nome famoso para atrair as atenções. "Chuva Rechonchuda", o filme dentro do filme, é uma aventura de ficção científica bem tosca desprezada por Kit Ramsey (Murphy), um astro das fitas de ação. Disposto a tudo para tê-lo no elenco, o cineasta arquiteta um plano que julga ser brilhante para realizar seu trabalho e de quebra experimentar uma maneira inusitada de filmar. Ele faria sim o filme com Ramsey como protagonista, contudo, o próprio ator não saberia disso. Usando os mais variados artifícios para captar imagens, Bowfinger passaria a persegui-lo e o colocaria em situações absurdas e outras de perigo, todas para se encaixarem no script, porém, fugindo completamente da rotina do astro. O elenco é convencido que o intérprete tem uma maneira peculiar de atuar e construir suas personagens, assim aceitam gravar suas cenas mantendo generosa distância dele, mas que após uma caprichada edição pareceria que estavam de fato dividindo o mesmo set de filmagens. Os atores então declamam estranhas falas e com exageradas entonações e as vezes são percebidos por Ramsey que tem reações ainda mais esdrúxulas acreditando estar sendo perseguido por extraterrestres.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O RETORNO DOS MALDITOS

NOTA 2,0

Continuação às pressa deturpa as
qualidades conquistadas em Viagem
Maldita
apostando em trama capenga
aliando terror e clichês de guerra
No Brasil, Viagem Maldita não pegou, passou em brancas nuvens, efeito que provavelmente aconteceu em muitos outros países devido a violência explícita da fita. Em solo americano também fracassou, mas estranhamente os parcos lucros abriram as portas para uma continuação que obviamente já devia estar engatilhada antes mesmo do lançamento do primeiro filme. A pressa para jogar no mercado uma segunda carnificina gerada pelo embate de humanos versus mutantes foi um tiro no pé. O Retorno dos Malditos é uma grande decepção já pelo argumento. Como parte de uma missão de treinamento, um grupo de soldados americanos é enviado para uma remota região do Novo México onde encontram um campo de pesquisas nucleares abandonado. Após presenciar um sinal de perigo em uma montanha distante, os recrutas decidem iniciar uma missão de busca e resgate por conta própria, porém, eles desconhecem o fato de que cerca de dois anos antes o local fora visitado por uma família que sofreu o diabo nas mãos de canibais. Esse é o fiapo que une os dois longas. No original, na verdade uma refilmagem de Quadrilha de Sádicos do mestre Wes Craven, o espectador era pressionado a confrontar uma história sobre instinto primitivo e de sobrevivência, tanto por parte da vítimas quanto dos vilões, um intenso e violento exercício principalmente estético para qualquer diretor. A função ficou a cargo do francês Alexandre Aja que entregou um trabalho digno de elogios indo fundo na bizarrice e sanguinolência, mas sem perder a mão com o conteúdo em torno de críticas a política e imperialismo dos EUA. Os insanos mutantes que atacaram a família Carter eram justificados como descendentes de uma tribo que sofreu com os efeitos nocivos da radiação gerada por experimentos com bombas nucleares bancados pelo governo norte-americano. Com uma obra praticamente redondinha, Aja sabiamente pulou fora da sequência, mas Craven infelizmente quis levar o projeto adiante envolvendo-se como produtor e roteirista.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

VIAGEM MALDITA

NOTA 8,0

Investindo pesado em violência e
bizarrice. remake de terror cult
preserva a tensão e crítica política
fazendo jus a memória do original
O cineasta Wes Craven foi um dos responsáveis por literalmente dar cara aos slashers movies quando criou a figura deformada de Freddy Krueger para A Hora do Pesadelo. Anos mais tarde reinventou o universo dos assassinos mascarados com Pânico, mas no início de sua carreira investia em um outro tipo de terror, uma vertente calcada em um crescente e angustiante clima de tensão. Lançado em 1977, Quadrilha de Sádicos faz parte de um período marcado por extrema violência mundo afora, sendo alguns dos acontecimentos mais emblemáticos a Guerra Fria e a Guerra do Vietnã. O cinema de horror então peitava a realidade investindo em carnificina explícita, incluindo a prática do canibalismo tão comum em situações em que sobreviver está acima de qualquer lição de ética ou moral. Era a ficção tentando chocar perante as atrocidades da vida real. Passados quase trinta anos, em meio ao marasmo das fitas de psicopatas e refilmagens de terror orientais, Craven teve a ideia de revisitar seu clássico cult, mas desta vez apenas como produtor. Com algumas mudanças no roteiro e rebatizado como Viagem Maldita, o remake ganhou a direção do francês Alexandre Aja, então estreando em Hollywood após a boa repercussão de Alta Tensão, fita em que toda uma família era assassinada dentro de uma mesma casa e o criminoso seguia no encalço de duas jovens durante toda uma noite, o cartão de visitas perfeito para assumir o comando de um enredo com foco na barbárie. Os créditos iniciais, contrastando uma trilha sonora agradável com imagens impactantes de bombas explodindo e anomalias humanas, já dá o tom do que está por vir. Escrita pelo próprio diretor em parceria com Grégory Levasseur, a trama nos apresenta à família Carter que planejava uma viagem para comemorar o aniversário de casamento dos patriarcas, Ethel (Kathleen Quinlan) e Bob (Ted Levine). A ideia era atravessar com um trailer o deserto do Novo México até chegar a Califórnia, mas o sonho acaba se tornando um aterrorizante pesadelo real.

domingo, 9 de dezembro de 2018

PALAVRAS DE AMOR

Nota 4,0 Abordando concursos de soletrar e religião, longa se arrasta e jamais atinge a emoção 

Como diz o ditado, uma imagem vale mais que mil palavras. Será mesmo? Infelizmente vivemos tempos de desvalorização do vocabulário e de tudo aquilo que ele carrega consigo. Com o passar dos anos, expressões que deveriam ser carregadas de sentimentos foram banalizadas e são ditas por aí ao acaso e a linguagem da internet cheia de gírias e abreviações causam confusão quando necessário uma escrita ou conversa oral de maneira mais formal. Palavras de Amor, abordando o tema através de concursos de soletrar, até tenta nos lembrar da importância dos significados que a junção de letras tem, mas infelizmente acaba se perdendo em uma miscelânea de assuntos que dispersam a atenção do foco principal. A pequena Eliza (Flora Cross) é a filha caçula da família Naumann, um clã aparentemente feliz. Saul (Richard Gere), seu pai, é um respeitado professor universitário de teologia que sempre encontra tempo para se dedicar em casa, ou ao menos acredita que cumpre bem seu papel no lar. Miriam (Juliette Binoche), sua mãe, é uma mulher carinhosa e ao que tudo indica confortável com sua vida pacata. Já Aaron (Max Minghella), seu irmão mais velho, não demonstra sinais de rebeldia como a maioria dos adolescentes e mantém um relacionamento amistoso com os parentes. Apaixonado pelas palavras e seus significados e afins, Saul se entusiasma ao perceber o dom da filha para soletrar e começa a treiná-la para campeonatos estudantis. No entanto, a dedicação do pai torna-se uma obsessão que acaba modificando a dinâmica de toda a família cuja base antes sólida revela-se estruturada sobre frágeis alicerces, principalmente quando vem à tona a fé de cada um dos membros. Os treinamentos para os concursos são meras desculpas para mostrar que há uma forma mundana para se conversar com Deus. Ao incentivar a filha a se aprimorar na arte de soletrar, Saul acredita que a está guiando para alcançar a sabedoria divina, não apenas falando com o criador, mas também o ouvindo.

sábado, 8 de dezembro de 2018

ARRUME UM EMPREGO

Nota 1,0 Pretendendo abordar temas relativos ao mercado de trabalho, comédia só fica na intenção

Se a geração que cresceu jogando videogames naquelas gigantescas televisões de tudo conseguiu gerar vários exemplos de fracassados, imagine as novas levas de jovens que estão por aí e ainda estão por vir. Computadores, celulares, internet de alta velocidade e games super interativos. Apesar de todas estas opções também servirem de fonte de informação, a juventude as quer com o intuito de se divertir, mas chega um momento em que é preciso encontrar um equilíbrio entre o prazer e o dever. É certo que hoje há muito marmanjo que nem chegou na casa dos vinte anos e já fatura alto criando softwares, jogos virtuais e aperfeiçoando o trabalho de empresas consolidadas com o apoio de tecnologia de ponta. Todavia, há muitos jovens que não encontram o ponto de amadurecimento e preferem viver a vida como eternas crianças, só caindo a ficha que pararam no tempo quando decidem se casar ou procurar um emprego. A dinâmica dos novos tempos também obriga os mais responsáveis e até mesmo aqueles com currículos experientes a abrirem os olhos para não perderem suas vagas de trabalho, seja por crises econômicas ou por serem substituídos por sangue novo. Esses são os problemas que a comédia Arrume Um Emprego pretendia discutir de forma bem humorada, mas o resultado é catastrófico. Risadas aqui são escassas (as poucas em cima de piadas de mal gosto) e para o espectador perder o fio da meada não custa muito, afinal os próprios personagens parecem perdidos dentro da trama em estilo mosaico, várias histórias entrelaçadas por um motivo em comum. No caso, quatro amigos são obrigados a abandonar seus sonhos para entrarem no competitivo mercado de trabalho norte-americano em meio a uma crise das bravas. O personagem principal é Will Davis (Miles Teller) que após um ano de estágio não remunerado é demitido repentinamente e começa refletir sobre o que é mais importante, um emprego que ofereça estabilidade financeira ou aquele que realize com prazer mesmo ganhando pouco? A julgar pelo seu currículo, em que faz questão de destacar que faz vídeos para o YouTube, a segunda opção é a mais acertada.

domingo, 2 de dezembro de 2018

LOUCO POR VOCÊ

Nota 4,0 Concentrando-se no romance, longa desperdiça assuntos pertinentes ao universo juvenil

Universitário bonito, inteligente e boa praça conhece a garota dos seus sonhos, mas para viver essa amor terá que vencer obstáculos, principalmente os que ele próprio se impõe. Esse pequeno resumo serviria como sinopse para a maioria dos filmes estrelados por Freddie Prinze Jr. Quem? Ele foi um ator de relativo sucesso entre o público adolescente entre o final da década de 1990 e início dos anos 2000. Sua carreira foi catapultada pelo terror teen Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado e sua continuação, mas imediatamente o alçaram ao posto de galã em comédias românticas. Antes de ter feito a má escolha de aceitar ingressar no elenco do live action de Scooby-Doo e sua turma, o jovem estrelou pelo menos cinco comédias românticas onde praticamente repetiu o mesmo perfil, sendo a mais lembrada Ela é Demais que acabou ganhando certa aura cult com o passar dos anos. O mesmo não aconteceu com Louco Por Você em que vive Al Connelly, um jovem que pretende seguir os mesmos passos de seu pai e se tornar um grande chef de cozinha. Solitário e por vezes se sentindo como um peixe fora d'água por não ser igual a seus amigos que só pensam em sexo e curtição, o rapaz sente-se atraído de imediato ao conhecer Imogen (Julia Stiles), uma aspirante a artista plástica que até então não estava disposta a assumir as responsabilidades de um namoro sério. Eles se conheceram casualmente em um barzinho, mas depois descobriram estudar na mesma universidade e voltaram a se cruzar por acaso várias vezes. Logo estavam namorando e não queriam se separar mais. Inteligentes e criativos, assunto não faltava ao casal que parecia perfeito. Tudo ia de vento em popa, mas pela pouca idade e experiência de vida que acumulavam, as muitas dúvidas que surgem sobre como estão conduzindo o relacionamento vão minando aos poucos a relação que dura poucos meses, mas o suficiente para deixar marcas na vida de ambos.

sábado, 1 de dezembro de 2018

BREAKDOWN - IMPLACÁVEL PERSEGUIÇÃO

Nota 7,0 Mesmo repetindo clichês, longa se beneficia com protagonista e conflitos verossímeis

Um cenário desértico por si só já é bastante perturbador, um lugar onde as regras não existem e só os mais fortes sobrevivem, agora imagine estar no meio do nada e ainda se sentir encurralado. Breakdown - Implacável Perseguição trabalha com eficiência e bastante objetividade uma das maiores fobias que o ser humano enfrenta: o medo de encarar sozinho uma situação de extremo perigo, além de inesperada e inexplicável. O conflito vivido por Jeff Taylor (Kurt Russell) é passível de acontecer com qualquer um e intima o espectador a refletir sobre o que faria se vivenciasse situação parecida. Em meio a um gênero tão combalido já na década de 1990, quando todos os clichês possíveis já haviam sido usados e reciclados em abundância, destaca-se o trabalho do então estreante diretor Jonathan Mostow que prova que sabia muito bem o que apresentar em seu debut no cinema. Dividindo o roteiro com Sam Montgomery, a partir de seu próprio argumento, o cineasta desenvolveu de modo direto uma história simples e que prende a atenção sem precisar apelar para reviravoltas mirabolantes. Ponto positivo também para a escolha do protagonista. Russell na época tinha predicados para se portar tanto como galã  quanto justiceiro e o diretor tira o melhor proveito disso, mas felizmente nunca alçando o personagem a condição de super-herói. Taylor é um cidadão comum e vulnerável que na companhia da esposa Amy (Kathleen Quinlan) está de mudança para a Califórnia buscando recomeçar sua vida profissional. Esperançosos, o casal atravessa vastas paisagens desérticas, mas no meio do caminho o carro quebra e o celular, para variar, não funciona quando é preciso. Esse parece ser o prenúncio de um pesadelo que de fato irá se concretizar. Eis que surge Red (J.T. Walsh), um caminhoneiro que oferece uma carona até o posto mais próximo de onde poderiam pedir ajuda. Relutante, Amy o acompanha até o local e o marido fica na estrada para tomar conta do veículo. Com tantos filmes que abordam criminosos que se aproveitam de turistas incautos, difícil compreender como o casal dá um mole desses. Fica a dica: sempre esteja acompanhado em locais do tipo, há loucos para tudo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

DIVÃ A 2

NOTA 1,5

Pegando carona no sucesso alheio,
comédia já erra ao tentar se passar de
uma continuação e as coisas só pioram com
texto enfadonho e atuações desmotivadas
Até crianças devem saber o significado da expressão popular comprar gato por lebre, mas parece que os envolvidos na produção de Divã a 2 o desconhecem. Ou são assumidamente caras-de-pau. Utilizando o mesmo estilo de diagramação e cores para seu material publicitário e ainda destacando em seu título o dois em numeral, muito facilmente qualquer desavisado ao ver alguma propaganda desta comédia pode acreditar que seja a continuação do grande sucesso estrelado por Lilia Cabral seis anos antes. Fique bem claro, os longas são totalmente independentes, nada a ver um com o outro. A produtora detentora da marca provavelmente queria iniciar uma franquia cujo alicerce seria apenas o argumento, assim não tendo a necessidade de recorrer a uma mesma equipe de trabalho o que poderia inviabilizar projetos. Do Divã original só sobrou a proposta de personagens problemáticos com a necessidade de conversarem, extravasarem suas emoções. Contudo, sai de cena os conflitos de uma mulher madura e entra no lugar os dilemas amorosos de uma balzaquiana, ou seja, o diferencial é trocado pelo trivial. Elenco, direção e roteiristas foram substituídos por sangue novo, o que no caso não significa necessariamente que temos novidades. Se no longa de 2009 tínhamos uma história consistente baseada no romance homônimo de Martha Medeiros, aqui temos que nos contentar com um fiapo de enredo, uma desculpa esfarrapada que os roteiristas Leandro Matos e Saulo Aride encontraram para conseguirem pagar suas contas. A ocupadíssima médica ortopedista Eduarda (Vanessa Giácomo) e o hiperativo produtor de eventos Marcos (Rafael Infante) casaram-se e tornaram-se pais muito jovens e como tantos outros casais com trajetórias parecidas estão vivendo uma crise precoce no relacionamento. Separados após dez anos de convivência, cada um procura individualmente resolverem seus conflitos com a ajuda de terapeutas. Enquanto desabafam, o público vai tomando conhecimento de suas vidas através de flashbacks, como se os discursos deles próprios já não fossem o suficientes para entendermos suas situações. É o velho hábito do cinema nacional em entregar tudo mastigadinho ao público, este que por vezes não percebe que sua inteligência está sendo subestimada.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

JOGADA DE REI

NOTA 8,0

Apesar da temática manjada,
longa ganha pontos com empenho do
elenco e por apresentar o jogo de xadrez
como motivação a jovens sem perspectivas
O cinema já apresentou centenas, senão dezenas, de histórias de superação e mudanças de comportamento incitados pela dedicação de um professor ou membro de alguma comunidade deficitária. Tal temática é universal, mas é certo que os EUA é o maior produtor de filmes do tipo, como os emblemáticos Ao Mestre Com Carinho e Sociedade dos Poetas Mortos, entre tantos outros. Geralmente baseados em episódios da vida real, tais produções não costumam fazer grandes bilheterias e a maioria é lançada diretamente para consumo doméstico, no entanto garantem vida longa graças ao tema atemporal e as mensagens edificantes que deixam. Jogada de Rei é mais um título a engrossar tal lista. Cuba Gooding Jr. é incumbido de encarnar o personagem real Eugene Brown que aprendeu com seus erros e decidiu compartilhar as lições que teve para tentar salvar as vidas de jovens sem rumo como ele foi um dia. Ele passou dezessete anos na prisão onde aprendeu a se autocontrolar com as dificuldades cotidianas e a jogar xadrez com Searcy (Dennis Haysbert), um detento mais velho e experiente. Com o jogo de raciocínio lógico, ele tem a percepção que a vida não pode ser construída por atitudes impensadas. Basta uma ação impulsiva e tudo pode se perder. Quando ganha sua liberdade, Brown volta às ruas de Washington com o desejo de recuperar o tempo perdido principalmente com os filhos Katrina (Rachael Thomas), estudante de direito que rejeita o pai completamente, e Marcus (Jordan Calloway), que está na cadeia seguindo o mesmo caminho desvirtuado paterno. Outro problema a enfrentar são as dificuldades para conseguir um emprego sendo fichado na polícia. Mentindo sobre seu passado, ele é aceito como faxineiro de uma escola frequentada por uma turma barra pesada. Não demora muito para que uma professora temendo as ameaças feitas pelos alunos abandone o cargo, a chance para o ex-presidiário assumir uma classe como monitor temporário, mesmo sem qualquer experiência no campo da educação. Com a má fama do colégio, funciona o ditado que diz quem não tem cão caça com gato e o que era para ser uma medida paliativa para cobrir alguns poucos dias acaba se estendendo a longo prazo.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

AMEAÇA VIRTUAL

NOTA 4,0

Abordando o universo da tecnologia,
incluindo sua parte mais nebulosa,
longa parece datado e se perde em meio
a clichês de fitas de ação e espionagem
A chegada do século 21 cercada de expectativas em torno dos rumos da tecnologia e o ódio global e generalizado ao empresário Bill Gates, criador da poderosa empresa Microsoft e então o homem mais rico de todo o mundo, foram as sementes que originaram o suspense Ameaça Virtual, produção esquecida desde seu lançamento. Em 2001 o multimilionário enfrentava problemas com a justiça americana e muitas fortunas e empresas poderosas ligadas ao ramo da Internet estavam em crise e no meio desse cenário caótico o diretor Peter Howitt lançou seu filme, porém, ele deveria ter chegado aos cinemas um pouco antes para ter mais validade. Seria efeito do tal bug do milênio? Não, mais certo que foi erro de estratégia dos produtores e o longa acabou com fama de datado precocemente. Hoje pode ser visto como uma modesta documentação da época, mas lembrando que a trama é uma ficção até que provem o contrário. Copiando as vestes, trejeitos e até o penteado, o ator Tim Robbins se encarregou de personificar Gates na pele de Gary Winston, um gênio da computação que construiu um império e que tem como hábito fazer doações e ações de caridades na tentativa de ganhar aliados e limpar sua barra sempre que necessário, afinal processos acusando-o de monopólio em seu ramo não lhe faltavam. Qualquer semelhança com o perfil do "homenageado" não é mera coincidência. Ele é o dono da N.U.R.V. (em português levaria o nome de algo como "Nunca Subestime a Visão Radical) e promete lançar um projeto que revolucionaria a maneira como as pessoas se comunicam cotidianamente. Batizado de Synapse, o programa formaria uma rede de transmissão de dados que permitiria que todos os aparelhos digitais pudessem manter uma linha de comunicação constante e direta. Exemplificando, uma pessoa poderia fazer uma ligação telefônica e ao mesmo tempo que conversa observar o que a pessoa estaria fazendo naquele exato momento e vice-versa. Hoje isso soa ultrapassado, mas para a época era uma avanço e tanto.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

EU OS DECLARO MARIDO E... LARRY

NOTA 7,0

Adotando um discurso politicamente
correto, mas sem dispensar piadas de
gosto duvidoso, longa consegue
divertir e trazer mensagens positivas
Adam Sandler não é um excepcional sinônimo para o gênero comédia. Não para aqueles que apreciam um humor de qualidade ou até mesmo satírico. Seus trabalhos são puro nonsense. Todavia o ator acabou conquistando uma legião de fãs e geralmente extrapola o aproveitamento de sua fama com atuações exageradas e repetitivas, porém, não se pode negar que é um astro que permite que seus companheiros de cena também se destaquem. Deixando o humor físico e as caras e bocas de lado (bem, nem tanto assim), Sandler divide com seu velho amigo Kevin James as boas piadas de Eu os Declaro Marido e... Larry, uma eficiente comédia na qual eles interpretam dois héteros tentando se passar por gays para ganharem benefícios de um programa social do governo. Embora a primeira vista possa parecer mais uma produção para achincalhar a imagem dos homossexuais, na realidade o humor aqui é usado de forma agradável e consciente levando uma mensagem otimista e reflexiva ao público, afinal todos têm direito a serem felizes, mas o caminho para alcançar tal felicidade cabe a cada um escolher e aos demais só resta ao menos respeitarem. É certo que não é com essas palavras que literalmente tiramos uma boa lição do filme, só os mais bondosos podem perceber tal ideia. O recado mais forte é sobre a valorização da amizade, principalmente nos momentos de dificuldades. Chuck Levine (Sandler) e Larry Valentine (James) são dois destemidos bombeiros que não são unidos apenas profissionalmente, mas também são grandes amigos quando estão longe dos incêndios e livre de seus uniformes de trabalho. Larry ficou viúvo muito cedo e se preocupa com o futuro dos filhos, mas devido a problemas burocráticos não consegue colocá-los como beneficiários em seu seguro de vida. Para tanto ele precisaria se casar novamente, mas o problema é que ele ainda não superou a perda da esposa e sabe que não pode confiar em qualquer mulher quando há dinheiro envolvido na relação. O jeito é recorrer ao seu grande amigo que tem com ele uma dívida de gratidão por ter salvo sua vida em um incidente de trabalho.

domingo, 25 de novembro de 2018

UMA MÃE PARA MEU BEBÊ

Nota 7,0 Tolerância, responsabilidade e amizade são discutidos em comédia leve e acima da média

Assim como no Brasil tornou-se comum um comediante de sucesso da TV fazer carreira no cinema, em Hollywood também temos exemplos de fenômenos que estendem sua popularidade migrando para as telonas. De tempos em tempos surge um nome que parece dominar as atenções e a indústria aproveita-se para tirar o máximo de seu proveito, mas não tarda para que a decadência bata a sua... Não! Para Tina Fey não é chegada a hora de completar essa maldita frase. Muito premiada pela série "30 Rock"e ex-participante do lendário programa "Saturday Night Live", seu debut nos cinemas foi com honrarias. Ela surgiu no espaço cinematográfico como uma mera coadjuvante em Meninas Malvadas, mas seu papel de destaque estava mesmo nos bastidores. Simplesmente é dela o roteiro desta comédia teen que surpreende abordando com humor ácido e crítico o universo dos jovens. Seu texto é elogiado até hoje, assim é de se questionar: será que Uma Mãe Para Meu Bebê poderia ser bem melhor caso ela tivesse roteirizado além de atuar? No mínimo poderíamos esperar algo sarcástico, mas temos que nos contentar com a versão do diretor e roteirista Michael McCullers que se não oferece oportunidade para sonoras gargalhadas, ao menos deixa quem assiste com um sorriso sincero no rosto por sua leveza e simplicidade. Fey interpreta Kate, uma mulher de meia-idade realizada profissionalmente, mas na vida pessoal fracassada, tendo tido apenas um namorado a vida inteira. Quando decide que é hora de ter um filho, mesmo que fosse uma produção independente, ela perde o chão ao descobrir ser estéril e então procura os serviços de uma empresa especializada em mães de aluguel. É assim que surge em sua vida a espevitada e desmiolada Angie (Amy Poehler), uma jovem de pouca instrução, pobre, viciada em cigarros e bebidas e totalmente desencanada de problemas, um perfil extremamente oposto ao de sua contratante, uma mulher de educação refinada, inteligente, porém, neurótica e controladora.

sábado, 24 de novembro de 2018

AS RUÍNAS

Nota 7,0 Com pinta de filme B, longa surpreende com tensão crescente em meio a situação extrema

O cinema norte-americano já ofereceu no passado grandes produções de horror, mas ultimamente tudo que vem de lá é tão pueril, artificial e clichê que qualquer sinal mínimo de originalidade é capaz de elevar um filme medíocre ao patamar de obra de arte. Monstros lendários, animais mutantes, assassinos mascarados, fantasmas de olhinhos puxados e carnificina sem rodeios. O gênero terror vive de fases, mas algumas delas tem períodos de declínio e muitas produções acabam já sendo lançadas pré-definidas como fitas trash. Hoje em dia, por exemplo, poucos se animam a assistir enredos sobre humanos fugindo de animais enfurecidos. Na hora nos vem a cabeça referências a efeitos especiais precários, atuações risíveis e tramas... Bem, história para contar é só um detalhe, o que importa são as mortes e quanto mais detalhadas melhor. Houve uma época em que também tornaram-se comuns as desventuras de exploradores presos em cavernas malditas, assombradas, perigosas e por aí vai. A falta de imaginação para intitular tais produções já funcionam como um aviso das bombas que se tratam. As Ruínas poderia cair facilmente neste grupo seleto e infeliz, mas se salva razoavelmente por ter em seus créditos o roteirista Scott Smith que sabiamente resolveu adaptar seu próprio livro. Mesmo com algumas sutis modificações, nada melhor que o próprio criador cuidar de sua criatura. Ele já havia feito isso com sua obra Um Plano Simples cujo roteiro foi indicado ao Oscar. Aventurando-se pelo campo do horror, ele não realiza um trabalho transgressor, marcante ou digno de elogios rasgados, simplesmente entrega um produto razoavelmente diferenciado em meio ao marasmo da época, embora o cenário não tenha se modificado muito nos últimos anos. Dois casais jovens, Jeff (Jonathan Tucker) e Amy (Jena Malone) acompanhados de Eric (Shawn Ashmore) e Stacy (Laura Ramsey), estão curtindo férias no México, mas pouco antes de voltarem para casa tem o azar de conhecer Mathias (Joe Anderson), um alemão bom de lábia que os convida para ajudá-lo a procurar seu irmão Henrich (Jordan Patrick Smith), que foi participar de uma escavação arqueológica, mas não dá notícias há vários dias.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

EM PÉ DE GUERRA

NOTA 4,0

Sustentada por piadas previsíveis
e por vezes de gosto duvidoso,
comédia não sai do lugar comum
e  reforça estereótipos
Quem se liga em detalhes das produções de filmes e adora bisbilhotar as fichas técnicas certamente deve desacreditar que o mesmo responsável pelo sensível e inteligente A Garota Ideal também está por trás da esculachada comédia Em Pé de Guerra. Trabalho de estreia do diretor Craig Gillespie, a trama tem como temática central a rivalidade. John Farley (Sean William Scott) é um bem sucedido escritor de livros de auto-ajuda, mas demorou muitos anos para superar seus próprios traumas de infância devido aos abusos e humilhações que sofreu de Jasper Woodcok (Billy Bob Thornton), seu professor de educação física que adorava tirar um sarro de seus desengonçado e rechonchudo aluno. Seus piores pesadelos voltam à tona quando decide voltar à sua cidade-natal para receber um prêmio, uma homenagem de seus conterrâneos pela figura ilustre que se tornou. Todavia, seu momento de glória é estragado ao descobrir que Beverly (Susan Sarandon), sua mãe, está com um namorado novo, ninguém menos que o protagonista de seus pesadelos. Na hora do desespero, o rapaz deixa de lado seus conselhos e filosofias para viver em paz e parte para o ataque tentando provar que seu futuro padrasto é um tremendo mau-caráter, porém, seu rival não vai deixar de comprar essa briga e também vai tocar o terror contra seu adversário. Mais que salvar sua mãe de um cafajeste, Farley tem a necessidade de provar ao antigo professor que é "o cara", bom em tudo que se propõe a fazer. Todavia, o Sr. Woodcok também curte bancar marra e vai testar os limites do escritor, tanto emocionais quanto físicos. Nessa gangorra para medir forças, o correto seria um personagem com o qual nos simpatizamos de um lado e do outro alguém para odiarmos. Eis o grande problema do longa: ambos são insuportáveis em semelhantes proporções, o que dificulta a identificação com o público que não tem mais a fazer que torcer que ao final os dois percam a pose e entendam que ninguém é melhor do que ninguém. Todavia, esperar tal reflexão de uma comédia repleta de piadas de gosto duvidoso é querer demais.

domingo, 16 de setembro de 2018

MÚSICA DO CORAÇÃO

Nota 7,5 Drama com temática batida se sustenta graças ao carisma e talento de Meryl Streep

Wes Craven gravou seu nome na História do cinema com filmes de terror que enraizaram na cultura pop mundial, como A Hora do Pesadelo e Pânico, mas o diretor, roteirista e produtor também tinha seu lado mais sensível como prova o edificante Música do Coração. O longa poderia ser apenas mais um título a explorar a desgastada relação de um educador bem intencionado com um grupo de alunos desestimulados, mas com Meryl Streep no papel principal a fita escapou do limbo e como de costume seu perfeccionismo na composição do papel a levou a concorrer ao Oscar. Na época esta era a sua 12ª indicação ao prêmio e então igualava ao recorde de nomeações alcançada pela saudosa Katherine Hepburn. Baseado em fatos reais, a atriz interpreta Roberta Guaspari, uma mulher que precisava dar novos rumos a sua vida após o baque de ser abandonada pelo marido e com dois filhos para criar e decide fazer uso de seu talento para a música, mais especificamente com o violino. Ela então encontra dificuldades para conseguir uma vaga em alguma escola devido aos cortes de custos com atividades extracurriculares, principalmente as ligadas as artes e cultura, mas acaba sendo aceita em uma instituição pública no subúrbio de Nova York após insistir muito com Janet Williams (Angela Bassett), uma reticente coordenadora do colégio. Munida de cinquenta violinos, um investimento por sua conta e risco, Roberta começa a dar as suas aulas a um grupo de crianças pouco interessadas em arte, mas surpreendendo a todos com sua força de vontade ela alcança seu objetivo e seu programa de música consegue sobreviver por uma década até que um corte de verbas ameaça seu sonho. E o roteiro de Pamela Gray se resume a isso, mas um grande acerto é não ter enveredado pelo caminho lacrimoso e dramático ao extremo. A situação dos alunos de Roberta, e porque não dizer a sua própria vida, já são bastante delicadas, não havia porque forçar a barra para o chororô. Até a trilha sonora dispensa tal viés, deixando espaço apenas aos acordes dos violinos se destacarem em momentos oportunos.

sábado, 15 de setembro de 2018

A MORTE TE DÁ PARABÉNS

Nota 3,0 Investindo mais no humor que no horror, bom argumento é desperdiçado 

No final da década de 1990 houve uma explosão de fitas de assassinos mascarados voltadas aos adolescentes. Tudo bem, na época produtores queriam tirar leite de pedra do fenômeno Pânico, mas é preciso ter consciência que uma hora a fonte seca. É claro que hoje em dia ainda existe público para fitas do tipo, ainda que em pequeno número, mas é preciso ter grana sobrando no banco para investir em produções que já nascem fadadas ao fracasso. A Morte Te Dá Parabéns não tinha como fazer sucesso. É uma reunião de clichês que buscou algum diferencial com viagens no tempo, mais especificamente uma jovem condenada a reviver inúmeras vezes o dia de sua morte. Bem, novidade aí não há nenhuma. Um personagem preso a um mesmo período e tendo a chance de contornar erros e fazer as coisas reverterem a seu favor já foi a temática da comédia Feitiço do Tempo, da fita de ação Contra o Tempo e do drama de guerra No Limite do Amanhã, por exemplo. A possibilidade de poder escapar da morte driblando as armadilhas de um serial killer se encaixa perfeitamente a proposta da volta no tempo, mas é preciso ter traquejo para lidar com a fórmula, algo que falta ao diretor Christopher Landon, de Como Sobreviver a Um Ataque de Zumbi. A trama tem como protagonista Tree (Jessica Rothe), uma universitária egocêntrica, falsa, displicente com a família e que adora usar os homens e descartar, ou seja, uma figura desprezível. A ideia é justamente causar repulsa no espectador para pouco a pouco ele se envolver com a jornada de redenção da jovem. A intenção pelo menos era das melhores, mas o plano posto em prática... No fim do dia de seu aniversário ela é assassinada por alguém que se esconde por uma ridícula máscara de bebê gorducho, todavia, acorda como se nada tivesse acontecido, mas logo percebe que as situações do fatídico dia se repetem continuamente. Essa é a chance, ou melhor, as diversas chances de tentar escapar da morte e descobrir a identidade do bandido revivendo de forma diferente todos os acontecimentos que podem ter contribuído para seu assassinato.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

GRACE DE MÔNACO

NOTA 6,0

Focado na vida da lendária atriz
Grace Kelly a partir do momento em
que se tornou princesa, longa frustra
com texto que não faz jus a sua trajetória
Um conto de fadas baseado em uma história real. Não há melhor definição para a biografia de Grace Kelly, uma das mais populares estrelas de Hollywood da década de 1950, vencedora de um prêmio Oscar, endeusada por seus fãs e que colocou um ponto final em sua carreira em pleno auge. Ela encerrou sua história com o cinema, mas começou a escrever uma outra em meio a realeza. Em 1956 ela veio a se casar com o príncipe Rainier III de Mônaco, um país muito pequeno em termos geográficos, mas de enorme status quando o assunto são luxo e riqueza. De fato então ela viria a receber o título de princesa, alcunha que já carregava anteriormente devido a sua graça e beleza. Isso sem falar na fama que conquistou por ser uma das musas do mestre Alfred Hitchcock, estrelando obras lendárias como Disque M Para Matar e Janela Indiscreta, embora tenha tido seu trabalho reconhecido pela Academia de Cinema por Amar é Sofrer do diretor George Seaton. Seu último filme foi O Cisne lançado apenas cinco anos após o início de sua breve, porém, meteórica carreira. Contudo, ela saiu de cena parcialmente. Entrando para uma família real, eventos sociais eram constantes em sua agenda, assim como o assédio da imprensa que a pressionava a voltar aos sets de filmagem, mas agora como princesa Kelly se via atrelada as convenções da nobreza e devia respeito e obediência ao marido. Dona de uma trajetória literalmente cinematográfica, era evidente que mais cedo ou mais tarde sua história seria enredo de filme, mas Grace de Mônaco não faz jus a grandiosidade e importância dessa mulher. O diretor Olivier Dahan, que já havia dirigido a cinebiografia Piaf - Um Hino ao Amor, opta por acompanhar a vida da ex-atriz a partir do momento que assume sua posição como esposa do herdeiro de um trono. Se no filme a respeito de Edith Piaf, um mito da música francesa, o diretor arrancou uma interpretação arrebatadora de Marion Cottilard, merecidamente agraciada com o Oscar, aqui ele conta com a beleza de Nicole Kidman interpretando a princesa de Mônaco, mas não com seu talento. Embora Kelly fosse conhecida por certa frieza em seu comportamento, a atriz exagera quanto a essa característica e está apenas eficiente no papel.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

UM MOMENTO PODE MUDAR TUDO

NOTA 6,0

Longa aposta na velha fórmula
dos opostos que se atraem, no caso
uma amizade improvável, para
abordar doença degenerativa
A discussão sobre a esclerose lateral amiotrófica (ELA), problema que faz com que o portador perca o controle sobre seus músculos, é o tema do drama Um Momento Pode Mudar Tudo, que traz como protagonista a oscarizada Hilary Swank em um papel difícil. Após várias tentativas frustradas em emplacar em blockbusters e comédias românticas, a atriz aqui volta ao cinema mais introspectivo e reflexivo na pele de Kate, uma designer e pianista clássica que foi surpreendida com o diagnóstico da doença degenerativa que a fez perder os movimentos das mãos e das pernas. Logo que os primeiros sintomas se manifestaram ela já percebeu que sua relação com o marido Evan (Josh Duhamel) nunca mais seria a mesma coisa. Acostumados a frequentar festas e reuniões na casa de badalados amigos, pouco a pouco os convites cessam por conta das dificuldades para a moça se locomover e, obviamente, também por preconceito. Ao mesmo tempo, a intimidade do casal também vai minando já que um simples toque pode machucá-la. Necessitando de cuidados especiais diários, Kate decide contratar uma cuidadora, mesmo com o marido sendo contra a ideia, porém, uma garota um tanto improvável para a tarefa. Bec (Emmy Rossum) não tem talento para exercer tal função, sua experiência se resume a um trabalho voluntário em um asilo, e tampouco equilíbrio para controlar sua própria vida cheia de excessos. Todavia, uma amizade inusitada surge entre elas, o que ajuda a enferma não só a superar os obstáculos impostos por sua condição, mas também a enfrentar a crise em seu casamento. Tudo que Kate precisava era de alguém que a ouvisse, compreendesse e não a tratasse como um estorvo com prazo de validade a vencer.  O roteiro dedica-se a construção da amizade entre essas duas mulheres tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão necessárias uma a outra. Enquanto uma é retraída, introvertida e organizada, a outra é bagunceira, desbocada e liberal. O convívio e a troca de experiências diárias trará o equilíbrio para ambas.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

K-19 - THE WIDOWMAKER

NOTA 6,0

Retratando episódio propositalmente
esquecido da Guerra Fria, longa peca
por sua duração excessiva, não se definir
por um gênero e se repetir diversas vezes
A Guerra Fria, tal qual a Segunda Guerra Mundial, já serviu e continuará servindo como cenário de inúmeros filmes, seja pelo enfoque da espionagem ou nas corridas armamentistas e especiais dos EUA e da antiga União Soviética. A diretora Kathryn Bigelow, anos antes de consagrar-se a primeira mulher a vencer o Oscar de direção por Guerra ao Terror, já demonstrava apreço por histórias densas e de conflitos políticos como revela K-19 - The Widowmaker, baseado em fatos reais narrados pelos sobreviventes do submarino homônimo ao filme. Suas versões do episódio só vieram à tona após o fim da URSS, visto que antes disso foram obrigados a selar um pacto de silêncio sobre o ocorrido para não mancharem o nome de uma nação. Sem rodeios, logo na sequência inicial somos apresentados ao K-19, o primeiro submarino nuclear soviético que seria enviado até as geleiras do Pacífico Norte pata testes com mísseis. Estamos em 1961 e os comunistas competem com os norte-americanos pela supremacia bélica mundial. Mikhail Polenin (Liam Neeson), o capitão da embarcação, era contra lançá-lo ao mar, afinal ainda faltavam reparos para garantir a segurança do submergível, mas seus apelos não foram considerados. Após a falha ser constatada em um primeiro teste, o posto de comando é passado para Alexei Vostrikov (Harrison Ford), que fica encarregado da primeira missão do K-19 que seria lançar um míssil-teste em região de alcance a Nova York e Washington de forma que a máquina de guerra funcionasse como um elemento dissuasivo impedindo um possível ataque americano aos soviéticos. Contudo, as coisas se complicam quando o veículo começa a apresentar consecutivos problemas colocando em risco a vida de toda a tripulação. Logo no momento do embarque, um médico que acompanharia o trajeto morre atropelado e é prontamente substituído por um senhor com inclinação a enjôos. Sinal de alerta aceso. A tripulação empreende uma desesperada corrida contra o tempo não somente para salvar suas próprias vidas como também para evitar o início de uma Terceira Guerra Mundial. Em pleno auge da Guerra Fria, um acidente nuclear poderia ser interpretado como uma agressão militar.

terça-feira, 31 de julho de 2018

FALA SÉRIO, MÃE!

NOTA 6,0

Comédia aposta no choque entre
gerações, mas faz humor apenas com
situações triviais e não se aprofunda
na parte dramática do conflito
Enquanto Paulo Gustavo e Leandro Hassum mantém uma disputa acirrada pelo posto de grande nome masculino do cinema de humor nacional, correndo por fora ainda Bruno Mazzeo e Marcelo Adnet para tal posto, do lado feminino Ingrid Guimarães reina absoluta desde que lançou De Pernas Pro Ar, produção despretensiosa que termina como uma trilogia de sucesso. Embora com poucos filmes no currículo, a atriz tem o aval de seu público televisivo que se acostumou principalmente com seus trejeitos e sua maneira ágil de contar piadas. Contudo, em Fala Sério, Mãe! ela parece mais comedida e obrigada a dividir o protagonismo. Sua personagem começa narrando o longa, mas antes mesmo de meia hora de projeção a própria entrega que chegou o momento de outra pessoa continuar a história a seu modo. Então a bola é passada para a estrelinha teen Larissa Manuela, já a alguns anos um rosto representativo do SBT, mas que aqui viu a chance de se aproximar do universo da Globo, canal que fatalmente mais cedo ou mais tarde irá pertencer. O filme é um tanto clichê explorando os conflitos entre gerações a partir de situações cotidianas e banais. Adaptada do livro homônimo de Thalita Rebouças (um nome de sucesso considerável no cambaleante mercado editorial brasileiro), a trama começa nos apresentando Ângela Cristina (Ingrid) que pouco depois de se casar descobre estar grávida e como toda mamãe de primeira viagem está cheia de dúvidas e expectativas. Os primeiros minutos são dedicados a apresentar os tropeços dela e do marido Armando (Marcelo Laham) nos cuidados com uma criança, como as noites em claro quando tinham ainda uma bebezinha e tentar solucionar pacificamente pequenos conflitos quando a menina passa a ter vida social mais intensa, mas eles gostaram tanto de ser pais que não demorou muito e já tinham em casa três crianças. O ideal seria que o roteiro se preocupasse em mostrar as dificuldades do casal para lidar com as peculiaridades de cada filho ao mesmo tempo em que percebiam que a relação íntima deles dava sinais claros de fragilidade, um argumento bem mais consistente. Contudo, tal linha poderia fugir das verdadeiras intenções: um programa família com apelo juvenil.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

A OUTRA (2008)

NOTA 7,0

Longa aborda a história de
Maria, irmã mais nova da polêmica
Ana Bolena, mas se preocupa mais
com a estética do que com o enredo
A história de Anne Boleyn (que viveu entre 1500 e 1536), ou mais popularmente conhecida como Ana Bolena, é bastante curiosa e já foi levada para as telas do cinema e da televisão algumas vezes. A Outra tenta ser a versão definitiva de sua trajetória apoiando-se em uma requintada produção e, principalmente, no talento e força da interpretação de Natalie Portman que mescla falsidade, luxúria, persuasão e perversidade para compor o perfil da polêmica inglesa. Contudo, como o título deixa claro, o longa destaca também os acontecimentos envolvendo a irmã caçula da jovem, a imaculada Maria, vivida contidamente por uma Scarlett Johansson atípica. A moça é uma figura praticamente ignorada nos livros de História, mas também marcante na trajetória da corte do rei Henrique VIII, interpretado por Eric Bana. Tendo como base o livro "A Irmã de Ana Bolena", de Philippa Gregory, o roteiro de Peter Morgan condensa vários anos das vidas destes personagens em aproximadamente duas horas de narrativa, assim não há espaço para trabalhar os perfis de forma multifacetadas. A inescrupulosa é assim até o fim, a bondosa é capaz de sucumbir a traições e humilhações sem reivindicações e o homem disputado pelas irmãs é um otário que não sabe o que quer da vida. Henrique Tudor tinha o poder de mandar e desmandar na vida de todos, inclusive no que dizia a respeito de suas intimidades, mas haviam coisas que não poderia interferir. Ele vivia um casamento infeliz com Catarina de Aragão (Ana Torrent), da Espanha, tudo porque ela não lhe deu o tão esperado filho homem que daria continuidade a sua linhagem e assumiria o trono. O rei então passa a procurar nas redondezas alguma jovem que pudesse realizar seu sonho... Ou seria obrigação?

terça-feira, 19 de junho de 2018

DIVINOS SEGREDOS

NOTA 5,0

Apesar do elenco estelar, mescla
de drama e comédia derrapa
por trama extremamente feminina
e arrastada por flashbacks
Filmes estrelados por Sandra Bullock estão para as mulheres tal qual as ações do brucutu Vin Diesel estão para os homens, mas nem sempre seu nome encabeçando o elenco garante o sucesso. Ao menos não no Brasil. O drama com pitadas de humor Divinos Segredos passou em brancas nuvens por aqui, mas nos EUA foi um sucesso surpreendente. Em Hollywood é comum atrizes de meia idade e veteranas reclamarem da carência de bons papeis, mas aqui um seleto grupo feminino encontrou uma chance de ouro. Só faltou que a história equilibrasse melhor a dose de estrogênio. É simplesmente um filme feito por e para mulheres que não dá brechas para a plateia masculina, a não ser os homens mais sensíveis (homo ou héteros, tanto faz). Callie Khori, vencedora do Oscar pelo roteiro do longa símbolo do feminismo Thelma e Louise, então fazia sua estreia como diretora após um longo hiato na carreira, quando roteirizou apenas a comédia romântica O Poder do Amor protagonizada por Julia Roberts. Dá para perceber que ela sabe bem como agradar seu público-alvo e no filme em questão caprichou no elenco, mas talvez devesse também ter assumido as rédeas do texto. Roteirizado por Mark Andrews, baseado no romance homônimo de Rebecca Wells, o filme começa apresentando um grupo de amigas que na adolescência formaram uma irmandade e se autointitularam como as Irmãs Ya-Ya. Ao longo dos anos elas estabeleceram regras de convivência e mantiveram a amizade por toda a vida. Isso até que a relação ficou estremecida quando uma delas não gostou nada de ver as companheiras se metendo em um problema pessoal. Siddalee Walker (Bullock), ou simplesmente Sidda, há muitos anos se mudou com a cara e a coragem para Nova York a fim de tentar a carreira como dramaturga, mas o principal motivo era deixar a casa de Vivi (Elle Burstyn), sua instável mãe. Tudo corria bem até que certa vez a moça concede uma entrevista a uma famosa revista e acaba tendo suas palavras deturpadas pela jornalista, assim quando comenta sua relação com a mãe dá a entender que teve uma infância e juventude infeliz. Um balde de água fria cai em cima da matriarca ao ler a matéria e se elas já não tinham muito contato antes agora o rompimento seria inevitável.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

SRA. HENDERSON APRESENTA

NOTA 8,0

Registrando um período da vida de
importante nome da sociedade britânica,
longa resgata a história de uma espécie de
refúgio da alegria em tempos de guerra
Judi Dench é um tipo específico de atriz. Seu trabalho é reconhecido pela crítica, mas não tem a popularidade de uma Meryl Streep, mesmo tendo participado de vários filmes da série de James Bond, o agente 007. Sua postura austera e predileção por papeis dramáticos e de época também colaboram para criar em torno dele uma aura quase intransponível, por isso no mínimo é curioso vê-la no papel-título de Sra. Henderson Apresenta, uma agradável comédia com fundo dramático. Baseado em fatos reais, a trama enfoca uma época da vida de Laura Henderson, uma das mais destacadas e excêntricas personalidades da sociedade londrina no período que antecedeu a Segunda Guerra graças a sua casa de espetáculos, a Windmill. A  história deste teatro já havia sido contada no longa No Coração de Uma Cidade, datado de 1945 com Rita Hayworth, mas sem tocar no nome da mulher que deu vida ao local, mas omiti-la é praticamente um sacrilégio. Após ficar viúva, aos 69 anos de idade, ela descobre que não resta muita coisa para senhoras sozinhas fazerem, a não ser bordar ou participar como voluntária em instituições de caridade. O único benefício desta condição, nos casos das ricaças, seria poder gastar a vontade sem dar satisfações a ninguém, mas ao contrário de suas amigas que compram joias sem necessidade e praticam caridade para se manterem em evidência, ela quer aproveitar para fazer tudo o que não pôde na juventude e ajudar a sociedade londrina a seu modo. Seu principal projeto é recuperar a tradição do teatro musical que perdeu espaço para o cinema a partir do advento dos recursos sonoros. Assim, quando encontra um grande estabelecimento abandonado em um subúrbio de Londres ela não pensa duas vezes e o compra para transformá-lo em uma casa de espetáculos diferenciada. A ideia era ter diversas apresentações dia e noite, nunca fechar as portas, mas ela se dá conta que não sabe como administrar um negócio do tipo. Para ajudá-la a resgatar o estilo de teatro vaudeville ela então contrata o agente teatral Vivian van Danmm (Bob Hoskins), mas a convivência desde o início é marcada por troca de farpas e guerra de egos. A semana de estreia do primeiro espetáculo do teatro Windmill supera as expectativas, mas logo a viúva passa a perder dinheiro visto que a concorrência passa a copiá-la e a dividir o público com espetáculos também ininterruptos.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

A TARTARUGA VERMELHA

NOTA 9,0

Primeira co-produção do estúdio
Ghibli com a Europa honra a tradição da
empresa japonesa investindo em trama
onírica, delicada e rica em detalhes visuais
Tão importante quanto os estúdios Disney, o Studio Ghibli por décadas cultivou a imagem de sinônimo de magia, poesia e qualidade no campo das animações, ainda que a maioria de suas produções ficassem restritas a um público mais seleto. Desde que A Viagem de Chihiro conseguiu derrubar tal barreira, muito graças ao Oscar da categoria conquistado em 2003 que ajudou a fita a garimpar espaço para exibição em grande circuito, o público da empresa certamente dobrou assim como a procura pelo seu catálogo de títulos. O público então pôde assistir pela primeira vez ou rever verdadeiros tesouros da sétima arte, contudo, a própria companhia então já divulgava uma contagem regressiva para encerrar suas atividades. Felizmente voltaram atrás na decisão. Para driblar os altos custos do processo artesanal de confecção dos filmes e a aposentadoria de seus profissionais mais antigos, entre eles o cultuado Hayao Miyazaki, o jeito foi ampliar horizontes e se adaptar aos moldes da globalização, assim adotando o sistema de co-produções. Dirigido e idealizado pelo holandês Michael Dudok de Wit, A Tartaruga Vermelha é uma belíssima e emocionante produção que preserva boa parte do DNA do estúdio japonês, como a harmonia entre enredo rico em conteúdo e ao mesmo tempo poético e fabular e imagens que arrebatam com seus detalhes, apuro técnico e paleta de cores escolhida a dedo. No filme em questão, esteticamente o deslumbre é ainda maior por explorar a paisagem de uma ilha deserta. Completamente sem diálogos (ouvimos apenas alguns gritos e interjeições ocasionais), o longa começa com o protagonista, cujo nome jamais é revelado, em apuros durante uma tempestade em alto-mar. Levado pelas ondas até uma remota ilha, ele tem a ideia de fazer uma jangada improvisada de bambu para retornar à civilização, mesmo que para isso demorem vários dias. Contudo, seu plano acaba sendo frustrado repetidas vezes por conta de uma imensa tartaruga vermelha que insiste em destruir a balsa. O animal estaria apenas seguindo seu instinto selvagem ou evitar a partida do náufrago teria alguma razão específica?

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