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NOTA 8,0 Através de dois jovens personagens longa mostra como funciona a "vida fácil" que seduz, recompensa, mas também não é um mar de rosas |
Há mais de vinte anos a novela “De Corpo e Alma”, de Glória
Perez, causou polêmica ao apresentar em horário nobre o que era um clube das
mulheres. Homens dançando com sungas minúsculas, rebolando, fazendo caras e
bocas, satisfazendo mulheres jovens, de meia idade e até idosas e como
recompensa enchendo os bolsos de grana alta. Ou melhor, guardando o máximo de
dinheiro que fosse possível em seus sumários trajes. Na época ousar trabalhar
neste ramo virou moda por aqui, mas não demorou muito para os strippers
voltarem a atuar nos chamados inferninhos. Nos EUA, no entanto, esse negócio é
um dos mais lucrativos há décadas e ainda continua em alta e seduzindo novos
trabalhadores. Magic Mike explora este universo e muito antes de ser lançado já
chamava atenção obviamente por alimentar expectativas quanto a cenas de nudismo
e sexo. Bem, a mulherada e os homens simpatizantes da causa não têm do que
reclamar. Saradões caprichando nas “interpretações” no palco e interagindo
muito a vontade com a plateia feminina não faltam, porém, o longa de Steven
Soderbergh, dos elogiados Traffic e Erin Brockovich, não tem o intuito de
excitar, mas sim de lançar um olhar mais humano sobre esse mundo glamourizado.
Será que para trabalhar no ramo do sexo é preciso ser um depravado ou a
desculpa das necessidades financeiras justificam a incursão? O roteiro do
novato Reid Carolin surpreende ao não jogar todos os holofotes sobre o personagem-título
e optar por dividir as atenções entre dois tipos que obviamente servirão para
apresentar pontos de vistas diferentes sobre a questão. Em Tampa, na Flórida, Mike
(Channing Tatum) está beirando os trinta anos e se desdobra em dois empregos.
Durante o dia é um peão de obras e a noite é stripper em uma casa noturna. Nas
horas vagas ainda aceita fazer programas e o pouco tempo que sobra gasta
desenhando e montando móveis, sua verdadeira paixão, mas os tempos são de
recessão e o impedem de trabalhar por conta própria e com algo “normal”. Para sobreviver à crise cada um se vira como
pode e o rapaz se faz valer de seu físico malhado e beleza e já há algum tempo
é considerado a principal atração do clube comandado por Dallas (Matthew
McConaughey). Embora mostre muita desenvoltura no palco e assuma que não perde
a oportunidade de ir para a cama com as mulheres que lhe dão mole, ele prefere
ver tudo isso como investimentos e em breve pretende abandonar o ramo.

O equilíbrio entre a moralidade e a libertinagem é o
calcanhar de Aquiles deste drama com toques de humor e erotismo, mas também
pode ser o ser grande trunfo. Simplesmente Soderbergh fica em cima do muro e
usa como muleta seus dois protagonistas para expor pontos de vista diferentes
sobre a questão, mas não aponta qual deles é quem tem a razão. Embora fique
subentendido o caminho que cada um seguirá desde o início, o diretor prefere
não condenar ninguém e o espectador é quem deve julgar levando em consideração
seus próprios princípios. A premissa pode nos remeter à comédia britânica Ou
Tudo Ou Nada que em 1997 já mostrava maneiras alternativas dos homens driblarem
crises financeiras, mas apostando no deboche ao colocar quarentões fora de
forma e tímidos para tirar a roupa em shows. Já Magic Mike prima pela ousadia.
Talvez nunca uma produção de Hollywood tenha dedicado tanta atenção aos corpos
masculinos (filmes de Van Damme, Stallone e companhia não contam) oferecendo
generosos closes que não poupam nem mesmo as estrelas da fita que se entregam
aos seus papeis sem medo algum. McConaughey, pouco antes de emagrecer
exageradamente para Clube de Compras Dallas e compor o papel que lhe traria
tantos prêmios incluindo o Oscar, surge aqui mais canastrão do que nunca e
exibindo um físico para dar inveja a qualquer garotão. Usando uma pequena sunga
e mostrando-se totalmente à vontade, ele protagoniza uma irônica cena na qual
ensina o seu mais novo contratado como levar as mulheres à loucura fazendo
movimentos suspeitos em frente a um espelho. Com outros bombados ao fundo
cultuando seus músculos na academia, a sequência traz certa carga de
homoerotismo, assim como toda a narrativa, mas evita-se expor abertamente o
tema. A atração entre os homens, algo que deve ser bastante comum neste meio, é
mostrada de forma velada através de simples elogios à boa forma ou desempenho
nos shows ou até mesmo por intermédio do voyeurismo, visto que os dançarinos
costumam dividir as mulheres que conquistam em orgias. Aliás, o sexo feminino
que ainda briga por direitos iguais tem aqui mais uma conquista vendo
materializados os mais variados fetiches sexuais, algo que antes parecia
exclusividade para o público masculino. Soldados, cowboys, executivos,
policiais, marinheiros, rappers e até homens da caverna. Em rápidos ou
generosos takes, Soderbergh explora praticamente todas as fantasias possíveis e
Pettyfer não se intimida. E pensar que ele foi o protagonista de Alex Rider
Contra o Tempo. O garoto cresceu... E como! Já Tatum, elevado ao posto de galã
por romances como Querido John, demonstra tanta desenvoltura por justamente já
ter sido um stripper, mas tal qual seu personagem estava nos palcos apenas para
um trampo temporário. De certa forma uma homenageado ao astro, o longa
realmente surpreende quem espera ver um pornô-soft. Mesmo com o romance entre Mike e Brooke ser
forçado e a relação do dançarino e seu chefe explorada superficialmente, o
longa desbrava com eficiência este mundo que literalmente seduz, mas que exige
pessoas com cabeça no lugar para saber lidar com preconceitos, narcisismo, armadilhas
e traições.
Drama - 110 min - 2012
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