sexta-feira, 4 de julho de 2014

O MILAGRE DE BERNA

NOTA 8,5

Tendo a vitória da Alemanha na Copa
de 1954 como pano de fundo e através
da ótica de uma família, drama busca a
renovação da esperança em dose dupla
Desde que a televisão surgiu, o evento da Copa do Mundo tornou-se popular em todos os países, obviamente galgando cada passo de acordo com a modernização de cada pátria. Na Alemanha de 1954, alguns poucos lares ou espaços públicos já podiam se dar ao luxo de ter um aparelho de TV instalado, embora a maioria escutasse a narração dos jogos pelo rádio. Ainda bem que já existiam estas invenções, caso contrário os torcedores locais iam perder a chance de acompanhar a primeira vitória do país na competição, um título que devolveria a autoestima e apontaria o início de uma nova Era à está pátria. Unindo com perfeição uma trama fictícia a fatos reais, O Milagre de Berna é um drama que recria a euforia pela qual uma minoria do povo alemão passava torcendo por sua seleção ao mesmo tempo em que o país ainda sofria com os fantasmas do nazismo. Com direção de Sönke Wortmann, a primeira participação da Alemanha no evento esportivo após a Segunda Guerra Mundial e depois de ter sido dividida em ocidental e oriental é recontada através da ótica da baqueada família Lubanski. Enquanto muitos patrícios repudiavam a presença da Alemanha Ocidental nos jogos por conta da péssima imagem acumulada pelas atrocidades da guerra, o pequeno Matthias (Louis Klamroth) parecia bastante entusiasmado e torcia pela convocação de seu ídolo, o jogador Helmut Rahn (Sascha Göpel), que apesar de ainda muito jovem o garoto o elegeu como uma espécie de figura paterna. Ele costumava carregar a bolsa de roupas do esportista até os treinos e em troca ganhava o direito de assistir aos jogos de graça já que era considerado um mascote da sorte pelo rapaz. A vida do pequeno torcedor muda radicalmente quando Richard (Peter Lohmeyer), seu pai, retorna para a casa após onze anos como prisioneiro de guerra na Rússia. Até poucos dias antes de sua volta a família acreditava que ele poderia estar morto e sua esposa Christa (Johanna Gastdorf) tentava segurar as pontas com os lucros que tirava de um bar onde também trabalhavam seus outros filhos, os adolescentes Ingrid (Birthe Wolter), aparentemente conformada com a situação, e Bruno (Mirko Lang), que desejava ganhar a vida como músico e assumiu voluntariamente as funções patriarcais do clã. Richard, querendo impor sua rígida disciplina, demonstra dificuldades para se adaptar a rotina em família e constantemente tem atritos com o filho mais velho simpatizante do comunismo e com a filha que flerta com soldados. Já o caçula parece aceitar melhor o retorno do pai, mas Richard também impõem barreiras nesta relação já que não sabia da existência de um terceiro filho que nascera exatamente nove meses após sua partida, pois jamais recebeu as cartas enviadas pelos parentes.

Paralelo ao drama dos Lubanski, a seleção alemã da parte ocidental está na Suíça participando da Copa do Mundo, mas sua atuação é muito criticada pelos jornalistas, principalmente após a vexatória e histórica goleada que levaram da equipe da Hungria na primeira fase (8 a 3). Pelos primeiros resultados, os húngaros eram os favoritos ao título enquanto os alemães tinham uma torcida desacreditada, ainda mais pelas escolhas do técnico Sepp Herberger (Péter Franke) que preferiu colocar os reservas em campo nos dois primeiros jogos para poupar os titulares para a terceira e decisiva partida contra a Turquia. Visionário, ele estudou estratégias que em um primeiro momento assustaram, mas os resultados impediram que a equipe enfrentasse o Brasil e o Uruguai nas fases seguintes, respectivamente os vice-campeões e os campeões da Copa anterior. Na segunda etapa do campeonato, o time enfrentou a Iugoslávia em um jogo que marcou a estreia de Rahn no mundial que fez um dos dois gols da seleção contra nenhum acerto dos rivais (pelo contrário, marcaram um gol contra), mas ainda assim a própria imprensa alemã parecia insistir em uma campanha desfavorável a participação da Alemanha ocidental nos jogos. As entrevistas coletivas de Herberger podem parecer maçantes, mas guardam pequenos detalhes interessantes, como a compreensão do termo “tempo Fritz Walter”, utilizada até hoje por jogadores germânicos como incentivo. Walter (Knut Hartwig) era o capitão do time e teve a difícil tarefa de manter a empolgação dos jogadores diante das inúmeras críticas até levá-los a conquista do título, mas até esse final feliz chegar muitas coisas aconteceram tanto para a seleção quanto para os Lubanski. Richard deseja recuperar sua posição de chefe de família e queria até se desfazer do bar da esposa prometendo voltar a sustentar a todos com seu próprio esforço, mas não conseguia mais se concentrar no trabalho nas minas de carvão como antes, mais uma frustração a se somar a tantas outras que tentava digerir há mais de uma década. O resultado é que ele vivia brigando a ponto de Christa quase desejar a separação, ainda mais depois que Bruno fugiu para a parte oriental do país onde julgava existir um estilo de vida ideal. No entanto, há males que vem para o bem. Após esta afronta, o patriarca começa a regenerar-se focando na educação do caçula. Antes amante do futebol, Richard recupera a fé no esporte e passa a incentivar Matthias nas partidas com os amigos. Enquanto isso, a seleção fazia bonito na Copa e chegava a grande final, mas quis o destino que mais uma vez seu adversário fosse a temida Hungria. Para adicionar um pouco de humor à trama, temos a presença do repórter Paul Ackermann (Lukas Gregorowicz) que de supetão recebeu a notícia de que deveria fazer a cobertura da Copa, mas para tanto ele teria que levar na viagem a esposa Annette (Katharina Wackernagel), uma mulher bem mais segura e impetuosa que o próprio marido.

Apesar da boa campanha da seleção, Rahn estava apreensivo para o último jogo sem a presença de seu mascote, mas para a surpresa de Matthias seu próprio pai se oferece para acompanhá-lo até Berna para assistir a última partida da Copa e assim se dá o tal milagre do título: uma cidade que serviu como palco da vitória de um time que começou o campeonato totalmente desacreditado e que também inspirou a definitiva reconciliação de um pai com seu filho e porque não a reunião de uma família. Escrito por Wortmann em parceria com Rochus Hahn, O Milagre de Berna foge um pouco do esquemático enredo da superação através do esporte. Tal gancho se faz presente em dose dupla neste caso, mas o roteiro agrega alguns ingredientes que o tornam um produto diferenciado, assim não importa que já seja de nosso conhecimento de antemão o final feliz da trama, pois vibramos com a seleção alemã e torcemos por Matthias de qualquer maneira. Graças aos aspectos técnicos, desde os primeiros minutos somos transportados para a década de 1950 e podemos comparar o cinzento cotidiano alemão que se contrapõe ao ensolarado solo suíço, uma metáfora a ideia de que dias melhores viriam para a Alemanha a partir do episódio da Copa. É preciso destacar também o capricho para recriar detalhes do mundo do futebol, como os uniformes dos jogadores e a recriação da bola oficial da época. Até o criador da marca Adidas é lembrado pelas chuteiras com travas que foram especialmente desenvolvidas para a participação dos alemães no evento. Para dar mais veracidade a reconstituição da partida decisiva do mundial, ocorrida no dia 04 de julho e a única encenada no longa, o diretor, que também já se dedicou ao futebol, convocou diversos jogadores profissionais e técnicos para figuração e consultoria, mas preferiu não trabalhar com planos abertos a fim de não quebrar a “magia”. O estádio original foi demolido há muitos anos e com o orçamento modesto obviamente não foi possível recriá-lo com suas reais dimensões. A opção foi reproduzi-lo digitalmente, alcançando um resultado razoável. O que falta de grandiosidade nas arquibancadas e no próprio tamanho do gramado sobra em riqueza de detalhes para criar a atmosfera de euforia e tensão em uma partida decisiva, ainda mais esta em questão que ocorreu sob clima chuvoso e rivalidade entre os times escancarada. Lançado dois meses após o falecimento do verdadeiro Rahn e vencedor de alguns prêmios em festivais europeus, o longa levou mais de seis milhões de alemães aos cinemas, mas estranhamente passou em brancas nuvens pelo Brasil que pretensiosamente se assume como o país do futebol. Pura rivalidade? Se for isso, santa ignorância! O episódio de Berna deve ser lembrado por todas as pátrias como um exemplo de que até o último minuto devemos ter esperanças de que é possível virar o jogo, basta ter confiança. O filme pode começar com seu placar definido, mas as emoções que ele proporciona podem ser tão imprevisíveis quanto uma boa partida de futebol.

Drama - 118 min - 2003 

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