terça-feira, 31 de maio de 2016

O CORONEL E O LOBISOMEM

NOTA 6,5

Adaptação de obra literária
brasileiríssima peca pelo
tom teatral exagerado e
personagens mal delineados
O lobisomem é um dos monstros mais populares do cinema americano e já apareceu em diversos filmes, até em comédias e romances, contudo, a lenda está longe de ser uma propriedade dos ianques. O mito na realidade teria surgido em terras européias e espalhou-se rapidamente pelo mundo graças a literatura e posteriormente por outras manifestações culturais. No Brasil tal figura ganhou status de lenda do folclore nacional, até hoje amedronta cidades interioranas e já foi transformada em personagem de telenovelas, então qual o problema dela também deixar sua marca no cinema nacional? Infelizmente O Coronel e o Lobisomem não conseguiu nem deixar o mínimo sinal das garras do bichano na História da nossa produção cinematográfica. Quer dizer, isso se olharmos pela ótica comercial, mas em termos artísticos o longa timidamente representa um divisor de águas. Cercado por um clima interiorano e de comédia farsesca que serviram de chamariz para atrair multidões para assistirem O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro, neste caso a fórmula de sucesso falhou entre os populares, mas agradou razoavelmente os críticos que foram generosos com suas avaliações levando em consideração o salto qualitativo que a produção significou para nosso mercado ainda tão tímido e preso a padrões. Quem imaginaria em 2005 que nós poderíamos também criar personagens totalmente digitais sem aquela sensação tosca de imagens coladas em cenas pré-gravadas? Mas antes desse fator, o que chama atenção neste produto atende pelo nome de Guel Arraes. Como nos outros filmes citados, este cineasta especialista em verborragia e em adaptações literárias deixou sua marca aqui envolvendo-se como produtor e roteirista, o que explica as semelhanças do produto final com seus célebres trabalhos, mas a sensação de que faltaram muitas coisas para deixar a obra redondinha pode estar no fato da direção ter sido entregue à Maurício Farias, experiente diretor de TV, mas estreando no campo da sétima arte e provavelmente pouco ambientado ao universo dos contos populares interioranos. Baseado no livro homônimo de José Cândido de Carvalho datado de meados dos anos 60, a trama foi roteirizada também por Jorge Furtado e João Falcão. O trio de autores já havia adaptado a obra para um especial de TV em 1994, mas certamente perceberam que o livro tinha muito mais a oferecer do que caberia em cerca de uma hora de arte, porém, não conseguiram colocar no papel todo esse potencial visto que erraram em um ponto fundamental: construção de personagens. É uma pena que o longa por vezes dê a impressão que é justamente um programa televisivo esticado ou uma peça teatral filmada devido aos seus diálogos rebuscados e tom de voz das personagens que não raramente parecem declamar poemas evocando demasiadamente o estilo narrativo literário. As características cinematográficas foram anuladas no texto, mas acentuadas em termos visuais visto que o diretor priorizou a exploração dos cenários e locações sem o rimo frenético tão comuns as obras de Arraes que o deixou livre para trabalhar como bem desejasse.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

ABAIXO O AMOR

NOTA 8,5

Comédia romântica resgata

o clima da década de 1960 com
história bem bolada e visual
típico de filmes da época
Os anos 60 deixaram saudades para muitas pessoas. Reviravoltas políticas, conflitos a favor de atos libertários, a moda peculiar e rebelde, as canções que faziam críticas de forma escamoteada, artistas sendo banidos de seu país natal... Epa! Essa é uma visão muito nacional e dramática dos tempos do iê-iê-iê. Melhor guardarmos como lembrança dessa época o lado romântico visto pela ótica hollywoodiana deliciosamente exagerada de Abaixo o Amor. A palavra vintage costumava ser usada para se referir as melhores safras de vinho de determinado tipo ou região, mas passou a ser sinônimo de coisas que simbolizam períodos aleatórios do passado. Assim tal palavra é transcrita em forma visual literalmente a cada segundo desta comédia romântica que mostra um momento importante para o movimento feminista ao mesmo tempo em que tenta jogar por água abaixo a teoria de que as mulheres podem viver sem os homens. O diretor Peyton Reed foi habilidoso para construir uma trama inteligente e divertida que agrada a ambos os sexos. O filme já começa de forma irresistível com a abertura feita em animação com uma agradável e contagiante canção, tudo para o espectador já entrar no túnel do tempo. Logo somos apresentados a sociedade predominante machista do ano de 1962, mas a época já apontava mudanças e as mulheres começavam a ir à luta em busca de seus lugares no mercado de trabalho e a brigar por direitos iguais. A escritora Barbara Novak (Renée Zellweger) chega a Nova York cheia de esperanças de fazer sucesso com seu livro "Abaixo o Amor", mas acaba se decepcionando com a recepção fria a seu trabalho cujo objetivo é provar que as mulheres podem sim ser felizes e independentes sem precisarem de um homem ao lado. Porém, ela ainda teria a chance de mudar as coisas. Graças a ajuda de sua amiga Vicki (Sarah Paulson) ela consegue divulgar seu livro pegando carona no sucesso de uma música de mesmo título e mais uma rápida passagem por um programa de TV e da noite para o dia a sua vida muda completamente e sua obra consegue vender que nem água no deserto e ficar em primeiro lugar na lista dos mais vendidos. Os homens naturalmente não gostaram nada desse lançamento, mas um em especial se incomodou um pouco mais. O conteúdo do livro atinge negativamente o estilo de vida do jornalista metido a galã Catcher Block (Ewan McGregor), que decide se aproximar da autora e conquistá-la, assim desmentindo todas as teorias revolucionárias da jovem e conseguindo a grande matéria de sua vida.

domingo, 29 de maio de 2016

GOLPE DE GÊNIO

Nota 3,5 Longa sobre jovens inventores que conquistaram sucesso peca pelo ritmo irregular

Existem alguns filmes baseados em fatos reais cujas tramas parecem absurdas, mas para todos os efeitos aconteceram realmente. Um desses casos é o longa Golpe de Gênio que narra a trajetória profissional de dois jovens inventores que ganharam muito dinheiro e fama, ao menos em solo americano, idealizando bugigangas. Matt (Dallas Roberts) é um inventor fracassado que comanda junto com Sam (Jeremy Renner), seu amigo e sócio e vendedor, uma empresa especializada em brindes e presentes, mas os negócios vão de mal a pior. Mesmo assim eles não param de ter novas ideias, acreditam que suas criações têm algum potencial, só faltam serem descobertas pelo público e investidores, e procuram lidar com otimismo a todas as adversidades que cruzam seus caminhos. Entre invenções tolas como uma escova de dentes para apressadinhos, a sorte parece bater na porta da dupla quando eles criam um relógio para cachorros no qual os números são substituídos por desenhos que indicam as necessidades do animal, uma forma de ajudar os seus donos a administrarem melhor o seu dia sem se esquecer dos bichanos. Como para muita gente o animal de estimação é como uma pessoa da família, eles acreditam que há demanda para o produto e empolgados com a criação eles começam a contar aqui e ali sobre a novidade até que caem na lábia de um inescrupuloso investidor que no final das contas rouba a ideia dos rapazes e os pega de calça curta quando repentinamente lança o produto em um programa de vendas da TV. A ingenuidade, mas também a força de vontade de Matt e Sam é que compõem a fina linha que prende a atenção do espectador à frágil narrativa criada pelo roteirista estreante Mike Cram, um ex-profissional da área de marketing e inventor amador nas horas vagas. É sua própria história de vida profissional que o inspirou a escrever o roteiro, inclusive diversas invenções que aparecem no longa são suas, como o relógio loteria da sorte, artefato dotado de uma roleta parecida com a de máquinas de jogatinas que cada vez que é acionada oferece uma nova sequência de números para o apostador (essa poderia fazer sucesso).

sábado, 28 de maio de 2016

TRÁFICO DE ÓRGÃOS

Nota 8,0  Mercado clandestino de órgãos é revelado através de um pai tentando salvar a filha

As regiões que ficam na fronteira do México com os EUA são conhecidas pelas altas taxas de produção industrial visto o grande número de multinacionais que se instalam por lá em busca de benefícios fiscais e mão-de-obra barata, mas as mesmas áreas também carregam a fama de serem territórios perigosos e com grande concentração de atividades ilegais. Uma das cidades mais famosas da região é Juarez, local que já serviu como palco das ações de diversos filmes que procuraram denunciar os crimes que por lá ocorrem e são encobertos pela polícia e governantes. Drogas, prostituição, trabalho escravo, estupros e mutilações são alguns dos delitos comuns por lá, mas o longa Tráfico de Órgãos escancara mais uma chocante realidade. Como o próprio título deixa claro, o diretor Baltasar Kormákur explora a temática do comércio de órgãos humanos que chocantemente não se restringe a violentar cadáveres vítimas de morte natural. Para escancarar os podres deste submundo o roteiro de Christian Escario, John Clafim e Walter A. Doty III mantém o foco em um pai desesperado para salvar a vida de sua filha pequena. O promotor público Paul Stanton (Dermot Mulroney) está sofrendo com a piora do estado de saúde da garotinha que tem uma doença degenerativa pulmonar. O tempo para salvá-la está se esgotando e ele se revolta quando descobre que surgiu um pulmão compatível e que está aguardando em uma unidade hospitalar próxima a eles, mas segundo a lista de cadastrados a espera de um transplante o órgão deveria ser destinado a um garoto que se encontra em uma cidade afastada, correndo inclusive o risco de a doação perder a viabilidade. É nesse período que ele descobre que o político Jim Harrison (Sam Shepard) provavelmente furou a fila de espera e conseguiu um coração de forma ilegal, o que o faz viajar até Juarez em busca do médico que realizou esta cirurgia, mas parece que o tal Dr. Navarro é uma lenda. O que é realidade é que Stanton acaba se envolvendo com pessoas barra pesada, gente que está acostumada a tirar proveito dos visitantes e não pensa duas vezes se precisar matar alguém. Por outro lado, o promotor também encontra gente do bem como o médico Hector Martinez (Vicent Perez), um dos voluntários de um hospital dedicado a atender a população carente local. Todavia, este profissional pode não ser tão bonzinho assim e acaba fazendo uma proposta tentadora a Stanton para salvar sua filha, porém, se aceitá-la ele estará em meio a um conflito ético afinal alguns dos lemas de sua profissão é preservar ao máximo a verdade e não infringir leis. Contudo, caso pense em seu próprio bem-estar o promotor terá uma desagradável surpresa.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

LABIRINTO - A MAGIA DO TEMPO

NOTA 8,5

Por trás da aparente inocência,
longa fantasioso é cheio de
mensagens subliminares
usando um jogo de manipulação
Muitos filmes sobre mundos fantásticos foram lançados na década de 2000 impulsionados pelo sucesso de obras literárias que ganharam suas versões cinematográficas como Harry Potter, O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia, mas quantas dessas produções “menores” vão no futuro ganhar o status de clássicos estilo sessão da tarde? Pois é, muita coisa bacana foi lançada nos últimos anos, mas a rapidez com que seu ciclo de vida transcorre impossibilita que elas se tornem marcantes, algo impulsionado pela repugnante cultura do imediatismo. Qual seriam então os segredos dos clássicos infanto-juvenis dos anos 80 que ainda povoam o imaginário de muitos adultos, a maioria que felizmente gostaria de agora poder vivenciar as mesmas emoções de outros tempos junto com seus filhos ou netos? As explicações mais óbvias seriam a ajuda da TV e das videolocadoras. Filmes na telinha antigamente eram verdadeiras moedas de ouro, garantia de muita audiência pelo ineditismo da ação, e se gostasse ou perdesse a hora ainda teria a possibilidade de alugar na loja mais próxima, hábitos que certamente colaboraram para a popularização de alguns títulos. Teoricamente, hoje esse quadro ainda é possível, mas diante de tantas possibilidades de entretenimento e a pressa do público em geral não há tempo para fomentar boca-a-boca sobre os filmes, salvos aqueles que recebem o apoio da mídia em massa. Bem, isso é uma discussão quente entre o tradicional e o moderno que não vem ao caso. Toda essa introdução é para tentar resgatar um pouco do clima e do impacto que causou no passado Labirinto – A Magia do Tempo, uma agradável aventura passada em um reino fantástico que certamente faz parte da lista de filmes do coração de muito marmanjo, porém, um trabalho que para conquistar novas gerações só mesmo apelando para o valor sentimental que a obra representa. Vamos por partes. Além de uma forcinha dos mais velhinhos comentando sobre as lembranças que o filme desperta e o fato de ser uma obra de fantasia, o que pode aguçar a vontade de assistir a este trabalho é a presença de Jennifer Connelly. Para muitos ela estreou em Uma Mente Brilhante, longa que lhe deu o Oscar de atriz coadjuvante, mas na realidade ela já batalhava na profissão há tempos e aqui aparece bem jovenzinha interpretando Sarah Williams, uma garota que adora contos de fantasia. Certa noite seus pais saem e pedem para que ela tome conta do seu irmão ainda bebê, Toby (mesmo nome da criança real, Toby Froud, para facilitar a sua dinâmica com os atores), mas ela não parece muito disposta e logo se irrita com seu choro. Num momento de raiva ela acaba contando resumidamente para o pequeno a história de uma jovem que não suporta mais tantas tarefas e deseja que os goblins, outra alcunha para duendes, levem seu irmão embora. O conto faz parte do livro “Labyrinth”, um de seus prediletos, e para finalizar ela ainda diz uma frase que jamais deveria nem ter passado por sua mente: “eu quero que os goblins venham e o levem embora agora!”.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

QUERIDA WENDY

NOTA 7,0

Pequena e pacata cidade é
usada para discutir importantes
temas sociais ligados aos jovens,
armas, medo e violência
Embora não tenha um currículo muito extenso o diretor Lars Von Trier se tornou uma grife cinematográfica, um nome que pode não render milhões, mas que tem platéia cativa e o poder de suscitar discussões, reflexões e expectativas. Thomas Vintenberg é um nome menos conhecido, porém, ambos são profissionais que têm importância singular na História do cinema. Eles foram alguns dos cineastas que levantaram a bandeira do movimento Dogma 95, uma corrente que defendia a produção de filmes sem grandes preocupações com a parte técnica, mas sim atenção focada na narrativa e na criatividade, quase como produções caseiras com um tantinho mais de esmero. O movimento não vingou, mas curiosamente seu conceito até hoje é perpetuado, ainda que raramente seja colocado em prática. Todavia, após anos sem trabalhar juntos, a dupla lançou Querida Wendy, obra que passa longe dos ideais da manifestação que defendiam, porém, ainda bem distante da estética de um filme comum. Equilibrando-se entre o alternativo e uma leve vontade de se aproximar das massas, o diretor Vintenberg, recuperando-se então do retorno negativo de Dogma do Amor, conseguiu criar uma obra que não chega a ser excepcional, mas pode ter a honra de se intitular como um trabalho único. É difícil encontrar algum outro produto similar para fazer comparações, a começar pela abordagem do tema principal: a relação do homem com as armas de fogo. No caso, a paixão de um rapaz por um revólver. Sim, a tal Wendy do título não é uma mulher e sim a arma pela qual o Jovem Dick (Jamie Bell) está apaixonado, inclusive o longa se sustenta com uma narrativa em off como se fosse uma declaração de amor e despedida dele para o objeto que muitos não gostariam de ter em casa nem em forma de brinquedo. Bem, não se podia esperar algo convencional de um roteiro de Von Trier. O tímido rapaz vive em Estherslope, uma pequena e pacata cidade no interior dos EUA, não se encaixa no estilo de vida do local e tampouco tem perspectivas de vida, mas tudo muda quando certo dia acaba comprando uma arma de brinquedo em uma loja a beira da falência para presentear um garoto que ao que tudo indica não lhe despertava os melhores dos sentimentos. Na última hora ele decide dar outra coisa de presente e quando vai devolver o revólver descobre que ele é de verdade. Fascinado por sua nova companheira, ele lhe dá um nome, a leva junto para onde quer que vá e passa a demonstrar autoconfiança, uma sensação que até então desconhecia. Todavia, ele se diz um pacifista nato.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

CAKE - A RECEITA DO AMOR

NOTA 3,0

Além de apostar em clichês e
personagens estereotipados,
longa fica devendo em humor e
seu romantismo não convence
Geralmente o ingrediente básico de uma comédia romântica é uma mocinha a procura de seu príncipe encantado, mas o gênero está tão saturado que nem mesmo as donzelas rebeldes conseguem mais injetar algum ânimo em histórias do tipo. Isso acontece porque o comportamento fora dos padrões delas só vai até a página dois, ou melhor, até lá pelos vinte ou trinta minutos do filme quando fatalmente elas encontram os amores de sua vida. Obviamente elas vão se fazer de difícil ou até se entregam ao amor rapidamente, mas não tardam a cometer algum erro para os mocinhos darem o fora da relação, mas nada que não se resolva nos cinco minutos finais. Quantas produções seguem uma estrutura semelhante? Pois é, Cake – A Receita do Amor não foge a regra, porém, peca por ter raros momentos engraçados e uma protagonista que não é das mais cativantes. Pippa (Heather Graham) é uma solteira convicta que adora levar uma vida completamente livre de regras e limites, o que implica poder ter a companhia íntima de um ou mais homens por noite procurando nunca repetir o cardápio. Para demarcar sua personalidade, o longa começa com ela chegando atrasada ao casamento de uma amiga, provavelmente após mais uma noitada daquelas finalizada com um salto de pára-quedas. Como madrinha da noiva ela deveria respeitar a cerimônia, mas a todo o momento faz questão de expor seus comentários irônicos quanto ao conceito do que é um casamento e tudo o que o envolve, até que chega no fim da festa completamente bêbada e tentando encontrar ao menos um convidado com quem ela já não tivesse dormido. Todavia, sua vida louca está com os dias contados. Seu pai, o Sr. Malcolm (Bruce Gray), acaba sofrendo um enfarte e terá que ter um substituto no comando de uma revista justamente sobre casamentos. Embora deteste o tema, Pippa, que é formada em jornalismo, resolve se oferecer para ser a diretora temporária com o intuito de melhorar seu relacionamento com o pai que nunca aprovou sua vida sem limites. Com ideias revolucionárias que no fundo iriam contra os objetivos da publicação, a moça acaba conseguindo convencer seus colegas de trabalho que o foco deveria ser falar sobre e para a mulher moderna que está mais preocupada em ser livre e bem sucedida profissionalmente. Para ela, escolher docinhos, decoração ou trajes de gala é uma forma que o mercado encontrou para lucrar e iludir as pessoas que não param para pensar que estão prestes a se unirem a estranhos.

terça-feira, 24 de maio de 2016

O SEGREDO DE VERA DRAKE

NOTA 8,5

Prática do aborto é discutida
a partir dos atos de senhora de
idade que só queria fazer o bem,
mas acabou taxada como criminosa
O aborto é um dos temas mais polêmicos que o mundo enfrenta já há muitos séculos. Moral, religião, família, honra, criminalidade, enfim são vários os aspectos em que uma gravidez indesejada pode interferir e até hoje o assunto de interromper propositalmente uma gestação gera discussões, sendo crimes gravíssimos em alguns países enquanto outros optaram por um relaxamento das leis para ao menos permitir tal ato no caso de uma criança concebida através de um ato sexual criminoso. Todavia, parece que esse problema jamais terá uma solução definitiva, mas podem vir a ser atenuado graças a trabalhos como O Segredo de Vera Drake que trazem uma visão mais intimista e detalhista do dilema. Embora a trama se passe durante a década de 1950, período pós-guerra ainda marcado por mazelas e conservadorismo, o conteúdo exposto, além de nos proporcionar uma visão dos costumes da época, ainda suscita reflexões. A personagem do título é interpretada brilhantemente por Imelda Staunton. Vera Drake é uma gentil senhora que vive em um bairro operário de Londres ao lado do marido Stanley (Philip Davis) e seus filhos já adultos, o extrovertido Sid (Daniel Mays) e a tímida Ethel (Alex Kelly). Apesar de não viverem de luxos e contarem moedas para sobreviverem, o clã vive em harmonia e não se nega a ajudar os necessitados. Vera é faxineira em casas de pessoas de posses, seu marido é mecânico, o filho trabalha numa alfaiataria e a filha testa lâmpadas e dedica seu tempo livre ao tricô, caracterizando a típica família de classe média baixa que sabe viver com o que tem e não sonha alto. Porém, aos poucos, vamos descobrindo que a solidariedade de Vera chega a limites extremos. Sem receber dinheiro algum, há vinte anos ela sai escondida de casa para ajudar moças grávidas que não poderiam criar seus filhos realizando abortos caseiros. Como se fosse uma enfermeira especializada, ela recebe com todo carinho e atenção as mulheres que lhe pedem socorro através de Lily (Ruth Sheen), uma espécie de contato secreto que agenda os encontros, e com sua voz doce e calma procura tranquilizá-las enquanto prepara o material para o procedimento. Utilizando uma bomba de sucção, uma mistura de desinfetante, sabonete e água quente era introduzida dentro do corpo da grávida e dentro de dois dias o embrião seria expelido. A benfeitora não gostava de usar o termo aborto, pois para ela tal situação era apenas mais uma forma de prestar caridade, no caso ajudando jovens carentes, esposas que deram um mau passo e mulheres que já eram mães e não podiam arcar com as despesas de mais um filho. A prática só foi legalizada na Inglaterra cerca de vinte anos depois deste episódio, ato provavelmente impulsionado pelos diversos casos de pessoas que sofreram consequências graves devido a sua ingenuidade e falta de discernimento.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

MINHA VIDA SEM MINHAS MÃES

NOTA 9,0

Drama finlandês faz alusão a
um drama que milhares de
crianças vivenciaram, uma visão
diferente da Segunda Guerra
Quando se fala em filme que tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial automaticamente nos vem a mente as imagens de sofrimentos, combates, mortos, feridos, tiroteios, bombas e conchavos políticos. Isso se deve ao fato dos inúmeros filmes que já trabalharam com a temática, mas sempre apostando nos velhos clichês que servem para impactar o espectador ou levá-lo as lágrimas. Também é comum enxergarmos os fatos da época através do olhar americano, já que os EUA é um dos países que mais produz obras calcadas no tema e teve uma participação importante no conflito, fato que até hoje gera certas discordâncias já que alguns episódios ocorridos no período parecem ser conhecidos pelo público pela ótica da fantasia e do patriotismo americano. Felizmente, existem cineastas e produtores que preferem ver estes tempos difíceis por uma ótica diferenciada, mais branda, pelos olhos inocentes das crianças, mas este viés também já rendeu demais. Para quem gosta de obras que retratam esta época marcante da História mundial, mas está cansado da mesmice, que tal procurar títulos do mesmo tipo em filmografias de outros países? Infelizmente, graças ao enxuto currículo escolar que temos no Brasil e até mesmo pela falta de vontade das pessoas em buscarem cultura por outros meios, há uma tendência de algumas pessoas acharem que o impacto dessa guerra que marcou a década de 1940 só tenha sido sentido em solo americano e em alguns países europeus e asiáticos, mas os conflitos surtiram efeitos em todo o mundo, em maior ou menor grau. Uma boa pedida para ver tal tema de modo atípico é Minha Vida Sem Minhas Mães, um belíssimo trabalho da Finlândia comandado pelo diretor Klaus Häro, um promissor talento que aqui assinava então seu segundo projeto atrás das câmeras. Nessa produção encontramos um novo ângulo para compreender o período da Segunda Guerra Mundial que nos ajuda a montar uma pequena parte do quebra-cabeça da época e entender a situação de alguns países em relação ao conflito. Por sua origem nórdica, este longa pode causar certa estranheza inicial devido a forma como a narrativa se desenvolve, um ritmo lento e contemplativo, mas vale a pena fazer uma forcinha e acompanhar a trama até o final.

domingo, 22 de maio de 2016

UM DIA ESPECIAL

Nota 7,0 Longa açucarado, mas correto, parece feito sob encomenda para seus protagonistas

Uma mulher e um homem que se estranham ao se conhecerem pouco a pouco vão descobrindo afinidades e sentimentos e de quebra recebem a ajudinha de seus filhos-cupidos. Quantos enredos do tipo existem na praça? Bem, hoje tal historinha é para lá de batida, mas será que em meados dos anos 90 seria alguma novidade? Provavelmente não, mas a fórmula consagrada era perfeita para os propósitos dos protagonistas, de seus agentes ou dos produtores da fita. Em plena fase do auge do gênero água-com-açúcar tendo como principais representantes Julia Roberts, Meg Ryan e Sandra Bullock, não poderia ficar de fora da onda a bela e talentosa Michelle Pfeiffer. George Clooney era o galã da série de TV “Plantão Médico” e almejava o sucesso nas telonas, então nada mais natural que investir em uma produção destinada ao público feminino para dar os primeiros passos rumo ao estrelato. Podemos justificar desta forma a existência de Um Dia Especial, produção simplória em seu conteúdo e visual, mas cuja temática universal e melódica a ajudou a se tornar um clássico estilo sessão da tarde. Melanie Parker é uma arquiteta de sucesso, muito firme em suas decisões, uma mulher independente e extremamente dedicada ao trabalho. Jack Taylor é um colunista de jornal bastante prestigiado, que não tem medo de ir a fundo nos assuntos para conseguir sempre se superar, é muito carismático e faz sucesso entre as mulheres. Em comum, além da dedicação à profissão e o apreço por falas irônicas, ambos são separados e tem um filho pequeno. Melanie é mãe de Sammy (Alex D. Linz) e Taylor é o pai de Maggie (Mae Whitman). Certo dia, devido a um acaso do destino, estes pais se encontram na porta colégio das crianças que acabaram perdendo um passeio de barco. Agora eles estão com o dia cheio e não tem com quem deixar os filhos e Taylor propõe que ela vá a uma importante reunião de trabalho enquanto ele cuida das crianças. Ao término, ela assumiria as funções de babá e ele atenderia seus compromissos na redação do jornal. Obviamente o assunto não acaba assim rapidamente. Orgulhosa, a arquiteta desconsidera a proposta e ambos acabam carregando os filhos para o trabalho, mas eles são muito curiosos, fica impossível tal situação e não é que o destino fez com que os dois tivessem a ideia de colocar a molecada para passar um dia em uma creche... E na mesma!

sábado, 21 de maio de 2016

SOBRENATURAL (2004)

NOTA 6,0

Diretamente do Vietnã, longa
não se preocupa em causar
sustos fáceis, mas sim em criar
uma atmosfera envolvente
Uma das marcas mais fortes da produção cinematográfica da década de 2000 foram os remakes de produções de horror orientais, onda que acabou abrindo as portas do mercado mundial para receber os filmes originais e outros inéditos oriundos de países como o Japão e a China. A diversificação de opções é válida, mas a consequência negativa é que o inflado número de títulos disponíveis acabou enjoando o espectador e alguns bons títulos acabaram não tendo o destaque que mereciam como é o caso do praticamente desconhecido Sobrenatural, suspense com pegada espírita realizado no Vietnã. Sim, este país não sobrevive apenas as custas das memórias do auge de seu período de guerras e tampouco se tornou um cenário totalmente devastado e inabitável. Bem, quem espera ver neste filme as paisagens vietnamitas esqueça. A ação se concentra praticamente em um único cenário, uma velha e abandonada casa com um grande quintal cheio de mato, uma propriedade aparentemente esquecida em uma região campestre e isolada. É lá que certa noite procura refúgio o escritor Loc (Tuan Cuong), especialista em livros de suspense com pitadas de romance que deseja um lugar calmo e que lhe inspire a escrever sua nova obra. Pensando que a casa estava abandonada, ele se surpreende ao ser recebido educadamente por Hoa (Kathy Nguyen) que diz que o proprietário havia viajado a algumas semanas e ela estava tomando conta do local. Logo na primeira noite, Loc começa a ouvir barulhos estranhos e a sentir a presença de mais alguém, sensações que vão se intensificando a cada nova madrugada ao mesmo tempo em que ele vai se afeiçoando por Hoa, uma garota que lembra muito as mocinhas de suas obras, jovens sonhadoras e frágeis, sempre dependentes dos homens, traídas e abandonadas. Hoa aparentemente é sozinha no mundo, um tanto misteriosa e desperta ainda mais a curiosidade do escritor quando ele recebe a visita do pai dela, o Sr. Huy (Dang Hung Son) dizendo que há tempos não consegue entrar em contato com a filha. Essa é a trama de “O Visitante”, o primeiro dos três capítulos que compõem o longa dirigido por Victor Vu, histórias que são intimamente ligadas.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O ÚLTIMO TREM

NOTA 5,5

Com premissa razoável,
infelizmente longa não tarda
a se tornar refém de cenas
violentas e efeitos especiais
Muitos filmes de terror não se levam a sério, isso é fato, e parecem fazer questão de efeitos especiais precários, mortes estupidamente divertidas ou bizarras e litros de sangue falso percebidos a olhos nus. Já outras produções do gênero realmente se esmeram em tentar fazer o espectador roer as unhas e suar frio, o problema é quando o perfeccionismo acaba causando o efeito inverso ao desejado. É justamente isso que acontece com O Último Trem, longa com premissa interessante, bem feitinho tecnicamente, mas que peca pelos excessos de computação gráfica que tiram qualquer sensação de asco ou comoção quando alguém é morto por um assassino mal encarado que ataca nas madrugadas no metrô. Adaptado da obra “Livro de Sangue”, mais especificamente do conto “O Trem de Carne da Meia-Noite” de Clive Barker, o responsável pela publicação que deu origem ao cultuado Hellraiser – Renascido do Inferno, o roteiro de Jeff Buhler conta a história de Leon Kaufman (Bradley Cooper) um fotógrafo acostumado a captar com sua câmera fatos cotidianos, até mesmo os mais banais, porém, ele deseja ser um profissional conceituado. Graças ao amigo Jurgis (Roger Bart) ele conhece Susan Hoff (Brooke Shields), uma conceituada organizadora de exposições, mas infelizmente ela esnoba seu trabalho aconselhando-o a ser mais ousado. Perdendo o sono por conta do comentário, certa noite o rapaz decide sair para fotografar Nova York sob uma nova ótica, a do submundo marcado pela criminalidade e comportamentos fora dos padrões, e no metrô acaba salvando uma jovem prestes a ser estuprada por uma gangue, não perdendo a oportunidade de registrar as imagens do episódio obviamente. Todavia, logo que a moça embarca no trem da meia-noite seu fatídico fim está traçado e no dia seguinte Kaufman vê a foto dela no jornal. Identificada como Erika (Nora), uma modelo, ela estaria desaparecida e quando o fotógrafo revela seus filmes encontra um importante indício: a imagem de um misterioso homem. Intrigado, ele decide voltar ao metrô na noite seguinte e novamente vê o tal figurão. Ele é Mahogany (Vinnie Jones), um grandalhão que está sempre bem vestido e segurando uma maleta, mas com cara de poucos amigos. Obcecado em desvendar o caso da modelo e para desespero de sua namorada Maya (Leslie Bibb), Kaufman transforma em hábito rotineiro as visitas noturnas ao metrô e diariamente encontra o suspeito sozinho ocupando o último vagão da condução.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

CHUMBO GROSSO

NOTA 7,0

Longa faz sátira aos filmes de
ação apostando em uma mescla
de gêneros, personagens
caricatos e edição diferenciada
Houve um tempo em que parodiar filmes de sucesso era uma fórmula mágica de Hollywood, mas tudo que é demais cansa e hoje parece que estamos estagnados neste subgênero, sendo que vira e mexe surge alguma produção caça-níquel para ganhar alguns trocados em cima da publicidade de outros títulos de destaque da época. Foi assim com Espartalhões, Super-Herói – O Filme, Os Vampiros que se Mordam e Inatividade Paranormal, lembrando é claro que nunca é descartada a hipótese de um novo produto da série Todo Mundo em Pânico. Entre tanto lixo que rapidamente cai no gosto popular e com a mesma rapidez é esquecido, infelizmente razoáveis trabalhos como Chumbo Grosso acabam passando despercebidos. Esta produção não tem o objetivo de reunir o maior número possível de piadas previsíveis sobre meia dúzia de sucessos do cinema, mas sim satirizar um gênero específico como um todo: os longas de ação, passando obviamente por alguns clichês das obras de suspense e policiais. Escrito por Edgar Wright e Simon Pegg, que atuam também respectivamente como diretor e astro da fita, a obra reúne mais uma vez a dupla responsável pelo divertido e criativo Todo Mundo Quase Morto, uma paródia aos longas de zumbis, mas infelizmente nesta segunda parceria o resultado final não chega ao mesmo nível de sucesso, não só em termos de repercussão, mas também a narrativa deixa um pouco a desejar apesar da ótima premissa. Ou melhor, deixa a desejar para quem está acostumado a histórias com estruturas extremamente rígidas, mas para quem é aberto a novidades este aqui é um prato cheio, uma salada e tanto de referências, críticas, ironias e parte técnica pouco usual como edição de cenas ultra-rápidas e efeitos sonoros que funcionam como gags. Nicholas Angel (Pegg) é um policial que se dedica muito a profissão e é considerado o melhor da corporação de Londres, mas sua dedicação e reconhecimento é tanto que acaba gerando inveja e revolta entre os seus colegas de trabalho que se sentem diminuídos e sem chance de superá-lo. Para evitar grandes problemas, seus superiores decidem transferi-lo para a pequena e pacata vila de Sandford considerado o lugar mais seguro da Inglaterra por vários anos consecutivos. Para se ter uma ideia, nenhum assassinato é registrado por lá a cerca de duas décadas. O objetivo da mudança faz todo sentido. Com poucos crimes e a maioria um tanto banais, Angel não teria a possibilidade de mostrar todo o seu potencial e aos poucos acabaria alcançando o mesmo nível de excelência que a maioria dos policiais ingleses, assim evitando rusgas entre os membros da corporação que poderiam acabar com a imagem respeitável da polícia. Já para o esforçado rapaz a situação é um tanto incômoda afinal ele estará trocando as batidas de trânsito e os roubos de carros pela fiscalização de estradas quase desertas e o desaparecimento de animais de estimação.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

UMA PROVA DE AMOR

NOTA 8,0

Apesar de falhas na construção
de alguns personagens e a perda
de um bom gancho narrativo, longa
cumpre seu objetivo de emocionar
Muita gente condena os filmes lacrimejantes, aqueles feitos propositalmente para levar o espectador ao choro fácil, mas se o cinema não é feito para emocionar qual sua finalidade? Bem, sonhar pode ser uma resposta válida, mas infelizmente a realidade não é feita de terras habitadas por seres fantásticos e na hora de um tiroteio ou incêndio nossos heróis reais não são brucutus indestrutíveis, mas mesmo assim arriscam suas vidas em troca da sobrevivência de outras. Será o medo de bater de frente com a realidade a resposta ao preconceito que o gênero drama sofre? Sim, embora produções do tipo sejam populares e vários de seus títulos vençam a barreira do tempo permanecendo ativos na memória de muitos, a quantidade de pessoas que detratam os dramalhões é assustadora. Pior ainda é constatar que críticos especializados colaboram para alimentar tal rejeição taxando sem dó nem piedade de lixo muitas obras excelentes. Com Uma Prova de Amor a crítica ficou em cima do muro, mais tendenciosa aos comentários negativos, mas o público aparentemente gostou do que viu e hoje este longa já goza de uma posição privilegiada na memória afetiva, quase como um novo clássico popular, ainda que a temática seja um tanto perturbadora. Abordar uma doença como o câncer não é muito original, mas até que o diretor Nick Cassavetes, filho do renomado ator e cineasta John Cassavetes com a atriz Gena Rowlands, encontrou um interessante gancho a ser trabalhado. Todos os trabalhos a esse respeito obviamente não deixam de mostrar o sofrimento da família, mas neste caso a ótica é ainda mais íntima e emotiva. Baseado em um best-seller de Jodi Picoult, a trama roteirizada pelo próprio cineasta em parceria com Jeremy Leven opta por mostrar como a doença de um parente acabou influenciando a vida de toda uma família detalhadamente, principalmente o sofrimento da caçula do clã, a esperta Anna (Abigail Breslin). Ela não é enferma e sim a solução do problema. Kate (Sofia Vassilieva), sua irmã mais velha, era ainda um bebê quando foi diagnosticada com leucemia e com poucas perspectivas de viver com qualidade e por bastante tempo. Sara (Cameron Diaz) e Brian Fitzgerald (Jason Patric), seus pais, infelizmente por incrível que pareça não eram doadores compatíveis e seguindo conselhos médicos decidiram ter um novo filho que pudesse compartilhar com a irmã tudo que ela precisasse. Um bebê de proveta potencializaria as chances da compatibilidade se concretizar e assim Anna foi concebida e até o sangue colhido de seu cordão umbilical foi doado.

terça-feira, 17 de maio de 2016

AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS

NOTA 8,0

Comédia adolescente que
marcou a geração dos anos
90 envelhece bem e ainda
diverte novas gerações
Existem filmes que nascem com o simples intuito de agradar ao público juvenil, mas que acabam extrapolando os limites da faixa etária visada e até mesmo do tempo. O que poderia parecer uma produção bobinha para aproveitar uma mania passageira pode acabar surpreendendo e marcando época. Esse é o caso de As Patricinhas de Beverly Hills que faturou alto sem investir em alguma campanha de marketing pesada, apenas o boca-a-boca foi o bastante para fazer o longa cair no gosto popular instantaneamente. Lançado bem nos tempos do auge dos seriados de TV americanos para adolescentes no estilo “Barrados no Baile” e “Melrose”, esta comédia foi extremamente elogiada e tira sarro da vida dos jovens ricos ao mesmo tempo em que adiciona um pouco de humanidade e vulnerabilidade a estes personagens que vivem em um mundo de sonhos, ao menos para os olhos dos mais humildes que os enxergam como pessoas fúteis que medem o valor de alguém pelo seu poder aquisitivo. O tempo passou e tal pensamento não mudou, pelo contrário, as novas gerações só trataram de reforçar a cultura do status através das marcas famosas e produtos da moda. É nisso que se apega a protagonista desta comédia aparentemente exclusiva para platéias femininas, mas que também pode entreter os rapazes. Cher (Alicia Silverstone) vive uma realidade a parte na qual tudo tem seu preço e está ao seu alcance através de seu cheque ou cartão de crédito. Jovem, esperta, loura e milionária, mesmo não sendo ainda maior de idade ela já tem seu próprio carro e até um avançado programa de computador que escolhe cada uma de suas combinações de roupas. Apesar de parecer muito fútil, ela tem bom coração e gosta de fazer benfeitorias e é a própria quem dá as boas-vindas à nova aluna do colégio, Tai (Brittany Murphy), uma garota que pelo seu jeito e maneira de se vestir está fadada a viver excluída da vida social dos riquinhos, mas a patricinha lhe dá um banho de loja e ensina boas maneiras a nova amiga. Todo esse tempo dedicado aos outros é porque ela não tem mais nada para se preocupar na vida, a não ser ficar linda e bem vestida.  

segunda-feira, 16 de maio de 2016

TESTEMUNHAS DE UMA GUERRA

NOTA 7,5

Mais um filme procura expor os
horrores da guerra tendo como
protagonista um homem cuja
obsessão se tornou seu pesadelo
Os horrores da guerra já foram retratados das mais variadas formas pelo cinema e desde os mais famosos até relativamente desconhecidos conflitos já tiveram espaço na sétima arte. O resultado é que com tantas produções com temáticas parecidas muitas acabam passando despercebidas, principalmente se não tiverem ao menos um ator de peso encabeçando o elenco e/ou um diretor renomado assinando o projeto. Por isso chama a atenção o ostracismo vivenciado por Testemunhas de Uma Guerra, drama protagonizado por Colin Farrell, então já reconhecido por seus dotes dramáticos e com aval da crítica, e dirigido pelo bósnio Danis Tanovic cujo nome teve projeção internacional após a conquista do Oscar de Filme Estrangeiro por Terra de Ninguém, mais uma produção com a temática guerra. Abordar conflitos do tipo parecem a especialidade do cineasta que neste caso conseguiu fazer um eficiente drama que reflete duas realidades que por vezes não são noticiadas pelos veículos de comunicação: a dura vida de quem precisa registrar as atrocidades das guerras e o dia-a-dia de quem deveria estar lá para salvar vidas, mas diante das dificuldades se vê obrigado a escolher quem terá direito a uma segunda chance. Triagem (“Triage” é o título original) é o nome dado ao processo de seleção que os médicos usam em situações de emergência para priorizar o atendimento dos mais necessitados. Geralmente quem procura atendimento em pronto-socorros passa por essa pré-seleção e os doentes mais graves têm preferência de atendimento (teoricamente as coisas deveriam funcionar assim), mas nas guerras as coisas funcionam diferentes. Com recursos escassos, os médicos acabam atendendo os feridos com maiores chances de sobrevivência e deixando os de estado grave por último na fila de atendimento para não desperdiçarem material, o que fatalmente os levam ao óbito. Situações como essas é que servem de base para o roteiro criado pelo próprio cineasta que coloca Farrell na pele do fotógrafo Mark que é viajo ao Kurdistão na companhia do amigo também fotógrafo David (Jamie Sives). A trama se passa em meados dos anos 80, época marcada no país pelos conflitos entre a classe trabalhadora e o governo turco, este que não reconhece a existência da etnia curda. Durante semanas a dupla registrou com suas câmeras os processos de triagem e conversaram com os médicos a respeito. Além das imagens estarrecedoras, os depoimentos também eram assustadores, alguns profissionais inclusive relatando que não bastava excluir os doentes mais graves da lista de atendimento, precisavam eles mesmos sacrificar homens para poupar seus sofrimentos de esperar a morte que poderia ocorrer em questão de pouquíssimos dias ou até mesmo minutos.

domingo, 15 de maio de 2016

AFINADO NO AMOR

Nota 7,0 Com história comum, longa se sustenta com carisma dos atores e ambientação nostálgica

A junção de dois astros populares entre adolescentes e conhecidos por transitarem bem pelo campo do humor só poderia resultar em uma coisa: sucesso! Esse era o objetivo da comédia romântica Afinado no Amor, mas o primeiro encontro entre Adam Sandler e Drew Barrymore não resultou no boom esperado, algo que só veio a acontecer cinco anos depois em Como Se Fosse a Primeira Vez. O grande charme da produção é ambientar a trama em meados da década de 1980, assim dando ênfase aos hábitos culturais, trilha sonora e breguice da moda de uma época que deixou saudades. O astro da comédia, que então já levava multidões aos cinemas nos EUA, mas curiosamente seus filmes não pegavam em outros países, aqui vive Robbie Hart, o vocalista de uma banda que ganha seus trocados animando festas de casamento. Por ironia do destino ele levou um fora da noiva justamente no dia em que iam subir ao altar. Deprimido, ele já não consegue mais se concentrar no trabalho e seu desânimo por pouco não estraga o tão sonhado dia de muitos casais. Todavia, em uma dessas festas ele conhece Julia Sullivan (Barrymore), uma garçonete simpática e divertida por quem se apaixona imediatamente, mas em um primeiro momento prefere manter-se distante. O problema é que ela já é noiva de Glen Gulia (Matthew Glave), um cara egoísta, detestável e, acima de tudo, infiel, a deixa para o cantor tentar se aproximar da jovem alertando-a sobre o erro que irá cometer se realmente se casar. Entre encontros e desencontros, o casal vai percebendo afinidades e que os sentimentos são correspondidos mutuamente, mas é claro que vai demorar um pouquinho para perceber que realmente estão apaixonados, afinal de contas tem que haver recheio para encher cerca de uma hora e meia de filme.

sábado, 14 de maio de 2016

VILA DAS SOMBRAS

Nota 6,0 Suspense francês tem bom argumento, mas seu ritmo e sustos suaves comprometem

Os elementos do cinema de horror são tão enraizados à cultura americana que fica difícil imaginar os mesmos em um filme italiano, argentino ou português. Certamente só pelo lançamento da ideia de que um produto do tipo seria feito no Brasil já seria alvo de chacotas e desconfianças, que dirá o nosso famoso Zé do Caixão que mesmo tendo sua filmografia hoje em alta estima viu seu último projeto cinematográfico (lançado em meados da década de 2000) amargar o ostracismo. Por outro lado, China, Japão e outros países da cultura oriental e até a Espanha tem um histórico de sucesso na produção de terror e suspense. E o que dizer de um filme do tipo francês?  Vila das Sombras reúne diversas características do gênero, mas esbarra no preconceito do público. Realmente, com uma narrativa mais lenta e imagens extremamente escuras é natural que muitos desistam de acompanhar este trabalho em seus dez minutos iniciais, mas não é que o longa surpreende no conjunto? Obviamente não vai mudar os rumos do cinema e tampouco é excepcional, mas é uma prova de que todos os países podem e devem apostar nos mais variados gêneros cinematográficos, não visando lucros, mas sim para vivenciar a experiência e aprimorá-la, caso contrário a produção local fica estagnada como no caso da França que para muitos ainda hoje é sinônimo de filmes chatos e complexos. A trama começa mostrando dois soldados armados dentro de uma residência aparentemente abandonada, mas existe algo estranho lá dentro os perturbando. Tal história faz parte de um livro sobre lendas e crenças que Mathias (Jonathan Cohen) está lendo durante uma viagem de carro que está fazendo com um grupo de amigos. Como estão em nove pessoas, o grupo se dividiu em dois veículos, mas na escuridão da noite eles acabam se colidindo, porém, um dos carros simplesmente parou na estrada e seus integrantes sumiram. Coincidentemente, Lucas (Axel Kiener) diz que eles estão próximos a uma vila onde seus pais possuem uma casa, mas no momento ela está vazia e poderiam passar a noite lá. O local é extremamente sinistro, vive sob uma escuridão absoluta e obviamente não demora muito para que fatos estranhos aconteçam. Lucas parece ter mudado de personalidade de uma hora para outra e agride Mathias; Lila (Barbara Goenaga) passa a ter estranhos delírios com eventos que se passaram no vilarejo há séculos atrás; e Marion (Ornella Boulé), que estava desaparecida, é encontrada, mas sua irmã Emma (Christa Theret) não gosta nada de seu comportamento em transe.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

SEXTA-FEIRA 13 (1980)

NOTA 7,5

Praticamente o pai dos slashers
movies, produção envelheceu
bastante, mas é inegável sua
importância para o cinema de horror
Mesmo quem não é fã de terror certamente tem em sua memória a imagem de um homem alto, robusto, trajando roupas pretas, munido de um facão e com uma máscara de jogador de jóquei escondendo seu rosto. Jason Vorhees está enraizado para todo sempre na História do cinema e também na cultura popular dos quatro cantos do mundo, porém, tal figura icônica não surgiu logo no primeiro longa da série Sexta-Feira 13, produção que na verdade serve como um prólogo e também uma justificativa para a trajetória sanguinolenta do assassino. Na realidade, no filme inaugural de sua saga, quem toca o terror é sua própria mãe (não é mais spolier algum tal revelação) com sede insaciável de vingança por ter perdido o filho por negligência de um jovem casal que transava enquanto deveria cuidar do menino. O acampamento Crystal Lake está prestes a ser reinaugurado após mais de vinte anos inativo. No final da década de 1950, uma criança morreu afogada no lago, algum tempo depois dois monitores foram cruelmente assassinados e problemas com incêndios e quanto a qualidade da água supostamente envenenada acabaram por cercar a região de aura negativa, mas nada que amedrontasse Steve Christy (Peter Brouwer), um jovem empresário que acredita que o local ainda tem potencial para voltar a ser sinônimo de alegria e diversão. Preparando-se para a temporada de verão, ele contrata um grupo de monitores para organizar a reabertura e entre eles está Annie (Robbi Morgan) que ainda na estrada é advertida por algumas pessoas da má fama do camping, todavia, como reza a cartilha do gênero, ela ignora os conselhos e segue viagem. Ou melhor, vai até certo ponto, pois tem a honra de se tornar o primeiro cadáver da nova onda de crimes que assolará o lugar. Sem saberem da morte da colega, Alice (Adrienne King) e os outros monitores chegam ao acampamento cheios de gás e não querem perder um minuto sequer neste paraíso, mas não demoram a surgir contratempos. De qualquer forma, o aparecimento de uma cobra em um dos chalés (sequência completamente desnecessária dentro do contexto) e a visita surpresa de Crazy Ralph (Walt Gourney), um doido que os alerta que não sairão vivos dali, não amedrontam os jovens.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O TERNO DE 2 BILHÕES DE DÓLARES

NOTA 4,0

Tirando uma onda de James
Bond, mescla de aventura e comédia
não favorece Jackie Chan que não se
joga literalmente neste trabalho
Há quem despreze os filmes de Jackie Chan rotulando-os como grandes bobagens e dotados de humor raso. Mesclas de ação e comédia, não importa o enredo, sempre serão as fitas do chinesinho com cara de paspalho e que voa nas cenas de lutas. O ator sempre deixou bem claro que trabalha exclusivamente para entreter o público e de quebra ele próprio se divertir a beça. Sua cara de criança feliz e curiosa deixa explícito seu constante alto astral. Ele pode não ser um exímio ator, exagerar em caretas e expressões corporais, cansar com sua hiperatividade e ao falar ter uma péssima pronúncia do idioma inglês (algo contornado nas versões dubladas de seus filmes), ou seja, ele tem todos os requisitos de um chato de galochas. Entretanto, enche a tela e conquista com um carisma ímpar somado ao já citado bom humor vitalício. Chan é o cara boa praça que todos queriam como amigo nos momentos difíceis, aquele que consegue animar até velório. De olho em sua popularidade na China e no sucesso de suas fitas em outros países, Hollywood não perdeu tempo e o seduziu com contratos milionários, pena que o desejo de uma conta bancária mais robusta viria a descaracterizar seu trabalho. Bem, pelo menos a grande maioria concorda que em O Terno de 2 Bilhões de Dólares o verdadeiro Chan não está em cena. Ele interpreta Jimmy Tong, um simples chofer de táxi que de uma hora para a outra é contratado para ser o motorista particular do espião Clark Devlin (Jason Isaacs), um homem cheio de segredos, astuto e repleto de habilidades para luta, seu modo de defesa, quanto para dança, sua arma de sedução. Todavia, não são exatamente méritos próprios e sim qualidades proporcionadas por um smoking que usa, uma peça exclusiva e dotada de recursos tecnológicos. Quem a veste pode realizar as mais diversas peripécias e é claro que Tong terá o privilégio de usá-la, mas sem consciência de todos os poderes do traje. Tal gancho abre caminho para os roteiristas Michael J. Wilson e Michael Leeson satirizarem a vontade os filmes de James Bond.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

UM AMOR JOVEM

NOTA 7,0

O ator Ethan Hawke prova
que tem talento para a
direção e escrita em drama
sobre amor da juventude
O mercado cinematográfico no mundo todo parece ter um pouco de medo em investir em produções cujos idealizadores sejam atores. Kevin Costner e Mel Gibson tiveram sorte e chegaram a conquistar os Oscars de Melhor Filme e Melhor Diretor, mas da mesma forma rápida que chegaram ao ápice em uma profissão que não era a principal deles, também chegaram ao fundo do poço. O autoritarismo e a megalomania de ambos atrás das câmeras, o que gera muitos conflitos de bastidores, certamente influenciam no medo que grandes empresas têm de se envolverem na produção de filmes escritos e/ou dirigidos por atores. Fora estes casos atípicos, são vários os intérpretes que já assumiram as rédeas do roteiro e da câmera e que tiveram seus trabalhos exibidos de forma modesta ou praticamente nula. Uma pena. Geralmente esses filmes são bastante interessantes e mereciam um pouco mais de atenção. A situação é ainda pior quando o ator que pretende testar outras áreas não tem seu talento reconhecido à frente das câmeras como é o caso de Ethan Hawke. Considerado um intérprete de talento limitado, seus únicos trabalhos de grande repercussão são Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, ambos estrelados e roteirizados por ele próprio em parceria com a atriz Julie Delpy. Será mesmo que ele é um nome qualquer no mundo do cinema? Não é o que ele prova com Um Amor Jovem, drama repleto de elementos autobiográficos o qual ele dirigiu, roteirizou e ainda assumiu um papel pequeno na trama, mas de grande importância para a história do protagonista. Adaptado do livro “The Hottest State” publicado pelo próprio Hawke em 1997, o longa é um daqueles títulos praticamente desconhecidos e que você fica com um pé atrás, mas que pode te surpreender e garantir uma boa sessão de cinema. Pena que a obra teve pouquíssima repercussão em sua terra natal e no Brasil seu lançamento foi feito por uma empresa modesta e especializada em filmes alternativos e participantes de festivais, assim só mesmo chamando a atenção dos ratos de locadora que adoram garimpar tesouros e novidades entre as prateleiras.

terça-feira, 10 de maio de 2016

SEXO SEM COMPROMISSO

NOTA 7,5

Premissa indica que esta
comédia sairá do lugar
comum do gênero, mas
diretor dá meia-volta
As comédias românticas são produzidas com foco em público certo que gosta de ver as mesmas histórias com apenas algumas sutis diferenças. Casal se conhece por acaso, se apaixona, uma pedra surge no meio do caminho deles, mas no final o tradicional felizes para sempre tem que existir. Apesar de agradar as platéias femininas, o gênero comumente peca pelo machismo implícito, sendo a mulher quase sempre retratada como submissa ou infeliz e que só é capaz de encontrar a felicidade ao lado de um homem, este que provavelmente pintou e bordou o quanto pôde antes de se entregar a um relacionamento sério. Bem essa fórmula não funciona em Sexo Sem Compromisso ou pelo menos não completamente. O título aparentemente pode vender de forma errada o conteúdo do filme, dando a idéia de que este poderia ser um novo American Pie com adolescentes que só pensam em sexo e estudar que é bom nada. Bem, os protagonistas realmente são compulsivos sexuais, porém, estão longe da fase da adolescência, já são adultos que fazem o que bem entenderem de suas vidas. Adam (Ashton Kutcher) está sofrendo com a decepção de ter sido largado por Vanessa (Ophelia Lovibond), com quem namorou por oito meses. Para piorar a situação, descobre que ela é a nova namorada de seu pai, Alvin (Kevin Kline), um astro da TV das antigas. Desejando esquecê-la e seguir em frente, ele acaba se acostumando a sair com diversas garotas apenas por diversão, sem envolvimento emocional, mas tudo muda em uma noite de bebedeira. Quando acorda, ele está em um apartamento que não é o seu e descobre que quando não estava sóbrio se encontrou com Emma (Natalie Portman), uma jovem com quem se encontrou algumas vezes, mas há muitos anos. Durante a noite nada aconteceu entre eles, mas na manhã seguinte não conseguiram resistir. A moça quer o mesmo que ele, apenas sexo sem cobranças e assim eles marcam encontros constantes durante um bom tempo e em qualquer hora do dia ou da noite. Porém, a relação começa a mexer com os sentimentos de Adam, mas convencer Emma de que ela também está se apaixonando não será nada fácil. 

segunda-feira, 9 de maio de 2016

MARIA CHEIA DE GRAÇA

NOTA 8,0

Diretor estreante mostra
competência ao lidar com
tema polêmico e crítico
em obra um tanto realista
Geralmente os filmes mais badalados em festivais mundo a fora contam com artifícios comerciais que não explicam muito a respeito dos seus conteúdos. Título e material visual (pôster ou capa do DVD) são itens que podem determinar a escolha de um espectador, mas nem sempre as equipes de criação ou publicitária são felizes. Ainda bem que há gente inteligente nesse meio que consegue ainda casar a idéia do produto perfeitamente com o título e aquela imagem que deve se eternizar como marca da produção. Um exemplo digno de palmas é Maria Cheia de Graça. Sozinho parece uma menção a uma obra religiosa, mas quando o atrelamos a imagem de uma jovem de cabeça erguida como se fosse receber uma hóstia a coisa muda de figura completamente. Recebendo na realidade uma cápsula de tamanho considerável e recheada de drogas, tal imagem é a síntese perfeita do enredo deste filme assinado pelo estreante Joshua Marston, uma ousadia que causou frisson e até chocou algumas pessoas. Muitos consideram tal campanha de marketing uma heresia sem tamanho, mas não há como negar o impacto que causa. E a propaganda não é gratuita, pelo contrário, é muito contundente. É justamente através do trabalho ilícito de transportar drogas dentro do corpo que a protagonista Maria Alvarez, interpretada pela hispânica Catalina Sandino Moreno, indicada ao Oscar e vencedora do Urso de Prata em Berlim, buscará a redenção. Ela é uma jovem de 17 anos que trabalha em uma região campestre da Colômbia retirando espinhos e folhas de rosas. Como a região basicamente vive do cultivo de plantas, não há muitas esperanças de mudar de vida, mas mesmo assim ela pede demissão cansada de ser maltratada pelo patrão. Para tomar tal decisão repentina ela não levou em consideração que era com seu salário que sua família sobrevivia e a situação se complica ao se descobrir grávida de Juan (Wilson Guerrero), um rapaz que não ama e que mal conhece.

domingo, 8 de maio de 2016

DUAS VIDAS (2000)

Nota 4,5 A possibilidade de mudar os rumos da vida é desperdiçada em comédia sem graça

Pouco tempo depois das experiências sobrenaturais que vivenciou em O Sexto Sentido, Bruce Willis logo em seguida teve em mãos outro projeto que o colocaram em dúvida sobre o que é real e o que é fantasia. E desta vez sem um garotinho medonho sussurrando que vê pessoas mortas. Por outro lado, temos um guri que volta do passado para confrontar com si próprio no presente e questionar seu futuro. Explicando assim parece que Duas Vidas é um super projeto mesclando drama e ficção, um sério candidato a cult movie. Todavia, não passa de uma açucarada, porém, sem graça, comédia da casa do Mickey Mouse e não por acaso seu título original é "Disney´s The Kid".  O ponto de partida da roteirista Audrey Wells surgiu da ideia de que todos inevitavelmente a certa altura da vida repensam suas trajetórias até então e relembrar a infância e seus sonhos faz parte, talvez seja essencial. Russ Duritz (Willis) é um bem sucedido consultor de imagem que coloca sua profissão acima de qualquer coisa, assim sua vida particular é melancólica e solitária. Talhando cuidadosamente o perfil de políticos, executivos e outros ricaços para saírem, popularmente falando, bem na foto exaltando sucesso e felicidade perante os demais pobre mortais, ele não consegue moldar sua própria figura simplesmente porque não sabe como lidar com seus próprios sentimentos, assim geralmente parece rude, mal-humorado, sarcástico, enfim todos os adjetivos negativos lhe caem como uma luva. Mesmo assim, a jovem Amy (Emily Mortimer), sua fiel escudeira no trabalho, nutre uma paixão reprimida por ele que ainda ganha os paparicos de Janet (Lily Tomlin), sua secretária pessoal que faz praticamente o papel de uma mãe coruja em sua vida. Tudo muda quando um certo garotinho aparece repentinamente em sua vida cheio de conselhos e indagações. Quem é ele? Simplesmente o próprio Duritz com apenas oito anos de idade, bem rechonchudo e então atendendo pelo nome de Rust (Spencer Breslin). O garotinho vem para agitar o metódico cotidiano de seu eu adulto com muitas travessuras e o desejo de encontrar sua casa.

sábado, 7 de maio de 2016

FANTASMAS

Nota 1,0 Horror sobrenatural revela-se enfadonho e confuso, jogando fora boa premissa 

Fazer carreira no cinema não é fácil e para chegar ao topo muita gente teve que começar participando de verdadeiras bombas, mas para quem já começa tirando onda sempre há a cobrança do próximo trabalho ser melhor e sem dúvidas o ator Ben Affleck sofreu essa pressão por anos. Hoje também um produtor, diretor e roteirista de peso, seu nome bombou no drama Gênio Indomável no qual além de uma atuação elogiada também faturou vários prêmios, inclusive o Oscar, pelo roteiro cujos créditos dividiu com o grande amigo Matt Damon, ator que deslanchou a carreira imediatamente. Affleck já participava de produções independentes antes deste sucesso repentino, mas suas tentativas de emplacar no cinemão comercial soavam frustradas. Após um papel secundário no premiado Shakespeare Apaixonado, a primeira produção a ter seu nome encabeçando o elenco foi o suspense Fantasmas, jogado no limbo simultaneamente a seu lançamento. Ostracismo totalmente justificado. A trama começa nos apresentando à doutora Jennifer Pailey (Joanna Going) que tentando mudar o estilo de vida desregrado de sua irmã mais nova Lisa (Rose McGowan) a leva para Snowfield, uma pacata cidade no interior dos EUA que nas temporadas de baixas temperaturas conta com apenas 400 habitantes, mas no verão recebe cerca de 4000 pessoas atraídas para praticarem esqui. No entanto, quando as irmãs chegam não encontram um habitante sequer, pelo contrário, acham apenas cadáveres mutilados. Elas acreditam que há um serial killer a solta, versão desmentida pelo xerife Bryce Hammond (Affleck), um ex-agente do FBI perturbado por ter matado acidentalmente um garoto há alguns anos. Acompanhado de dois ajudantes (precisa ter gente para morrer não é?), o rapaz as leva a um hotel que também está vazio, com falhas na eletricidade e onde se ouve estranhos barulhos vindos do telefone e dos esgotos, além de encontrarem em um espelho a inscrição do nome Timothy Flyte (Peter O’Toole), um acadêmico britânico que estuda um antigo inimigo, uma espécie de entidade milenar que de tempos em tempos é despertada e já exterminou dezenas de civilizações, como os maias e até mesmo os dinossauros. Acompanhado por um grupo militar o estudioso chega à cidade defendendo a teoria de que terão que enfrentar uma ameaça que pode adquirir inúmeras formas e estava adormecida há séculos no fundo da Terra.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A VÍTIMA PERFEITA

NOTA 8,0

Longa relata fato real sobre
uma jovem descontente com a
vida que tinha e que buscou a
solução almejando a vida de outra
Que atire a primeira pedra aquele que nunca desejou em algum momento viver a vida de uma outra pessoa, seja ela uma personalidade ou um indivíduo comum? A vontade de ter alguma coisa ou ser como alguém pode ser benéfico, uma alavanca para determinar metas em busca de um objetivo que traga satisfação, mas infelizmente na maioria dos casos tais vontades podem se transformar em sentimentos ruins como inveja e obsessão levando alguém angustiado ou com raiva a atos contraditórios que não raramente traem até seus próprios princípios. Claro que em casos que chegam a situações extremas de loucura as pessoas em questão não são normais e sofrem de distúrbios psicológicos, problemas que podem ser nutridos desde a infância e que muitas vezes são omitidos por quem sofre e imperceptíveis aos que convivem com elas. Não é de se estranhar que existam tantos casos de crimes bizarros envolvendo a inveja e o longa A Vítima Perfeita relata um deles, uma mescla de drama e suspense baseada em fatos reais que conta a história de uma jovem que odiava a própria vida e por isso decidiu tomar a de outra pessoa. Com roteiro e direção de Simone North, o filme narra a história de Caroline Reid (Ruth Bradley), uma moça solitária e que vê problemas em sua forma física e na maneira como sua vida se desenrola, mas que deseja intensamente mudar seu cotidiano radicalmente. O problema é que em sua mente perturbada a solução não seria ela própria encontrar o que está errado consigo mesma e tentar mudar, mas sim tirar uma garota de seu caminho, Rachel Barber (Kate Bell), uma jovem que ela julga ser perfeita em todos os aspectos. Literalmente ela deseja trocar de lugar com a vizinha de bairro e assumir sua rotina, mas até onde ela poderia em busca desse insano desejo? Tomada pela obsessão, Caroline dá um jeito de se aproximar de sua vítima e estreitar laços de amizade, embora já se conhecessem a algum tempo. Com o contato estabelecido, logo Rachel demonstra confiar na nova amiga, partilha segredos e compactua em não revelar a ninguém sobre a amizade entre elas. Pode parecer muita ingenuidade, mas a garota aparentemente super popular não leva a vida feliz que Caroline acredita e vê nessa relação a amiga que ela sempre quis ter, portanto nada mais natural que tentar preservá-la ao máximo.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

DE CORPO E ALMA

NOTA 7,0

Robert Altman documenta
a preparação de um
espetáculo de dança com
olhar distanciado
Anos antes de uma obra em preto-e-branco, francesa e muda ganhar o Oscar de Melhor Filme em pleno século 21 e bem antes também do público mais elitizado se interessar em assistir óperas em sessões especiais em cinemas de shopping que pareciam fadados a sobreviver da demanda em busca de produções com efeitos especiais de última geração, já tinham cineastas interessados em inovar e lançar produtos pouco convencionais. Alguns construíram suas carreiras em cima de projetos alternativos, seja para sacudir o mercado ou puramente para satisfazerem desejos pessoais, mas em ambos os casos a certeza é uma só: prestígio pode ser atrelado à ousadia, mas fortuna é algo bem distante. O cultuado e saudoso Robert Altman já tinha uma carreira consolidada quando resolveu se arriscar a dirigir De Corpo e Alma, uma obra muito difícil de classificar em gênero específico. A bailarina Ry (Neve Campbell) está vivendo intensamente a rotina de ensaios de balé para um grande espetáculo que a companhia de dança a qual pertence está organizando. O ambiente deveria exalar alegria já que o evento é muito aguardado por todos os alunos, mas na realidade o clima é uma mistura de melancolia e ansiedade, isso porque a disputa pelos papéis nas diversas sequências de dança, em geral contemporâneas, está muito acirrada. Os professores exigem o máximo de dedicação dos candidatos e o mínimo deslize pode significar sua ausência no espetáculo ou o mesmo ser relegado a uma participação sem destaque. Todos são observados com muita atenção pelo diretor e líder da companhia, Alberto Antonelli (Malcolm MacDowell), mais conhecido como Sr. A. Querendo muito agradá-lo e ter um grande destaque no espetáculo, Ry se esforça o máximo que pode, mas durante o processo de seleção ela se apaixona por Josh (James Franco), uma distração que pode atrapalhá-la neste momento que pode ser crucial em sua profissão. Pensando no dilema que a protagonista vive, a vida profissional ser mais importante que a pessoal, pode parecer que estamos diante de um pré Cisne Negro. Até que podem ser feitas comparações entre as duas obras, mas certamente a de Altman parecerá bem mais modesta, porém, esta afirmação não deve ser encarada como algo depreciativo. Simplicidade e realismo eram justamente os objetivos do diretor que se cercou de bailarinos de verdade e utilizou sua câmera de forma livre e onipresente para seguir os passos dos dançarinos durante os ensaios e também acompanhar um pouco de suas vidas íntimas, mas as histórias dessas pessoas não chegam a ser desenvolvidas de forma satisfatória. Até os atores mais conhecidos aparecem despercebidos praticamente, quase como figurantes, já que Neve e Franco vivem um relacionamento frio que não consegue envolver o espectador.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

ATRAÇÃO PERIGOSA

NOTA 8,0

Ben Affleck surpreende
dirigindo e escrevendo uma
história de fundo dramático

e com pinta de filme de ação
Alguns artistas precisam a cada novo trabalho provar do que são capazes e até mesmo tentar apagar erros do passado. Matar um leão por dia, ou melhor, por filme. Esse deve ser o lema de muitos atores, entre eles Ben Affleck, um profissional competente, mas que ainda muito jovem viu todos os holofotes voltados para si ao ganhar um Oscar pelo roteiro de Gênio Indomável que escreveu em parceria com Matt Damon. Ambos atuaram neste longa e foram muito elogiados, mas depois trilharam caminhos opostos. Enquanto um viu sua carreira crescer a largos passos o outro se viu em meio a tropeços profissionais e também na vida pessoal. Depois de muitas críticas negativas em longas de ação e comédias, um conturbado romance na vida real com a atriz e cantora Jennifer Lopez, o então ex-astro promissor viu seus caminhos clarearem com uma elogiada atuação no drama Hollywoodland - Bastidores da Fama, o que certamente lhe deu fôlego para novos desafios. O homem que vemos em Atração Perigosa já é reflexo dessa injeção de ânimo. E não é só o protagonista que surpreende, mas também o profissional que se encontra atrás das câmeras. Dirigindo e atuando neste drama camuflado de ação, Affleck mostra que conhece cinema e apresenta um filme de excelente qualidade e bem acima da média. O que poderia ser um thriller qualquer cheio de perseguições, tiroteios e palavrões foi transformado em uma história envolvente e que faz o espectador torcer para que o vilão se de bem. Isso mesmo, que o vilão se bem. Ele interpreta Doug MacRay, um rapaz com habilidades para planejar assaltos e que lidera um grupo de ladrões de bancos que sempre consegue sair impune dos seus crimes. Um dia, ao realizar um assalto, seu parceiro Jem (Jeremy Renner) leva uma refém por precaução. Ela é Claire Keesey (Rebecca Hall), subgerente do banco, solta próximo a uma praia algum tempo depois. O fato traumatiza a moça, deixando-a com medo e receosa, mas para os bandidos o crime também os deixou em maus lençóis. Jem descobre que Claire mora a apenas quatro quarteirões do refúgio do bando, tornando-se uma ameaça. Doug fica encarregado de vigiá-la, mas, após uma conversa ocasional, inicia um relacionamento com ela. Agora, ele tem a chance de mudar de vida e se redimir de seus crimes, mas Jem o pressiona para continuar a roubar, pois Doug tem uma dívida de gratidão com ele.

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