terça-feira, 6 de agosto de 2013

QUERIDA WENDY

NOTA 7,0

Pequena e pacata cidade é
usada para discutir importantes
temas sociais ligados aos jovens,
armas, medo e violência
Embora não tenha um currículo muito extenso o diretor Lars Von Trier se tornou uma grife cinematográfica, um nome que pode não render milhões, mas que tem platéia cativa e o poder de suscitar discussões, reflexões e expectativas. Thomas Vintenberg é um nome menos conhecido, porém, ambos são profissionais que têm importância singular na História do cinema. Eles foram alguns dos cineastas que levantaram a bandeira do movimento Dogma 95, uma corrente que defendia a produção de filmes sem grandes preocupações com a parte técnica, mas sim atenção focada na narrativa e na criatividade, quase como produções caseiras com um tantinho mais de esmero. O movimento não vingou, mas curiosamente seu conceito até hoje é perpetuado, ainda que raramente seja colocado em prática. Todavia, após anos sem trabalhar juntos, a dupla lançou Querida Wendy, obra que passa longe dos ideais da manifestação que defendiam, porém, ainda bem distante da estética de um filme comum. Equilibrando-se entre o alternativo e uma leve vontade de se aproximar das massas, o diretor Vintenberg, recuperando-se então do retorno negativo de Dogma do Amor, conseguiu criar uma obra que não chega a ser excepcional, mas pode ter a honra de se intitular como um trabalho único. É difícil encontrar algum outro produto similar para fazer comparações, a começar pela abordagem do tema principal: a relação do homem com as armas de fogo. No caso, a paixão de um rapaz por um revólver. Sim, a tal Wendy do título não é uma mulher e sim a arma pela qual o Jovem Dick (Jamie Bell) está apaixonado, inclusive o longa se sustenta com uma narrativa em off como se fosse uma declaração de amor e despedida dele para o objeto que muitos não gostariam de ter em casa nem em forma de brinquedo. Bem, não se podia esperar algo convencional de um roteiro de Von Trier. O tímido rapaz vive em Estherslope, uma pequena e pacata cidade no interior dos EUA, não se encaixa no estilo de vida do local e tampouco tem perspectivas de vida, mas tudo muda quando certo dia acaba comprando uma arma de brinquedo em uma loja a beira da falência para presentear um garoto que ao que tudo indica não lhe despertava os melhores dos sentimentos. Na última hora ele decide dar outra coisa de presente e quando vai devolver o revólver descobre que ele é de verdade. Fascinado por sua nova companheira, ele lhe dá um nome, a leva junto para onde quer que vá e passa a demonstrar autoconfiança, uma sensação que até então desconhecia. Todavia, ele se diz um pacifista nato.

Dick estaria condenado a trabalhar como minerador assim como seu pai, a profissão mais valorizada da cidade, mas ele prefere continuar como uma figura apagadinha, embora sonhe que um dia conseguiria realizar algo de extraordinário para a humanidade. Enquanto esse dia não chega, ele se contenta em trabalhar em um mercado, ainda mais com o incentivo de aprofundar sua amizade com Stevie (Mark Webber), outro empregado da loja, também pacifista, mas que sabe tudo sobre armamentos. Depois de algum tempo eles acabam se reunindo a outros jovens que se sentem excluídos em Estherslope, Huey (Chris Owen), Freddie (Michael Angarano), Susan (Alison Pill) e Sebastian (Danso Gordon). Em comum todos eles têm a falta de perspectiva de melhorarem de vida, mas juntos parecem nutrir o desejo de se tornarem pessoas melhores pelo simples fato de não se sentirem sozinhos no mundo. Assim eles formam uma espécie de sociedade secreta chamada Dandi, um clube onde praticam tiro ao alvo e se dedicam ao estudo da evolução das armas e da violência, porém, sempre guiados por leis pacifistas, sendo o principal lema nunca sacar uma arma em público, muito menos atirar. Porém, o mundinho a parte em que se fecharam não demora a ser posto a prova por diversos acontecimentos, inclusive a interferência da polícia local representada pelo agente Krugsby (Bill Pullman). É previsível o que acontecerá. O velho ditado diz quem brinca com fogo acaba queimado. Com armas o destino também é cruel, mas apesar dos violentos minutos finais, diga-se de passagem, muito bem fotografados e editados, eles expressam um senso de realidade intenso, levam uma crítica reflexiva sem precisar de discursos piegas, as imagens já dizem tudo, e injetam uma adrenalina benéfica que se contrapõe a lentidão onipresente no restante da narrativa. A trama pode soar a primeira vista um tanto irreal, mas tem louco para tudo e os grupos de amizades acabam sendo formados justamente por elementos em comuns entre as pessoas, não raramente preferências que podem ser um tanto bizarras. O elenco jovem encara com seriedade a temática e é ele que faz com que o espectador se envolva na trama, tenha interesse de ver até onde o fascínio pelas armas chegará, já provavelmente na expectativa de que em determinado momento tal hobbie acarretaria consequências sérias. Quem está assistindo dificilmente fica passivo ao longo da narrativa, pois ela tem o dom de colocar as pessoas instantaneamente a refletirem. Embora a primeira vista a tendência seja criticar os dandies, ao poucos nos envolvemos com suas histórias, com a magia de se enxergar uma arma como se fosse uma pessoa de verdade e até compartilhamos de certa forma suas convicções. O micro universo em que a trama é desenvolvida não foi uma escolha a toa. Primeiro, serve para mostrar de uma forma mais intimista o impacto que o medo da violência gera em qualquer centro populacional, seja ele uma grande metrópole ou um vilarejo rural.  Mesmo conhecendo a reduzida população, os habitantes não se sentem seguros. É como se essa sensação fosse inconscientemente uma necessidade do ser humano para conseguir viver. Segundo motivo é para mostrar como a insatisfação das pessoas também se tornou algo pertinente ao cotidiano. Costumamos dizer que nos sentimos um peixe fora d’água em situações que nos exponham a grandes aglomerações, mas mesmo em uma cidade com uma população reduzida a sensação de ser um excluído pode existir, ainda mais quando tal lugar é tradicionalista e o diferente é visto como ameaça ou anormalidade.

O pequeno vilarejo ainda tem o sentido de criticar ou até mesmo parodiar o próprio cinema, visto que Estherslope, uma cidade que parou no tempo, nos remete as locações típicas de filmes de faroeste, o grande símbolo do cinema americano no qual os protagonistas eram valentes e destemidos. No caso, as estrelas do show cultivam um perfil completamente oposto e preferem se manter reclusos em um mundo particular, permitindo até uma reflexão psicológica. Da mesma forma que uma pessoa se sente revitalizada quando está bem arrumada e perfumada pronta para encarar os olhares e as más línguas de uma sociedade hipócrita, os dandies munidos de revólveres ganham segurança, sentem que são alguém de verdade, mas sem perceberem estão idolatrando justamente o motivo que os levarão a degradação. Quem consegue captar essa essência do grupo de jovens, o sentimento de inferioridade sendo suplantado por um repentino prazer que injeta ânimo às suas vidas, certamente aproveitará melhor o conteúdo de Querida Wendy, um drama muito diferente e que não agrada a grandes platéias, mas não é difícil encontrar quem se identifique com o conflito principal afinal quantas pessoas não entram diariamente em uma espiral de degradação a fim de se sentirem respeitadas acreditando que uma mudança no figurino ou uma tatuagem podem ajudá-las a serem aceitas em algum grupo social. Claro que são casos que não chegam a problemas extremos como no longa, mas a anulação da essência humana pode ser tão prejudicial quando um ferimento feito por uma bala perdida. Por fim, é óbvio que existe a crítica implícita (ou seria explícita?) a onda de violência que não serve apenas para cutucar os americanos, mas sim os povos de qualquer parte do mundo. Através dos olhares juvenis, desencantados com a situação do mundo, temos uma visão diferenciada do porte de armas. São objetos inanimados que só ganham vida quando acionados. O problema é que se perdeu a noção do limite e qualquer comentário mal interpretado pode ser o estopim de uma tragédia. Todavia, reflexões mais complexas sobre violência, medo, guerras e afins acabam ficando por conta do espectador ao subirem os créditos finais. Como já dito, Von Trier e Vintenberg parecem mais preocupados em transmitir a dificuldade dos dandies em se conectar com o universo em que vivem e é dessa insatisfação que podem surgir os indivíduos violentos do amanhã. De qualquer forma, a proposta do filme não é recomendada justamente para o público adolescente, pelo menos não para boa parte dos representantes dessa faixa etária. A mensagem pode ser interpretada de forma errada por imaturos. Exagero? Então porque vira e mexe ouvimos alguém dizer que um carro dirigido por um jovem é como uma arma letal? Pense e faça as associações entre o filme e a realidade. Tal qual Dick e seus amigos se sentem poderosos munidos de revólveres, o mesmo acontece com a posse de um veículo. São como escudos que ingenuamente passam a sensação de poder e proteção. Discussões complexas que felizmente um bom filme pode suscitar, mas que podem passar batidas em tempos em que a mediocridade intelectual impera e interpretações além da imagem parecem obsoletas. No final das contas, não duvide que exista quem veja este filme como um faroeste mal feito e sem nexo.

Drama - 101 min - 2004 

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