sábado, 29 de fevereiro de 2020

CASA COMIGO?

Nota 6,5 Com trama um tanto previsível, longa prende atenção graças ao carisma dos protagonistas

Podem mudar o elenco, procurar diversificar os cenários, adicionar drama ou comédia dependendo da necessidade, mas a premissa básica de um açucarado romance é ter em cena um casal bonito e simpático que deve começar a história se odiando, mas que termine junto apaixonados. Tal premissa básica é intocável e Casa Comigo? não foge à regra, a começar pelo título que já deixa bem explícito que o final feliz está garantido. O roteiro de Deborah Kaplan e Harry Elfont, mesma dupla de O Melhor Amigo da Noiva, tem como protagonista Anna (Amy Adams), uma jovem metódica que ganha a vida como decoradora de apartamentos, atendendo principalmente noivos que estão prestes a oficializar seus matrimônios. Seu trabalho é transformar em realidade o sonho dos clientes, montando espaços belos e aconchegantes nos quais eles possam imaginar o quão maravilhosa pode ser a vida a dois. Contudo, ela própria pressente que seu casamento está longe de acontecer. Ela namora há um bom tempo Jeremy (Adam Scott), um requisitado jovem médico que involuntariamente (ou não) sempre a decepciona quando ela acredita que ele finalmente vai lhe pedir para subir ao altar. As cenas iniciais do casal deixam claro que a monotonia impera neste relacionamento. Mesmo assim, quando ele precisa viajar para participar de um congresso em Dublin, na Irlanda, a noiva ansiosa decide ir atrás para tirar proveito de uma tradição local: toda vez que o ano é bissexto são as mulheres que pedem a mão do companheiro no exato dia 29 de fevereiro. Chegando lá, a moça se enrosca com diversos imprevistos, a começar pelo mal tempo que a impede de seguir viagem de avião e precisa aceitar a carona de Declan (Matthew Goode), um sujeito boa pinta, mas um tanto truculento. Com um longo percurso de estrada pela frente, com direito a clássica cena da dondoca tentando espantar vaquinhas de seu caminho com gritinhos, sabemos bem o que vai acontecer. Anna e Declan vão trocar inúmeras farpas, ela reclamando do jeito grosseiro dele e este, por sua vez, implicando com o estilo patricinha da moça, mas sabemos que no final os opostos se atraem.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

FEIRA DAS VAIDADES

Nota 5,0 Com tom novelesco e muitos personagens, drama é cansativo e refém do deslumbre visual

A alta sociedade inglesa do século 19 geralmente é retrata pelas obras audiovisuais de maneira bastante crítica. Por trás das festas, jantares e demais eventos em que os nobres mostram-se formais, gentis e trajam vestimentas pomposas, além das damas capricharem nos penteados e na escolha das joias e adornos, na intimidade eles revelam suas verdadeiras personalidades deixando as boas maneiras de lado e transparecendo toda a hipocrisia, orgulho e inveja que os corrói. Em Feira das Vaidades, a diretora indiana Mira Nair, que consagrou-se mundialmente com Um Casamento à Indiana, perpetua tal visão dando sua interpretação visual e peculiar deste universo de aparências. Com uma paleta de cores quentes e usando e abusando de adereços exóticos nos figurinos e cenários, sua ideia era fazer um contraponto à imagem cinzenta com a qual geralmente é retratada a Inglaterra imperial. Bastante extravagante, de fato, visualmente a cineasta conseguiu imprimir seu estilo à adaptação do romance homônimo de William Makepeace Thackeray publicado em 1848. O livro já teve diversas versões cinematográficas, desde os tempos do cinema mudo, mas nenhuma memorável, nem mesmo esta requintada produção, que concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza, e estrelada por Reese Witherspoon que fracassou nos EUA e chegou ao Brasil com cerca de dois anos de atraso e provavelmente no embalo do Oscar por Johnny e June conquistado pela atriz. Ela interpreta Rebecca Sharp, ou simplesmente Becky, uma plebeia, filha de um humilde pintor e de uma desconhecida cantora de origem francesa, mas nunca se conformou com sua condição. Independente e decidida, a típica mulher à frente do seu tempo, desde a infância ela alimentou o desejo de subir na vida e chegar a patamar social semelhante ao do Marquês de Steyne (Gabriel Byrne), um aristocrata que visitava o ateliê de seu pai para comprar suas obras, mas sempre pagando menos que o pedido. Becky se tornou órfã muito cedo e nunca poupou esforços para ascender socialmente, assim acostumou-se a fomentar intrigas, tolerar inimigos e até casa-se por interesse.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

A CASA DO ESPANTO

Nota 6,5 Elevado à clássico trash, longa mais diverte que assusta e envolve com clima nostálgico

Para quem nunca assistiu, certamente o título A Casa do Espanto deve gerar bastante curiosidades e expectativas, afinal trata-se de uma das fitas mais representativas do gênero terror e da década de 1980. Contudo, para quem não tem o mínimo de nostalgia ou apreço pela época e tampouco acha divertido um filme trash com letras maiúsculas, deve se decepcionar bastante. Ao contrário do que se pode esperar, na trama criado pelo roteirista Ethan Wiley os sustos são mínimos, mas as gargalhadas são garantidas. O início é promissor focalizando a fachada e o interior do casarão propriedade de Elizabeth Hooper (Susan French), uma idosa que é encontrada morta em seu quarto. Ela suicidou-se com uma corda amarrada no pescoço aparentemente sem motivos, mas seu sobrinho, o escritor Roger Cobb (William Katt), seu único herdeiro, acredita que ela tomou tal atitude devido a seu perturbado estado mental, já que há muito tempo acreditava que a casa era habitada por fantasmas. Precisando de sossego e inspiração para escrever seu novo livro, o rapaz decide se mudar para a residência, ainda que o local não fosse o mais indicado devido as lembranças que lhe desperta. Ele passou praticamente a vida toda naquela casa, indo embora apenas quando se divorciou de Sandy (Kay Lenz), com quem o relacionamento foi desestabilizado com o repentino sumiço do filho do casal certa vez que ele brincava na piscina do quintal. Em paralelo, Cobb ainda tem que lidar com a memória de sua traumática experiência no exército quando foi enviado à Guerra do Vietnã, em especial momentos relacionados à Big Ben (Richard Moll), seu grande amigo na época. É justamente sobre as amargas lembranças do conflito que ele deseja escrever, contrariando a vontade do chefe e dos seus próprios fãs que preferiam uma história de horror, o gênero com o qual o escritor tem mais intimidade. Todavia, será realmente difícil fugir do campo das assombrações, afinal Cobb irá viver experiências inexplicáveis de volta ao casarão. Apavorantes para o personagem, mas divertidos deleites para os espectadores desde que tomados pelo espírito irreverente que costumavam acompanhar as fitas de terror oitentistas.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

GRANDES OLHOS

NOTA 9,0

Drama compila o básico para
entendermos a conturbada relação
de casal de artistas plásticos baseada
em submissão e uma grande mentira
A expressão popular que diz que atrás de um grande homem sempre existe uma grande mulher encontra justificativa literal na história de Walter Keane e Margareth Ulbrich. Quem são eles? De fato, seus nomes não costumam aparecer nos livros mais básicos de História da Arte ou sequer citados em retrospectivas do século 20, mas no passado com certeza figuraram nas páginas de jornais, mais precisamente nas seções policiais. Grandes Olhos retrata a trajetória pessoal e profissional destes artistas plásticos a partir do momento que iniciam uma relação marcada por interesses, mas ainda assim com certo romantismo que aos poucos cedeu espaço ao egocentrismo dele e a anulação da mulher. A trama se desenvolve a partir de meados da década de 1950 quando Margareth (Amy Adams), fugindo do marido e com uma filha pequena para criar, decide recomeçar sua vida em outra cidade. Com um talento peculiar para desenhar figuras humanas, principalmente crianças, sempre dotadas de grandes olhos que revelavam certa tristeza, contudo, seu trabalho não era valorizado e assim se contentava em pintar decorações em móveis e a ganhar alguns poucos trocados fazendo retratos em feiras. Em uma delas acaba conhecendo o carismático Keane (Christoph Waltz), que também não tinha sucesso vendendo seus quadros de cenários parisienses. Os dois acabam se apaixonando e se casam em um impulso para que ela não perdesse a guarda da filha provando ter condições para criá-la em um ambiente familiar. No início tentam ajudar um ao outro na venda de quadros, mas tudo era muito difícil e humilhante, com o casal chegando a alugar as paredes de um clube noturno para poderem expor seus trabalhos, mas as pessoas passavam batido pelas obras de arte e quando as viam costumavam zombar, principalmente das pinturas de Margareth. Quando finalmente alguém se interessa em adquirir uma imagem com os tais grandes olhos, Keane, embriagado, acaba assumindo a autoria do quadro. A partir deste momento ele propõe a esposa que ela passe a fazer as pinturas e ele as assine justificando que havia preconceito com o trabalho de artistas mulheres. Apaixonada pelo marido e decepcionada com os rumos de sua carreira, Margareth acaba aceitando a ideia e durante um bom tempo aparentemente mostrava-se satisfeita com a situação, mas tudo muda quando o sucesso sobe à cabeça de Keane.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ

Nota 7,0 Bela história de amor cativa e emociona, embora prejudicada por humor desnecessário

É inegável a química entre Adam Sandler e Drew Barrymore. Pouco conhecidos quando estrelaram em 1998 Afinado no Amor e já alçados a rentáveis estrelas quando voltaram a se unir em Juntos e Misturados lançado em 2014, no meio do caminho eles firmaram mais uma parceria não só rentável, mas também a mais divertida, romântica e carismática das três. Como Se Fosse a Primeira Vez se tornou um clássico recente no melhor estilo sessão da tarde, aquele tipo de produção que você assiste repetidas vezes e que permanece como uma agradável lembrança da juventude ou de um passatempo em família. Parece estranho sendo um filme protagonizado por Sandler, conhecido por fazer uso de um humor vulgar envolvendo piadas escatológicas e de duplo sentido, mas aqui ele está mais comedido que de costume encarnando a figura do sujeito sangue bom, tão característica em seu currículo, de forma bastante natural e dotada de sentimentalismo. Ele interpreta Henry Roth, funcionário de um aquário que tem o privilégio de morar no paradisíaco Havaí, assim nas horas vagas ganha alguns trocados entretendo e servindo de cicerone para turistas. Seu serviço extra também lhe dá a oportunidade de se divertir sem compromisso com muitas mulheres que estão por lá apenas de passagem, mas tudo muda quando ele conhece por acaso Lucy Whitmore (Barrymore), uma habitante local, e apaixona-se à primeira vista e parece ser correspondido já que ela aceita encontrá-lo novamente no dia seguinte. Contudo, o inesperado acontece. Ele encontra a moça no local e horário combinados, mas ela simplesmente sequer lembra tê-lo conhecido, assim tratando-o com certa indiferença. Henry então descobre que a jovem é portadora de uma rara síndrome de perda de memória recente que a faz esquecer completamente tudo o que vivenciou no dia anterior. Após um evento traumático, seu cérebro agora só armazena eventos do passado até uma data em específico, o que obriga Marlin (Blake Clark) e Doug (Sean Astin), seu pai e seu irmão, a todas as noites enquanto ela dorme prepararem a recriação do dia que passou nos mínimos detalhes para que ela possa revivê-lo e assim evitar um choque emocional ou psicológico caso descubra o que aconteceu em sua vida. As cenas que revelam este segredo apenas para o espectador são especialmente tocantes.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

LADRONAS DE ALMAS

Nota 7,5 Terror mexicano mistura zumbis e fatos históricos e coloca mocinhas dúbias em destaque

Filmes com zumbis existem aos montes na filmografia hollywoodiana, aliás poderia até ser considerado um subgênero tamanha importância e quantidade de obras no estilo, contudo, não é uma propriedade ianque. Qualquer país tem o direito de explorar o filão, basta ter criatividade e coragem para enfrentar as críticas que certamente já seriam disparadas antes mesmo das fitas serem lançadas. Puro preconceito como prova Ladronas de Almas, produção do México que não joga simplesmente na tela mortos-vivos sedentos por carne humana, mas os contextualiza em um aspecto da História do país, a Guerra da Independência. Em 1815, um grupo de mercenários chega a uma fazenda habitada por uma família aristocrática aparentemente decadente, os Cordero, para pedir asilo por alguns dias e se apresentam como desertores do conflito. Embora já tenha sofrido com a traição de outros que tentou ajudar no passado, Don Agustín (Luis Gatica), o patriarca, permite que eles fiquem, mas com a condição de que não saiam em hipótese alguma a noite do abrigo que lhes fora destinado. O local é cercado de lendas sobre ruídos e visões noturnas estranhos, mas os insurgentes, como eram conhecidos os rebeldes, acreditam que tudo não passa de invenções para evitar que estranhos invadam a propriedade da família em busca do ouro que escondem, real motivo que os levou até lá. De quebra, eles esperam encontrar o antigo capitão do bando que meses atrás desapareceu nas imediações da mesma fazenda. No entanto, esses criminosos não contavam com a astúcia e determinação de Maria (Sofia Sisniega), Roberta (Natasha Dupeyrón) e Camila (Ana Sofia Durán), as filhas de Augustín, garotas astutas e determinadas que aprenderam a se defender após a morte da mãe por outro grupo de insurgentes e contam com um trunfo: dominam a magia de trazer mortos de volta a vida e escravizá-los. Assim contam com a ajuda de um zumbi (Pablo Valentín) para estragar os planos dos invasores, além de Indalésio (Harding Junior), um criado de confiança.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

JOGO PERIGOSO (2017)

NOTA 7,0

Com espaço e elenco limitado,
suspense investe no clima de
claustrofobia e foge de sustos fáceis,
privilegiando o viés psicológico
O escritor Stephen King já publicou diversos best-sellers que se transformaram em filmes de sucesso como O Iluminado, e outros dispensáveis, caso de O Apanhador de Sonhos, mas de qualquer forma seu nome atrai público tanto que até pequenos contos do autor já ganharam adaptações modestas para o cinema ou telefilmes. Com dificuldades nos últimos anos para transformar suas obras em grandes produções, na era dos serviços de streaming o mestre do suspense parece ter encontrado sobrevida. Diversas de suas publicações ganharam adaptações diretas para consumo doméstico. Econômico quanto ao elenco e cenografia, Jogo Perigoso é baseado no livro homônimo lançado em 1992 e narra uma noite inesperada na vida de Jessie (Carla Gugino) e Gerald (Bruce Greenwoo), um casal que para apimentar a relação decide viajar para um local isolado onde poderão colocar em prática alguns fetiches. Na verdade, eles querem superar problemas conjugais, algo que é mostrado sutilmente logo no início quando ele coloca a mão sobre a perna da esposa enquanto dirige e ela puxa a mão em direção a seus lábios indicando para ele lhe dar um beijo. O que poderia ser interpretado como um gesto de carinho, também pode revelar o desconforto da mulher em ter seu corpo tocado. Logo também percebemos que o marido tem dificuldades para deixar o trabalho de lado e isso se reflete na forma de uma impotência sexual. Para reverter a situação ele propõe à mulher uma fantasia de dominação algemando-a à cabeceira da cama para criar uma situação de estupro simulado. O que era para ser excitante acaba gerando um grande desconforto para ela e consequentemente a frustração do marido, assim o casal inicia uma discussão que culmina com o falecimento de Gerald devido a um ataque cardíaco fulminante. Se já não fosse desesperador o bastante se sentir culpada por uma morte, Jessie ainda fica no sufoco por estar com os dois braços presos à cama e agora sozinha em uma casa isolada de tudo e de todos sem a possibilidade de se soltar. A situação vai piorando conforme o sol vai se pondo e a noite pedindo espaço, assim ela se vê cada vez mais agoniada, sentindo dores, fome e sede e tendo como única companhia um cão que haviam se deparado à caminho do local e que o invade misteriosamente já objetivando devorar lentamente o corpo do falecido.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

ETERNAMENTE LULU

Nota 6,5 Pequena produção independente é a última chance de brilhar dada a astros esquecidos

Patrick Swayze e Melanie Griffith eram dois grandes nomes do cinema nos anos de 1980 e suas popularidades perduraram até o início da década seguinte, mas pouco a pouco foram perdendo espaço participando de algumas poucas produções que não chamaram a atenção. Eternamente Lulu sequer chegou a estrear nos cinemas americanos e, como no Brasil, foi lançado diretamente para o consumo doméstico e seu esquecimento seria inevitável. De fato, está longe de ser inesquecível, mas também não é nenhum desastre. A comédia dramática roteirizada e dirigida por John Kaye narra a história Ben Clifton (Swayze), um escritor infeliz com os rumos de sua carreira, mas que também não tem tanta sorte na vida amorosa. Ele é casado há quase vinte anos com a psiquiatra Claire (Penelope Ann Miller), mas o relacionamento entre eles é cada vez mais distante, o que abre as portas para voltarem à tona lembranças de Lulu McAfee (Griffith), sua grande paixão nos tempos da faculdade, porém, o romance sempre era ameaçado pela condição de saúde mental dela que acabou sendo internada em uma clínica psiquiátrica. Certo dia, ela foge da instituição disposta a reencontrar Clifton e chega com uma notícia bombástica: eles tiveram um filho! Agora ela quer convencer seu amor da juventude a viajar de carro por milhares de quilômetros e atravessarem os EUA para irem ao encontro do rapaz que está prestes a completar 16 anos e que nem ela própria conhece já que o entregou para adoção praticamente recém-nascido. O escritor não pensa duas vezes antes de colocar o pé na estrada em companhia da ex-namorada, o que enfurece sua esposa que decide também ir atrás deles só que de avião. Durante a viagem, obviamente Lulu vai tentar seduzir e reatar o relacionamento com Clifton e aos poucos dúvidas sobre os reais motivos desse reencontro são levantadas. Existiria realmente o tal filho ou tudo seria invenção da mente perturbada da mulher? Ou ainda, seria este um plano bem arquitetado por alguém que passou anos reclusa e remoendo uma paixão?

sábado, 8 de fevereiro de 2020

AS CRIATURAS ATRÁS DAS PAREDES

Nota 7,0 Vilões insanos e sádicos são trunfos de horror que surpreende invertendo expectativas

O título pode ser impactante, mas não vende bem o peixe. As Criaturas Atrás das Paredes deve ter sido um título escolhido em razão da necessidade de algum elemento que evocasse terror e ao mesmo tempo fizesse uma ponte com o nome do diretor Wes Craven, conhecido como mestre do cinema de horror. Contudo, o enredo pende mais para um suspense policial e as tais criaturas não assustam como se espera, pelo contrário, chegam a dar pena da situação que vivem. Quando dois gananciosos proprietários de imóveis colocam toda uma comunidade sob ameaça de despejo, o malando garoto apelidado de Tolo (Brandon Adams) se junta ao criminoso Leroy (Ving Rhames) para invadir a residência do casal e se vingarem roubando sua fortuna em moedas de ouro. Porém, uma vez dentro do sinistro casarão, escuro, com portas e janelas trancafiadas por correntes e cadeados e protegida por um enfurecido cão, eles descobrem que os magnatas não são apenas sovinas e mal-humorados, mas também com hábitos estranhos e muitos segredos, incluindo a prisão em cativeiro de uma menina, a ingênua Alice (A. J. Langer) que é frequentemente torturada e humilhada. Decidido a libertá-la, Tolo acaba ficando preso também, encontrando refúgio apenas no porão, um vasto subterrâneo com conexões secretas com os demais cômodos e habitado por estranhos seres pálidos e esqueléticos, mas longe de serem ameaçadores. Na verdade, eles parecem clamar por ajuda tendo como porta-voz do grupo, embora todos mal se comuniquem, o relativamente cativante Barata (Sean Whalen), mudo por ter sua língua cortada. Nesse momento, o longa se torna uma espécie de Esqueceram de Mim macabro, com Tolo e Alice se defendendo como podem dos vilões que apenas fingem serem casados. Ela o chamando sempre de papai e ele a de mamãe, os personagens sem nomes defendidos por Everett McGill e Wendy Robie na realidade são irmãos e pela relação incestuosa que vivenciam e por seus hábitos e superproteção que dispensam à casa deixam latente indícios de perturbação mental e instinto psicótico. Na busca do filho perfeito, cada jovem que se aproximava da casa era sequestrado, mas caso falasse, pensasse ou ouvisse o Mal, acabava sendo mutilado e aprisionado no porão sob condições precárias. Alice estaria praticamente condenada ao mesmo destino.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

BARRY E A BANDA DAS MINHOCAS

Nota 4,0 Desenho com minhocas peca na criação de personagens, mas compensa pela trilha sonora 

Embora tenha aumentado a oferta, ainda são poucas as animações fora do eixo hollywoodiano que conseguem espaço em outros países, salvo em festivais e mostras de cinema. Quando algumas conseguem desbravar fronteiras é motivo para se comemorar e prestigiar, mesmo que apenas por curiosidade. Resultado da parceria entre a Dinamarca e a Alemanha, Barry e a Banda das Minhocas está longe de ser um primor em termos visuais ou criatividade, mas vale uma espiada para fugir um pouco do maçante estilo dos desenhos americanos que priorizam cada vez mais o realismo. Aqui é quase uma volta as raízes das animações com o uso proposital de uma saturada paleta de cores e estrelado por criaturas que não são os seres mais fascinantes da terra e por isso mesmo ganham contornos e características estereotipadas para as tornarem mais aceitáveis pelo público. Um filme protagonizado por minhocas não parece uma ideia muito animadora, mas ainda assim a produção assinada pelo diretor Thomas Borch Nielsen, estreando no campo das animações, consegue transformar os personagens rastejantes em figuras simpáticas e dotadas de certo movimento além do habitual, todavia, isso não é o suficiente para manter total interesse pela fita já que sua narrativa é um tanto preguiçosa. Barry é um jovem minhoca que está cansado de ver sua espécie ser motivo de zombaria por parte de outros animais, principalmente alvo de chacotas pelos insetos, e não aceita o futuro ao qual está destinado: trabalhar em uma empresa de fertilizantes, a sina de todos os seus semelhantes. Seu próprio pai não gosta desta atividade, mas se conformou com seu destino. Pressionado pela mãe, Barry acaba seguindo o caminho que lhe fora previamente traçado, mas sua vida ganha um novo sentido quando encontra a coleção de discos do seu pai, uma coletânea com os melhores hits dos tempos das discotecas. Contagiado pelo ritmo, o jovem imediatamente tem a ideia de montar uma banda para participar de um show de talentos e assim provar que as minhocas podem ir além, mas encontrar os parceiros certos para embarcar junto nesse sonho não será nada fácil.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

VERÓNICA

Nota 7,5 Atmosfera e protagonista convincentes prendem atenção em mais um filme sobre ocultismo

Paco Plaza ficou conhecido internacionalmente por ser um dos idealizadores da trilogia espanhola de terror Rec, produções constituídas de imagens propositalmente com aspectos de amadoras, a chamada técnica do "found footage" que já fora explorada ao máximo nos anos seguintes pelo gênero. Anos mais tarde, o diretor ressurge figurando nas listas de melhores produções de horror com Verónica, mas desta vez com uma narrativa mais tradicional e seguindo cartilha hollywoodiana. Em Madrid, em meados de 1991, a trama acompanha os percalços vividos por alguns dias pela personagem-título interpretada pela jovem Sandra Escacena. Devido a morte do pai, a adolescente passa a cuidar praticamente dia todo de seus três irmãos mais novos enquanto a mãe se desdobra em turnos extras cuidando do bar da família. Em um dia de eclipse solar, mesmo sendo estudante de um colégio católico, a garota e mais duas amigas tentam contatar o falecido utilizando a tábua ouija, mas o ritual não acaba bem e Verónica a partir de então passa a sentir uma presença macabra que ameaça a ela e a seus irmãos. O roteiro do próprio Plaza em parceria com Fernando Navarro é desenvolvido de forma a colocar os espectadores a torcerem pelos personagens mesmo sabendo que a história não acaba bem pela cena inicial que mostra a chegada da polícia no apartamento da jovem e estarrecidos com o que encontram. Teria o ritual ouija de fato trazido algum tipo de assombração para a vida da protagonista ou suas visões e pesadelos seriam frutos de sua mente perturbada? Plaza toma o cuidado de expor com detalhes a dura rotina de Verónica, uma adolescente impressionável e que além de ter que lidar com as mudanças repentinas trazidas pela puberdade sem ter apoio da mãe e digerir a perda do pai, ainda assume para si a responsabilidade de cuidar de crianças praticamente dia e noite. São muitos conflitos para uma garota sem experiência de vida lidar, embora sua intérprete, igualmente jovem, mostre-se bastante madura para transmitir os medos e a inocência necessários para a personagem ser crível e gerar empatia com o espectador.

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