sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

CAMINHOS DA FLORESTA

NOTA 8,0

Junção de contos de fadas tem
seus furos e equívocos narrativos, mas
carisma e talento do elenco e recursos
técnicos apurados garantem a qualidade
Espetáculos de sucesso da Broadway mais cedo ou mais tarde terão sua versão cinematográfica, isso é fato. Desde os tempos áureos dos musicais no estilo My Fair Lady, passando pelo premiado Cabaret e culminando em fracassos como Rent – Os Boêmios, projetos que migram dos palcos para as telonas sem dúvida são apostas arriscadas. Teatro e cinema, embora compartilhem características, no fundo são artes distintas, cada qual com seus encantos e recursos para fisgar a atenção de quem assiste. O que pode dar certo ao vivo pode não funcionar na versão filmada e vice-versa. Contando com o aval popular e da crítica graças ao sucesso nos palcos de muitos países, além do chamariz de narrar uma história de fácil assimilação interligando personagens e contos clássicos do universo infantil, Caminhos da Floresta parecia uma aposta segura, mas sua realização complicada se reflete claramente no resultado final. “Into The Woods” foi lançado nos teatros americanos em 1986 com a proposta inovadora de misturar várias histórias dos lendários irmãos Grimm. A adaptação cinematográfica quase três décadas mais tarde já esbarraria na questão criatividade. A saga de Shrek levou ao ápice a fórmula de reinventar e mesclar os contos de fadas e outras produções seguiram a tendência como a própria Disney que em Encantada deitou e rolou tripudiando (ainda que com classe e respeito) em cima dos próprios estereótipos que fizeram a fama do estúdio. A casa do Mickey Mouse mais uma vez banca uma brincadeira com seu portfólio neste musical que não abandona as lições de moral, mas em muitos momentos transpira originalidade e vai muito além do felizes para sempre com uma guinada tensional da trama quando achamos que estamos no clímax. Não é a toa que muitos dizem que o filme poderia ter sido dirigido por Tim Burton devido ao casamento do lúdico com o sombrio. No entanto, a produção é responsabilidade de Rob Marshall, amante dos musicais, tendo acumulado prêmios com o divertido Chicago, incluindo seis Oscars, e sofrido com as críticas ao inconsistente Nine onde os números musicais deveriam alinhavar uma trama que apesar do argumento metalinguístico, um cineasta com bloqueio criativo que busca inspiração nas mulheres que de alguma forma marcaram sua vida, revelou-se um videoclipe megalomaníaco. Nesta nova incursão no gênero, o diretor procurou se ater mais ao script original e a cantoria é parte imprescindível da narrativa substituindo vários diálogos, um tipo de armadilha que o longa supera graças ao carisma do elenco.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

BONECO DO MAL

NOTA 5,0

Inicialmente intrigante, bom
argumento aos poucos é minado por
trama repleta de clichês, situações
inverossímeis e final desconectado
Realizar um filme de terror original é uma obsessão de muitos cineastas e ao mesmo tempo uma tarefa ingrata. É provável que todos os tipos de fobias já tenham sido explorados e nos últimos anos um dos poucos cineastas a dar certa vivacidade ao gênero foi o mexicano Guillermo del Toro com suas produções esmeradas no apuro técnico e visual e seu estilo já vem fazendo escola. Boneco do Mal não é sequer produzido pelo premiado criador de O Labirinto do Fauno, mas muitas características presentes em sua filmografia compõem o universo deste trabalho calcado na mistura do lúdico com o tensional. A história tem como protagonista Greta (Lauren Cohan), uma jovem americana que está de mudanças para um antigo casarão na Inglaterra para cuidar do filho do casal Heelshire (Jim Norton e Diana Hardcastle) que viajarão em breve deixando pela primeira vez o herdeiro aos cuidados de um estranho. Na verdade, muitas moças já foram recrutadas para ocupar o cargo em outras ocasiões, mas todas foram reprovadas pelo exigente Brahms. No entanto, ele não é um garoto de verdade e sim um boneco de cerâmica no tamanho real de uma criança de oito anos que é criado como se fosse alguém de carne e osso pelos pais idosos que nunca aceitaram a morte do filho verdadeiro em um incêndio há duas décadas. A babá obviamente não leva a sério quando lhe apresentam o menino, mas muda de ideia por conta da seriedade com a qual seus patrões lidam com a situação. Quando descobre sobre a tragédia que abalou a família ela se compadece, porém, existe um motivo bem mais forte para ela aceitar uma ridícula rotina que inclui aulas de música, fazer refeições balanceadas e até dar beijinho de boa noite em um brinquedo. A moça opta pelo trabalho levando em consideração não só o polpudo pagamento, mas também o refúgio oferecido, mantendo-a bem longe de Cole (Ben Robson), seu ex-namorado que a persegue. A mansão dos Heelshire pode ter parado no tempo, mas o mundo fora dele não e é óbvio que será fácil para Greta ser localizada, tempo suficiente para ela estabelecer uma estranha relação com Brahms. É um tanto forçada a ideia de que alguém aceitaria viver em um cinzento e depressivo mausoléu, ainda mais incumbida de ingratas tarefas, mas de alguma forma Laura faz o espectador criar rápida intimidade com o bizarro universo que adentra, ainda que ela siga à risca o perfil das protagonistas de filme de terror.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

COMO VOCÊ SABE

NOTA 3,0

Aposta em comédia romântica
amparada por questões mais complexas
sobre relacionamentos frustra com sua
falta de graça e elenco mal aproveitado
James L. Brooks é um diretor, produtor e roteirista que não tem um currículo muito extenso, porém, conta com produções de prestígio. Acumulando as três funções ele foi o grande vencedor do Oscar de 1984 com o dramalhão assumido Laços de Ternura, quatro anos depois figurou com Nos Bastidores da Notícia na lista de melhores do ano abordando um triângulo amoroso em meio ao dinâmico e estressante universo do jornalismo televisivo e ainda uma década mais tarde alcançou a maturidade do seu trabalho com Melhor Impossível, fita que deu a terceira e famigerada estatueta dourada para Jack Nicholson vivendo um maníaco-compulsivo, papel de repercussão que há anos o ator não tinha o privilégio de interpretar. No entanto, entre uma produção bombada e outra, Brooks parece querer descansar diminuindo consideravelmente seu ritmo de trabalho e cada vez mais dá indícios que carece de inspiração. A comédia romântica Como Você Sabe prova isso. A trama gira em torno de Lisa Jorgenson (Reese Whiherspoon), uma jovem que desde a infância desejou se tornar uma grande jogadora de beisebol, mas os anos passaram e mesmo com todos os seus esforços não conseguiu ser chamada para as principais competições. Aos 31 anos de idade, no momento ela já é considerada velha para o esporte e sua carreira já pode ser dada como encerrada, assim ela busca consolo no amor para preencher o vazio que sua vida se tornou e acaba se envolvendo com dois rapazes completamente diferentes. Matty Reynolds (Owen Wilson) também é esportista, milionário, narcisista e metido a conquistador. Já George Madison (Paul Rudd) é um executivo que leva uma vida mais leve, é sonhador e tem como principais qualidades a humildade e a educação. Já dá para saber com quem a mocinha vai ficar, não é? Entregando o jogo logo de cara, o roteiro então se alonga além do necessário para narrar as dúvidas e confusões de uma mocinha pouco cativante e com pretendentes que não chegam a duelar fisicamente, mas suas atitudes os colocam em guerra para saber qual o mais insosso. Escrito pelo próprio Brooks, há quem defenda o texto por fugir do esquematismo das comédias românticas tradicionais onde os diálogos soam piegas e decorados, mas o realismo pretendido em diversos momentos torna a fita distante do espectador, como se os assuntos discutidos fossem pertinentes unicamente ao universo dos personagens.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

PARA SEMPRE CINDERELLA

NOTA 9,0

Texto clássico ganha roupagem
moderna sem deixar de ser épico,
apresentando uma mocinha determinada,
corajosa e ainda assim doce e romântica
Os contos de fadas sempre foram fontes de inspiração inesgotáveis para as mais deferentes formas de fazer arte e o cinema explora ao máximo suas possibilidades. Do romance, passando pelo drama e a comédia, chegando até a flertar com o suspense e o terror e, obviamente, servindo de inspiração para animações, as clássicas histórias infantis já sofreram diversas modificações ao longo dos anos e hoje é até difícil reconhecer quais são as versões originais. Costumamos considerar como oficiais as antigas adaptações da Disney e essa ideia é perpetuada de geração para geração, mas na realidade tais produções talvez sejam as variantes mais floreadas e distantes do primeiro tratamento dado aos contos de Branca de Neve, Pinóquio e companhia bela. Ao longo dos anos, empresas menores também entraram no ramo da animação e lançaram suas adaptações, modificando ainda mais as histórias e nem sempre com resultados satisfatórios. No caso de Cinderela, o crédito é dado ao romancista Charles Perrault que publicou o conto pela primeira vez em 1697. Anos mais tarde, ele foi alterado sutilmente pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm e é justamente com a participação deles que o enredo de Para Sempre Cinderella começa a tomar forma. Da década de 2000 em diante tornou-se comum os live actions, continuações e spin offs dando sobrevida a textos clássicos, mas este filme não faz parte deste movimento, foi lançado alguns anos antes O diretor Andy Tennant antecipou esse modismo oferecendo uma versão mais realista do conto da gata borralheira e desde o lançamento já se apresentava como um clássico romântico no melhor estilo sessão da tarde e assim o passar dos anos veio a confirmar. A essência da trama é basicamente a mesma do conto que costumamos ouvir quando crianças, mas aqui temos o uso da metalinguagem para criar uma introdução original. Os irmãos Grimm são convocados pela própria rainha da França (interpretada pela lendária Jeanne Moreau) para irem ao palácio receberem seus elogios pessoalmente por conta de seus auspiciosos trabalhos, contudo, ela contesta que eles não foram realistas na forma como desenvolveram a história da simplória jovem que passou sua infância e juventude sendo maltratada dentro de casa, mas conseguiu dar a volta por cima e ser acolhida pela realeza.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O IMPOSSÍVEL

NOTA 9,0

Apesar de forçar a emoção de todas
as maneiras possíveis, através do drama
de uma família filme coloca o espectador
como personagem onipresente de uma tragédia
O título já diz tudo. Embora baseado em fatos reais, O Impossível narra uma história improvável, mas com uma essência dramática que fisga o espectador logo em seus primeiros minutos não apenas apostando no emocional, mas também reativando lembranças ou despertando curiosidades a respeito do dia 26 de dezembro de 2004. A Tailândia era agraciada com mais um belo dia ensolarado, mas poucas horas depois de encerradas as comemorações natalinas o clima de paz e harmonia fora literalmente devastado por uma tragédia da natureza. Um tsunami agitou o oceano e provocou ondas gigantescas que varreram do mapa de modestos casebres à suntuosas mansões e hotéis. Milhares de moradores e turistas vieram a falecer ou tiveram graves ferimentos, um prato cheio para qualquer cineasta trabalhar um roteiro no esquema do filme-mosaico, estilo em que diversas tramas são contadas simultaneamente podendo convergir ao final ou não. No entanto, o diretor catalão Juan Antonio Bayona, do elogiado O Orfanato, optou em sua estreia no cinemão de Hollywood por narrar o sofrimento de um grupo específico. Inspirado no drama vivido por uma família espanhola, para tornar o argumento mais universal e obviamente melhorar os lucros, os protagonistas foram substituídos por britânicos, todos com pele, olhos e cabelos claros, assim mesmo sujos e feridos suas figuras não causam tanta repulsa. Quando se juntam as centenas de sobreviventes inevitavelmente acabam se destacando na multidão, mas não vamos entrar na discussão de possíveis preconceitos, afinal o elenco é talentoso e consegue despertar a almejada piedade com a força de suas interpretações. O casal Maria (Naomi Watts) e Henry (Ewan McGregor) planejavam férias tranquilas e divertidas junto aos três filhos, Lucas (Tom Holland), o mais velho, Thomas (Samuel Joslin) e do caçula Simon (Oaklee Pendergast), em um luxuoso resort à beira-mar, porém, mal tiveram tempo de desfrutar do local. Ondas de até trinta metros de altura atingiram tudo o que estava em seus caminhos e só conseguiram se salvar aqueles que por ventura estavam mergulhando naquele exato momento ou que foram agraciados por alguma força divina de proteção.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A BELA E A FERA (1991)

NOTA 10,0

Clássico Disney sobrevive a
ação do tempo e mantém o
frescor, a emoção e a
magia da obra intactos
A Disney sempre foi uma fértil fábrica de desenhos animados, sejam eles produções para a TV, curtas ou longas metragens. Todas as animações do estúdio foram feitas com muito capricho, mas após a morte de seu fundador na década de 1960 a empresa entrou em declínio. Hoje as produções desse tempo são lembradas com orgulho, mas na época de seus lançamentos não trouxeram bons frutos, embora o período tenha sido marcado por produções com roteiros originais ou baseados em contos pouco conhecidos. O prestígio voltou a bater na porta do estúdio em 1989 com A Pequena Sereia e embalados pelo sucesso os criadores e animadores da casa adaptaram e modernizaram outro conto clássico para as telas em seu projeto seguinte. A Bela e a Fera só por sua história e visual já merecia lugar de destaque na história do cinema, mas a obra foi além e honrou o privilégio de ocupar a vaga de 30º longa de animação da Disney. Baseado no conto homônimo escrito por Jeanne-Marie Le Prince de Beaumont, a obra alia perfeitamente romance, drama, suspense, aventura e certa dose de ousadia, além de terem sido utilizadas técnicas de computação gráfica (hoje simplórias) aliadas ao desenho tradicional para criar cada fotograma desta história que não só conquista a atenção de crianças como de adultos também. Não é a toa que se tornou a primeira animação a ultrapassar a barreira dos cem milhões de dólares nas bilheterias mundiais e foi a única a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme até 2010, quando a Academia de Cinema ampliou o número de concorrentes permitindo que um desenho animado bem sucedido ocupasse uma vaga independente de também estar entre os concorrentes em sua categoria específica. Além disso, também foi o primeiro longa animado a receber o Globo de Ouro de Melhor Filme Musical ou Comédia e a ganhar o Annie Award.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

OUTONO EM NOVA YORK

NOTA 6,0
Fotografia, locações e
figurinos salvam produção
cujo roteiro entrega todas
as emoções logo no início
Richard Gere já estrelou produções de diversos gêneros, mas é praticamente um sinônimo de filmes românticos, tal qual Julia Roberts também tem uma imagem significativa ligada ao gênero. Ambos explodiram juntos na comédia romântica Uma Linda Mulher e quase uma década depois voltaram a se unir, sem fazer tanto barulho, em Noiva em Fuga. Além destas duas produções, o ator participou de diversos outros filmes feitos especialmente para agradar o público feminino, como Dança Comigo?, mas nem sempre conseguiu êxito investindo em terreno seguro, como prova o esquecido Dr. T e as Mulheres. O caso de Outono em Nova York fica em cima do muro. É um daqueles títulos que tem suas qualidades, como uma belíssima fotografia e locações, conta com um enredo agradável, porém, faltam um ou mais ingredientes para transformá-lo em algo acima do regular. Apostando em um romance com pitadas de drama, este segundo trabalho da atriz Joan Chen como diretora chega a um resultado tão frio quanto a própria passagem que serve de pano de fundo para uma história bonitinha e sem grandes pretensões que mostra o nascimento de uma relação amorosa entre um homem mais velho e uma jovem. Will Keane (Gere) é um cinquentão que prometeu a si mesmo nunca mais ter um compromisso sério com uma mulher, assim ele paquera a vontade e cultiva sua fama de conquistador. Quando ele conhece a delicada Charlotte Fielding (Winona Ryder) logo se interessa em viver um romance com a moça, mas talvez não imaginasse que ia acabar se envolvendo tanto com ela. Disposto a esquecer de sua promessa, Keane se surpreende com a recusa da parceira em tornar o caso deles em algo para valer e que dure para sempre. Bem, não é preciso muitos minutos de projeção para descobrir qual o motivo do impedimento e para começar a choradeira. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

2012

NOTA 6,0

A Terra é destruída em
mais um filme sobre
catástrofes naturais, neste
caso com base em crendice
21 de dezembro de 2012. Esta foi uma data que nos últimos tempos assombrou muita gente. Bem, se você estiver lendo esta crítica após o dia 22, pode estourar o champanhe e comemorar: você sobreviveu à profecia apocalíptica maia. Séculos atrás este lendário povo deixou escrito o calendário de milhares de anos à frente, mas os escritos acabam justamente na data mencionada. Desde então astrólogos, religiosos, sensitivos, cientistas, geólogos, autoridades e pessoas de muitas outras áreas passaram a estudar o que isso poderia significar e muitos concluíram que esse seria o dia da extinção da humanidade através de eventos que alterariam drasticamente clima, relevo, direção dos ventos, força das águas entre outras coisas relacionadas à fúria da natureza. Baseando-se nesta impactante crença, muitos produtores trataram de explorar o tema, mas a grande produção batizada óbvia e simplesmente de 2012 foi criada pelo diretor Roland Emmerich. Ninguém melhor que ele que já convocou extraterrestres para acabar com os EUA (Independence Day), trouxe um mega lagarto de terras orientais para arrasar territórios ocidentais (Godzilla) e que mostrou a revolta da natureza contra os maus-tratos que recebe dos humanos (O Dia Depois de Amanhã) para se encarregar de dar o ultimato à população da terra. A trama roteirizada por Harald Kloser em parceria com Emmerich começa em 2009 quando o cientista indiano Satnam Tsurutani (Jimi Mistry) descobre que em poucos anos algumas alterações nas explosões solares esquentariam o núcleo do planeta, assim provocando diversas catástrofes naturais. O governo dos EUA fica sabendo disso através do geólogo Adrian Helmsley (Chiwetel Ejiofor) e logo passa a estudar medidas para evitar o pior. Porém, o profissional erra nas contas e as catástrofes anunciadas começarão antes do previsto. Já em 2012, o divorciado e fracassado escritor Jackson Curtis (John Cusack) está em meio a uma viagem com os filhos para tentar reconquistar o afeto deles. Quando vai acampar, ele recorda de momentos que viveu com Kate (Amanda Peet), mas divide seu tempo ouvindo as teorias paranoicas de Charlie Frost (Woody Harrelson), um sujeito que acredita piamente nas lendas sobre o fim do mundo. Curtis não dá bola para tais ideias, porém, não demora a mudar sua opinião.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A MENINA E O PORQUINHO

NOTA 7,0

Adaptação de clássico literário
infantil pode soar inocente demais
para os novos tempos, mas sua
essência ainda é encantadora
Já faz algum tempo que os adultos estão invadindo a praia das crianças e curtindo desenho animado. Aliás, essas produções às vezes agradam mais aos pais que os próprios filhos ou propositalmente os estúdios já realizam as animações visando essa ampliação espontânea de público. Porém, quando a magia do universo infantil deixa o colorido dos desenhos de lado e é transportada para os filmes com atores de carne e osso o resultado não é o mesmo. Os adultos tendem a não se entreter com piadas batidas, enredo melancólico próprio para dar lições de moral aos pequenos e atuações consideradas fracas, a receita que frequentemente é utilizada neste tipo de produção. Pior ainda quando há bichinhos falantes na trama e os realizadores se concentram tanto em tornar críveis tais criaturinhas que acabam conseguindo um resultado frustrante, pois se esquecem de encontrar um equilíbrio com os demais elementos da produção. Contudo, algumas vezes esses filminhos água-com-açúcar podem ser perfeitamente assistidos e com prazer pelos mais crescidinhos graças ao trunfo da nostalgia que carregam em sua essência. É nesse ponto que A Menina e o Porquinho, protagonizado por Dakota Fanning, consegue um reforço. Esta é mais uma adaptação do clássico livro infantil "A Teia de Charlotte", de E. B. White, que já ganhou uma famosa versão em desenho animado em 1973 que foi repetida a exaustão na TV pelas duas décadas seguintes em todo o mundo. A garotinha que outrora era uma grande promessa de Hollywood interpreta Fern, uma das poucas pessoas a perceber que Wilbur não é um simples porquinho da fazenda onde vive, mas sim um animal muito especial. Com seu carinho e atenção, a garota ajuda o bichinho, que era o menor membro de sua família, a se tornar um porco vistoso e radiante. Quando se muda para um novo celeiro, Wilbur faz amizade com a aranha Charlotte e os laços de amizade entre eles influenciam para que os demais animais da fazenda vivam como se fizessem parte de uma grande e feliz família. Porém, o tempo passa e Wilbur cresce e está a caminho do triste fim de qualquer porquinho criado com tudo de bom e do melhor: virar assado. Quando surge a notícia de que em breve ele será abatido, a esperta e sensível aranha arma um plano para retardar a morte de seu amigo suíno.

domingo, 18 de dezembro de 2016

LINHAS CRUZADAS

Nota 4,0 Velho argumento da reunião familiar em momento difícil neste caso não dá linha

Uma atriz balzaquiana sinônimo de comédias leves. Uma veterana premiada e com boa aceitação junto ao público feminino aqui também atacando como diretora. Uma jovem em ascensão em um seriado de TV e buscando seu espaço no cinema. No comando do texto uma roteirista experiente com temáticas que aliam comédia, drama e romance. De quebra, um conflito familiar de fácil identificação e uma pequena dose de clima natalino no ar. Linhas Cruzadas tinha os ingredientes básicos para cair nas graças da mulherada, no entanto, a receita desandou. Aqui o humor existe, mas é diluído em diversas sequências lacrimejantes. Frustrações, alegrias e sonhos desperdiçados são colocados em pauta quando três irmãs forçosamente se reencontram por conta da iminente morte do pai. Baseado no livro "Hanging Up" escrito por Delia Ephron narrando suas próprias memórias familiares, a trama tem como protagonista Eve (Meg Ryan), uma mulher que desdobra-se para dar conta do seu trabalho e de cuidar da casa, do marido e do filho pequeno, no entanto, nos últimos anos tem praticamente abdicado de seus afazeres para cuidar pai idoso. Lou Mozell (Walther Matthau) está com a saúde bastante debilitada e com problemas de memória e precisou ser internado em uma clínica, assim sempre que o telefone toca sua filha já aguarda por más notícias, mas quando não é seu próprio pai ligando para dizer impropérios são suas irmãs que estão na linha. Na verdade quase sempre é Eve quem tenta manter contato com elas que fazem de tudo para se esquivarem de qualquer tipo de compromisso com o idoso. A caçula Maddy (Lisa Kudrow) é uma atriz frustrada e que também não tem sorte na vida amorosa enquanto Georgia (Diane Keaton), a mais velha, é uma solteirona, porém, bem sucedida editora de revistas que só pensa no trabalho. Embora não morem juntas, ambas são de certa forma dependentes de Eve que aproveitando a situação delicada do pai vai tentar reatar os laços familiares e desfazer mal entendidos do passado.

sábado, 17 de dezembro de 2016

O BARBEIRO

Nota 1,0 Apesar do bom argumento, longa é uma tremenda enrolação para explicar o óbvio

Em um filme cujo enfoque é a investigação de assassinatos o mínimo que se espera é uma trama bem amarrada que nos instigue a brincar de detetive, mesmo que no final das contas a identidade do criminoso seja a mais óbvia. De qualquer maneira, se o tempo dedicado a essa brincadeira for de qualidade isso compensa um pouco a frustração da conclusão. E qual seria o atrativo de uma produção do tipo cujo vilão já sabemos de antemão sem precisar assistir uma única cena? A fita O Barbeiro só pelo título já entrega o ouro, mas poderia ao menos reservar uma trama que tentasse jogar a culpa em cima de outros suspeitos ou quem sabe fazer aquele jogo em que a plateia sabe de tudo, mas os demais personagens não, assim criando aquela angústia de nos sentirmos impotentes diante de uma situação tão óbvia enquanto o verdadeiro assassino se diverte. O diretor Micheal Bafaro é preguiçoso e desde a primeira aparição do personagem Dexter Miles (Malcolm McDowell) deixa claro que ele não é flor que se cheire. Muitas de suas aparições ilustram narrações em off, na verdade seus pensamentos maquiavélicos, críticos e sarcásticos. O efeito inicialmente parece mesmo corresponder as expectativas de que o público está sendo convidado a ser cúmplice de suas ações, mas a partir do momento que frases comprometedoras começam a sair de sua boca em alto e bom som para quem quiser ouvir o interesse na fita cai totalmente. O criminoso está praticamente se entregando e quem ouve faz cara de paisagem. A trama escrita pelo próprio diretor em parceria com Warren Low se passa em Revelstoke, uma pequena e pacata cidade no Alasca que é tão insignificante que nem aparece na maioria dos mapas dos EUA. Sofrendo com invernos rigorosos e com dias em completa escuridão tal qual a noite, as pessoas que visitam o local chegam a compará-lo a uma prisão perpétua, mas os pouquíssimos moradores já se acostumaram com a ambientação tranquila, porém, a morosidade é quebrada quando é achado o corpo de Lucy Waters. Assim que a notícia chega ao único salão de barbearia da cidade o mistério para o espectador já acaba. Em pensamento, Dexter entrega que jamais esperava que achassem os restos da mulher tão rapidamente. Depois de tal revelação o que esperar?

domingo, 11 de dezembro de 2016

UMA AVENTURA ANIMAL

Nota 3,0 Apesar dos esforços dos animadores, não há desenho que se sustente sem boa trama

O cinema italiano é conhecido por bons dramas, romances e comédias, algumas produções inclusive tornaram-se clássicas na História da sétima arte. Nos últimos anos o país também passou a investir em filmes de suspense, policiais e até no campo da animação, contudo, pelo que se vê em Uma Aventura Animal, a turma de lá ainda precisa comer muita macarronada e beber muito vinho para chegar a um mercado competitivo do gênero. Fora a tentativa de forjar em vários momentos uma interação entre os personagens e quem assiste, a produção não traz nada de novo, pelo contrário, é um amontoado de equívocos. A trama escrita por Francisco e Sergio Manfio, este último também diretor, acompanha as aventuras de uma turma de animaizinhos em busca de um segredo secular. Aldo, para variar uma sábia coruja que cuida de uma importante biblioteca na cidade de Veneza, está muito interessado em saber mais sobre o chamado “Código de Marco Polo”, escritos feitos pelo lendário viajante após uma viagem à China. Alda, a irmã do bibliotecário, já está em campo na cidade de Kebab em busca deste material histórico e em breve ganhará a ajuda do irmão e seus amigos nesta expedição. Contudo, gente do mal também está atrás desta misteriosa informação. Cambaluc e Cuncun, dois furões um tanto atrapalhados, descobrem os planos da turminha e avisam a bruxa Gralha que também está interessada no tal código. Ela vive com seu fiel escudeiro Ambrósio no Himalaia em uma região isolada literalmente sob as trevas. Sua casa é o Palácio da Magia, local descoberto pelo próprio Marco Polo há 800 anos. Fascinado pela construção, local que abrigava os mais antigos feitiços orientais, seus escritos após seu regresso da China tratam justamente sobre a construção de um palacete idêntico na Itália, mas desconhecido. Tal segredo está contido em uma pedra desaparecida a qual Alda estava prestes a encontrar, mas Rajin, um macaco a serviço da bruxa, consegue colocar as mãos primeiro no objeto que quando posicionado sobre o piso da mais antiga biblioteca de Veneza revela o código. Obviamente tal local é onde trabalha Aldo o que o obriga a viajar rapidamente com seus amigos para voltar a tempo de evitar que Gralha tenha a revelação só para si.

sábado, 10 de dezembro de 2016

MARCAS DO PASSADO (2006)

Nota 4,0 Drama aborda de forma superficial tentativas de homem comum mudar seu futuro

Muitos filmes já investiram na fórmula da pessoa que descobre que seu futuro não é lá muito auspicioso e corre contra o tempo para tentar mudar seu destino. Geralmente tais produções são ligadas ao gênero fantasia, horror ou suspense e garantem um filme razoavelmente divertido, tudo o que Marcas do Passado não é. Seguindo a linha de um drama policial, o longa dirigido por Mark Fergus, roteirista de Filhos da Esperança e Homem de Ferro, é um tanto arrastado, desinteressante e repleto de personagens sem função que apenas servem para confundir o espectador. O roteiro de Scott Hastings nos apresenta a Jimmy Starkys (Guy Pearce) que está viajando sozinho por uma estrada deserta quando tem um problema no carro. No pequeno vilarejo mais próximo ele consegue auxílio, mas terá que aguardar praticamente o dia todo até que o veículo fique pronto. Para passar as horas, o rapaz começa a vagar pelas redondezas e encontra o vidente Vacaro (J. K. Simmons) e só por distração paga por uma consulta mediúnica, embora não acredite em visões e caçoe a cada novo comentário que o homem faz. Sua atenção muda quando é avisado que em breve uma grande quantia de dinheiro chegará até ele de Dallas, mas subitamente o vidente começa a se sentir mal e interrompe a consulta. De volta a sua casa, Jimmy, que é vendedor, logo se vê envolvido em um negócio lucrativo, a venda de jukeboxes (tipo de toca-músicas antigos e próprio para estabelecimentos comerciais). O negócio começaria justamente por Dallas por ser um importante centro comercial, mas junto com essa novidade ele também passa a receber misteriosas correspondências e seu telefone quando toca fica mudo. Não demora muito para que o rapaz descubra que quem está por trás dessas pequenas brincadeiras é Vincent (Shea Whigham), um antigo parceiro de comércio ilegal que passou um bom tempo na cadeia por conta de um episódio mal explicado envolvendo Jimmy, este que ligando as evidências se apavora ao perceber que pode ser morto pelo ex-amigo que está sob liberdade condicional e cheio de ódio. Segundo a profecia, confirmada por uma cigana, o rapaz estaria a salvo apenas até a primeira nevasca do ano.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A COLINA ESCARLATE

NOTA 9,0

Inspirado na cultura gótica e com
estética de filme antigo, obra é um
espetáculo visual, mas narrativamente
mostra-se limitada e até previsível
O cineasta Guillermo del Toro é um visionário, não há dúvidas. Como ele poucos conseguem equilibrar conteúdo narrativo com estética que ultrapassa os limites da imaginação. Transitando entre o cinema independente, como no suspense A Espinha do Diabo, e os blockbusters americanos, como na aventura Círculo de Fogo, o mexicano consegui um perfeito híbrido de estilos com sua obra-prima O Labirinto do Fauno, mescla de drama, fantasia e terror na qual os atributos técnicos não apenas saltam aos olhos, mas reforçam suas importâncias para contar uma boa história. Seguindo a mesma linha de raciocínio, A Colina Escarlate é um leve sopro de criatividade e bom gosto em meio ao combalido, e por vezes grosseiro, gênero do terror. Projeto acalentado por mais de uma década, o longa é calcado no estilo gótico e uma declaração de amor ao estúdio Hammer, berço das produções de horror entre as décadas de 1950 e 1970. Não por acaso o cenário principal é um suntuoso casarão envolto em aura de mistério e melancolia, algo ressaltado pela fotografia propositalmente envelhecida. A opção além de colaborar para o clima de tensão constante, também destaca os elementos em vermelho carregados de mensagens subliminares. À primeira vista a trama é bem simplória evocando o tema-clichê da casa mal-assombrada, porém, como a protagonista Edith Cushing (Mia Wasikowska) deixa claro em sua narração, esta não é uma história sobre fantasmas e sim uma trama com a presença de seres do além, uma sutil diferença na forma de se expressar, mas que faz toda a diferença narrativamente. Ela é uma jovem aristocrata americana aspirante a escritora devota ao pai, o Sr. Carter (Jim Beaver), e que se apaixona pelo misterioso Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), um lorde que apesar da banca de ricaço na verdade está praticamente falido e busca alguém para financiar um projeto envolvendo a extração de uma argila vermelha encontrada sob o solo de sua residência na Inglaterra. Não demora muito e o rapaz desposa a garota e a leva para viver em sua decadente mansão localizada na tal colina que dá nome à fita, porém, o casal terá que dividir sua privacidade com Lucille (Jessica Chastain), a irmã mais velha dele, uma mulher com personalidade tão fria quanto a casa em que vive. Ela simplesmente ignora todas as iniciativas da cunhada para serem amigas e de certa forma parece exercer algum poder controlador sobre Thomas, o que leva Edith a acreditar que os irmãos possuem algum segredo em comum.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

EDWARD MÃOS DE TESOURA

NOTA 10,0

Embora para muitos seu valor
tenha diminuído com as reprises
na TV, esta fantasia ainda diverte
e emociona como poucas obras
Qualquer pessoa que conheça o mínimo possível de cinema sabe que a parceria do diretor Tim Burton e do ator Johnny Depp é uma das mais longas e produtivas de todos os tempos. É um daqueles raros encontros cuja emoção ultrapassa os limites da ficção e mesmo quando o filme não é lá grande coisa os fãs da dupla estão apostos para exaltá-lo afinal este seria mais um tijolinho a reforçar esta sólida amizade e é um prazer inenarrável ser testemunha sentimental da construção desta relação, ainda mais sabendo que nos bastidores desta indústria a guerra de egos é intensa e os amigos da onça existem em peso. Esta trajetória começou no início dos anos 90 e provavelmente no futuro deve render alguma homenagem cinematográfica afinal ambos têm carreiras com projetos interessantíssimos e eles próprios são figuras que despertam curiosidades. Revisitar tal história é delicioso, ainda mais se voltarmos ao início de tudo. Burton é um cineasta que escreveu sua trajetória no cinema na base de bizarrices praticamente. Dono de um visual um tanto excêntrico e adepto do estilo gótico para ornamentar seus trabalhos, o campo do terror e do suspense poderia ser seu habitat natural, mas não é bem assim. Apesar de já ter trabalhado com histórias de arrepiar, o que ele mais gosta mesmo é de fazer as plateias sonharem de forma diferenciada. Com muita sinceridade e sensibilidade o diretor já conseguiu construir verdadeiros clássicos das sessões da tarde que agradam a todas as idades, desde crianças bem pequenas até os idosos, e sempre imprimindo suas marcas. Dificilmente alguém não tenha a lembrança de ao menos uma vez na vida ter esperado com ansiedade a exibição na TV ou ter entrado na fila de espera da locadora para assistir Edward Mãos de Tesoura, um daqueles filmes que marcam época mesmo contando uma singela e até certo ponto previsível história. É óbvio que aqui também faz diferença o apuro visual, mas esqueçam os efeitos especiais mirabolantes. A magia desta produção se concentra em seu aspecto artesanal, atestando que tudo realmente foi feito por mãos talentosas e precisas. O cineasta demonstra criatividade para mesclar a fantasia e referências cinematográficas e literárias de forma que até o público infantil se sentisse atraído para entrar nesse misterioso e fascinante mundo, não se assustando nem mesmo com os primeiros minutos que são mergulhados em uma atmosfera dark. Todavia, o tom de fábula está presente em todas as sequências do filme, a começar pela opção de uma senhora de idade logo na introdução passar a contar para a neta a história do personagem-título como se fosse um conto de ninar. A cidade onde a trama se passa parece um paraíso, os vizinhos se dão bem, as casas são bonitas e padronizadas e seus moradores em geral são estereotipados propositalmente, cada qual com um papel bem delineado. Tem a mulher bondosa, a sedutora, a gordinha fofoqueira, o jovem valentão, a mocinha romântica... O que tira o projeto da mesmice é justamente seu protagonista cuja personalidade, postura e visual destoam totalmente do restante da população provinciana. Pode-se dizer que tal criação seria uma metáfora, um grito para chamar a atenção. Ainda tentando ter seu trabalho aceito pelo mercado cinematográfico, Burton na época se sentia um esquisitão no meio, mas não se rendia as exigências de Hollywood e tocava sua carreira com projetos pessoais e correndo atrás dos recursos financeiros.

domingo, 4 de dezembro de 2016

SEREIAS

Nota 7,5 Sexo versus religião, este é o tema central de suposta homenagem à pintor australiano 

No outro lado do globo terrestre também tem cinema. A Austrália é um país que não tem uma filmografia expressiva, mas vez ou outra surge algum produto de lá. Inclusive já tivemos um filme com o mesmo nome deste território popularmente conhecido como a terra dos cangurus e dos coalas, embora fosse uma produção americana dirigida pelo cineasta Baz Luhrmann e estrelada por Nicole Kidman, ele natural do continente enquanto a atriz apenas naturalizada. Daquelas longínquas terras, no passado, recebemos o romance Sereias. O diretor e roteirista John Duigan se inspirou na história do pintor Norman Lindsay, artista praticamente desconhecido no Brasil, que ousou nas suas obras e foi criticado por cutucar a moralidade de seu tempo. Sexo versus religião. Este é o conflito que serve como pano de fundo para narrar a história do pastor inglês Anthony Campion (Hugh Grant) e sua esposa Estella (Tara Fitzgerald) que em meados da década de 1930 chegam a Austrália a pedido de um bispo local. A missão dada é barrar os trabalhos do pintor Norman Lindsay (Sam Neill) cujas obras supostamente atentam a moral e os bons costumes ao reunir mensagens eróticas e religiosas em uma mesma tela. O jovem pároco deveria convencê-lo a retirar de uma exposição internacional seu quadro “A Vênus Crucificada”, no qual uma mulher nua é retratada se balançando na cruz enquanto aos seus pés se rebaixam membros da Igreja. O casal visita o artista para convencê-lo a mudar o foco de seus trabalhos, mas acaba descobrindo o porquê do apelo sensual de seus quadros. Ele vive em um ambiente rodeado de belas mulheres. Além de sua esposa Rose (Pamela Rabe), eles conhecem Sheela (Elle MacPherson), Gidia (Portia de Rossi) e Pru (Kate Fischer), três belas modelos que lhe servem como fonte de inspiração. No momento em que os Campion chegam elas estão justamente posando para uma nova tela intitulada “Sereias”. Neste universo exuberante e aparentemente de luxúria ainda há espaço para Lewis (Ben Mendelsohn), um camponês deficiente visual que também faz as vezes de modelo.

sábado, 3 de dezembro de 2016

MATADORES DE ALUGUEL

Nota 3,5 Enfadonho e desperdiçando talentos, mescla de drama e suspense é um bom sonífero

Quais critérios você utiliza para avaliar se um filme é ruim, regular ou excelente? Teoricamente, um filme minimamente bom deveria deixar alguma lembrança positiva em sua memória ao seu término, podendo a mesma perdurar ativamente por tempo indeterminado. Porém, o que não faltam são filmes que prometem muito, mas no final das contas nos deixam com uma sensação estranha, de desagrado, ainda que um ou outro ponto relevante positivamente possa ser identificado. No caso de Matadores de Aluguel o destaque estaria na premissa, mas é uma pena que o enredo aos poucos vai ficando desinteressante, perde o foco e quando percebemos estamos contando ansiosamente os minutos para que o filme termine logo. O roteiro de William Lipz começa de uma forma clichê. Vemos um pouco da difícil infância de um garoto negro que mais a frente saberemos que sofreu um grande trauma, um problema que certamente o influenciou a entrar para a vida criminosa. Ele é Mickey (Cuba Gooding Jr.), ou simplesmente Mike, um matador de aluguel que conta com a parceria de Rose (Helen Mirren), uma mulher mais velha e que está enfrentando um período difícil por conta de um câncer. Certo dia a dupla recebe uma nova tarefa: matar Vicky (Vanessa Ferlito), esposa do inescrupuloso Clayton (Stephen Dorff) que acredita ter sido traído. Na emboscada, Rose não pensa duas vezes antes de atirar friamente na moça, mas se arrepende ao perceber que ela estava grávida. Com o coração amolecido por conta de seu estado de saúde, ela acaba fazendo o parto e abrigando o bebê e a mãe em sua casa, aliás, residência comprada exclusivamente para se tornar realmente um lar feliz e saudável para uma criança crescer. O tempo passa, Mike e Vicky acabam se apaixonando, mas fatalmente chegará a hora em que Clayton descobrirá que o serviço que contratou não foi bem feito e vai querer cobrar. A trama é tipicamente de produções menores e super previsível, mas o trabalho do diretor Lee Daniels, estreando no cargo, acaba ganhando certo status por trazer dois nomes de atores consagrados encabeçando o elenco (Dorff poderia ser o terceiro, mas acabou sendo apenas um projeto de sucesso esquecido). Todavia, Gooding e Mirren ganharam papéis sem brilho, assim como a história no conjunto deixa muito a desejar. Talvez seja por isso que foi tão difícil fechar o elenco após muitas especulações de possíveis nomes como Anjelica Houston e Ryan Phillipe para os papéis principais.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

RUA CLOVERFIELD 10

NOTA  7,0

Claustrofobia, pânico, insegurança
e melancolia se misturam em suspense
que resgata de certa forma a temática e
ambientação de Cloverfield - Monstro
Lançado em 2008, Cloverfield - Monstro não faturou horrores e tampouco caiu no gosto popular, mas por outro lado conquistou a crítica especializada por conta de seu leve sopro de originalidade.O diretor J. J. Abrams, então em evidência com a repercussão do seriado "Lost", era apenas o produtor da fita, porém, seu nome atrelado certamente deu um reforço para a campanha de marketing. Com cerca de 80 minutos de duração, a obra é bastante tensa e claustrofóbica, deixando aberto o caminho para uma continuação, mas a agenda cheia do criador acabou postergando a ideia. Demorou, mas de certa forma ela foi lançada. Com argumento de Josh Campbell e Matthew Stuecken e roteiro final de Damien Chazelle (do premiadíssimo musical La La Land - Cantando Estações), Rua Cloverfield 10 não é exatamente uma sequência. Além de aspectos técnicos mais hollywoodianos, nenhum ator do filme anterior e nem mesmo o personagem-título dão as caras. Ainda assim, Abrams dá um jeito deste trabalho guardar certo parentesco com a produção sobre a ameaça gigantesca que assola Nova York. Enquanto a grande metrópole era destruída, nesta espécie de sequência não-oficial, conhecemos a jovem Michelle (Mary Elizabeth Winstead) que no começo do filme aparentemente está abandonando o lar e seu companheiro. Desconhecendo a situação caótica que a cidade vive, a moça pega a estrada rumo ao interior e acaba sofrendo um acidente de carro que a deixa inconsciente. Quando acorda ela se vê presa em um cômodo desconhecido e sob os cuidados do misterioso Howard (John Goodman) que lhe afirma que todo o planeta está inabitável devido a um ataque químico provocado por uma invasão alienígena. Agora um dos poucos lugares seguros seria seu "bunker", um tipo de abrigo subterrâneo preparado para proteger das piores ameaças possíveis. Por ter salvo a vida da jovem, o anfitrião deixa claro que ela precisará obedecer suas regras, assim como Emmett (John Gallagher Jr.), outro sobrevivente resgatado.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

CLOVERFIELD - MONSTRO

NOTA 7,0

Sem se preocupar em revelar a
ameaça fisicamente, mas deixando
clara sua presença, longa se preocupa
em mostrar as reações das vítimas
Assim como dinossauros, dragões e até um gorila super desenvolvido já invadiram a cidade grande, seja ela qual for, destruindo tudo o que viam pela frente, mais uma criatura gigantesca tentou repetir a façanha no mundo cinematográfico. Cloverfield - Monstro tem como chamariz mais um desses animais gigantescos que aparecem de tempos em tempos para amedrontar as pessoas, mas não trouxe novidades ao subgênero dos filmes catástrofes, a não ser o fato de preferir sugestionar ao invés de apresentar escancaradamente a ameaça, embora tal técnica fosse mérito do clássico Tubarão, mas de pouco uso. Outras referências já testadas e aprovadas em outras produções do tipo foram alinhavadas em uma produção claustrofóbica e com uma inteligente e instigante campanha de marketing. Talvez nisso esteja o segredo do projeto ter bombado nos cinemas americanos, ao contrário do que ocorreu no Brasil onde longa não pegou e a publicidade não foi tão maciça. O grande objetivo do roteiro de Drew Goddard, estreando no cinema, era acompanhar um pequeno grupo de pessoas e ver suas reações diante de uma situação de apuro extremo. O jovem Rob Hawkins (Michael Stahl-David) está de mudança para o Japão e ganha do irmão Jason (Mike Vogel) e da cunhada Lily (Jessica Lucas]) uma festa surpresa de despedida. Para registrar o encontro, seu amigo Hud (T. J. Miller) resolve fazer uma gravação caseira de alguns momentos e depoimentos do grupo embora esteja mais interessado em xavecar Marlena (Lizzy Caplan) que mostra-se indiferente ao cortejo. Beth (Odette Yustman), a ex-namorada do homenageado, também comparece à festa junto com seu novo companheiro, Travis (Ben Feldman), para rolar aquela cena clássica de ciúmes com o rejeitado. Para que perder tempo apresentando essa turma? A ideia é que o espectador se envolva a ponto de sofrer com o que vai acontecer a eles, mas é só uma intenção, ok? Durante a festa uma explosão ocorre e na sequência surgem tremores, barulhos ensurdecedores, queda de energia e mortes começam a acontecer. A cidade de Nova York está sendo destruída por um animal desconhecido e gigantesco e agora todos precisam correr para tentar achar algum lugar seguro, se é que existe algum.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

AMERICAN PIE - A PRIMEIRA VEZ É INESQUECÍVEL

NOTA 8,0

Com argumento simples e piadas
inteligentes aliadas à escatologia leve,
comédia é um registro dos teens pré-virada
do milênio revelando seus anseios e dúvidas
No início da década de 1980 a comédia Porky's causou frisson por ser uma fita voltada ao público adolescente e que com muito humor e descaradamente falava sobre sexo, mais especificamente sobre a descoberta dele por um grupo de jovens. Expectativas e frustrações em meio a muita confusão marcaram toda uma geração, tanto que gerou mais duas continuações e influenciou várias outras comédias teens como O Último Americano Virgem e A Primeira Transa de Jonathan. De sacanagem literalmente, em menor ou maior intensidade, é que tais fitas se sustentavam. Para alguns puritanos certamente era o apocalipse ver em cena jovens discutindo sem pudor sobre a necessidade de perder a virgindade e a colocando em jogo como um prêmio de aposta. Com o tempo a temática caiu em desuso, mas eis que as vésperas do novo milênio ela ressurgiu com American Pie - A Primeira Vez é Inesquecível, virando uma febre imediata entre os adolescentes, afinal entre dúvidas quanto a profissão a escolher, arranjar um emprego ou convencer os pais a lhe dar um carro, sem dúvidas a questão de até quando permanecer intacto é o que mais os perturba. É esse o grande dilema vivido por Jim (Jason Biggs) que está naquela fase em que só pensa naquilo. Ele tenta aliviar seu problema com constantes sessões de masturbação, mas vive metendo os pés pelas mãos. Melhor dizendo, no caso ele mete o pênis em meias, travesseiros e até dentro de uma suculenta e macia torta de maçã, daí a justificativa do título, e quase sempre é flagrado por alguém. O mesmo dilema vem tirando o sono de seus amigos Oz (Chris Klein), Kevin (Thomas Ian Nicholas) e Finch (Eddie Kaye Thomas). Prestes a se formarem no segundo grau (para nós o ensino médio) eles estão pouco se lixando para as provas finais e firmam um pacto de que todos vão perder a virgindade, ou alcançar o Santo Graal como gostam de dizer para dar um sentido mais nobre a missão, até a noite do baile de formatura. Detalhe, tem que transar com o consentimento das garotas, não podem ser prostitutas.

domingo, 27 de novembro de 2016

AS LOUCURAS DO REI GEORGE

Nota 9,0 Cinebiografia ganha vigor com atuação que desmistifica figura histórica aborrecida

É impressionante investigar a História do cinema e ver a quantidade enorme de filmes que foram super elogiados e premiados, mas que a ação do tempo em conjunto com a modernidade acabaram empurrando-os para o limbo. São inúmeros títulos que se perderam na transição das fitas VHS para o DVD e hoje, com os serviços de streaming alimentando a ânsia do público por novidades, infelizmente se tornam cada vez mais ínfimas as chances de grandes produções voltarem ao mercado. Uma pena para os verdadeiros cinéfilos que prezam por conteúdo e qualidade e são privados de ver ou rever obras como As Loucuras do Rei George, uma luxuosa e cuidadosa produção que deixou sua passagem registrada pelos principais festivais e premiações em meados da década de 1990, chegando obviamente ao Oscar conquistando duas estatuetas. A trama escrita por Alan Bennett se baseia em fatos verídicos ocorridos em um período conturbado da vida do monarca da Grã-Bretanha George III (Nigel Hawthorne) no final do século 18. Ele era um homem que mantinha um bom relacionamento com seus súditos e levava uma vida pessoal irretocável, sendo muito feliz no casamento com Charlotte (Helen Mirren). O casal teve nada mais nada menos que quinze herdeiros, entre eles o Príncipe de Gales (Rupert Everett), o primeiro representante na linha de sucessão ao trono e aquele que viria a trair seu próprio pai em nome do poder, um mal que parecia fazer parte do histórico do clã visto que traições semelhantes já haviam ocorrido em outras gerações, nada muito diferente do que ocorria entre tantas outras famílias nobres da época. Seu filho mais velho defendia que o comportamento da família real deveria ser um exemplo à população, apesar de ele próprio levar uma vida desgarrada e cheia de pecados. O grande ponto de conflito é que o rapaz criticava abertamente o comportamento do pai conhecido por suas excentricidades. Conforme o tempo passa essas atitudes diferentes do monarca começam a gerar inquietações, constrangimentos e a levantar suspeitas de que o rei de fato enlouqueceu e eis o momento em que a disputa pela sucessão do trono se acirra.  Uma facção da nobreza se empenhou para tentar minimizar os efeitos da senilidade do rei e diante da incapacidade de seu médico pessoal em identificar as causas para seu problema recorrem ao apoio do doutor Francis Willis (Ian Jolm), um psiquiatra adepto de métodos poucos convencionais.

sábado, 26 de novembro de 2016

O CLÃ DOS VAMPIROS

Nota 2,0 Lento e sem emoção, suspense baseado em fatos reais desperdiça intrigante material

Praticamente todos os dias os veículos de comunicação têm ao menos um crime bárbaro em pauta. Psicopatas, pedófilos, adolescentes infratores, crianças problemáticas e até complôs em família, não importa o grau de crueldade e a quantidade de sangue envolvida, tais situações infelizmente se tornaram tão rotineiras que não chocam mais, porém, incitam sentimentos de comoção e indignação. O mundo cão inevitavelmente atrai a atenção de curiosos e não é uma exclusividade da mídia brasileira. Programas de TV, sites e publicações sensacionalistas não param de se multiplicar mundo a fora. Nos EUA, por exemplo, o cinema bebe muito na fonte das editorias policiais e mesmo quando os casos não possuem muitos desdobramentos tem sempre algum produtor disposto a tirar leite de pedra e os telefilmes tornaram-se uma forma rápida e barata para realização de trabalhos do tipo. Todavia, a maioria fica a dever em criatividade, capricho e podem até ser taxados como medíocres como é o caso de O Clã dos Vampiros que poderia ser um grande suspense, mas o resultado entregue pelo diretor John Webb é entediante, carente em emoção do início ao fim apesar de ser baseado em fatos reais que abalaram a sociedade norte-americana em novembro de 1996 na cidade de Eustis, na Flórida. Trabalho de estreia do roteirista Aaron Pope, este telefilme aborda o derradeiro episódio envolvendo o grupo que dá título à obra, jovens de classe média que se autodenominavam criaturas das trevas e acima do bem e do mal. O filme começa de maneira bastante clichê. Jeni Wendorf (Stacy Houge) está com o namorado dentro de um carro tarde da noite e em uma região desértica, tudo conspirando a favor para o incauto casal ser atacado por algum vampiro.... Errado! Invertendo expectativas, eles se despedem, o rapaz vai embora numa boa e a jovem consegue chegar tranquilamente em casa. Pelo horário ela não estranha o silêncio do local e o telefone que não funciona por estar com o fio cortado julga ser consequência de mais uma discussão entre Heather (Kelley Krugger), sua irmã caçula, com seus pais. Antes as coisas fossem assim. Os pais das garotas foram brutalmente assassinados em cômodos distintos da casa e ao que tudo indica a filha mais nova teve participação no crime que deveria se resumir a apenas um roubo de carro.

domingo, 20 de novembro de 2016

EM BUSCA DA FELICIDADE

Nota 3,0 Inconsistência emocional do roteiro e passagens desperdiçadas reduzem a obra

Um título bonito, trama envolvendo crianças e nomes razoavelmente famosos constando nos créditos. Para completar, aquela bela publicidade destacando um ambiente bucólico em tons pastéis. Essa é a fórmula perfeita para um drama chamar a atenção, principalmente quando ele é lançado diretamente em DVD. As cores claras parecem um atestado de qualidade e se destacam em meio aos montes de filmes expostos nas prateleiras de lojas e vitrines virtuais, mas é triste constatar que nem sempre a receita dá certo como no caso de Em Busca da Felicidade, produção ligeira feito um rastilho de pólvora. A trama escrita e dirigida por Brad Isaacs tem boas intenções, mas sua realização é difícil de engolir, ainda que para espectadores menos exigentes o longa seja merecedor de elogios. Ben (Cayden Boyd) é quem narra a sua própria história de vida. Prestes a completar 13 anos, ele já se sente em condições de fazer uma avaliação de tudo o que viveu até então e o saldo é extremamente negativo. Para começar, ele afirma que seu pai (Matthew Modine) e sua mãe (Lara Flynn Boyle) jamais deveriam ter se casado, tampouco ter um filho. O garoto que recebe pouca atenção dos pais nasceu de um encontro casual entre um homem que só pensa em cuidar do seu barco, mesmo estando no Oeste do Texas a muitos quilômetros do mar, e de uma mulher apaixonada pelas estrelas hollywoodianas, tanto que, ao que tudo indica, trai o marido com tipos inspirados em personagens de filmes. Curiosamente, sua família acaba aceitando em casa a presença de Cassie (Anna Sophia Robb), uma garota que perdeu os pais em um acidente ocorrido bem na frente do restaurante deles. Os dois pré-adolescentes insatisfeitos com suas vidas resolvem se unir e fugir em busca de um plano de vida. Durante a trajetória, eles resolvem reforçar a união em um casamento simbólico e vão seguindo em frente graças a caroneiros que os ajudam e assim eles vão chegando cada vez mais perto da casa dos tios de Cassie, vividos por Heather Graham e Dylan McDermont (os parentes tanto da menina quanto do garoto não tem nomes mencionados), duas figuras um tanto atípicas e sem padrões rígidos de comportamento, detalhe relevante já que tudo indica que as ações se passam em meados da década de 1960 e em região interiorana e tradicionalista.

sábado, 19 de novembro de 2016

END GAME

Nota 1,0 Presidente dos EUA é vitimado mais uma vez em suspense repetitivo e desenecessário

Ganhar um Oscar pode ser positivo e também negativo. Alguns artistas após um elogiado e premiado trabalho acabam caindo em uma espiral de fracassos e outros em contrapartida só ganham ou acumulam ainda mais prestígio. E tem aqueles atores que mesmo atuando em verdadeiras bombas acabam alimentando a fama de que “é o cara”. Esse é o caso de Cuba Gooding Jr. que ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por Jerry Maguire – A Grande Virada, mas depois disso fez pouquíssimos filmes que escaparam de serem duramente criticados ou até mesmo caindo no ostracismo de imediato ao lançamento. Todavia, não é difícil encontrar aqueles que ao verem seu nome estampado em um cartaz de cinema ou na capa de um DVD logo dispararem algo do tipo “esse filme deve ser bom, ele só faz coisa boa”. Coisa boa? Só peneirando duas ou três vezes sua filmografia para ver o que ela tem de bom. O fato é que seu jeito de cara malandro acaba criando empatia com o público e talvez por isso o ator não funcione em papéis mais sérios como o que ele encarna no chato suspense policial End Game. Aqui ela dá vida a Alex Thomas, um agente do Serviço Secreto responsável pela segurança do Presidente dos EUA (Jack Scalia). Certo dia, logo que chega a um evento público em uma universidade o político é atingido por um tiro certeiro e morre. Thomas passa a se sentir culpado pelo ocorrido, já que ele tentou desviar a bala de seu percurso original (super-herói com visão biônica?) e talvez esse pequeno detalhe possa ter provocado a tragédia. Agora o rapaz está obcecado pela ideia de resolver o crime e ganha uma importante aliada, a repórter Kate Crawford (Angie Harmon), mas cada novo suspeito ou pessoa ligada ao presidente que conseguem ter contato logo em seguida acaba morrendo em condições violentas. Logo os dois também passam a ser alvos de criminosos. Resumidinho dessa forma, até que o filme roteirizado e dirigido por Andy Cheng, ator de A Hora do Rush experimentando novos caminhos profissionais, daria para ser encarado afinal a premissa comum é perfeita para matar o tempo sem precisar usar o cérebro, mas infelizmente o longa tenta ser mais inteligente que suas reais possibilidades adicionando a suspeita de uma empresa ilegal estar ligada ao assassinato e até que o político poderia ser dependente de uma droga. O problema é que a maioria dos tiros do roteiro não estilhaça alvo algum, simplesmente somem no ar sem contribuir em nada para a história, apenas ajudam a torná-la pior.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

ANTICRISTO

NOTA 8,5

Por conta de uma tragédia casal
se isola em busca de equilíbrio, mas
retiro na natureza acaba levando-os
a caminhos tortuosos e de loucura
Conhecido por seu jeito polêmico de ser e suas obras de temas difíceis, excêntricos e reflexíveis, o cineasta Lars von Trier com seu Anticristo foi além da proposta de chocar o público. Mais do que um verdadeiro soco no estômago, com este trabalho o dinamarquês estava mais preocupado em extravasar seus próprios demônios. Há dois anos ele sofria de uma profunda depressão que o impedia de trabalhar e este longa não seria apenas um teste quanto sua capacidade voltar a dirigir e escrever, mas também uma espécie de exercício terapêutico no qual poderia reavaliar antigas ideias e pesadelos que o atormentavam há décadas. Só para se ter uma ideia da vida nada convencional do diretor tome-se como exemplo o fato de ter como um de seus livros prediletos desde a adolescência “O Anticristo”, manifesto contra o cristianismo defendido pelo filósofo Friedrich Nietzsche. Apesar da coincidência de títulos, Trier não fez uma adaptação da obra literária. A partir de uma trama original, ele faz seu próprio estudo sobre como o ser humano pode se comportar quando sob pressão do sentimento de culpa. Natureza, religião, sexualidade e tolerância são abordados pelo roteiro dividido em três capítulos, mais um prólogo e um epílogo. Apenas um casal conduz toda a narrativa, ambos sem nomes cumprindo a função de representar visões distintas que homem e mulher podem ter sobre um mesmo fato. Defendidos com total desprendimento dos atores Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg em atuações que ao mesmo tempo comovem e revoltam, seus personagens, ele terapeuta e ela uma escritora, simbolizam respectivamente a razão versus a loucura emocional, um dos vários antagonismos trabalhados pelo enredo. A introdução já deixa claro que um filme atípico está prestes a começar. Com cenas em preto-e-branco ao som de música erudita, o diretor apresenta explicitamente um ato sexual, mas com uma beleza visual ímpar que contrasta com a perturbadora ação que acontece paralelamente. Enquanto os protagonistas transam durante o banho, com direito a generosos closes de penetração, o pequeno filho deles, com carinha de anjo e na companhia de um ursinho de pelúcia, consegue sair do berço e seguir em direção à janela do quarto que estava aberta, assim caindo do alto do apartamento onde até então aparentemente vivia uma família feliz. Em menos de cinco minutos Von Trier consegue apunhalar o espectador severamente, mas isso é só um amargo aperitivo.

domingo, 13 de novembro de 2016

AGNES BROWNE - O DESPERTAR DE UMA VIDA

Nota 7,5 Anjelica Huston dirige e protagoniza drama com apelo universal, mas esquecido

Ela tem um tipo exótico que lhe permite interpretar os mais diversos papéis. Mulheres fortes, sofridas, esnobes, excêntricas, comuns ou vilãs. Não importa. Anjelica Huston sempre dá conta do recado, pena que selecione tanto seus trabalhos, o que priva o público de desfrutar de seu talento por longos hiatos de tempos. Conhecida por atuações em A Família Addams e Convenção das Bruxas, clássicos das sessões da tarde, e detentora de um Oscar por A Honra do Poderoso Prizzi, pouca gente sabe que a atriz também já se arriscou a trabalhar atrás das câmeras. Experiência para tanto ela tem sobra. Além de observar os trabalhos de diretores quando está atuando, dentro da própria casa ela já tinha uma verdadeira escola. Filha do cultuado cineasta John Huston, a intimidade com a direção foi passada de pai para filha. Em Agnes Browne – O Despertar de Uma Vida ela se divide entre viver a personagem-título e dirigir este drama que fala sobre dar a volta por cima, família, desafios e valorização da amizade. Em 1967, na Irlanda, Agnes Browne está passando por uma situação complicada. Após perder o marido, ela precisa dar conta de sustentar seus sete filhos e pagar suas contas, assim é obrigada a pedir um empréstimo a um agiota inescrupuloso, o Sr. Billy (Ray Winstone). Para recomeçar a vida, passa a vender legumes e frutas no mercado local, onde faz amizade com Marion Monks (Marion O'Dwye), uma mulher diferente de todas as outras que havia conhecido até então. Mesmo lutando contra um câncer, ela é otimista e encoraja a nova amiga a não desistir de lutar pelo que quer. Agnes estaria disposta a esquecer definitivamente os homens, mas o tempo passa e reserva uma surpresa para ela. A novata feirante percebe que o francês Pierre (Arno Chevrier), o padeiro que se instala próximo a sua barraca, está tentando se aproximar com interesse amoroso. Assim, ela tem uma segunda chance de ser feliz e reavalia sua vida, sempre sofrida e nunca totalmente feliz em seu primeiro casamento. Tudo conspira a favor da felicidade da protagonista e certamente já vimos este mesmo conto em muitos outros filmes, mas o que importa não é o final e sim como os fatos são narrados. A delicadeza e emoção de Anjelica fazem toda a diferença para a condução deste drama. E neste caso em dose dupla.

sábado, 12 de novembro de 2016

ADORÁVEL MOLLY

Nota 2,0 Lento e mal estruturado, suspense só tem como atrativo um trágico fato de bastidor

Em 1999 um suspense independente e completamente diferente do estilo das produções convencionais tomou de assalto milhares de salas de cinema no mundo todo amparado por uma inteligente estratégia de marketing que usava o ainda pouco conhecido mundo da internet. A Bruxa de Blair impactou com a publicidade de ser uma edição de imagens de fitas caseiras a respeito de um suposto caso real de desaparecimento de três jovens em uma floresta assolada pela lenda de uma feiticeira. Com este trabalho o diretor Eduardo Sánchez não só abriu as portas para uma nova ferramenta de divulgação para o cinema, como também deu o pontapé inicial para o uso de uma técnica que viria a se popularizar anos depois, o “found footage”. Explorado ao máximo pela franquia Atividade Paranormal e tantas outras fitas de horror, o recurso da compilação de filmagens amadoras acabou perdendo fôlego e não impacta como antes, o que certamente deve ter colaborado para Adorável Molly ter passado em brancas nuvens. A trama acompanha um casal recém-casado às voltas com problemas financeiros e que estão vivendo na mesma casa onde a garota foi criada e abandonada desde a morte de seu pai. Ainda se recuperando do vício em heroína, Molly (Gretchen Lodge) não gosta muito da ideia, pois além de enorme para duas pessoas, o local lhe traz lembranças ruins de sua infância. É óbvio! Tim (Johnny Lewis) é caminhoneiro e passa muito tempo fora de casa, assim tudo parece cooperar para agravar os problemas emocionais e psicológicos que sua esposa começa a apresentar. Gradativamente ela passa a ouvir estranhos ruídos e se convence de que algo traumatizante de seu passado está de volta para atormentá-la. Enquanto Hannah (Alexandra Holden), a irmã da jovem, se preocupa com a possibilidade de ela ter tido uma recaída com as drogas,  Molly se afunda cada vez mais em sua paranoia não sabendo mais distinguir o que é realidade ou fantasia, uma dúvida que a leva a cometer atos insanos, inclusive torturando o próprio marido com ataques que misturam tesão e violência. E como sempre portas que abrem e fecham sem mais nem menos e objetos que se movem sozinhos são flagrados em filmagens caseiras que levantam as suspeitas de que a protagonista estaria possuída por uma entidade demoníaca. Bem, para o espectador isso parece bem claro, mas a irmã e o marido da moça parecem totalmente alheios ao problema.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A CASA DAS ALMAS PERDIDAS

NOTA 6,0

Baseado em um atordoante caso de
manifestações demoníacas, longa peca ao
condensar sem aprofundamentos mais de
uma década de sofrimento de uma família 
Horror em Amitivylle, Invocação do Mal, Anabelle.... Todos estes filmes têm em comum o fato de serem originados das experiências profissionais vividas pelo casal Lorraine e Ed Warren. Não ligou os nomes às pessoas? De fato, eles são mais conhecidos nos EUA e entre os fãs de terror, mas por décadas se dedicaram fielmente ao estudo de fenômenos sobrenaturais e mesmo com a morte do companheiro em 2006 a corajosa senhora levou adiante seus trabalhos, inclusive cuidando da manutenção de um museu em sua própria casa. Nele estão arquivados objetos levados como souvenires dos locais onde realizaram sessões de exorcismos, uma maneira de tentar impedir que aqueles que imploraram ajuda à dupla ou por ventura outros azarados viessem a sofrer com novas armadilhas do além ligadas a tais peças. Apesar do repentino sucesso dos Warren nos anos 2000 graças ao cinema, um antigo telefilme baseado em um de seus causos já tirara o sono de muita gente em madrugadas insones e deve ter rodado muitas casas nos tempos das videolocadoras. A Casa das Almas Perdidas tem como protagonista a família Smurl que em 1975 se muda para uma grande e bonita casa em uma nova cidade onde são recebidos com muitas boas-vindas e quitutes pelos vizinhos, tudo ao melhor estilo da beleza americana. Nos primeiros meses, nada de mais aconteceu na residência, porém, não demorou muito para que estranhos fenômenos passassem a perturbar seus habitantes, tanto de dia quanto a noite. A mais afetada é a matriarca, Janet (Sally Kirkland) que passa a ouvir vozes lhe chamando, barulhos estranhos, problemas com eletrodomésticos que parecem ter vida própria e chega a ver vultos negros perambulando pelos cômodos. Jack (Jeffrey DeMunn), seu marido, inicialmente acredita que a esposa esteja tendo delírios, mas muda de ideia assim que presencia sua esposa sendo assediada por um espírito libidinoso. Ele próprio também é praticamente estuprado por uma dessas almas (uma cena grotesca, mas que na época deve ter embalado pesadelos). Do jeito que o diabo gosta, aparentemente o jogo destes fantasmas seria destruir a família usando a discórdia como ferramenta, por exemplo, colocando Janet contra a sogra Mary (Louise Latham) que diz com convicção que por várias vezes ouviu a nora falando palavrões e obscenidades, um ultraje para uma família que tanto prezava a religiosidade.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ROUBO NAS ALTURAS

NOTA 7,0

Explorando a temática de
golpes, mas praticados por gente
do bem em busca de justiça, comédia
ganha simpatia por conta de elenco
Podem reclamar quanto a qualidade, mas é inegável que Eddie Murphy marcou época com filmes que mesclam humor e adrenalina em doses generosas como Um Tira da Pesada. Talvez buscando resgatar o espírito nonsense de produções do tipo é que o diretor Brett Rainer investiu seus esforços na realização de Roubo nas Alturas, fita razoavelmente divertida, bem-feita, mas que não resgata o prestígio do citado ator, embora ele roube a cena toda vez que apareça com seu jeito malandro característico. Todavia, o cabeça do elenco, ou no caso da quadrilha, é Ben Stiller. Ele não deixou de fazer o tipo bom moço de sempre, mas as circunstâncias levaram seu personagem Josh Kovacs a enveredar pelo mundo do crime. Ele é o administrador do Tower Heist, um luxuoso edifício incrustado em Nova York, local frequentado por pessoas endinheiradas, exigentes e que prezam por sigilo, assim ele trabalha exaustivamente e impõe regras quase militares para seus subordinados e para si próprio. Contudo, tanta dedicação é em vão. O equilíbrio do local é quebrado quando surge a notícia da caça do FBI ao investidor Arthur Shaw (Alan Alda), um dos inquilinos e um vigarista de mão cheia. Suas dezenas de negócios entram em colapso, autoridades o acusam de fraude e da noite para o dia sua fortuna some. Poderia ser apenas um problema pessoal do empresário, mas o gerente acaba sendo surpreendido com o roubo de seu fundo de pensão que havia confiado ao executivo para aplicações no mercado financeiro. O mesmo aconteceu com alguns colegas de trabalho de Kovacs que então se unem para aplicar um golpe no magnata que está sob regime de prisão domiciliar, mas desfrutando dos luxos de sua cobertura cinco estrelas. Não bastasse a revolta por conta do golpe, o gerente ainda quer vingança por causa do suicídio de um de seus amigos que entrou em desespero ao saber que perdeu suas economias. Que dramático! Mas calma, lembre-se que é Stiller quem chefia o bando, assim os risos estão garantidos. Não basta ter a intenção de roubar, é preciso ter talento para a coisa, tudo que falta à Kovacs que se junta aos também fracassados, porém, todos de bom coração, Sr. Fitzhugh (Matthew Broderick), ex-morador do arranha-céu e acionista falido, Enrique Dev’Reaux (Michael Peña), um ascensorista não muito inteligente, Charlie Gibbs (Casey Affleck), seu cunhado e antigo recepcionista, e Odessa (Gabourey Sidibe), uma camareira literalmente de peso e a única com certa habilidade para golpes devido a seu traquejo para abrir fechaduras.

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