sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

CAMINHOS DA FLORESTA

NOTA 8,0

Junção de contos de fadas tem
seus furos e equívocos narrativos, mas
carisma e talento do elenco e recursos
técnicos apurados garantem a qualidade
Espetáculos de sucesso da Broadway mais cedo ou mais tarde terão sua versão cinematográfica, isso é fato. Desde os tempos áureos dos musicais no estilo My Fair Lady, passando pelo premiado Cabaret e culminando em fracassos como Rent – Os Boêmios, projetos que migram dos palcos para as telonas sem dúvida são apostas arriscadas. Teatro e cinema, embora compartilhem características, no fundo são artes distintas, cada qual com seus encantos e recursos para fisgar a atenção de quem assiste. O que pode dar certo ao vivo pode não funcionar na versão filmada e vice-versa. Contando com o aval popular e da crítica graças ao sucesso nos palcos de muitos países, além do chamariz de narrar uma história de fácil assimilação interligando personagens e contos clássicos do universo infantil, Caminhos da Floresta parecia uma aposta segura, mas sua realização complicada se reflete claramente no resultado final. “Into The Woods” foi lançado nos teatros americanos em 1986 com a proposta inovadora de misturar várias histórias dos lendários irmãos Grimm. A adaptação cinematográfica quase três décadas mais tarde já esbarraria na questão criatividade. A saga de Shrek levou ao ápice a fórmula de reinventar e mesclar os contos de fadas e outras produções seguiram a tendência como a própria Disney que em Encantada deitou e rolou tripudiando (ainda que com classe e respeito) em cima dos próprios estereótipos que fizeram a fama do estúdio. A casa do Mickey Mouse mais uma vez banca uma brincadeira com seu portfólio neste musical que não abandona as lições de moral, mas em muitos momentos transpira originalidade e vai muito além do felizes para sempre com uma guinada tensional da trama quando achamos que estamos no clímax. Não é a toa que muitos dizem que o filme poderia ter sido dirigido por Tim Burton devido ao casamento do lúdico com o sombrio. No entanto, a produção é responsabilidade de Rob Marshall, amante dos musicais, tendo acumulado prêmios com o divertido Chicago, incluindo seis Oscars, e sofrido com as críticas ao inconsistente Nine onde os números musicais deveriam alinhavar uma trama que apesar do argumento metalinguístico, um cineasta com bloqueio criativo que busca inspiração nas mulheres que de alguma forma marcaram sua vida, revelou-se um videoclipe megalomaníaco. Nesta nova incursão no gênero, o diretor procurou se ater mais ao script original e a cantoria é parte imprescindível da narrativa substituindo vários diálogos, um tipo de armadilha que o longa supera graças ao carisma do elenco.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

BONECO DO MAL

NOTA 5,0

Inicialmente intrigante, bom
argumento aos poucos é minado por
trama repleta de clichês, situações
inverossímeis e final desconectado
Realizar um filme de terror original é uma obsessão de muitos cineastas e ao mesmo tempo uma tarefa ingrata. É provável que todos os tipos de fobias já tenham sido explorados e nos últimos anos um dos poucos cineastas a dar certa vivacidade ao gênero foi o mexicano Guillermo del Toro com suas produções esmeradas no apuro técnico e visual e seu estilo já vem fazendo escola. Boneco do Mal não é sequer produzido pelo premiado criador de O Labirinto do Fauno, mas muitas características presentes em sua filmografia compõem o universo deste trabalho calcado na mistura do lúdico com o tensional. A história tem como protagonista Greta (Lauren Cohan), uma jovem americana que está de mudanças para um antigo casarão na Inglaterra para cuidar do filho do casal Heelshire (Jim Norton e Diana Hardcastle) que viajarão em breve deixando pela primeira vez o herdeiro aos cuidados de um estranho. Na verdade, muitas moças já foram recrutadas para ocupar o cargo em outras ocasiões, mas todas foram reprovadas pelo exigente Brahms. No entanto, ele não é um garoto de verdade e sim um boneco de cerâmica no tamanho real de uma criança de oito anos que é criado como se fosse alguém de carne e osso pelos pais idosos que nunca aceitaram a morte do filho verdadeiro em um incêndio há duas décadas. A babá obviamente não leva a sério quando lhe apresentam o menino, mas muda de ideia por conta da seriedade com a qual seus patrões lidam com a situação. Quando descobre sobre a tragédia que abalou a família ela se compadece, porém, existe um motivo bem mais forte para ela aceitar uma ridícula rotina que inclui aulas de música, fazer refeições balanceadas e até dar beijinho de boa noite em um brinquedo. A moça opta pelo trabalho levando em consideração não só o polpudo pagamento, mas também o refúgio oferecido, mantendo-a bem longe de Cole (Ben Robson), seu ex-namorado que a persegue. A mansão dos Heelshire pode ter parado no tempo, mas o mundo fora dele não e é óbvio que será fácil para Greta ser localizada, tempo suficiente para ela estabelecer uma estranha relação com Brahms. É um tanto forçada a ideia de que alguém aceitaria viver em um cinzento e depressivo mausoléu, ainda mais incumbida de ingratas tarefas, mas de alguma forma Laura faz o espectador criar rápida intimidade com o bizarro universo que adentra, ainda que ela siga à risca o perfil das protagonistas de filme de terror.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

COMO VOCÊ SABE

NOTA 3,0

Aposta em comédia romântica
amparada por questões mais complexas
sobre relacionamentos frustra com sua
falta de graça e elenco mal aproveitado
James L. Brooks é um diretor, produtor e roteirista que não tem um currículo muito extenso, porém, conta com produções de prestígio. Acumulando as três funções ele foi o grande vencedor do Oscar de 1984 com o dramalhão assumido Laços de Ternura, quatro anos depois figurou com Nos Bastidores da Notícia na lista de melhores do ano abordando um triângulo amoroso em meio ao dinâmico e estressante universo do jornalismo televisivo e ainda uma década mais tarde alcançou a maturidade do seu trabalho com Melhor Impossível, fita que deu a terceira e famigerada estatueta dourada para Jack Nicholson vivendo um maníaco-compulsivo, papel de repercussão que há anos o ator não tinha o privilégio de interpretar. No entanto, entre uma produção bombada e outra, Brooks parece querer descansar diminuindo consideravelmente seu ritmo de trabalho e cada vez mais dá indícios que carece de inspiração. A comédia romântica Como Você Sabe prova isso. A trama gira em torno de Lisa Jorgenson (Reese Whiherspoon), uma jovem que desde a infância desejou se tornar uma grande jogadora de beisebol, mas os anos passaram e mesmo com todos os seus esforços não conseguiu ser chamada para as principais competições. Aos 31 anos de idade, no momento ela já é considerada velha para o esporte e sua carreira já pode ser dada como encerrada, assim ela busca consolo no amor para preencher o vazio que sua vida se tornou e acaba se envolvendo com dois rapazes completamente diferentes. Matty Reynolds (Owen Wilson) também é esportista, milionário, narcisista e metido a conquistador. Já George Madison (Paul Rudd) é um executivo que leva uma vida mais leve, é sonhador e tem como principais qualidades a humildade e a educação. Já dá para saber com quem a mocinha vai ficar, não é? Entregando o jogo logo de cara, o roteiro então se alonga além do necessário para narrar as dúvidas e confusões de uma mocinha pouco cativante e com pretendentes que não chegam a duelar fisicamente, mas suas atitudes os colocam em guerra para saber qual o mais insosso. Escrito pelo próprio Brooks, há quem defenda o texto por fugir do esquematismo das comédias românticas tradicionais onde os diálogos soam piegas e decorados, mas o realismo pretendido em diversos momentos torna a fita distante do espectador, como se os assuntos discutidos fossem pertinentes unicamente ao universo dos personagens.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

RUA CLOVERFIELD 10

NOTA  8,0

Claustrofobia, pânico, insegurança
e melancolia se misturam em suspense
que resgata de certa forma a temática e
ambientação de Cloverfield - Monstro
Lançado em 2008, Cloverfield - Monstro não faturou horrores e tampouco caiu no gosto popular, mas por outro lado conquistou a crítica especializada por conta de seu leve sopro de originalidade.O diretor J. J. Abrams, então em evidência com a repercussão do seriado "Lost", era apenas o produtor da fita, porém, seu nome atrelado certamente deu um reforço para a campanha de marketing. Com cerca de 80 minutos de duração, a obra é bastante tensa e claustrofóbica, deixando aberto o caminho para uma continuação, mas a agenda cheia do criador acabou postergando a ideia. Demorou, mas de certa forma ela foi lançada. Com argumento de Josh Campbell e Matthew Stuecken e roteiro final de Damien Chazelle (do premiadíssimo musical La La Land - Cantando Estações), Rua Cloverfield 10 não é exatamente uma sequência. Além de aspectos técnicos mais hollywoodianos, nenhum ator do filme anterior e nem mesmo o personagem-título dão as caras. Ainda assim, Abrams dá um jeito deste trabalho guardar certo parentesco com a produção sobre a ameaça gigantesca que assola Nova York. Enquanto a grande metrópole era destruída, nesta espécie de sequência não-oficial, conhecemos a jovem Michelle (Mary Elizabeth Winstead) que no começo do filme aparentemente está abandonando o lar e seu companheiro. Desconhecendo a situação caótica que a cidade vive, a moça pega a estrada rumo ao interior e acaba sofrendo um acidente de carro que a deixa inconsciente. Quando acorda ela se vê presa em um cômodo desconhecido e sob os cuidados do misterioso Howard (John Goodman) que lhe afirma que todo o planeta está inabitável devido a um ataque químico provocado por uma invasão alienígena. Agora um dos poucos lugares seguros seria seu "bunker", um tipo de abrigo subterrâneo preparado para proteger das piores ameaças possíveis. Por ter salvo a vida da jovem, o anfitrião deixa claro que ela precisará obedecer suas regras, assim como Emmett (John Gallagher Jr.), outro sobrevivente resgatado.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O IMPOSSÍVEL

NOTA 9,0

Apesar de forçar a emoção de todas
as maneiras possíveis, através do drama
de uma família filme coloca o espectador
como personagem onipresente de uma tragédia
O título já diz tudo. Embora baseado em fatos reais, O Impossível narra uma história improvável, mas com uma essência dramática que fisga o espectador logo em seus primeiros minutos não apenas apostando no emocional, mas também reativando lembranças ou despertando curiosidades a respeito do dia 26 de dezembro de 2004. A Tailândia era agraciada com mais um belo dia ensolarado, mas poucas horas depois de encerradas as comemorações natalinas o clima de paz e harmonia fora literalmente devastado por uma tragédia da natureza. Um tsunami agitou o oceano e provocou ondas gigantescas que varreram do mapa de modestos casebres à suntuosas mansões e hotéis. Milhares de moradores e turistas vieram a falecer ou tiveram graves ferimentos, um prato cheio para qualquer cineasta trabalhar um roteiro no esquema do filme-mosaico, estilo em que diversas tramas são contadas simultaneamente podendo convergir ao final ou não. No entanto, o diretor catalão Juan Antonio Bayona, do elogiado O Orfanato, optou em sua estreia no cinemão de Hollywood por narrar o sofrimento de um grupo específico. Inspirado no drama vivido por uma família espanhola, para tornar o argumento mais universal e obviamente melhorar os lucros, os protagonistas foram substituídos por britânicos, todos com pele, olhos e cabelos claros, assim mesmo sujos e feridos suas figuras não causam tanta repulsa. Quando se juntam as centenas de sobreviventes inevitavelmente acabam se destacando na multidão, mas não vamos entrar na discussão de possíveis preconceitos, afinal o elenco é talentoso e consegue despertar a almejada piedade com a força de suas interpretações. O casal Maria (Naomi Watts) e Henry (Ewan McGregor) planejavam férias tranquilas e divertidas junto aos três filhos, Lucas (Tom Holland), o mais velho, Thomas (Samuel Joslin) e do caçula Simon (Oaklee Pendergast), em um luxuoso resort à beira-mar, porém, mal tiveram tempo de desfrutar do local. Ondas de até trinta metros de altura atingiram tudo o que estava em seus caminhos e só conseguiram se salvar aqueles que por ventura estavam mergulhando naquele exato momento ou que foram agraciados por alguma força divina de proteção.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A COLINA ESCARLATE

NOTA 9,0

Inspirado na cultura gótica e com
estética de filme antigo, obra é um
espetáculo visual, mas narrativamente
mostra-se limitada e até previsível
O cineasta Guillermo del Toro é um visionário, não há dúvidas. Como ele poucos conseguem equilibrar conteúdo narrativo com estética que ultrapassa os limites da imaginação. Transitando entre o cinema independente, como no suspense A Espinha do Diabo, e os blockbusters americanos, como na aventura Círculo de Fogo, o mexicano consegui um perfeito híbrido de estilos com sua obra-prima O Labirinto do Fauno, mescla de drama, fantasia e terror na qual os atributos técnicos não apenas saltam aos olhos, mas reforçam suas importâncias para contar uma boa história. Seguindo a mesma linha de raciocínio, A Colina Escarlate é um leve sopro de criatividade e bom gosto em meio ao combalido, e por vezes grosseiro, gênero do terror. Projeto acalentado por mais de uma década, o longa é calcado no estilo gótico e uma declaração de amor ao estúdio Hammer, berço das produções de horror entre as décadas de 1950 e 1970. Não por acaso o cenário principal é um suntuoso casarão envolto em aura de mistério e melancolia, algo ressaltado pela fotografia propositalmente envelhecida. A opção além de colaborar para o clima de tensão constante, também destaca os elementos em vermelho carregados de mensagens subliminares. À primeira vista a trama é bem simplória evocando o tema-clichê da casa mal-assombrada, porém, como a protagonista Edith Cushing (Mia Wasikowska) deixa claro em sua narração, esta não é uma história sobre fantasmas e sim uma trama com a presença de seres do além, uma sutil diferença na forma de se expressar, mas que faz toda a diferença narrativamente. Ela é uma jovem aristocrata americana aspirante a escritora devota ao pai, o Sr. Carter (Jim Beaver), e que se apaixona pelo misterioso Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), um lorde que apesar da banca de ricaço na verdade está praticamente falido e busca alguém para financiar um projeto envolvendo a extração de uma argila vermelha encontrada sob o solo de sua residência na Inglaterra. Não demora muito e o rapaz desposa a garota e a leva para viver em sua decadente mansão localizada na tal colina que dá nome à fita, porém, o casal terá que dividir sua privacidade com Lucille (Jessica Chastain), a irmã mais velha dele, uma mulher com personalidade tão fria quanto a casa em que vive. Ela simplesmente ignora todas as iniciativas da cunhada para serem amigas e de certa forma parece exercer algum poder controlador sobre Thomas, o que leva Edith a acreditar que os irmãos possuem algum segredo em comum.

sábado, 26 de novembro de 2016

O CLÃ DOS VAMPIROS

Nota 2,0 Lento e sem emoção, suspense baseado em fatos reais desperdiça intrigante material

Praticamente todos os dias os veículos de comunicação têm ao menos um crime bárbaro em pauta. Psicopatas, pedófilos, adolescentes infratores, crianças problemáticas e até complôs em família, não importa o grau de crueldade e a quantidade de sangue envolvida, tais situações infelizmente se tornaram tão rotineiras que não chocam mais, porém, incitam sentimentos de comoção e indignação. O mundo cão inevitavelmente atrai a atenção de curiosos e não é uma exclusividade da mídia brasileira. Programas de TV, sites e publicações sensacionalistas não param de se multiplicar mundo a fora. Nos EUA, por exemplo, o cinema bebe muito na fonte das editorias policiais e mesmo quando os casos não possuem muitos desdobramentos tem sempre algum produtor disposto a tirar leite de pedra e os telefilmes tornaram-se uma forma rápida e barata para realização de trabalhos do tipo. Todavia, a maioria fica a dever em criatividade, capricho e podem até ser taxados como medíocres como é o caso de O Clã dos Vampiros que poderia ser um grande suspense, mas o resultado entregue pelo diretor John Webb é entediante, carente em emoção do início ao fim apesar de ser baseado em fatos reais que abalaram a sociedade norte-americana em novembro de 1996 na cidade de Eustis, na Flórida. Trabalho de estreia do roteirista Aaron Pope, este telefilme aborda o derradeiro episódio envolvendo o grupo que dá título à obra, jovens de classe média que se autodenominavam criaturas das trevas e acima do bem e do mal. O filme começa de maneira bastante clichê. Jeni Wendorf (Stacy Houge) está com o namorado dentro de um carro tarde da noite e em uma região desértica, tudo conspirando a favor para o incauto casal ser atacado por algum vampiro.... Errado! Invertendo expectativas, eles se despedem, o rapaz vai embora numa boa e a jovem consegue chegar tranquilamente em casa. Pelo horário ela não estranha o silêncio do local e o telefone que não funciona por estar com o fio cortado julga ser consequência de mais uma discussão entre Heather (Kelley Krugger), sua irmã caçula, com seus pais. Antes as coisas fossem assim. Os pais das garotas foram brutalmente assassinados em cômodos distintos da casa e ao que tudo indica a filha mais nova teve participação no crime que deveria se resumir a apenas um roubo de carro.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

ANTICRISTO

NOTA 8,5

Por conta de uma tragédia casal
se isola em busca de equilíbrio, mas
retiro na natureza acaba levando-os
a caminhos tortuosos e de loucura
Conhecido por seu jeito polêmico de ser e suas obras de temas difíceis, excêntricos e reflexíveis, o cineasta Lars von Trier com seu Anticristo foi além da proposta de chocar o público. Mais do que um verdadeiro soco no estômago, com este trabalho o dinamarquês estava mais preocupado em extravasar seus próprios demônios. Há dois anos ele sofria de uma profunda depressão que o impedia de trabalhar e este longa não seria apenas um teste quanto sua capacidade voltar a dirigir e escrever, mas também uma espécie de exercício terapêutico no qual poderia reavaliar antigas ideias e pesadelos que o atormentavam há décadas. Só para se ter uma ideia da vida nada convencional do diretor tome-se como exemplo o fato de ter como um de seus livros prediletos desde a adolescência “O Anticristo”, manifesto contra o cristianismo defendido pelo filósofo Friedrich Nietzsche. Apesar da coincidência de títulos, Trier não fez uma adaptação da obra literária. A partir de uma trama original, ele faz seu próprio estudo sobre como o ser humano pode se comportar quando sob pressão do sentimento de culpa. Natureza, religião, sexualidade e tolerância são abordados pelo roteiro dividido em três capítulos, mais um prólogo e um epílogo. Apenas um casal conduz toda a narrativa, ambos sem nomes cumprindo a função de representar visões distintas que homem e mulher podem ter sobre um mesmo fato. Defendidos com total desprendimento dos atores Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg em atuações que ao mesmo tempo comovem e revoltam, seus personagens, ele terapeuta e ela uma escritora, simbolizam respectivamente a razão versus a loucura emocional, um dos vários antagonismos trabalhados pelo enredo. A introdução já deixa claro que um filme atípico está prestes a começar. Com cenas em preto-e-branco ao som de música erudita, o diretor apresenta explicitamente um ato sexual, mas com uma beleza visual ímpar que contrasta com a perturbadora ação que acontece paralelamente. Enquanto os protagonistas transam durante o banho, com direito a generosos closes de penetração, o pequeno filho deles, com carinha de anjo e na companhia de um ursinho de pelúcia, consegue sair do berço e seguir em direção à janela do quarto que estava aberta, assim caindo do alto do apartamento onde até então aparentemente vivia uma família feliz. Em menos de cinco minutos Von Trier consegue apunhalar o espectador severamente, mas isso é só um amargo aperitivo.

sábado, 12 de novembro de 2016

ADORÁVEL MOLLY

Nota 2,0 Lento e mal estruturado, suspense só tem como atrativo um trágico fato de bastidor

Em 1999 um suspense independente e completamente diferente do estilo das produções convencionais tomou de assalto milhares de salas de cinema no mundo todo amparado por uma inteligente estratégia de marketing que usava o ainda pouco conhecido mundo da internet. A Bruxa de Blair impactou com a publicidade de ser uma edição de imagens de fitas caseiras a respeito de um suposto caso real de desaparecimento de três jovens em uma floresta assolada pela lenda de uma feiticeira. Com este trabalho o diretor Eduardo Sánchez não só abriu as portas para uma nova ferramenta de divulgação para o cinema, como também deu o pontapé inicial para o uso de uma técnica que viria a se popularizar anos depois, o “found footage”. Explorado ao máximo pela franquia Atividade Paranormal e tantas outras fitas de horror, o recurso da compilação de filmagens amadoras acabou perdendo fôlego e não impacta como antes, o que certamente deve ter colaborado para Adorável Molly ter passado em brancas nuvens. A trama acompanha um casal recém-casado às voltas com problemas financeiros e que estão vivendo na mesma casa onde a garota foi criada e abandonada desde a morte de seu pai. Ainda se recuperando do vício em heroína, Molly (Gretchen Lodge) não gosta muito da ideia, pois além de enorme para duas pessoas, o local lhe traz lembranças ruins de sua infância. É óbvio! Tim (Johnny Lewis) é caminhoneiro e passa muito tempo fora de casa, assim tudo parece cooperar para agravar os problemas emocionais e psicológicos que sua esposa começa a apresentar. Gradativamente ela passa a ouvir estranhos ruídos e se convence de que algo traumatizante de seu passado está de volta para atormentá-la. Enquanto Hannah (Alexandra Holden), a irmã da jovem, se preocupa com a possibilidade de ela ter tido uma recaída com as drogas,  Molly se afunda cada vez mais em sua paranoia não sabendo mais distinguir o que é realidade ou fantasia, uma dúvida que a leva a cometer atos insanos, inclusive torturando o próprio marido com ataques que misturam tesão e violência. E como sempre portas que abrem e fecham sem mais nem menos e objetos que se movem sozinhos são flagrados em filmagens caseiras que levantam as suspeitas de que a protagonista estaria possuída por uma entidade demoníaca. Bem, para o espectador isso parece bem claro, mas a irmã e o marido da moça parecem totalmente alheios ao problema.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A CASA DAS ALMAS PERDIDAS

NOTA 6,0

Baseado em um atordoante caso de
manifestações demoníacas, longa peca ao
condensar sem aprofundamentos mais de
uma década de sofrimento de uma família 
Horror em Amitivylle, Invocação do Mal, Anabelle.... Todos estes filmes têm em comum o fato de serem originados das experiências profissionais vividas pelo casal Lorraine e Ed Warren. Não ligou os nomes às pessoas? De fato, eles são mais conhecidos nos EUA e entre os fãs de terror, mas por décadas se dedicaram fielmente ao estudo de fenômenos sobrenaturais e mesmo com a morte do companheiro em 2006 a corajosa senhora levou adiante seus trabalhos, inclusive cuidando da manutenção de um museu em sua própria casa. Nele estão arquivados objetos levados como souvenires dos locais onde realizaram sessões de exorcismos, uma maneira de tentar impedir que aqueles que imploraram ajuda à dupla ou por ventura outros azarados viessem a sofrer com novas armadilhas do além ligadas a tais peças. Apesar do repentino sucesso dos Warren nos anos 2000 graças ao cinema, um antigo telefilme baseado em um de seus causos já tirara o sono de muita gente em madrugadas insones e deve ter rodado muitas casas nos tempos das videolocadoras. A Casa das Almas Perdidas tem como protagonista a família Smurl que em 1975 se muda para uma grande e bonita casa em uma nova cidade onde são recebidos com muitas boas-vindas e quitutes pelos vizinhos, tudo ao melhor estilo da beleza americana. Nos primeiros meses, nada de mais aconteceu na residência, porém, não demorou muito para que estranhos fenômenos passassem a perturbar seus habitantes, tanto de dia quanto a noite. A mais afetada é a matriarca, Janet (Sally Kirkland) que passa a ouvir vozes lhe chamando, barulhos estranhos, problemas com eletrodomésticos que parecem ter vida própria e chega a ver vultos negros perambulando pelos cômodos. Jack (Jeffrey DeMunn), seu marido, inicialmente acredita que a esposa esteja tendo delírios, mas muda de ideia assim que presencia sua esposa sendo assediada por um espírito libidinoso. Ele próprio também é praticamente estuprado por uma dessas almas (uma cena grotesca, mas que na época deve ter embalado pesadelos). Do jeito que o diabo gosta, aparentemente o jogo destes fantasmas seria destruir a família usando a discórdia como ferramenta, por exemplo, colocando Janet contra a sogra Mary (Louise Latham) que diz com convicção que por várias vezes ouviu a nora falando palavrões e obscenidades, um ultraje para uma família que tanto prezava a religiosidade.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ROUBO NAS ALTURAS

NOTA 7,0

Explorando a temática de
golpes, mas praticados por gente
do bem em busca de justiça, comédia
ganha simpatia por conta de elenco
Podem reclamar quanto a qualidade, mas é inegável que Eddie Murphy marcou época com filmes que mesclam humor e adrenalina em doses generosas como Um Tira da Pesada. Talvez buscando resgatar o espírito nonsense de produções do tipo é que o diretor Brett Rainer investiu seus esforços na realização de Roubo nas Alturas, fita razoavelmente divertida, bem-feita, mas que não resgata o prestígio do citado ator, embora ele roube a cena toda vez que apareça com seu jeito malandro característico. Todavia, o cabeça do elenco, ou no caso da quadrilha, é Ben Stiller. Ele não deixou de fazer o tipo bom moço de sempre, mas as circunstâncias levaram seu personagem Josh Kovacs a enveredar pelo mundo do crime. Ele é o administrador do Tower Heist, um luxuoso edifício incrustado em Nova York, local frequentado por pessoas endinheiradas, exigentes e que prezam por sigilo, assim ele trabalha exaustivamente e impõe regras quase militares para seus subordinados e para si próprio. Contudo, tanta dedicação é em vão. O equilíbrio do local é quebrado quando surge a notícia da caça do FBI ao investidor Arthur Shaw (Alan Alda), um dos inquilinos e um vigarista de mão cheia. Suas dezenas de negócios entram em colapso, autoridades o acusam de fraude e da noite para o dia sua fortuna some. Poderia ser apenas um problema pessoal do empresário, mas o gerente acaba sendo surpreendido com o roubo de seu fundo de pensão que havia confiado ao executivo para aplicações no mercado financeiro. O mesmo aconteceu com alguns colegas de trabalho de Kovacs que então se unem para aplicar um golpe no magnata que está sob regime de prisão domiciliar, mas desfrutando dos luxos de sua cobertura cinco estrelas. Não bastasse a revolta por conta do golpe, o gerente ainda quer vingança por causa do suicídio de um de seus amigos que entrou em desespero ao saber que perdeu suas economias. Que dramático! Mas calma, lembre-se que é Stiller quem chefia o bando, assim os risos estão garantidos. Não basta ter a intenção de roubar, é preciso ter talento para a coisa, tudo que falta à Kovacs que se junta aos também fracassados, porém, todos de bom coração, Sr. Fitzhugh (Matthew Broderick), ex-morador do arranha-céu e acionista falido, Enrique Dev’Reaux (Michael Peña), um ascensorista não muito inteligente, Charlie Gibbs (Casey Affleck), seu cunhado e antigo recepcionista, e Odessa (Gabourey Sidibe), uma camareira literalmente de peso e a única com certa habilidade para golpes devido a seu traquejo para abrir fechaduras.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A BRUXA

NOTA 8,5

Invertendo expectativas, obra foge
da previsibilidade e clichês para
narrar história de terror psicológico
em que fé e ignorância são os vilões
Basicamente histórias de horror são construídas tendo como base o bem contra o mal ou, seguindo tradições cristãs, resumem-se a batalha sem fim de Deus contra o Diabo. Dependendo das crenças de cada espectador uma mesma obra do tipo pode ter um amplo leque de interpretações, principalmente quando a violência gráfica não está no enfoque. Seguindo uma proposta razoavelmente incomum, a ideia do suspense A Bruxa tem como ponto de partida a dúvida sobre a existência daquilo que seus personagens acreditam. A introdução apresenta uma família, com todos os membros de costas para a câmera, ouvindo sua sentença em um tribunal que os acusa de heresia. O pai, a mãe e seus cinco filhos são expulsos da comunidade em que vivem. Estamos em meados do século 17 na Nova Inglaterra, época e local em que qualquer desvio do padrão religioso imposto é interpretado como uma grave ameaça para manter a sociedade no caminho considerado correto. Assim o título ganha duas conotações iniciais. O clã sentenciado poderia de fato adorar a figura concreta de uma feiticeira bem como encaixa-se uma metáfora a respeito da expressão caça às bruxas, como ficaram conhecidas as perseguições às pessoas que tinham comportamentos e ideais contraditórios ao que era imposto por regimes políticos e religiosos na Europa durante a Idade Média. No entanto, não fica claro qual o credo praticado pelos acusados e repudiado para tal sentença, mas é a partir do afastamento do tal núcleo familiar que eventos assustadores são desencadeados. Detalhe, não envolvendo a comunidade, mas sim os próprios membros da família que ironicamente partiram reafirmando que dificilmente existiriam outras pessoas tão apegadas a fé como eles. Os puritanos William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) mudam-se para uma região inóspita e isolada do interior, próximo a uma floresta, e não tardam a sentir e presenciar sinais de que uma força estranha paira por lá. Os problemas começam quando, além do fracasso das colheitas das plantações que garantiriam o próprio sustento do clã e a rebeldia repentina doas animais que criam, a filha mais velha Thomasin (Anya Taylor-Joy) perde o irmão mais novo, um bebê de colo, de forma inexplicável. Foi só um segundo de distração e parece que alguma criatura maligna cruzou seu caminho. Logo os gêmeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson) também vivenciam estranhas situações assim como Caleb (Harvey Scrimshaw), o filho do meio que se enche de coragem para ajudar os pais neste momento em que a fé de todos é colocada em xeque.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

SONHADORA

NOTA 7,0

Drama traz mensagens edificantes
através de história sobre superação
e união, temas clichês, mas o longa
se beneficia de protagonista mirim
Você já viu esse filme. E não apenas uma vez, mas algumas dezenas de vezes. No entanto, Sonhadora poderia ser apenas mais um título em meio a tantos outros idênticos abordando a superação através do esporte ou a reunião familiar em nome de um bem em comum, mas o fato é que seu diferencial tem nome e sobrenome: Dakota Fanning. Na época uma estrela infantil em ascensão, não há dúvidas de que a publicidade deste filme, ainda que bastante discreta, só foi possível por contar com a loirinha encabeçando o elenco. Ela dá vida a Cale Crane, uma garotinha muito devota a seu pai Ben (Kurt Russell) e que tenta ficar ao máximo de seu lado, porém, encontra barreiras por parte dele. Atualmente ele é um treinador de cavalos de corrida, mas um dia já foi um grande criador de equinos junto a seu pai, Pop (Kris Kristofferson). Por anos eles se dedicaram a manutenção de um respeitado haras, mas alguns problemas levaram o negócio a falência e ocasionou brigas que os forçaram a romper relações afetivas. Ben trabalha para o inescrupuloso Palmer (David Morse), administrador da tropa de equinos de um milionário príncipe árabe que reside na cidade de Lexington, no interior dos EUA. Contudo, certa vez que se recusa a cumprir uma ordem de seu chefe acaba sendo despedido de imediato. A tarefa era sacrificar um animal que caiu durante uma corrida e feriu gravemente uma das patas dianteiras. Sonhadora, também chamada de Sonya, era uma égua com um incrível potencial, mas agora só traria prejuízos e ninguém acreditava em sua recuperação. Quer dizer, Cale alimentava esperanças. Ela não entendia porque seu pai nunca a levou para conhecer seu local de trabalho, provavelmente porque não gostava do que fazia, mas justo no dia em que realizou a vontade da filha ela presenciou o acidente. Ben havia percebido que o animal não estava com a saúde em dia, mas Palmer exigiu sua participação em uma corrida e obviamente a culpou por alguns trocados que perdeu. A garota então convenceu seu pai a não matar Sonya, assim, como parte do acordo de demissão, o treinador leva a égua para sua casa, mas ciente de que teria que investir em sua recuperação e sua futura venda traria um lucro mínimo. No fundo a intenção era apenas realizar um capricho da filha, uma maneira de demonstrar que se importava com ela, mas economizando em palavras e sentimentalismo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

VOLCANO - A FÚRIA

NOTA 6,5

Para ser diferenciar de outros
filmes-catástrofe, longa abre mão
dos dramas paralelos e se resume a
efeitos especiais e doses de adrenalina
Imagine você acalentar um projeto durante meses, correr atrás de financiadores, escolher locações e elenco e quando tudo parece engatilhado vem uma bomba: um estúdio concorrente está para lançar um produto com temática semelhante. Já houveram várias histórias de coincidências do tipo, algumas inclusive bem suspeitas, e no mesmo ano em que O Inferno de Dante ferveu nos cinemas (ou ao menos almejou isso), uma outra produção trazia um vulcão como protagonista. Volcano – A Fúria é um legítimo representante do estilo catástrofe, vertente dos gêneros ação e suspense cuja diversão é sofrer com o calvário dos personagens por cerca de uma hora e meia e se sentir aliviado com a confirmação de um inerente final feliz para alguns deles, além de a maioria dar a deixa para uma possível continuação quem nem sempre sai do papel, mas que nos faz lembrar que apenas uma batalha foi vencida, outras virão. A trama escrita por Jerome Armstrong e Billy Ray se passa em Los Angeles, nos EUA, cuja rotina frenética e contínua é subitamente interrompida por conta de um forte terremoto logo pela manhã. Na sequência, vários outros incidentes acontecem ao longo do dia como a morte de alguns operários que trabalhavam em uma nova estação de metrô vítimas de profundas queimaduras. Mike Roark (Tommy Lee Jones), chefe da Defesa Civil, é acionado para encaminhar uma investigação dentro do túnel. Ele tem o poder de controlar todos os recursos públicos locais em caso de alguma catástrofe que neste caso se apresenta na forma da ameaça de uma incandescente lava. Isso mesmo! Em meio a cidade grande existe uma atividade vulcânica que interrompe as férias do oficial para decepção de Kelly (Gaby Hoffman), sua filha adolescente, a peça estrategicamente inserida no roteiro para forçar um draminha familiar e levar o espectador a sofrer com mais intensidade nos momentos em que eles são obrigados a vencer provas de fogo, literalmente. Enquanto isso, a Dra. Amy Barnes (Anne Heche), uma geóloga, traz a informação de que próximo a região existe um lago de alcatrão cuja temperatura aumentou consideravelmente, mas em um primeiro momento Roark não lhe dá ouvidos. Todavia, não demora muito e as suspeitas da moça se confirmam e de uma hora para a outra um vulcão rasga o concreto das ruas e bombeiros, policiais, médicos e até mesmo as pessoas comuns precisam se unir para evitar o avanço da lava que destrói absolutamente tudo por onde passa.

sábado, 5 de novembro de 2016

VEÍCULO 19

Nota 1,5 Mais uma vez atrelado a um carro, Paul Walker parece atuar em ponto morto

Curiosa, mas trágica. Assim se pode definir a relação do ator Paul Walker com os automóveis. Catapultado ao sucesso na lucrativa série Velozes e Furiosos na qual dirigia em alta velocidade e executava manobras radicais e perigosas sobre quatro rodas, quem imaginaria que com apenas 40 anos de idade sua trajetória seria interrompida de maneira brusca justamente em um acidente de carro que culminou em explosão. Pouco antes deste triste episódio o ator mais uma vez esteve à frente literalmente do volante do suspense Veículo 19, thriller genérico que ele próprio produziu e obviamente se encarregou de estrelar. Realizado a toque de caixa durante o intervalo de filmagens do quinto e do sexto episódio da citada franquia automobilística, somente a paixão por carros para justificar o interesse de Walker em protagonizar uma trama que não passa de um amontoado de clichês conduzidos de forma enfadonha e quase amadora pelo diretor e roteirista Mukunda Micheal Dewill que elegeu uma cidade de sua terra natal, a África do Sul, como cenário da ação. Sair dos manjados cenários da terra do tio San não foi por acaso, mas certamente uma exigência de produtores locais a quem o cineasta recorreu como última alternativa para conseguir financiamento para algo tão descartável. Walker interpreta Michael Woods, um rapaz americano que viola sua liberdade condicional para visitar sua namorada em terras africanas, mas imediatamente se mete em uma nova arapuca. Ao alugar um carro para sua viagem, jamais poderia imaginar que ganharia alguns brindes nada agradáveis. Além do modelo não ser o mesmo solicitado, ele começa a receber estranhas ligações por meio de um celular que estava dentro do veículo, além de encontrar documentos falsos e um revólver. Se não fosse o bastante, escondida e amordaçada no porta-malas está Rachel Shabangu (Naima McLean), testemunha-chave em um caso de corrupção policial e que está sendo perseguida pelos fardados, assim o rapaz por tabela também acaba na mira dos corruptos. Por estar ilegalmente em outro país ele não pode recorrer às autoridades locais e acaba sendo forçado a ajudar a tal mulher. Em meio a perseguições e ameaças ele ainda tem que se preocupar em arranjar desculpas para a namorada que liga de cinco em cinco minutos desconfiada de sua demora para encontrá-la.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

QUANDO AS LUZES SE APAGAM

NOTA 6,0

Esquivando-se de erros técnicos
comuns às fitas que exploram o medo
do escuro, longa falha ao revelar
segredos cedo demais e pelo drama raso 
Já tivemos os tempos áureos das fitas de seriais killers, a época em que monstros clássicos da literatura tomaram de assalto a sétima arte, a onda das refilmagens de terror orientais e também o leve sopro de originalidade vindo das produções de horror e suspense assinadas por diretores e roteiristas espanhóis que mesmo quando são importados para Hollywood costumam deixar marcas próprias em suas obras. E não podemos deixar de mencionar também sobre a febre dos “found footage”, a edição de imagens de fitas amadoras supostamente reais, vertente que não tardou a enjoar tamanha repetição do recurso, mas logo os produtores já tinham uma nova brilhante ideia para tirar da cartola, ou melhor, neste caso da internet. Com a fácil e superexposição, muitos cineastas amadores ou profissionais em início de carreira fizeram da rede mundial de computadores sua vitrine, como Andrés Muschietti que conseguiu lançar o suspense Mama ao ser apadrinhado por Guillermo Del Toro que se encantou ao ver um de seus curtas-metragens. O estreante em longas David F. Sandberg teve a sorte de ter o Midas dos anos 2000 no gênero do horror para ajudar na publicidade de Quando as Luzes se Apagam, baseado em seu curta “Lights Out”. Bastaram apenas três, porém, curiosos e intensos minutos para James Wan, de Invocação do Mal, decidir bancar a extensão do projeto. O resultado é uma obra compacta e com méritos próprios para receber alguns elogios. A premissa é das mais interessantes. Um ser sobrenatural está literalmente tirando o sono de uma família dia e noite, basta alguém se arriscar a ficar no escuro. No entanto, um pequeno feixe de luz é o suficiente para que a ameaça desapareça, ainda que temporariamente. A trama então explora uma fobia bastante comum, porém, por um viés ligeiramente original. Martin (Gabriel Bateman) está constantemente tendo problemas na escola por não dormir, tanto pela dor de ter perdido seu pai recentemente quanto pelas preocupações com sua mãe, Sophie (Maria Bello), uma mulher que já a algum tempo apresenta sinais de demência. Ela demonstra que mantém contato amistoso com Diana (Alicia Vela-Bailey), a tal estranha criatura soturna que também aparece para o menino, porém, para atormentá-lo. O porto-seguro do garoto se torna Rebecca (Teresa Palmer), sua irmã mais velha que também revela que enquanto morava com a mãe sofria os mesmos temores quanto às visões, além do abalo com a ausência do pai que na época pediu o divórcio. Portanto, o ciclo de infortúnios se repete.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

TODO MUNDO HISPÂNICO

NOTA 4,0

Parodiando sucessos do cinema
espanhol, fita segue à risca fórmula
americana, incluindo seus defeitos,
mas até que pega leva com as piadas 
As paródias de grandes sucessos do cinema viraram febre nos EUA, tendo seu ápice com Todo Mundo em Pânico que tirava um sarro dos “slashers movies” que voltaram com tudo no final da década de 1990. A fita gerou diversas sequências, mas perdeu o fio da meada, embora ainda focando nos clichês e erros de filmes de terror e suspense. Apostando em um formato maluco para achincalhar sucessos do momento, mas sempre “homenageando” momentos marcantes de antigas produções, o liquidificador de referências inclui também piadas envolvendo escândalos e deslizes de políticos e celebridades, o que acaba deixando os filmes datados e perdendo a graça com o tempo. Alguém mais novinho hoje consegue entender logo de cara a zoeira com Tom Cruise no quarto filme da série? Ridículos, toscos, apelativos.... Já diz o ditado falem bem ou falem mal, mas falem de mim. Praticamente um subgênero no campo das comédias, esse tipo de paródia gerou inúmeros filhotes e não se pode negar que há um público cativo e elogiar a rapidez dos produtores para sacanearem sucessos quase que simultaneamente a seus lançamentos como, por exemplo, Espartalhões, que pegou carona no blockbuster 300, e Os Vampiros Que se Mordam, que bebeu no sangue da saga Crepúsculo. Vendo por esse lado, não deixa de ser curioso que até o cinema espanhol tenha se rendido à fórmula e se costumamos reclamar das traduções que os filmes ganham no Brasil, Todo Mundo Hispânico cai como uma luva. Vendendo bem seu peixe e ainda criando um vínculo explícito com sua maior fonte de inspiração, o longa de estreia do diretor Javier Ruiz Caldera não traz nada de novo em relação aos citados similares americanos a não ser o fato de ser o primeiro do tipo a deitar e rolar em cima de êxitos do cinema da Espanha que nos últimos anos tornou-se o berço do terror e suspense tendo vários profissionais importados para trabalharem em terras ianques, diga-se de passagem, trazendo um leve sopro de criatividade ao marasmo. No entanto, até os dramas latinos são zoados aqui, sobrando lembranças até ao estilo kitsch do cineasta Pedra Almodóvar. Ramira (Alexandra Jiménez) é a protagonista da película, uma bela e sensual morena cujo visual claramente é inspirado na personagem de Penélope Cruz em Volver. Por essas e outras, quem pouco conhece do cinema espanhol pode não compreender certas citações, mas em geral a diversão não fica comprometida afinal o grande barato é testar os limites da loucura que o tipo de produção permite, ainda que pegue leve com as piadas envolvendo erotismo.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

PENÉLOPE

NOTA 6,0

Brincando com chavões de
contos-de-fadas, comédia tinha
potencial de ir além aprofundando
críticas à mídia e ditadura da beleza
Os contos de fada sempre foram uma fonte de inspiração importante e das mais requisitadas pelo cinema desde seus primórdios e as paródias protagonizadas por princesas, bruxas, elfos e outros seres fantásticos formam praticamente um subgênero do campo da fantasia. Adaptada da obra da escritora Marilyn Kaye, a comédia romântica Penélope não é uma versão modernizada de uma história em específico, mas podemos perceber aqui e ali referências que estão enraizadas no imaginário popular. A talentosa Christina Ricci dá vida à moça do título, que assim como Aurora, a Bela Adormecida, logo que nasceu foi amaldiçoada, ou melhor, a maldição já estava em sua família, mas até então nunca manifestada. Filha do milionário e famoso casal Jessica (Catherine O’Hara) e Franklin Wilhern (Richard E. Grant), a garota sofreu por um deslize de um parente de muitas gerações anteriores. O assanhado Ralph (Nicholas Prideaux) viveu um romance com uma empregada de sua casa, mas acabou se casando com outra mulher de mesmo nível social por pressão da família. Grávida e desiludida a jovem acabou se suicidando e sua mãe quis se vingar. Revelando-se uma poderosa bruxa, ela lançou um feitiço: a primeira herdeira mulher do clã que nascesse seria castigada e teria que aprender a viver com um focinho de porco no lugar do nariz, trazendo vergonha aos que a cercam e que tanto davam valor a vaidade. No entanto, Ralph teve um filho homem, que por sua vez também teve um herdeiro do sexo masculino e assim por várias gerações a maldição não se manifestou até o nascimento da doce Penélope que passou sua infância e juventude trancada dentro de casa, como no conto de Rapunzel, muito mais pelo excesso de zelo de Jessica que não queria virar chacota da alta sociedade. O encanto só seria quebrado caso algum rapaz também de família nobre se apaixonasse pela garota, o que levou seus pais a uma busca desenfreada para arranjar um pretendente assim que ela completou 18 anos de idade. O problema é que não bastava marcar os encontros, mas também convencer os modernos príncipes que bastava um beijo de amor verdadeiro para o patinho virar cisne, ou melhor, a porquinha virar uma bela mulher. Todavia, assim que eles a viam, os rapazes fugiam histéricos. O mordomo Jack (Richard Leaf) até ganhou um par de tênis que em nada combinavam com seu uniforme para ajudá-lo a correr atrás dos noivos fugitivos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

ELVIRA - A RAINHA DAS TREVAS


NOTA 8,0

Feito para dar sobrevida a
popular personagem da TV nos
EUA, longa virou uma pérola do
cinema trash e da década de 1980
No dia 31 de outubro comemoramos o Halloween, tradicional festa de origem europeia que criou raízes na cultura norte-americana e seus costumes acabaram sendo adotados para os festejos em outros países. No Brasil não foi criado um estilo próprio para celebrar a data, sendo mais comuns os bailes à fantasia e o rito da busca por doces ou travessuras perpetuados por ações escolares, mas por conta própria por aqui dificilmente alguém enfeita a casa com caveiras e abóboras, não faz parte da nossa cultura infelizmente. Para não dizer que nós brasileiros nunca tivemos uma tradição própria no Dia das Bruxas podemos considerar que por anos curtimos a data na ilustre companhia de Elvira – A Rainha das Trevas, um clássico do cinema trash e também dos bons tempos da “Sessão da Tarde”. Vivida por Cassandra Peterson, a protagonista foi criada pela própria atriz em 1981 já visando um perfil multifuncional. Paralelo ao trabalho em uma banda de rock, a personagem podia ser vista semanalmente apresentando uma sessão de filmes de terror na TV que logo chamou a atenção do público jovem. Sempre com comentários irônicos ou conflitantes a respeito das bobagens que era obrigada a exibir, a sinceridade somada a excentricidade e carisma transformaram Elvira em um sucesso que transcendeu os limites da televisão, assim sua imagem passou a ser requisitada para campanhas publicitárias, licenciamento de brinquedos e cosméticos entre outros contratos que lhe garantiram uma boa renda extra e sobrevida à personagem. Protagonizar seu próprio filme era só uma questão de tempo e para garantir que seu bizarro universo não sofresse modificações Peterson fez questão de cuidar do roteiro, mas ganhou auxílio de John Paragon e Sam Egan para construir um enredo em que as vivências da atriz e de sua criação se misturam homogeneamente. A trama é uma comédia com toques de horror que tem como ponto de partida a notícia de que Elvira ganhou uma inesperada herança de uma tia-avó cuja existência mal se lembrava tamanho seu apego com a família. Entediada com os rumos de seu programa (a vida imita a arte ou vice-versa?), esta seria sua chance de produzir um show como sempre sonhou e se apresentar em Las Vegas, mas para receber seus direitos precisa ir à Fallwell, uma pequena e provinciana cidade que entra em choque com a chegada de uma mulher liberal, desbocada e de visual provocante e ao mesmo tempo peculiar.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

THE EVIL DEAD - A MORTE DO DEMÔNIO (2013)

NOTA 9,0

Refilmagem de terror que marcou
por sua criatividade e violência, nova
versão melhora o que já era bom indo
a fundo na escatologia e sadismo
Com orçamento paupérrimo, mas muita criatividade e vontade de realizar um sonho, em 1981 o então estreante diretor Sam Raimi, que anos mais tarde assinaria a milionária primeira franquia do Homem-Aranha, comprovava que para fazer cinema basta uma boa ideia na cabeça e uma câmera na mão. Certamente ele não devia ter a menor ideia de que estaria criando um marco cinematográfico, um trabalho cujo estilo seria perpetuado e cultuado, bem como odiado e rejeitado nas mesmas proporções. Mais de trinta anos se passaram e agora gozando de uma confortável posição na indústria do cinema, o cineasta decidiu que era hora de revisitar o universo de The Evil Dead – A Morte do Demônio, sua fita maldita que se tornou uma relíquia desejada por cinéfilos e em muitos países ficou proibida por anos por conta do alto grau de violência explícita. Agora assinando apenas como produtor, Raimi entregou a refilmagem nas mãos do uruguaio Fede Alvarez, uma atitude bastante simbólica. Ambos os diretores iniciaram suas carreiras no comando de curtas-metragens de horror amadores, mas produções que exalavam estilo próprio e talento. Assim como seu mentor quis transcender os limites do terror, Alvarez também quis levar a experiência de acompanhar uma produção gore (sanguinolenta e nojenta) a um novo patamar. Para tanto não refilmou a obra original, preferindo reinventá-la de modo a adequá-la aos novos tempos, porém, sem deixar as homenagens de lado. Quem nunca viu a primeira versão não terá a mínima dificuldade para se envolver e para os fãs a diversão ganha um extra reconhecendo o cenário e cenas icônicas que foram preservadas. Novamente a história gira em torno de um grupo de cinco amigos que vai passar alguns dias em uma cabana na floresta, só que ao invés de uma viagem de lazer a ideia é que o isolamento auxilie no tratamento de desintoxicação da dependente química Mia (Jane Levy), não por acaso a primeira a ser possuída pela entidade demoníaca que é libertada pelo “Livro dos Mortos”. O manuscrito feito com sague contendo imagens macabras e mensagens cifradas é descoberto pelo incauto Eric (Lou Taylor Pucci) que não tarda a sentir na pele os efeitos da possessão. O ritual de libertação do primeiro filme era mais sinistro acompanhado de um nostálgico toca-fitas do qual se ouvia uma amedrontadora voz entoando os espíritos do mal. A nova versão encontra outra maneira de impactar com a sequência, algo mais próximo da proposta séria e pesada adotada.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

PÂNICO NO LAGO

NOTA 4,0

Dentro do que se propõe e ao
que o gênero lhe permite, fita
sobre crocodilo gigante é acima da
média e o passar do tempo lhe fez bem
Cobras, aranhas, formigas, morcegos... Hollywood adora transformar animais em cruéis vilões, sejam por caprichos da própria natureza ou pela interferência do homem através de experiências genéticas. Antes podíamos achar que serpentes gigantescas, por exemplo, eram criações marqueteiras do cinema, mas uma busca por sites como o You Tube revela vídeos bizarros envolvendo bichos atípicos lutando por suas sobrevivências e levando seus instintos de caça às últimas consequências. Muito antes destes vídeos supostamente reais invadirem a internet, produtores norte-americanos já exploravam o filão de olho no público consumidor de fitas trash e masoquistas de plantão. Febre na década de 1980, principalmente por a maioria ser lançada diretamente ou realizada especialmente para abastecer o mercado de vídeo, produções do tipo pareciam não ter mais espaço no final do século 20, mas ainda assim vez ou outra algum título do tipo via a luz do dia como Pânico no Lago, que se beneficiou do passar do tempo que o transformou em uma espécie de filme B cult, ainda mais comparando sua razoável qualidade em comparação as suas ridículas continuações, uma mais tosca que a outra. Escrita por David E. Kelley, a trama se passa em uma pequena cidade do estado do Maine, nos EUA, cujo bucolismo é quebrado quando o xerife Hank Keough (Brendan Gleeson) encontra próximo a um lago o corpo partido ao meio de um rapaz com marcas de ataque de algum tipo de animal, provavelmente um crocodilo. Em todo caso, ele manda para um museu de história natural um pedaço de dente que estava incrustrado no cadáver e a paleontóloga Kelly Scott (Bridget Fonda) é obrigada a viajar para o local, mas logo de cara se estranha com Jack Wells (Bill Pullman), o oficial do Departamento de Caça e Pesca local, mas como onde há fumaça há fogo já sabemos no que vai dar isso. Por fim chega à cidade Hector Cyr (Oliver Platt), um excêntrico milionário que é obcecado por crocodilos por conta da mitologia que os cerca. Em várias culturas milenares tal bicho é reverenciado como uma figura religiosa, mais importante que qualquer deus, e a ao constatar que se trata de uma espécie rara com quase de dez metros de comprimento os interesses da equipe batem de frente. Para quem veio de fora seria um feito e tanto capturar e manter vivo o animal a fim de estudar melhor seu comportamento e origens, mas para quem mora na cidade isto é o mesmo que manter um assassino à solta e até os membros da expedição correm riscos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

UM SUBURBANO SORTUDO

NOTA 4,0

Seguindo a fórmula de humor
rasteiro das comédias populares
nacionais, longa claramente é feito
para exaltar seu ator principal
Quem disse que dinheiro não compra a felicidade? Em tempos de crise os brasileiros (quiçá a população mundial) estão colocando em xeque tal máxima, só assim para justificar o alto número de filmes lançados que giram em torno do mesmo argumento, principalmente no campo das comédias. Bilhetes premiados, caixa dois de empresas, golpes de sorte, heranças caídas do céu.... Parece que o público gosta de ver populares se dando bem financeiramente, seja de forma merecida ou até mesmo por trambiques, mas já diz o ditado quem nunca comeu melado quando come se lambuza e o que fazer quando o doce está acabando? É mais ou menos essa a ideia principal de Um Suburbano Sortudo acrescida de mensagens edificantes do tipo seja sempre você mesmo e quem tem amigos tem um tesouro. Apesar do discurso batido, curiosamente a produção gera simpatia apoiada no carisma do protagonista Denílson (Rodrigo Sant’Anna), um jovem camelô metido a malandro (no bom sentido) que sustenta seus tios e primos que o acolheram desde seu nascimento e ainda ajuda como pode um suposto filho. Sua vida sofrida e sem graça muda completamente quando descobre ser herdeiro de Damião (Stepan Nercessian), o milionário dono de uma rede de lojas de eletrodomésticos e artigos para o lar que acabara de falecer. Na leitura do testamento, ou melhor, na apresentação de um vídeo-revelação um tanto cafona, os demais beneficiários ficam sabendo da existência do bastardo que orgulhoso como só ele renega a herança em um primeiro momento, mas não tarda a se mudar de mala e cuia para a mansão do pai que nunca conheceu. As ex-mulheres do falecido, Narcisa (Claudia Alencar), a amante declarada, e Gogóia (Guida Vianna), a esposa oficial, vão armar todas as armadilhas possíveis para passarem a perna no ingênuo suburbano com a ajuda de Luiz Otávio (Victor Leal), o primogênito de Damião que ocupa a cadeira de presidente de sua empresa. Já sua meia-irmã Sofie (Carol Castro) herdou o sangue bom do pai e se recusa a participar do conchavo, tornando-se o inerente interesse romântico do novo milionário do pedaço. Detalhe, na primeira, na segunda, na terceira vez que Denílson a vê um pagodinho safado e fora de moda começa a tocar enfatizando o caminhar sinuoso e em câmera lenta da moça combinando com suas expressões faciais de desejo sexual. Obviamente tudo delírio do rapaz.

domingo, 9 de outubro de 2016

O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR

Nota 7,0 Embora esteticamente bela, obra não explora todo potencial de seu elenco e argumento 

Como é bom quando começamos a assistir de forma descompromissada um filme pouco conhecido e ao final temos a sensação de termos descoberto uma pequena joia. Apesar de não aproveitar todo o potencial de seu argumento e elenco, O Violinista Que Veio do Mar é uma dessas gratas surpresas, embora por contar com as veteranas e exigentes Maggie Smith e Judi Dench como protagonistas já deixa claro que é um produto no mínimo com roteiro interessante. Aqui ainda há a contemplação de belíssimas imagens de um de cenário litorâneo, uma direção de arte impecável e uma trilha sonora encantadora. Inspirada em um conto do escritor inglês William Locke, a história se passa em meados da década de 1930 quando as irmãs Ursula (Dench) e Janet (Smith), já idosas, dividem a mesma casa em uma pequena vila na costa norte da Inglaterra. A rotina pacata delas é abalada ao encontrarem um jovem náufrago após uma forte tempestade. Com dificuldades inicialmente para se comunicarem com o alemão Andrea (Daniel Brühl), as bondosas senhoras lhe oferecem abrigo e cuidam para reestabelecer sua saúde. Com talento para tocar violino, aos poucos o rapaz vai aprendendo a falar uma nova língua e a criar intimidade com as irmãs, um sentimento de afeição mútuo, porém, com direções diferentes. A renovação de ânimos e de prazer em viver que o jovem traz acaba se tornando um motivo para tirar a paz de suas cuidadoras já que ambas se apaixonam por ele. Para Janet ele traz de volta lembranças do seu marido, o grande amor que perdeu na Primeira Guerra Mundial, enquanto a solteirona Ursula demonstra um carinho e preocupação exagerados pelo violinista impulsionada por sentimentos que até então jamais havia vivenciado. Todavia, Andrea acaba se apaixonando pela artista plástica russa Olga (Natascha McEllone) com quem divide o apreço pela arte e se identifica com as dificuldades de se adaptar a um novo endereço. Fascinada pelo dom musical do rapaz, a pintora convence seu irmão, um famoso maestro que comanda uma orquestra em Londres, a lhe dar uma chance de trabalho, contudo, ele vive o dilema de escolher realizar seu sonho profissional ciente de que sua partida traria sofrimento para aquelas que o acolheram num momento de dificuldades.

sábado, 8 de outubro de 2016

SETE ALMAS

Nota 0,5 Nota é só um agrado aos responsáveis pela edição forçados a horas de tortura 

Com a sugestiva frase de efeito “o mal encontrou um novo lar”, Sete Almas é uma tremenda decepção, um dos piores filmes dos últimos anos e Val Kilmer, que fora um dos grandes astros da década de 1990, encabeçando seu elenco apenas revela seu desespero para pagar as contas. Os minutos iniciais já deixam clara a falta de identidade e criatividade do longa. O prólogo bebe descaradamente na fonte de outras produções de horror como o lendário Terror em Amityville mostrando um garotinho que assassina toda sua família durante uma tenebrosa noite de chuva e escuridão obviamente culpando uma voz manipuladora como responsável pelos seus atos. O massacre aconteceu um século antes da ação principal da trama, porém, o diretor Kevin Carraway, de O Quarto do Medo, não explora as possibilidades e tem pressa em resumir o prólogo afinal tem consciência de que não está trazendo nada de novo ao espectador, nem mesmo quanto aos cortes de edição que revelam um manjado truque de câmeras em ritmo acelerado. Nos tempos atuais, o advogado Bill McCormick (Kilmer) e sua ex-esposa Brooklyn (Boonie Somerville) estão voltando de uma viagem após alguns dias para repensarem o casamento, mas sem sucesso. Na mesma van estão os irmãos Isaac (Luke Goss) e Adam (Matt Barr) e o Dr. Lipski (Christian Baha), todos que acabam presos em meio a mata fechada por conta de um acidente com o carro. Eles são socorridos pelo misterioso Jack (Ving Rhames) que os convida para passar a noite em sua casa por conta de uma forte tempestade e pelos acessos à estrada estarem interditados. O cara é sinistro! Quem em sã consciência toparia essa ajuda? A partir do momento que estão sob os cuidados desse completo desconhecido, eles percebem que há algo de estranho nesta acolhida e nem mesmo um telefone para pedir ajuda existe na casa. E os tropeços do roteiro de Lawrence Sara em parceria com Carraway surgem como avalanches. Mesmo sabendo que não teria para onde ir com um carro, Adam encasqueta que precisam ter alguns suprimentos para a noite que de antemão promete ser infernal.... Para eles, fique claro. Ao público um tremendo engodo.

domingo, 2 de outubro de 2016

MAIS DO QUE VOCÊ IMAGINA

Nota 5,0 Comédia é correta e simpática, mas fora de seu tempo com suas situações nostálgicas

Quando você decide assistir uma comédia romântica automaticamente já compra a ideia de um final feliz e é justamente o que procura. Troca-se alguns elementos aqui, adiciona uma dose de ação ou drama ali, mas o gênero sobrevive sobre alicerces inabaláveis. Mais do Que Você Imagina passa longe da pretensão de revitalizar esse tipo de produção, mas consegue fazer um razoável casamento entre humor e uma trama de espionagem, porém, ao término fica a estranha sensação de nostalgia. O longa escrito e dirigido por George Gallo, de O Mestre da Vida, tem um quê de lembranças de filmes produzidos entre a década de 1980 e início dos anos 90 que por pouco não conseguimos ouvir o chiar dos cabeçotes do videocassete durante a projeção, mas isso não é necessariamente um problema. A fita simplesmente se resume a uma história um tanto ingênua, previsível e datada, um passatempo ligeiro que certamente bombaria nos áureos tempos da “Sessão da Tarde”. O filme começa com a despedida de Henry Durand (Colin Hanks), um jovem agente do FBI que está saindo de casa para morar e trabalhar em outra cidade e seguindo o protocolo da profissão deve manter sigilo absoluto sobre suas atividades de agora em diante, não podendo nem mesmo manter contato som sua própria mãe. Marta (Meg Ryan) vive infeliz desde a morte do marido, um fora-da-lei com quem não viveu um casamento de sonhos, e acabou se entregando aos vícios do cigarro, bebidas e guloseimas, tornando-se uma mulher obesa, de aspecto fatigado e sem vaidade alguma, não sendo à toa que chega a ser confundida com uma mendiga. Três anos se passam e finalmente Durand pode voltar para a casa da mamãe, agora trazendo a tiracolo a sua noiva, Emily (Selma Blair), também metida com missões de espionagem. Embora não soubesse da novidade Marta não se espanta, ao contrário, ela mesma é quem surpreende o filho. Após ganhar um bom dinheiro investindo na bolsa de valores, a cinquentona decidiu mudar sua rotina radicalmente, passou por algumas plásticas para ficar gostosona e decidiu curtir a vida sem medo de ser feliz colecionando paqueras, principalmente flertes com garotões com idade para serem seus filhos. Até o nome ela mudou para Marty, algo mais apropriado para essa sua nova fase.

sábado, 1 de outubro de 2016

RIPPER - MENSAGEIRO DO INFERNO

Nota 2,0 Mesmo buscando inspiração em lendário assassino, terror não sai do lugar comum

Sabe aquele sábado chuvoso ou de frio que te dá a maior vontade de ficar curtindo uma preguiça em casa? Datado desde seu lançamento, Ripper – Mensageiro do Inferno seria uma companhia típica para madrugadas do tipo. É um daqueles filmes que os amantes de terror certamente alugariam por não ter outra opção na locadora ou chamaria a atenção dando uma zapeada pelos canais de TV, mas acabaria sendo esquecido em poucos minutos. Lançado quando as fitas de seriais killers viviam um período já de franco esgotamento depois de Pânico e similares esgotarem as possibilidades de surpreender o público repaginando o subgênero tão característico da década de 1980, não sobrou muita coisa para o diretor John Eyres brincar de assustar. A história começa mostrando um massacre promovido por um psicopata ocorrido durante uma viagem de barco do qual apenas uma adolescente se salvou. Ela é Molly Keller (A. J. Cook) que após cinco anos da tragédia ingressa em um curso para se especializar na análise de perfis psicológicos e de comportamento de assassinos seriais. Suas ideias quanto ao histórico de vida e como ele influencia no jeito de ser e agir destes bandidos batem de frente com os pensamentos do misterioso professor Martin Kane (Bruce Payne). Em uma das aulas ele comenta sobre o lendário Jack, o Estripador, um dos primeiros assassinos em série da História que chocou a cidade de Londres, na Inglaterra, violentando e mutilando cruelmente prostitutas, sempre mantendo um mesmo estilo de ataque. Poucos dias após a tal aula, uma das alunas é assassinada com dezenas de facadas e requintes de crueldade (ou deveria ser assim) durante uma festa, o que aguça a curiosidade de um grupo de estudantes a traçarem o perfil do criminoso. Quando outra universitária é encontrada morta e seu corpo com sinais de violação praticamente idênticos ao da outra garota, eles passam a desconfiar que o assassino segue a mesma metodologia de Jack. Além disso, o detetive de polícia Kelso (Jurgen Prochnow), que investigou o massacre que traumatizou Molly, tem a certeza de que o mesmo psicopata está de volta para se vingar da jovem e todos que a cercam também correm perigo. Ou seria ela mesma a assassina?

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

ABC DO AMOR

NOTA 8,0

De modo singelo e natural,
romance infanto-juvenil agrada
a todas as idades abordando a
descoberta do amor e amadurecimento
Falar de amor pela ótica infantil inerentemente carrega um irresistível quê de inocência, algo que infelizmente perdemos na vida adulta. Justamente por traduzir tão fielmente esta pureza ABC do Amor cativa crianças e adultos com a mesma facilidade, afinal quem nunca sofreu e fantasiou pensando em amar e ser amado? Para tanto, a escolha da dupla de protagonistas mirins é um trunfo e tanto da produção, nem parecem que estão atuando tamanha a naturalidade. A história é narrada por Gabe Burton (Josh Hutscherson), um garoto de 10 anos que adora esportes, se divertir com os amigos e assim como todos os meninos de sua idade tem verdadeira repulsa por garotas, afinal eles querem jogar bola e brincar de carrinhos e de bonecas e casinhas desejam ficar bem longe.... Isso até ele reparar em Rosemary Telesco (Charlie Ray), uma colega de classe desde o jardim de infância que agora será sua parceira nas aulas de karatê. Ele nunca teve amizade com ela, mas procurando um rosto conhecido nesta turma para não se sentir deslocado a simpatia dele é correspondida de imediato. Todavia, certa vez que a acompanha em uma prova de vestido de daminha de honra o garoto tem um estalo e passa a enxerga-la com outros olhos e percebe sentimentos que não consegue entender, ou melhor, não sabe apenas se expressar, pois tem certeza que é amor. Ele sofre, chora, tem ciúmes e aproveita ao máximo cada gesto de atenção de sua amada, enfim, vivencia o mesmo que um rapaz adulto sente quando gosta de alguém, mas não sabe se é correspondido e tampouco tem a coragem para se declarar. Por vezes Gabe exagera nas reações, mas quando se é criança tudo parece mais intenso, então se é para extravasar alegria que solte uma gostosa gargalhada e se é para expressar tristeza cair no choro sem pudor é a melhor solução. E assim ele vai cometendo erros e acertos, perde oportunidades de se declarar, mas de qualquer forma, o menino esquece todos os preconceitos que tinha quanto ao sexo oposto e torna-se amigo inseparável de Rosemary que inclusive vira sua confidente para certos assuntos, assim como ela sabe que pode contar com o amigo, ainda que o roteiro não apresente o ponto de vista dela quanto a essa relação, apenas sugestiona suas emoções e pensamentos.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O AMOR É CEGO

NOTA 6,5

Irmãos Farrelly, conhecidos pelo
estilo debochado e as vezes até de
mau gosto, se aventuram pelo campo
amoroso e com lições de moral e amizade
Os irmãos Bobby e Peter Farrelly ganharam fama na década de 1990 com as comédias escrachadas Débi e Lóide e Quem Vai Ficar Com Mary?, produções destinadas a um tipo específico de público. Escatológicas, ácidas e não raramente até beirando o mau gosto, suas piadas costumam fazer sucesso entre os adolescentes e plateia masculina, mas buscando ampliar seu público a dupla de cineastas e roteiristas resolveu sair discretamente de sua zona de conforto quando realizaram O Amor é Cego. O título deixa claro as intenções de flertar com o romantismo, sendo necessário pegar mais leve com as baixarias. Surpreendentemente, levando em consideração o histórico de seus realizadores, o longa não só é divertido na medida certa como também traz lições de moral, amizade e solidariedade. A partir de diálogos ágeis e irreverentes, o texto faz uma crítica a importância exagerada dada ao aspecto físico nas sociedades contemporâneas e certamente do futuro. A trama tem como protagonista o executivo Hal Larson (Jack Black), um sujeito fútil que se esforça ao máximo para cumprir a promessa que fez ao seu falecido pai de que jamais se envolveria com mulheres feias, assim coleciona apenas belas paqueras, ou melhor tenta. Sentindo-se a última bolacha do pacote, na verdade ele acaba gerando mais repulsa que atração, tanto no campo amoroso quanto profissional já que é frustrado por não ser promovido. Ainda que esteja longe do perfil de galã (seus quilinhos a mais depõem contra), o rapaz é cara-de-pau, bom de lábia e não se envergonha em dar em cima das garotas mais cobiçadas das festas, estas que, por sua vez, também não se intimidam em lhe dar um fora. Apesar de inicialmente arrogante, o protagonista consegue identificação imediata com os espectadores, afinal quem nunca julgou alguém pela aparência? Sua rotina e jeito de ser mudam completamente a partir do momento em que por um acaso do destino acaba ficando peso num elevador na companhia de Tony Robbins (Anthony Robbins), um guru de autoajuda que se impressiona com a visão simplista e preconceituosa que Larson apresenta das mulheres em um rápido bate-papo. Ele então o hipnotiza de forma que o rapaz passe a ver apenas a beleza interior das pessoas, principalmente das garotas.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A ÚLTIMA CASA DA RUA

NOTA 3,0

Suspense repleto de clichês e
trama enfadonha deposita suas
fichas sobre o carisma e repentino
sucesso de Jennifer Lawrence
Qual o segredo de um bom filme de suspense? Teoricamente, quando sentimos tensão crescente e constante a ponto de sofrer, investigar, duvidar ou até mesmo odiar juntamente com os personagens isso quer dizer que a produção cumpriu seus objetivos, mesmo que as vezes não em absoluto. A Última Casa da Rua peca justamente por não conseguir criar vínculos sólidos com o espectador, a começar pela história que não faz a menor questão de escamotear sua falta de criatividade. Buscando dar novos rumos às suas vidas, a jovem Elissa (Jennifer Lawrence) acaba de se mudar com sua mãe Sarah (Elizabeth Shue) para um isolado casarão em uma cidade do interior aparentemente pacata, mas na verdade assombrada pelas lembranças de um chocante crime que acabou desvalorizando as moradias da região. Os poucos vizinhos não tardam a dar detalhes sobre a tragédia ocorrida há cerca de quatro anos na tal casa do título quando um casal foi assassinado pela própria filha de apenas 13 anos e desde então a menina nunca mais foi vista, gerando a lenda urbana de que ela estaria habitando a densa floresta que circunda e distancia as residências umas das outras. Seu irmão mais velho Ryan (Max Thieriot) continuou morando no mesmo endereço do fatídico episódio, mas recluso e avesso a contatos sociais, isso até a chegada de Elissa que fazendo jus ao comportamento de uma típica adolescente rebelde acaba se apaixonando pelo esquisitão, um romance que obviamente vai encontrar objeções por parte de Sarah. O primeiro ato desta trama apresenta de forma clara seus personagens e conflitos, porém, não cativa e tampouco esconde seu clima de “déja vu”. O número de clichês é assustador. Um crime do passado, um personagem soturno, mãe e filha vivendo em conflito, alguém desaparecido e cenários propícios para sustentar histórias de arrepiar. Todavia, o diretor Mark Tonderai, então estreando na função, embora demonstre apreço pelo gênero, parece não saber como alinhavar tantos elementos e menos ainda como trabalhar com pistas falsas.

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