quinta-feira, 8 de março de 2012

SEMPRE AO SEU LADO

NOTA 9,0

Baseado em um conto
oriental, longa é cercado
de diversos cuidados e
clichês para emocionar
O ditado popular “o cão é o melhor amigo do homem” já foi a fonte de inspiração de dezenas de comédias e dramas ao longo da história do cinema, mas nos últimos anos a participação dos cachorrinhos se restringiu a produções menores e que geralmente eram destinadas ao público infantil e lançadas diretamente no mercado de locação e vendas ao consumidor, muitas delas inclusive eram telefilmes e hoje recheiam as sessões da tarde da TV. Porém, após o extrondoso sucesso de Marley e Eu que lotou as salas de exibição com crianças, adultos e idosos que riram e se emocionaram com a relação de amor e confiança entre um humano e um bichinho de estimação muito sapeca, parece que os produtores acharam um novo filão para explorar. Um animal não precisa necessariamente falar ou ser emperequetado com roupas e acessórios para fazer graça e assim conseguir sucesso, pelo contrário, tal esterótipo só serve para entreter as crianças bem pequenas. Tratar os cachorros em cena com dignidade e naturalidade é o bastante para chamar a atenção dos espectadores infantis e consequentemente de seus pais, irmãos e avós. Seguindo essa linha de pensamento o diretor Lasse Hallström, especialista em lidar com emoções, investiu seu talento em Sempre ao Seu Lado, mais uma singela história de amor e lealdade entre um cão e seu dono. Lançado pouco tempo depois que o simpático Marley ganhou as telonas, este trabalho que segue a mesma cartilha não obteve o mesmo sucesso, embora para muitos já tenha se tornado um novo clássico para de tempos em tempos ser revisto com toda a família. É até fácil identificar o porquê da recepção morna. Faltou um pouco de humor à narrativa, o que fatalmente afasta as crianças e logo seus familiares que as acompanham. O boca-a-boca de “é chato” ou “é  muito triste” pode ter colaborado para as fracas bilheterias em quase todo o mundo.

Realmente o longa é capaz de fazer as lágrimas rolarem com facilidade e muito antes do final ser anunciado, mas em compensação temos uma bela mensagem de reflexão. Inspirado em fatos reais, a história gira basicamente em torno de um cão de rua abandonado em uma estação de metrô que desperta a compaixão de Wilson Parker (Richard Gere), um respeitável professor universitário que decide levá-lo para casa enquanto não encontra o seu dono. No início Cate (Joan Allen), sua esposa, não gosta da idéia, mas aos poucos até ela se rende a bela relação de cumplicidade que é criada entre seu marido e o bichinho. Diariamente, Hachiko, como foi batizado, acompanha Parker até a estação de metrô e também o aguarda voltar do trabalho. Essa rotina é mantida por muitos anos o que desperta o carinho e a simpatia dos frequentadores do local que admiram tal união. Bem, não há como resumir o enredo sem revelar um ponto crucial: um dia, o professor falece, mas o cão continua fazendo o mesmo trajeto por quase dez anos a espera que seu dono voltasse. Enquanto isso, continuou recebendo atenção e cuidados de estranhos e da família de Parker até seu último suspiro. O enredo parece muito simplório, mas a maneira desta história ser apresentada parece talhada nos mínimos detalhes para emocionar o espectador do início ao fim, a julgar pelo tom melancólico da obra e da trilha sonora propositalmente exagerada e onipresente. Essas características são constantes na filmografia de Hallström, que já viveu épocas em sua carreira bem mais aúreas como quando lançou Regras da Vida e Chocolate. Se extrapola em alguns aspectos em outros ele compensa oferecendo, por exemplo, uma excelente fotografia e boas escolhas de locações, detalhes que acentuam o tom outonal e ameno tanto do período em que a história se desenrola quanto do próprio espírito dos personagens e até mesmo dos espectadores. Não nos sentimos extremamente tristes acompanhando a trama, mas também não temos brecha para risos frouxos. Simplesmente ficamos com a sensação de satisfação em acompanhar um belo filme e mesmo sabendo como tudo irá terminar insistimos para constatar o final eminentemente triste.

A história real que deu origem a este filme aconteceu no início do século 20 no Japão e acabou se tornando uma lenda local que foi utilizada até mesmo em escolas, devido a lição de lealdade implícita. O cão original era um legítimo akita, raça pura japonesa cuja população estava diminuindo cada vez mais, e nisso a popularidade do conto também colaborou no sentido de incentivar a criação destes animais. O mito é tão forte que até hoje existe uma estátua de Hachiko instalada no mesmo ponto onde ele diariamente esperava seu dono. Em 1987, o lendário cãozinho chegou as telas de cinema em Hachiko Monogatari, um sucesso japonês jamais exibido no Brasil. O longa certamente inspirou Hallström que tomou certas liberdades na adaptação ocidental, mas manteve o animal de estimação como um legítimo representante da raça akita. Ken (Cary-Hiroyuki Tagawa) é o personagem inserido na trama para ligar as duas versões. Ele traz a tona algumas crendices japonesas como a idéia de que é o cão que escolhe seu dono e por isso ele estava presente na estação de metrô justamente quando Parker estava lá. É ele também que dá a idéia do nome Hachiko que significa uma ligação entre os planos terrenos e superiores, o que fica evidente na metade do filme. O fato de esperar seu dono diariamente mesmo quando ele está morto demonstra que para o cachorro o espírito do homem que lhe deu carinho quase a vida toda ainda estava entre nós. Para encontrá-lo, bastava chegar a hora dele também ascender para outro plano. Embora muitos possam acusar esta de obra de piegas, tola ou sem sentido, Sempre ao Seu Lado tem muito mais qualidades que equívocos e sua mensagem deve se tornar tão forte e importante ao longo dos anos quanto a de Ghost – Do Outro Lado da Vida. Enquanto um trata da lealdade entre seres humanos que se amam e são separados pelo destino, mas ainda assim se mantém conectados, o outro trata do mesmo assunto, porém, fazendo a transposição do tema para a relação homem e animal. Neste caso o resultado é bem mais pé no chão e crível, mas tão emocionante quanto. Enfim, aqui está mais um fortíssimo candidato a clássico das sessões da tarde, isso se já não tiver se tornado um.
Drama - 93 min - 2009 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Rafael W. disse...

Belissimo filme, sensível e tocante, me fez chorar horrores.

http://cinelupinha.blogspot.com/

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