sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

AS CRIATURAS ATRÁS DAS PAREDES


Nota 8,5 Vilões insanos e sádicos são trunfos de horror que surpreende invertendo expectativas


As Criaturas Atrás das Paredes pode surpreender tanto negativa quanto positivamente, tudo depende da maneira como o espectador vai encarar a produção. O título provavelmente foi escolhido em razão da necessidade de algum elemento que evocasse terror e ao mesmo tempo fizesse uma ponte com o nome do diretor Wes Craven, conhecido como mestre do cinema de horror. Contudo, o enredo pende mais para um suspense policial e as tais criaturas mencionadas não são tão assustadoras como se espera, pelo contrário, chegam a dar pena da situação que vivem.  Tal produção prometia ao público aquela espiadinha na vida alheia hoje tão comum ao nosso cotidiano, porém, uma curiosidade alimentada por certo temor ou morbidez. Uma casa estranha e mal tratada é sempre alvo de fofocas entre vizinhos e costumam povoar a fértil imaginação de crianças, assim é um argumento corriqueiro para produções de terror, suspense e até mesmo comédias.  Aqui temos uma tentativa de aliar humor e tensão que resulta em um conjunto irregular, mas nem por isso desinteressante. O que estaria escondido dentro de um obscuro casarão? Mais ainda, como seria o dia-a-dia de seus estranhos habitantes que evitam a todo custo qualquer tipo de contato social? Craven não queria apenas assustar, mas também trazer à tona assuntos reflexivos, assim alinhavou no filme temas como marginalidade, abuso infantil, exploração imobiliária e falso moralismo. 

Quando dois gananciosos proprietários de imóveis colocam toda uma comunidade sob ameaça de despejo, o malando garoto apelidado de Tolo (Brandon Adams) se junta ao criminoso Leroy (Ving Rhames) e seu parceiro de emboscadas Spencer (Jeremy Roberts) para invadir a residência do casal e se vingarem roubando a suposta fortuna em moedas de ouro que todos acreditam que eles escondem. Porém, uma vez dentro do sinistro casarão, praticamente imerso no escuro, com portas e janelas trancafiadas por correntes e cadeados e protegida por um enfurecido cão, eles descobrem que os magnatas não são apenas sovinas e mal-humorados, mas também cultivam hábitos estranhos e guardam muitos segredos, incluindo a prisão em cativeiro de uma menina, a ingênua Alice (A. J. Langer) que é frequentemente torturada e humilhada. Decidido a libertá-la, Tolo acaba ficando preso também, encontrando refúgio apenas no porão, um vasto subterrâneo com conexões secretas com os demais cômodos e habitado por estranhos seres pálidos e esqueléticos, mas longe de serem ameaçadores. Na verdade, eles parecem clamar por ajuda tendo como porta-voz do grupo, embora todos mal se comuniquem, o relativamente cativante Barata (Sean Whalen), mudo por ter sua língua cortada. 


A partir da revelação que justifica o título nacional, o longa se torna uma espécie de Esqueceram de Mim macabro, com Tolo e Alice se defendendo como podem dos vilões que apenas fingem serem casados, ela o chamando sempre de Papai e ele a tratando como Mamãe. Os personagens sem nomes defendidos por Everett McGrill e Wendy Robbie na realidade são irmãos e pela relação incestuosa que vivenciam e por seus hábitos e superproteção que dispensam à casa deixam latente indícios de perturbação mental e instinto psicótico. Na busca do filho perfeito, cada jovem que se aproximava da casa era sequestrado, mas caso falasse, pensasse ou ouvisse o Mal, acabava sendo mutilado e aprisionado no porão sob condições precárias. Alice estaria praticamente condenada ao mesmo destino. A certa altura é mencionado na narrativa, em outras palavras, que as tais criaturas inocentes vivem como se fossem prisioneiros aguardando sua sentença de morte enquanto os reais bandidos vivem em liberdade protegidos sob a falsa imagem de moralistas e defensores da fé. Mamãe e Papai tem um utópico projeto, uma espécie de limpeza étnica e moral que desejam instaurar na vizinhança. Eis a crítica social implícita no roteiro escrito pelo próprio Craven, o que mostra que os devaneios de certos políticos atuais já eram gestados há décadas por pequenos grupos, os mesmos tipos de pessoas que hoje encontram-se confiantes para exporem e defenderem seus pensamentos retrógrados e controversos já que se veem representados e protegidos por seus líderes que usam a religião como escudo.

O argumento foi acalentado por mais de uma década a partir de uma notícia que Craven leu em jornais do início dos anos 1980 relatando um crime frustrado no qual assaltantes invadiram uma casa e foram denunciados por vizinhos, mas quando a polícia chegou descobriram que os próprios donos do imóvel eram figuras muito mais perigosas e mantinham os próprios filhos presos em cativeiro, provavelmente para evitar que eles tomassem contato com pessoas e situações que os levassem a cometer pecados. O diretor então imaginou como poderiam ser retratadas de forma física e psicológica crianças enclausuradas sob condições precárias de higiene, má alimentação e sem nunca tomar contato com o sol, tudo obviamente pelo viés do horror, seu terreno seguro. Assim adotou para suas criaturas um visual amedrontador, transformando-os em monstros albinos, pessoas que perderam a razão e agora vivem motivadas apenas pelo instinto de sobrevivência. Alice ainda mantém suas características humanas preservadas por ter sido a última criança capturada e estar no período de adaptação para ver se o tresloucado casal a aprova como filha. Ela tem conhecimento dos demais habitantes da casa e até os ajuda como pode, mas sabe que ao menor deslize pode vir a ser aprisionada no porão e condenada a também definhar lentamente como os demais. 


As Criaturas Atrás das Paredes surpreende ao conseguir provocar bons sustos fugindo da obviedade que o título sugere. A tensão crescente se deve ao pânico instaurado pela ameaça de estar na mira de dois sádicos e insanos e também pela ambientação claustrofóbica e ao mesmo tempo difícil de dimensionar. Escuro e antigo, o casarão é o típico cenário de produções do gênero e seu interior parece um intricado labirinto. Contudo, o grande trunfo do longa está no desenvolvimento do roteiro bastante competente na apresentação daqueles que em um primeiro momento seriam os vilões. Tolo é um garoto negro e membro de uma comunidade miserável que além de dificuldades financeiras sofre vendo a mãe à beira da morte por conta de um câncer. Como tantos outros meninos em situação semelhante, ele é seduzido a entrar para o mundo do crime por alguém experiente no ramo e que aparentemente não tem nada a perder, contudo, o garoto não tem má índole e consegue virar o jogo e se transformar em herói. Ainda assim, os antagonistas é que são as estrelas despertando fúria e causando risadas nas mesmas proporções. Sádicos, racistas, atrapalhados, autoritários, conservadores, solitários... Os verdadeiros vilões reúnem um vasto leque de características que infelizmente são apenas pinceladas na tela, mas o suficiente para provarem que nem sempre aqueles que a sociedade aponta como exemplos podemos colocar a mão no fogo em suas defesas. 

Terror - 102 min - 1991

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