segunda-feira, 13 de outubro de 2014

CURVAS DA VIDA

NOTA 6,0

O universo do beisebol mais uma
vez serve como pando de fundo para
história de propósitos edificantes, mas
longa nada faz que alinhavar clichês
O talento de Clint Eastwood é comprovadíssimo tanto na frente quanto atrás das câmeras, assim é de se estranhar que ele tenha aceitado atuar em uma produção tão comum e esquecível como o drama Curvas da Vida, ainda mais sabendo que esta seria sua primeira produção em quase vinte anos em que seria dirigido por outra pessoa que não ele próprio. Para tudo há uma explicação. O longa marca a estreia como diretor de Robert Lorenz, ex-assistente e também parceiro na produtora do premiado cineasta que aproveitou suas boas relações com a Warner Bros (que detém boa parte de sua filmografia) para dar uma ajuda ao amigo. Na trama escrita por Randy Brown, o veterano dá vida à Gus Lobel, um conceituado olheiro de beisebol que atualmente trabalha para o clube Atlanta Braves, mas está com a carreira ameaçada devido a sua visão comprometida, seu principal instrumento de trabalho. Além disso, ele também já está com muita idade para a função e facilmente está sendo ultrapassado por novas tecnologias capazes de emitir com rapidez e precisão as estatísticas dos jogos e apontar os melhores jogadores, ainda que também sofra a concorrência da juventude encarnada por Phillip Sanderson (Matthew Lillard). Criada em meio a esse universo predominantemente masculino, sua filha, a advogada Mickey (Amy Adams), está prestes a se tornar sócia da empresa em que trabalha, mas arruma um tempinho e aceita a proposta do chefe e velho amigo do seu pai, Peter klein (John Goodman), para acompanhar Gus até a Carolina do Norte e ajudá-lo na seleção de uma nova estrela do beisebol. É assim que eles conhecem o espirituoso Johnny Flanagan (Justin Timberlake), um ex-praticante do esporte que agora está focado em seguir os passos de Gus. Em meio aos novos talentos e bugigangas tecnológicas, o famoso olheiro vai fazer de tudo para manter sua fama e provar que ainda tem muito a oferecer contratando o melhor rebatedor da liga universitária, no caso já está de olho em Bo Gentry (Joe Massingill), porém, os dias que passará com sua filha terão muito mais a oferecer para ambos.

O longa parece realmente ter sido criado pensando em Eastwood como protagonista. Tal como Gus se recusa a aderir a novas tecnologias, o ator e cineasta também se apega ao estilo tradicional de filmar, mas nem por isso ficou parado no tempo, pelo contrário, suas produções ainda costumam chamar atenção e tem público cativo, mas sua incursão pelo mundo do beisebol não foi bem sucedida. A resposta, a primeira vista, está justamente na modalidade esportiva escolhida para servir como pano de fundo, atividade com pouca popularidade fora dos EUA onde ela seria o equivalente ao nosso futebol. Além do desconhecimento de regras do esporte, há ainda o rótulo de que histórias do tipo seguem sempre a mesma cartilha rumo a mensagens de redenção ou superação. De fato, Lorenz não foge dos estereótipos e narra uma história no fundo edificante cujo alicerce é a relação estremecida de um pai e uma filha. Mickey perdeu a mãe ainda muito nova, mas Gus fazia de tudo para poder estar ao seu lado o máximo possível, mas a garota estranhou que de uma hora para a outra foi obrigada a morar com os tios e os encontros com o olheiro tornaram-se cada vez mais escassos, tanto que ela relutou em um primeiro momento em acompanhá-lo na tal viagem. O conflito revela-se previsível, mas ganha ligeira importância graças a boa química entre a carismática Amy e o talentoso Eastwood, ainda que seu papel pudesse ser entregue a qualquer outro veterano ator desempregado que conseguiria tirá-lo de letra. Bem, de certo modo é o que Lorenz fez. Duas vezes vencedor do Oscar de direção, o então já octogenário ator voltava a atuar quatro anos após seu Gran Torino, longa que jurava ser o último em que aparecia a frente da câmera. Aliás, na pele de Gus ele traz de volta um pouco das características de seu personagem no citado longa, assim como do treinador que interpretou no premiado Menina de Ouro. Seu olheiro também é um homem idoso, amargo, reticente quanto ao seu passado e que enfrenta problemas de relacionamento com seus familiares. Por outro lado, mostra-se autoconfiante, experiente e determinado, assim não está em seus planos a adaptação aos novos tempos, mas sim que o momento o acolha da maneira como ele sempre foi e será.

É a partir deste confronto do velho contra o novo que este drama se desenvolve, sempre do ponto de vista de Gus. O olheiro versus seu concorrente mais jovem, sua experiência contra a tecnologia e até mesmo seu embate com a filha independente, mas ainda ressentida pela falta de carinho. Todavia, sempre um lado das questões salta aos olhos e a trama se torna muito previsível já que a certa altura o enredo fica restrito a dois ganchos: a iminente reaproximação de pai e filha e ao interesse desta pelo personagem Johnny. Aliás, vale ressaltar que pouco antes deste trabalho Timberlake protagonizou Um Caminho Para Recomeçar, drama no qual interpreta um jovem que também vive uma relação mal resolvida com seu pai, um ídolo do beisebol, e tem a chance de resolver suas diferenças durante uma viagem. Embora tal filme tenha tido pouquíssima repercussão, para quem viu a lembrança colabora para julgar negativamente Curvas da Vida que por todos os ângulos parece um projeto que nada mais faz que alinhavar clichês de produções com temáticas esportivas, no caso, até ser praticamente a cópia de um em específico sem nem mesmo ter o trabalho de trocar um dos atores. Muda-se uma coisinha aqui outra ali, mas no fundo não achamos uma razão concreta para a existência deste trabalho de Lorenz que aparentemente sentiu-se intimidado por estar sendo observado pelo seu mestre e limitou-se a fazer o trivial na direção. Não é a toa que em alguns momentos parece que estamos diante de uma produção feita para a TV. Ainda há de se destacar o fato de o longa ter sido lançado poucos meses depois de Moneyball - O Homem que Mudou o Jogo que conseguiu entrar para a lista das principais premiações apresentando a nova realidade do beisebol na qual análises técnicas e estatísticas são itens essenciais para montar um time campeão. O jogador deixa de ser visto como um ser humano e passa a ser julgado como uma máquina que deve conseguir o máximo de acertos possíveis. Por este ponto de vista, aí sim a obra de Lorenz ganha certo valor, pois mesmo reconhecendo este cenário robótico, faz questão de exaltar a profissão de olheiro e a importância de seu contato com os esportistas. Entretanto, mesmo com essas explicações, para nós que somos alheios a tal esporte o argumento parece apenas desculpa para dar vazão a metáforas a respeito de superação e valores familiares, receita básica e universal para emocionar o público. Nada contra, mas neste caso a bola foi contra os objetivos. 

Drama - 111 min - 2012 

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