segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O TERCEIRO MILAGRE

NOTA 7,5

Apesar da premissa instigante,
a averiguação de um suposto
milagre, drama se arrasta ao
se apegar a entrecho romântico
Seja para exaltar ou criticar, é fato que a Igreja Católica é uma grande fonte de inspiração para o cinema com suas histórias de milagres, superações e porque não dizer também de demônios e escândalos. São séculos e mais séculos de demonstrações de fé e solidariedade, mas também o que não faltam são episódios obscuros, desde as triviais sessões de exorcismo até o envolvimento de cristãos em situações políticas e históricas. Todos os gêneros de filmes já buscaram inspiração nesta seara, afinal o catolicismo rende tramas no mínimo instigantes, além de levantar algumas discussões pertinentes. Próximo a chegada do século 21 a temática pautou várias produções da época, a maioria suspenses ou fitas de horror explorando o temor do fim do mundo ou o início de tempos diabólicos, como Stigmata e Fim dos Dias, mas remando contra a maré surgiu timidamente O Terceiro Milagre, drama que também discute a fé religiosa, porém, sob uma ótica mais convencional. No final dos anos 70, Frank Shore (Ed Harris) é um padre cujas crenças religiosas estão abaladas, mas ainda assim repeitado nos círculos eclesiásticos, tanto que é chamado para uma reunião de urgência com o bispo. Uma estátua de mármore localizada no pátio de uma paróquia de Chicago surpreendeu a todos derramando lágrimas de sangue e o padre local solicita o título de santidade para a voluntária Helen O’Reagan (Barbara Sukowa), uma religiosa profundamente devota que morou nesse mesmo convento até a sua morte. A comunidade da região acredita fervorosamente que ela é a responsável pelo milagre, mas Shore, mesmo não demonstrando entusiasmo, acaba persuadido a investigar a vida da suposta santa e quem sabe também encontrar soluções lógicas para o choro de sangue. Alguns anos antes o pároco se recusou a ratificar um pedido semelhante em outra cidade, o que lhe rendeu a alcunha de “o exterminador de milagres”. Contudo, a nova missão revela-se uma grande surpresa quando Shore reúne provas verdadeiras de que Deus realmente realizou milagres através de Helen, mas tudo se complica quando ele se envolve com Roxanne (Anne Heche) a filha da própria milagreira. O padre passa então a questionar alguns dogmas, como a fé e o celibato, provocando a ira do Vaticano e em especial a do poderoso arcebispo Werner (Armin Mueller-Stahl).

Produzido pelo lendário Francis Ford Coppola, o roteiro em sua essência é bem simples, mas acaba ganhando importância pelas questões que levanta, mas cujas respostas não são nada fáceis e nenhuma delas totalmente irredutível. O arquétipo do religioso que depois de uma frustração perde a fé já não é uma novidade dramatúrgica há muito tempo, mas aqui ganha certa oxigenação já que o motivo para o desânimo não é uma manifestação demoníaca ou o trauma da vivência de horrores em guerras. Quando ganhou seu apelido nada irônico, Shore se negou a reconhecer a santidade de um padre considerado o autor de várias curas, mas pesou o fato do suposto milagreiro cometer suicídio. Como uma pessoa com o dom de salvar vidas poderia acabar com a própria e ainda assim ser elevado a ídolo religioso? Ao resumir o episódio a uma farsa, além de acabar com a fé de toda uma comunidade, o padre também se desiludiu e se entregou ao vício da bebida, pois viu que também era capaz de trazer a infelicidade mesmo tentando fazer o bem. Como Deus não foi capaz de proteger aquelas pessoas quanto a decepção, Shore não se envergonha de agora fazer o sinal-da-cruz de forma mecânica ou se confessar apenas por obrigação como membro do clérigo, na vê mais sentido nas tradições religiosas, porém, não chega a ponto de negá-las totalmente. O novo caso a ser averiguado é diferente. Tudo indica que Helen levou uma vida regrada pela virtuosidade, embora tenha abandonado a filha para se dedicar à Igreja, mas isso é pouco para convencer o pároco. Com a ajuda do padre Gregory (James Gallanders), ele realiza uma minuciosa investigação com direito a métodos de detetives, resquícios da memória que tinha do pai policial, e não se esquece até mesmo de pedir uma análise laboratorial para analisar a verdadeira origem das lágrimas vermelhas que vertem da estátua, que poderia ser alguma reação química a algum produto usado para sua manutenção ou até mesmo por alguém tentando pregar uma peça. Detalhe, o sangue foi percebido justamente no dia do aniversário da morte da voluntária. Além das dúvidas quanto a imagem de pedra, também é colocado em xeque o fato de que uma garota que teria sido curada por Helen ter tido apenas uma salvação momentânea. Maria Withowski (Caterina Scorsone) acabou se tornando uma jovem drogada e que talvez metida com prostituição, o que leva algumas pessoas a indagarem se o criador seria capaz de desperdiçar um milagre.

Como coadjuvante Harris já provou muitas vezes que tem talento suficiente para roubar a cena, mas infelizmente são poucos os diretores que lhe confiaram papeis principais. Na pele do religioso frustrado, ele oferece uma interpretação segura e que tinha tudo para cativar a antipatia de boa parte do público, afinal sua missão é desmascarar crenças e consequentemente abalar os alicerces da fé. No entanto, ele é uma boa pessoa e que no fundo ainda acredita em Deus, tanto que não aceita mentir por ordem de um clérigo superior, pois seria uma heresia jurar falsamente em seu nome. Embora tenha um gancho romântico a ser trabalhado, felizmente o roteiro se preocupa mais com a batalha travada entre Shore e o arcebispo, obviamente mostrando pontos de vista diferentes a respeito do conflito principal do enredo. O grande mérito de O Terceiro Milagre fica por conta da imparcialidade adotada pela diretora polonesa Agnieszka Holland, algo latente pela conclusão em aberto que deixa para o espectador refletir sobre a resolução dos conflitos do protagonista e até mesmo qual seria de fato o episódio que dá título ao filme. A cineasta e roteirista tornou-se um nome de respeito entre os anos 80 e início dos 90 com vários projetos agraciados em festivais e elogiados pela crítica, sendo um dos mais conhecidos Os Filhos da Guerra. A crítica não costuma ser muito gentil quando profissionais europeus filmam em território norte-americano, mas neste caso Agnieszka conseguiu manter características de sua escola cinematográfica dotando sua obra de beleza plástica, ritmo relativamente lento e apuro narrativo. Aliás, o período da Segunda Guerra Mundial, tema corriqueiro na filmografia do Velho Mundo, também é evocado nos minutos iniciais da fita mostrando uma pequena cidade da Eslováquia sendo ocupada e bombardeada por nazistas em meados de 1944. Décadas mais tarde, refugiados deste e de outros países da Europa povoam periferias de grandes metrópoles, no caso Chicago, e cultural e socialmente representam uma comunidade pobre e carente, consequentemente mais suscetível às expectativas de providências divinas. São as feridas da guerra ainda abertas e provocando modificações no cotidiano. Talvez seja justamente o tema polêmico e delicado que tenha impedido o longa de ter visibilidade onde quer que tenha passado, principalmente em países em que a fé cristã ainda angaria um número expressivo de fiéis, mas, como já dito, a produção não apedreja e tampouco exalta milagres, apenas traz à tona a temática e se mantém neutra na discussão.

Drama - 118 min - 1999 

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