segunda-feira, 28 de outubro de 2019

PECADOS INOCENTES

NOTA 6,5

Baseado em escandalosos fatos reais
envolvendo uma problemática família,
longa parece ter receio de chocar
demais e explora polêmicas com cautela
Drogas, homossexualidade, incesto, libertinagem... São temas bastante pesados e se abordados individualmente já são grandes fardos para serem trabalharem que dirá todos eles juntos em uma mesma narrativa. Talvez por isso Pecados Inocentes ganhou um título nacional tão condizente. O que é mostrado no filme é relativamente leve perto do que de fato deve ter acontecido na família Baekeland. Baseado em fatos reais, o filme começa de forma enganosa, com toda pompa de um romance de época. O bem nascido Brook (Stephen Dillane) tinha uma vida social bastante agitada em companhia de Barbara (Julianne Moore), esta vinda de um berço menos abastado. Eles formavam aparentemente um casal perfeito, imagem que sustentaram por um casamento que estranhamente durou anos. Na intimidade, o marido revela-se egocêntrico, deixa claro que detesta o convívio no high society e também repudia a extrema dedicação que a esposa dispensa ao único filho do casal. Tony (Eddie Redmayne) cresceu vivendo uma relação muito próxima à mãe e compartilhando de uma intimidade exagerada. Não teve um referencial masculino presente, o que poderia explicar sua tendência homossexual já percebida por seu pai desde a infância e mais um motivo para conflitos entre os dois. O jovem até tenta se interessar por Blanca (Elena Anaya), mas vive uma relação sem sentimentos, apenas baseada no sexo, algo quase mecânico. Sua grande paixão atende pelo nome de Sam Green (Hugh Dancy) com quem se relaciona com certa liberdade, já que o envolvimento é acobertado por sua mãe que não quer vê-lo sofrer como ela. Obcecada pela ideia de fazer parte das altas rodas da sociedade, ela sempre viveu insatisfeita em uma relação de amor e ódio com Brooks, esse que nunca perdeu a chance de humilhá-la, mas a gota d'água foi quando descobriu que ele a traía com outra mulher. Pela vida que levavam, não era para surpreendê-la. Provavelmente o baque foi maior pela ameaça em perder seu posto de socialite já que a revelação da identidade da amante pode ser apontado como o primeiro escândalo do clã a vir a público.

Se o aceite da homossexualidade e a tolerância ao fato do filho usar baseados já pode causar certo abalo, principalmente aos mais puritanos, o que dizer quando a certa altura Barbara divide a cama com Tony e o namorado? Isso mesmo. A relação muito próxima entre mãe e filho acaba gerando um desejo incestuoso, primeiramente por parte dela, mas logo o rapaz também tem seus instintos despertados. Embora subentenda-se que eles já se relacionavam sexualmente, o caso é revelado com mais detalhes em uma provocadora cena em que ela toca o genital do filho por cima da roupa e tece elogios à sua libido. Logo ela está sentada no colo do rapaz e mesmo sem nenhum dos dois se despir totalmente fica claro o ato sexual para o prazer da reprimida mulher que em seguida o masturba. Tony, embora confuso mental e emocionalmente, parece aceitar o seu próprio comportamento bizarro e o de todos que o cercam com passividade, mas tem inteligência para suprir suas carências na base do fumo e adquirindo ternos de fino trato. Sem saber do que se trata e baseando-se pela introdução, dificilmente alguém imaginaria que o drama dirigido por Tom Kalin chegaria a tal ponto. Revelado no Festival de Sundance em 1992 com Swoon - Colapso do Desejo, este era apenas seu segundo longa. Neste intervalo de tempo dedicou-se a lecionar sobre cinema e a realizar curtas-metragens tendo o homossexualismo como um tema constante. Assim como em seu trabalho de estreia, o cineasta volta suas atenções para uma história sórdida envolvendo membros de uma sociedade que em geral vive uma felicidade de fachada, um caso registrado no livro "Savage Grace" (homônimo ao título original do filme) publicado em 1985 e escrito por Natalie Robins e Steven M. L. Aronson. A trama acompanha a trajetória da família Baekeland de 1946 à 1972, ano em que o clã foi definitivamente abalado por uma tragédia e vieram à tona os fatos ligados à intimidade devassa que compartilhavam, embora possa ser questionável como os autores chegaram a tantos detalhes escabrosos. O verdadeiro Green chegou a declarar publicamente que boa parte do conteúdo, principalmente no que diz respeito a sua relação com o família, não condiz com a realidade, mas o roteiro de Howard A. Roman procura amenizar os fatos de forma que a trama não girasse em torno do tal caso incestuoso e tampouco ficasse refém das demais libertinagens praticadas pelas personagens. Há um nítido esforço em humanizá-las, porém, as boas intenções falham e o espectador não cria vínculos. Não torcemos para que o desajustado clã encontre o equilíbrio ou que cada um individualmente repense sua vida. Simplesmente acompanhamos a trama na expectativa de ver qual será o próximo ato amoral e se o diretor será audacioso a ponto de mostrar nu ou sexo explícito.

Contando assim por alto, pode causar a impressão de Barbara ter sido pinçada do universo pornográfico sendo uma pessoa condizente com todos os tipos de fantasias sexuais, mas tudo que colocava em prática não eram meros caprichos e sim necessidades. Sua rotina ociosa, a permanência em um casamento infeliz e a super proteção ao único filho demonstram uma total falta de amor próprio e objetivos de vida, a não ser manter-se no high society. Um exemplo disso é sua tentativa em evitar que Tony seja discriminado por sua opção sexual. Ao mesmo tempo que se entrega a ele para ajudá-lo a descobrir os prazeres carnais com o sexo oposto, a própria realiza-se sexualmente suprindo a ausência que o marido lhe faz na cama e parecendo acreditar que dessa forma não poderia ser acusada de traição. O desempenho de Moore sem dúvida é o maior atrativo de Pecados Inocentes mostrando a decadência moral de Barbara de forma cadenciada e encarando difíceis cenas, contudo a escolha da atriz não foi por acaso. Seu currículo conta com diversos trabalhos complexos e que lhe exigiram se despir de pudores para simular cenas de sexo e beijar mulheres, mas nunca descambando para o grotesco. Suas interpretações são sempre marcadas por certo refinamento e total entrega, além do fato dos figurinos de época lhe caírem como uma luva. Ela não apenas veste as roupas, mas as usas como importante recurso para compor os perfis de suas personagens, algo que fica evidente no ato final quando veste um tailleur vermelho vivo evocando o estilo mulher fatal, mas uma cor que também remete o perigo que a ronda. Contudo, o magnetismo que lança com sua figura nos primeiros minutos pouco a pouco vai minguando em frente a promiscuidade  prometida pelo enredo, ainda que ao final fique a sensação que Kalin pegou leve apesar de tudo. Para um caso que escandalizou à época, parece que houve um cuidado excessivo para não transgredir o limite do aceitável deixando uma amarga sensação de acusação moral como se o objetivo da produção fosse alertar que quem caminha por vias tortas mais cedo ou mais tarde pagará por tudo. Bem, o desfecho não foi uma inventividade do roteiro. O próprio destino escreveu cenas bastantes cruéis. O saldo final é um filme morno e que caba decepcionando por não cumprir as expectativas. Como curiosidade, tempos depois, Redmayne e Moore foram vistos frequentemente em premiações, ele como vencedor do ano anterior por A Teoria de Tudo entregando troféus para a melhor atriz do ano seguinte pelo desempenho no drama Para Sempre Alice.

Drama - 112 min - 2007
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