sexta-feira, 26 de setembro de 2014

AMOR EM JOGO

NOTA 6,5

Apesar de um pequeno detalhe,
a mocinha ter como rival um
esporte, comédia romântica dos
irmãos Farrelly é bem trivial 
Comédias românticas já têm um público cativo por natureza, assim como a atriz Drew Barrymore que virou sinônimo do gênero. Assim, para uma produção água-com-açúcar ser sucesso contar com essa estrela no elenco já é meio caminho andado, no entanto, a equação não deu muito certo com Amor em Jogo, um dos filmes mais comportados dos irmãos cineastas Bobby e Peter Farrelly, mas ignorado pelo público. Aliás, a assinatura deles que geralmente é destacada na publicidade de seus longas neste caso passou despercebida, mas a obra não é ruim e cumpre fielmente seu objetivo de entreter e exaltar o amor. Barrymore faz o que pode para reciclar o perfil da mocinha romântica que parece já ter incorporado à sua personalidade. Ela interpreta Lindsey, uma solteirona e ambiciosa consultora de negócios, porém, nem um pouco sisuda ou antipática, pelo contrário, sua alegria é contagiante. Não é a toa que o professor de colegial Ben (Jimmy Fallon) se apaixonou a primeira vista quando acompanhou alguns alunos para conhecerem o local de trabalho da garota. Ele seria o par perfeito. Divertido, amável, charmoso, mas com um pequeno defeito: ganha bem menos que ela. Todavia, a atração instantânea de ambas as partes supera qualquer problema, inclusive um embaraçoso e literalmente enjoativo primeiro encontro, mas como a vida real não é conto de fadas é claro que chega o momento em que o príncipe vira sapo. As amigas de Lindsey começam a colocar caraminholas em sua cabeça, afinal como um rapaz com seus trinta e poucos anos e com tantas qualidades poderia estar solteiro? O roteiro de Lowell Ganz e Babaloo Mandel, mesma dupla do saudosista Splash – Uma Sereia em Minha vida, descarta explorar as desconfianças quanto sua sexualidade e parte logo para a resposta. Desde muito pequeno Ben é fanático pelo time de beisebol Red Sox e sua casa mais parece uma lojinha de bugigangas onde tudo leva a logomarca do grupo. Como em dias de jogo não adiantava marcar qualquer compromisso e por tabela alguns dias antes também ficavam comprometidos por conta da euforia para ver seu time em campo, nenhuma mulher aguentava namorar o rapaz por muito tempo, só mesmo estando muito apaixonada para aceitar ser trocada por um bando de marmanjos.

Aos que exclamarem “já vi essa história” realmente estarão cobertos de razão. O longa Febre de Bola estrelado por Colin Firth é uma adaptação do romance homônimo e de estreia do escritor inglês Nick Hornby, autor das obras que originaram os elogiados Alta Fidelidade e Um Grande Garoto. Na ocasião ele tratou pessoalmente de redigir o roteiro, mas nesta nova versão cinematográfica o autor deu carta branca para os roteiristas modificarem o que julgassem necessário, assim a paixão por um time de futebol britânico foi trocada pelo fanatismo por uma equipe de beisebol para agradar ao público ianque. Contudo, foi preservada a trajetória de fracassos do grupo em destaque para exaltar o amor do torcedor que mesmo diante da escassez de títulos não deixou de comparecer aos estádios ou torcer assistindo pela TV sonhando com uma virada de jogo. Na trama, assim como na vida real, o Red Sox, tradicional time de Boston, não vencia há quase um século a famigerada “World Series”, como é conhecida a grande final da temporada deste esporte. O roteiro, fiel aos acontecimentos envolvendo o time, sofreu modificações de última hora graças a guinada que a equipe deu na temporada de 2005. Confiante que desta vez a consagração viria, Ben já estava com tudo planejado com os amigos, também fanáticos pelo clube desde a infância, para assistirem as últimas partidas no estádio, mas acaba esbarrando no ciúmes justificado de Lindsey que se vê impotente para brigar por atenção com um batalhão de jogadores. Pode soar estranho que uma história de amor com um ponto de partida tão comum tenha se tornado um sucesso literário, ainda mais tendo como pano de fundo o universo esportivo, mas é sempre bom lembrar que não importam os esforços o cinema jamais vai conseguir realizar uma adaptação 100% fiel ao conteúdo de um livro pelo simples fato de que cada indivíduo o compreenderá de uma forma diferente de acordo com seu nível cultural e experiências de vida. Os Farrelly apresentaram as visões que construíram através do que conseguiram captar da obra original, mas obviamente tomando cuidado para adicionar ou remover elementos, tudo para conseguir um produto final o mais próximo possível de seu público-alvo, teoricamente os jovens. Assim, enquanto o livro enfoca o desenvolvimento do protagonista masculino, com direito a passagem de várias garotas por sua vida com diferentes propósitos e níveis de intensidade, mas todas vencidas pelo fanatismo esportivo do rapaz, no filme as atenções são voltadas à construção de um relacionamento amoroso em específico com a corajosa que literalmente entrou em campo para poder ficar com o homem que ama.

Será que a mistura de amor e esporte não agrada ao público? Geralmente em dramas com foco na redenção as competições funcionam, mas realmente é difícil dizer o porquê de Amor em Jogo não ter tido a mesma repercussão que outras comédias românticas, afinal todos os ingredientes necessários estão presentes. Se não ousa, ao menos os Farrelly não comprometem a fita, mas pode ser justamente o acanhamento da dupla o calcanhar de Aquiles da produção. Embora a assinatura dos cineastas seja uma publicidade extra, ela também pode comprometer a obra. Há tempos o público espera que a dupla entregue um novo Quem Vai Ficar com Mary?, mas parece que neste caso a orientação dos superiores (aqueles que bancam os filmes e obviamente querem resultados positivos) foi para que os irmãos pegassem mais leve com as baixarias para angariar um público maior. São poucas as piadinhas com teor sexual e as escatologias tão comuns na filmografia dos diretores aqui são oferecidas em tímidas doses, mas o suficiente para provocar boas risadas, como no citado primeiro encontro romântico do casal protagonista. De qualquer forma, é muito bom saber que profissionais com um estilo bem definido consigam variar seus trabalhos e com total desenvoltura falar com maturidade sobre amor. A mocinha tem receio de assumir uma relação com alguém menos favorecido financeiramente, mas ao mesmo tempo tem medo de ficar para titia. Já o rapaz, mantendo certo ar de inocência, investe na relação, mas parece estar preparado para a qualquer momento ser descartado. Para a surpresa de ambas as partes eles se entendem perfeitamente, mas o caldo entorna quando chega a alta temporada do beisebol que embola também com uma notícia surpresa da garota, algo que definitivamente tornaria o relacionamento seriíssimo e obrigaria o rapaz a amadurecer de uma vez por todas. O final você sabe pelo título qual vai ser, mas não deixa de ser agradável acompanhar a previsível trama ancorada por dois atores competentes e extremamente simpáticos. Certamente muitas mulheres e homens se identificarão com os protagonistas e com o conflito que vivenciam, assim a torcida pelos pombinhos está garantida. Mais ainda, o longa reforça a tese de que para um relacionamento dar certo alguém tem que ceder e em alguns casos todas as partes envolvidas precisam ter essa consciência. Lindsey percebeu que seu preconceito com os “pobretões” pode ter lhe impedido de desencalhar mais cedo e Ben, por sua vez, que a maturidade não precisa necessariamente anular sua infantilidade, basta encontrar o ponto de equilíbrio e assim o casal se completa e vive feliz para sempre... Ou quem sabe até o próximo jogo decisivo.

Comédia Romântica - 103 min - 2005

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