quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

MALDITAS ARANHAS!

NOTA 7,0

Resgatando o espírito dos filmes B,
longa tem raízes no terror, a fobia
por animais repugnantes, mas encontra
o tom no humor despojado e proposital
Sucessos no passado e com público cativo, produções protagonizadas por animais modificados geneticamente e com instinto assassino aflorado nunca deixaram de ser feitas, simplesmente foram acolhidas pelas videolocadoras e canais de TV. Salas de cinema dificilmente abrem espaços para fitas do tipo, mas Malditas Aranhas!, do então estreante diretor neozelandês Ellory Elkayem, conseguiu quebrar essa barreira, ainda que timidamente. Não importa, o pouco espaço que conquistou foi o bastante para ganhar publicidade com matérias em jornais, revistas e sites destacando a importância do resgate dos filmes trash, aquelas produções assumidamente toscas e geralmente ligadas aos gêneros de terror e ficção científica que marcaram a década de 1950. Alguns anos mais tarde, com o surgimento dos videoclubes, o subgênero foi resgatado lançando novas pérolas cujo baixo orçamento não é problema, pelo contrário, geralmente é um fator essencial para tirar uma ideia do papel. O pontapé para esta produção que leva a assinatura da dupla Dean Devlin Roland Emmerich, respectivamente produtor e diretor de filmes como Independence Day e o Godzilla de 1998, que apesar da avalanche de efeitos especiais tem a essência dos filmes B em seus DNA, surgiu quando eles assistiram ao primeiro curta de Elkayem sobre uma aranha que cresce desenfreadamente quando exposta a substâncias tóxicas e aterroriza uma dona de casa. Filmado em preto e branco, sua homenagem ao estilo foi seu cartão de visitas para assumir o comando de uma superprodução em Hollywood. Bem, quase isso. É certo que tinha em mãos uma grana razoável, mas o lance era propositalmente atingir resultados imperfeitos, principalmente quanto ao uso da computação gráfica. Também não havia preocupação em apresentar um roteiro redondinho, tampouco personagens com profundidade. No clima de paródia, a grande questão era recriar a ambientação e as situações tragicômicas que agitavam as antigas matinês. Ponto para Elkayem que divide os créditos do texto com Randy Kornfield e Jesse Alexander.

A pequena e pacata cidade de Prosperity (Prosperidade? Olha o sarcasmo), no interior do Arizona, tem suas águas contaminadas quando um tonel contendo lixo tóxico e radioativo cai acidentalmente de um caminhão. A poucos metros do lago, o aloprado cientista Joshua Taft (Tom Noonan) mantém em cativeiro uma coleção de aranhas das mais variadas espécies e as alimenta com insetos que caça justamente na região contaminada. De uma hora para a outra seus aracnídeos parecem ganhar certo grau de inteligência e conseguem escapar dos expositores e, pior ainda, começam a aumentar de tamanho e desenvolver um instinto assassino incomum. Em seus ataques, elas aprisionam as vítimas em uma espécie de casulo que tecem com suas teias. Detalhe, só os machos fazem isso na tentativa de conquistar as fêmeas oferecendo alimento vivo. Quando os habitantes percebem a infestação das aranhas, uma força-tarefa comandada por Chris McCormack (David Arquette), o herdeiro de uma mina abandonada, e pela xerife Sam Parker (Kari Wuhrer) se mobiliza para que a população não seja dizimada. Retornando após dez anos, salvar a cidade para o rapaz é muito mais que um exercício de cidadania, mas uma maneira de fazer com sua parceira nessa batalha, seu grande amor desde a juventude, passe a enxergá-lo como um homem de coragem e de valor. Todavia, são personagens estereotipadas. O cara é um canastrão, um franzino metido a herói que faz caras e bocas e fica devendo em ação, enquanto a xerife tem fama de durona, criou os filhos sozinha, mas no fundo sente falta de um companheiro. O perfil mais inteligente fica por conta do filho caçula dela, o garoto Mike (Scorr Terra), um nerdizinho que manja tudo sobre aracnídeos e faz contraponto a idiotice da irmã mais velha, Ashley (Scarlett Johansson), que tudo o que sabe fazer é dar berros de desespero. A cena em que uma gigantesca tarântula tenta atacá-la em seu quarto é de chorar de rir. Simplesmente a garota fica imóvel, não esboça reação alguma, só fica gritando sem parar. A dúvida é a seguinte: a atriz é que era crua demais e não soube se virar ou faltou um diretor para orientá-la? Na pior das hipóteses o melhor é acreditar que a regra era quanto pior as coisas saírem melhor será para o filme.

A aparente semelhança com Aracnofobia na realidade é enganosa. A fita tem mais a ver com o espírito embutido em O Ataque dos Vermes Malditos, mas apesar dos esforços da equipe de produção em fazer algo bacana de tão ruim, no conjunto o longa ainda fica a dever para chegar a ser um trash movie legítimo. Estão lá as interpretações caricaturais, os erros de continuidade, as cenas nojentas, os diálogos risíveis, a burrice dos humanos contra a esperteza dos mutantes, mas ainda assim a fita é bem editada, sonorizada e fotografada, qualidades que cortam o barato da sessão-lixo. Até os efeitos digitais, se não são lá grande coisa, também não comprometem. Perceptível o trabalho da equipe em fazer algo ruim com perfeição, uma contradição justificável em tempos de tecnologia de ponta para ajudar no pós-produção. Entretanto, o grande charme dos filmes B era justamente usar a criatividade para realizar trucagens caseiras para driblar os problemas financeiros. Elkayem também abre espaço para críticas, ainda que leves, a respeito dos maus tratos ao ecossistema e desvalorização da vida humana. O  personagem Harlan (Doug E. Doug), um paranóico locutor de rádio pirata, há tempos alertava a população sobre os riscos de experiências químicas e genéticas realizadas pelo governo americano em regiões mais isoladas, sem preocupação alguma com os efeitos nocivos que poderiam acometer a flora e fauna local e até mesmo os poucos habitantes. Contudo, são lampejos de inteligência em meio a toda algazarra que força os sobreviventes a se refugiarem dentro de um shopping center, ecos de O Dia dos Mortos, outro grande exemplar da linha trash, mas com zumbis.  Malditas Aranhas! não se leva a sério e a busca pela incoerência é seu maior triunfo aliado ao exagero. Melhor assim. Poderia ser uma tragédia se fosse levado a sério por seus realizadores. O importante é o espectador entrar no clima da brincadeira. Sobra obviamente até uma piadinha para o Homem-Aranha. Massacrados por seus citados filmes arrasa-quarteirões, que embora tenham rendido muito dinheiro até hoje geram comentários infames, Devlin e Emmerich realizaram o filme dos seus sonhos: podreira, divertido e visivelmente sem o peso da incumbência de faturar alto.

Terror - 99 min - 2002
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