sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A COLHEITA DO MAL

NOTA 4,0

O filme poderia se chamar
"Colheita de Clichês" de tantos
chavões do gênero costurados à força
para sustentar trama inconsistente
Entre 1999 e 2000 Hollywood apostou maciçamente em tramas de horror e suspense com temáticas a respeito de anticristos, possessões e pragas. Não eram novidades, é verdade, mas a época era propícia devido ao temor do fim do mundo na virada para o século 21. Felizmente sobrevivemos, mas temos que lamentar que assim surgiu a oportunidade do diretor Stephen Hopkins realizar A Colheita do Mal, uma das milésimas reciclagens do tema das pragas bíblicas. O diretor, na época esquecido pelo cinema, porém, colhendo frutos pela direção da temporada de estreia da série de TV “24 Horas”, não realiza necessariamente um trabalho ruim levando em consideração o péssimo nível da maioria das produções de terror recentes, mas apenas mais um a pregar uns dois ou três sustos e ser completamente esquecido de imediato. A ex-missionária Katherine Winter (Hilary Swank) atualmente é uma professora universitária especializada em desmascarar milagres encontrando explicações científicas para tudo. Traumatizada pela morte do marido e da filha por conta de crendices religiosas, ela não nega a ninguém que perdeu sua fé, mas mesmo assim é chamada para visitar a pequena e interiorana cidade de Haven para investigar um rio que misteriosamente teve suas águas tingidas de vermelho de uma hora para a outra, o que para a população local trata-se da manifestação de uma das dez pragas do Egito. Doug (David Morrissey), um dos habitantes, revela que existe a suspeita de que as pestes bíblicas estejam sendo disseminadas pela misteriosa Loren McConnell (AnnaSophia Robb), apenas uma garotinha cuja família é difamada na região como adoradores do diabo, inclusive a culpam pela morte de seu irmão Brody (Mark Lynch). Ciente de que mais uma vez encontrará explicações para o caso, Katherine e seu fiel assistente Ben (Idris Elba) começam a investigar, mas aos poucos percebe que terá sua fé colocada em xeque mais uma vez. As coisas se complicam conforme outras pragas começam a se manifestar na sequência que foram descritas no Testamento e a população declara guerra a tal garota convencidos de que ela é filha do demônio, mas a confrontadora de milagres vai fazer de tudo para evitar a morte de uma inocente e que seu currículo de acertos seja manchado pela primeira vez. Todavia, lutar contra conceitos religiosos nunca lhe pareceu tão complicado quanto neste momento.

Baseado em uma história de Brian Rousso, o roteiro escrito pelo casal Chad e Carey Hayes, de A Casa de Cera, aborda uma temática interessante. As dez pragas citadas na trama partem do conceito bíblico de que Deus (ou seria o Diabo?) estaria se manifestando em uma determinada região. Segundo as escrituras sagradas, Moisés teria levado as pragas para o Faraó e seu povo do Egito para que então pudessem reconhecer que o Deus dos hebreus era supremo e para tanto precisavam ser castigados. Quem não é muito ligado a temas religiosos possivelmente tem dificuldades para se envolver com a trama e deve compartilhar da mesma opinião que Katherine emite, em outras palavras, logo nos primeiros minutos: milagres e maldições se manifestam geralmente em regiões paupérrimas pelo fato das populações locais serem mais suscetíveis a crendices e carentes de informação, ou seja, tudo tem explicações científicas, mas para elas é mais fácil procurar explicações na Bíblia, afinal quem é mais sábio que o criador? Os roteiristas pecam por não esmiuçar o assunto das pragas, como se manifestam e o que podem provocar, de forma de fácil assimilação, geralmente optando por diálogos acelerados que tentam condensar o máximo de informação, mas que chegam com ruídos até o espectador que, diga-se de passagem, não deve ser o mesmo interessado nos sermões das missas de domingo. Para quem fugiu do catecismo, as dez pragas bíblicas são: águas transformadas em sangue; a praga das rãs; piolhos; moscas; peste no gado; úlceras e tumores; tempestade de relâmpagos e trovões; ataque de gafanhotos; as trevas; e, por fim, a morte dos primogênitos. É muita coisa para ser apresentada em pouco tempo de filme, mas ainda assim até a metade o longa mostra-se um entretenimento razoável focando suas atenções no desenvolvimento da protagonista e na exposição do mistério, mas a partir do momento que as investigações começam de verdade a produção perde fôlego, ainda mais com o excesso de flashbacks a respeito do passado e da família da cética heroína. Tais cenas acabam atrapalhando a trama principal e são inseridas para dar alguns sustos gratuitos baseados em cortes rápidos que dão a impressão de que algo amedrontador pode surgir a qualquer instante, mas a verdade é que o roteiro é repleto de situações manjadas. A própria premissa tem resquícios de clássicos como O Bebê de Rosemary e A Profecia e a confecção do longa remete a produções menos badaladas como Stigmata e A Filha da Luz. Até a ambientação de uma sombria e pantanosa região da Louisiana tem elementos que lembram a Coração Satânico e A Chave Mestra.

E quantas fitas de horror você já não viu cujo protagonista é alguém que perdeu a fé e subitamente é forçado a rever seus conceitos? O problema não é tanto a repetição do perfil, mas a escolha de quem iria encarná-lo. Na época já adornando sua casa com duas estatuetas do Oscar, diga-se de passagem, vivendo personagens masculinizados em Meninos Não Choram e Menina de Ouro, além de tantos outros prêmios, não haveria motivos para a talentosa Swank aceitar um papel típico de filmes B. Fã confessa de suspense sobrenaturais, é natural que tivesse vontade de trabalhar em um produto do tipo, mas não dá para saber o que lhe chamou atenção em um roteiro que mais parece uma colcha de retalhos do que deu certo e também do que deu errado em outras obras que abordam questões religiosas. Pode ser que sua personagem tivesse no papel um perfil psicológico bacana a ser desenvolvido, mas na tela as coisas não saem muito boas. Ela só não acaba muito chamuscada porque em uma sacada esperta do diretor a Katherine que tinha tudo para ser mais um tipo bronco no currículo da atriz acabou ganhando certa sensualidade velada. Além da mulher segura de si, visualmente ela surge em trajes justos e decotados e cabelos sedutoramente mal arrumados, truques certamente pensados para tentar fazer funcionar outro gancho da narrativa. Todavia, há um flerte romântico com Doug que não funciona pela inexpressividade de seu intérprete e também porque é difícil acreditar que uma mulher tão racional cedesse de forma quase instantânea a uma paquera. Dica: preste atenção quando ele lhe oferece uma bebida, momento crucial para compreender o desfecho (ou pelo menos alguma coisa da farofada que é o final). A Colheita do Mal tinha potencial para ser um produto acima da média, mas os responsáveis não souberam conduzir as coisas e apelaram aos mais variados clichês para escamotear a narrativa frágil. Animais descontrolados, um nojento cenário que lembra a um manguezal, excesso de símbolos religiosos, efeitos sonoros exageradamente elevados em momentos de impacto, delírios editados em ritmo de videoclipe e sustos previsíveis e que nada agregam à trama. Só faltou que a tal criança sinistra fosse de olhinhos puxados e cabelos escorridos para encerrar a lista de chavões. Durante a exibição a obra pode até assustar e parecer dotada de um conteúdo que a eleve de patamar, mas analisando posteriormente é que nos damos conta de suas falhas, perguntas sem respostas e, o pior de tudo, falta de lógica. Praticamente tudo pode acontecer, inclusive a substituição do clima soturno inicial pelo clímax em ritmo de filme de ação com direito a correria e explosões. Sustos de verdade são pouquíssimos. 

Terror - 99 min - 2007 

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