quarta-feira, 8 de julho de 2015

DIGA QUE NÃO É VERDADE

NOTA 1,0

Escatologia, piadas de cunho sexual
e sarro até mesmo com minorias
marcam a estreia de pupilo dos irmãos
Farrelly em comédia vexatória
Teoricamente uma comédia deve provocar risos, mas como alcançar tal objetivo quando a seleção de piadas de um roteiro não tem graça alguma? O jeito é mandar às favas qualquer compromisso com o realismo e embarcar de cabeça no nonsense. Parece que este foi o pensamento do diretor James B. Rogers na condução de Diga Que Não é Verdade, fita com argumento de comédia romântica, mas que assume seu lado besteirol sem vergonha alguma. A trama tem como protagonistas Jo Wingfield (Heather Graham) e Gilbert Noble (Chris Klein), dois jovens que estão perdidamente apaixonados, mas que descobrem um terrível segredo: eles na verdade são irmãos por parte de mãe, a inescrupulosa Valdine (Sally Field). Para não cometerem um incesto, ou melhor, para não continuarem vivendo em pecado já que a relação deles já passou o sinal vermelho faz tempo, eles decidem se separar e cada um procura seguir sua vida. Ela se muda de cidade enquanto o rapaz continua em sua região interiorana tornando-se alvo de chacotas. Todavia, tudo pode mudar quando Gilly (apelido carinhoso do rapaz) descobre que na verdade houve uma série de mal entendidos e que eles não tem qualquer vínculo sanguíneo. Imediatamente ele parte desesperadamente para encontrar Jo e impedir que ela se case com outro homem, mesmo que para isso precise atravessar praticamente metade dos EUA e se meter nas maiores enrascadas. Contudo, Valdine vai fazer de tudo para impedir esse reencontro já que não considera seu "ex-filho" um bom partido para a moça, entenda-se então que ele é um zé ninguém que não tem onde cair morto. Pupilo dos irmãos Peter e Bobby Farrelly, que assinam a fita como produtores, Rogers não renega sua escola e deixa em cada cena transparecer a essência de seus tutores. Seu primeiro trabalho solo atrás das câmeras é marcado por piadas envolvendo pessoas com deficiências e abusos de animais entre outras tantas polêmicas misturadas a outras sequências nauseantes ou ofensivas ao espectador.

Tudo é tão absurdo que ao invés de causar risos acaba constrangendo quem assiste como, por exemplo, a cena em que Gilly fica com o braço preso no traseiro de uma vaca, digamos uma imagem absurda que acabou emblemática ao filme apesar do desconforto que provoca. Já os melhores momentos do roteiro dos estreantes Peter Gaulke e Gerry Swallow são encontrados na introdução quando o público ainda está tomando conhecimento da situação e embarcando no clima romântico proposto, porém, as gargalhadas que podem surgir em seguida só podem ser devido ao caráter absurdo que a narrativa assume. Além do que já foi citado, ainda há tentativas de se fazer humor com o uso de drogas, com pacientes de hospícios, mutilações e obviamente muitas insinuações a sexo e piadas de duplo sentido. Se os Farrelly conseguem fazer um humor simpático mesmo envolvendo escatologia e, digamos, excluídos da sociedade (embora nem sempre consigam tal façanha), Rogers parece ter a mão ainda mais pesada para realizar piadas do tipo chegando ao ponto de convencer a premiada Field a passar fatias de pão de fôrma em suas axilas para depois servi-las em um lanche ao marido de sua personagem vítima de um derrame cerebral. Sim, ela mesma que já ganhou dois Oscars e voltou a brilhar em 2012 com Lincoln precisou se submeter a coisas do tipo para poder pagar suas contas durante quase duas décadas, período em que os convites de cinema tornaram-se mais raros e ela se dedicou à TV. Seu desempenho neste filme não é digno de uma atriz tão conceituada, qualquer uma poderia fazer. Seu exemplo é bom para provar que prêmios não seguram carreira, todavia, até que ela se dá bem embarcando no clima enlouquecido da produção, mas seu papel é pequeno e ridículo ao extremo para seu talento. Por assumir o papel de vilã, que obriga o casal protagonista a viver afastado, seu destaque deveria ser maior.

Já Graham e Klein são nomes conhecidos por terem participado de muitas produções voltadas para o público adolescente, principalmente de humor, mas seus sucessos podem ser contados com os dedos de uma única mão ou nem isso. Eles levam a carreira no banho-maria vivendo de um mesmo papel, ele o rapaz ingênuo e de bom coração e ela a ninfeta que se faz de sonsa. Quem conhece a filmografia da dupla já conhece mais ou menos seus estilos e, portanto, não tem muito o que esperar de Diga Que Não é Verdade, produção vendida como uma comédia romântica, mas o romance é mínimo aqui, embora Graham tenha cometido a insanidade de comprara esta esdrúxula história de amor com o dramalhão de Romeu e Julieta. A ordem é apelar para o humor escrachado e por vezes um tanto escatológico, ainda que os momentos realmente divertidos sejam escassos. A porção dramática do argumento, se é que podemos classificar dessa forma, também soa como uma piada de muito mal gosto. Da sugestão de um incesto ao sarro de humilhar pessoas dependentes de aparelhos para se comunicarem, não há nada que ofereça sustentação à trama, tudo parece jogado na tela de qualquer forma e alinhavado porcamente como se o roteiro final tivesse sido definido já na sala de edição, talvez em uma escolha das cenas que ficaram menos ruins. Imaginem o que não foi descartado então. Para piorar, a desnecessária narração em off de Gilly explicando o que já está explícito em imagens constata que o diretor prefere ver seu público como pessoas incapazes de decodificar mensagens por conta própria. Este filme no final das contas então é péssimo? Isso vai da cabeça de cada espectador. Pode ser uma boa pedida para quem quer se divertir sem precisar queimar os miolos, até porque o final você já deve saber qual é. Todavia, é quase que um produto exclusivo para jovens, um público que em geral pouco está ligando para a qualidade do que está assistindo, o negócio é reunir a galera, gargalhar espontaneamente e se entupir de pipocas e refrigerante.

Comédia - 95 min - 2001 

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