sexta-feira, 8 de agosto de 2014

TITUS

NOTA 6,0

Adaptação de texto pouco conhecido e
super violento de William Shakespeare
tem visual e narrativa originais, mas o
conjunto é estranho e nauseante
Willian Shakespeare ganhou fama com histórias que retratavam conflitos comuns a sua época, todavia, temáticas atemporais que até hoje inspiram atualizações de suas obras. Carregadas de poesias, suas tramas eram marcadas por diálogos propícios para serem declamados com altivez e a linguagem retórica escamoteava inteligentes metáforas e conceitos. “Hamlet”, “Sonho de Uma Noite de Verão” e “Romeu e Julieta” são algumas de suas maiores obras e obviamente as que mais renderam à indústria de bens culturais com suas diversas versões para o cinema, teatro e televisão, além de render um bom dinheiro no campo da literatura e das artes plásticas. E sobre a experiência do autor desbravando o antigo Império Romano, o que dizer? Isso mesmo. Poucos sabem dessa particularidade da carreira do escritor, mas quem assistiu ao filme Titus certamente sabe o porquê do romance ser ignorado pela maioria. Shakespeare declaradamente era chegado a uma tragédia, mas neste trabalho superou-se e criou uma alucinante e angustiante trama que aborda questões psicológicas e comportamentos, sem dúvidas uma das mais sangrentas e cruéis que escreveu, sem esquecer o fator sexual que motiva boa parte dos personagens. Baseado em “Titus Andronacius”, o longa marca a estreia na direção de longas metragens de Julie Taymor, também roteirista da obra e que mais tarde viria a fazer relativo sucesso com Frida e Across the Universe. Ela já havia dirigido em 1994 a adaptação teatral do texto e passou cinco anos dedicando-se ao material para levá-lo às telonas, mas sem perder o clima de encenação. Anthony Hopkins dá vida ao personagem-título, um general romano de sucesso que volta à sua terra natal após derrotar inimigos do Império. Tamora (Jessica Lange), a rainha de um povo inimigo, os godos (bárbaros que dariam origem ao povo germânico), o acompanha neste retorno. Ela é sua prisioneira, assim como seus três filhos e para vingar a morte de seus herdeiros e soldados Titus decide assassinar o primogênito dela e faz questão de queimar suas vísceras em público. Com o imperador morto e como prova de gratidão por seus esforços há mais de quatro décadas, o irmão do general, o presidente do senado Marcus (Colm Feore), o indica para assumir o cargo de governante de Roma, mas o valente prontamente recusa a honra e a cede para Saturninus (Alan Cumming), o filho mais velho do antigo monarca.

O novo governante romano deseja se casar com a filha de Titus, a bela Lavinia (Laura Fraser), mas a moça já se relaciona com o irmão dele, Bassianus (James Frain). Sentindo-se ameaçados, o casal acaba fugindo e o afetado monarca, agora frustrado e com inveja da popularidade do ex-futuro sogro, decide se casar com Tamora apenas por pirraça, mas um plano que vem a calhar para ela que amargava a morte de seu filho. Unidos eles se sentem mais fortes para travarem uma intensa guerra contra Titus e sua família, situação que ganha reforço com Aaron (Harry Lennix), o amante da rainha. Basicamente a trama é essa, mas são muitas as reviravoltas e personagens secundários que ajudam a rechear os mais de 160 minutos marcados por mortes em profusão absurda e carnificina e sanguinolência proporcionais a de um filme de terror pesado. Entre uma morte e outra, versos filosóficos no melhor estilo de Shakespeare são declamados com entusiasmo pelos personagens a fim de propor reflexões a respeito de família, poder, amor, honra, enfim, o ser humano como um todo e sua insignificância diante de uma sociedade literalmente canibalista. Fica o aviso aos que são fracos para bizarrices: é quase impossível não sentir nojo de comer alguma coisa que leve carne depois desta experiência. Além de uma pesada e bem recheada torta feita de uma iguaria única, os vários corpos mutilados ou quebrados devem exigir um antiácido ou algo do tipo. A maioria das mortes é explícita, cada uma ocorre de forma mais original que a outra, além de existirem muitas cenas de orgia e não poderia faltar incesto. Jonathan Rhys Meyers e Matthew Rhys (apesar do sobrenome sem qualquer tipo de parentesco) fazem a alegria dos fetichistas de plantão interpretando respectivamente Chiron e Demetrius, filhos de Tamora, e protagonizam cenas quentes e bizarras. O ápice da trama ocorre em um jantar secretamente antropofágico e que culmina em puro masoquismo e loucura, mas a essa altura quem sobreviveu a tudo que veio antes certamente já estará acostumado e a grande diversão se torna tentar adivinhar o que mais Miss Taymor tem para oferecer. A diretora estreava mostrando ousadia e nenhuma preocupação de agradar as massas. Seu objetivo simplesmente é servir à arte e se o material original permite explorar tabus e escatologias à vontade por que não se arriscar? O resultado realmente surpreende, tanto negativa quanto positivamente. As surpresas já começam na introdução. Quem espera ver uma aventura épica tradicional pode demorar um pouco a entender a proposta de mesclar o antigo e o novo, além de em alguns momentos parecer estarmos vendo um teatro filmado.

Logo no início, na época contemporânea (1999, ano das filmagens), um garoto (Osheen Jones) aparece tranquilamente brincando com seus bonecos em cima de uma mesa de cozinha, mas do lado de fora da casa uma bomba explode e ele é resgatado por um homem que o carrega até o porão. Ao atravessarem uma porta, o menino vai parar no centro de um gigantesco anfiteatro como os da Roma antiga e logo passa a ser cercado por centenas de soldados trajando pesadas armaduras e marchando de forma opulenta. Em seguida, motos e tanques de guerra invadem o cenário que rapidamente os agrega com perfeição, assim oferecendo uma plasticidade chamativa. A criança salva da morte então se transforma em um personagem observador da história, Lucius (na vida adulta interpretado por Angus Macfadyen), o neto de Titus, este que passa a narrar parte do histórico de vida de sua família. Buscando ser original, Taymor tenta fundir o passado a alguns elementos do presente como, por exemplo, jovens com linguajar rebuscado jogando videogames customizados, mas o resultado final não é lá muito satisfatório e facilmente o espectador pode perder o fio da meada ou se irritar com tantas liberdades artísticas. A ideia seria mostrar que apesar de separados por séculos, nos dias de hoje os seres humanos continuam repetindo erros e com a mentalidade tão tacanha quanto seus ancestrais. Como era um projeto bastante pessoal, a diretora teve o cuidado de preparar os atores e equipes técnicas para submergirem neste universo tão particular a fim de evitar que o trabalho ficasse caricatural. Workshops foram feitos para explicar a fusão do conteúdo histórico a elementos atuais e o elenco ensaiou por semanas para perderem sotaques e se familiarizarem com comportamentos e linguajar arcaicos. O resultado em termos de interpretações é bastante satisfatório, mesmo com diálogos rebuscados que deixam os personagens pesados. Estão todos tão a vontade que detalhes como a rainha que fuma cigarros ou o monarca que veste roupas de grife podem passar despercebidos. Aliás, os figurinos originalíssimos foram merecidamente indicados ao Oscar, criações que se tornam um atrativo a parte, mas em alguns momentos salvam a fita do marasmo. Titus sofre com sua duração excessiva, sendo que alguns cortes poderiam ter sido feitos nas sequências que apresentam os planos do protagonista em barrar a vingança de sua desafeta. De qualquer forma, é uma produção que vale uma conferida pelo ineditismo, mas é certo que até entre os adeptos de obras alternativas um mínimo de estranhamento é inerente.

Drama - 168 min - 1999 

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