quarta-feira, 3 de setembro de 2014

CORAÇÕES APAIXONADOS

NOTA 5,0

Narrativa-mosaico para falar
de amor falha ao destacar tramas
desinteressantes que não cativam o
espectador, mesmo com bons atores
As narrativas do tipo mosaico, aquelas que paralelamente desenvolvem várias histórias e personagens, viraram moda entre as produções dos anos 2000, sendo que tal opção aparentemente é quase como meio caminho andado para um filme colher elogios ou concorrer a prêmios. Realmente é preciso ter muito talento para conduzir roteiros do tipo, um estilo cujo maior expoente é o saudoso diretor Robert Altman. Muitos atores renomados ou em evidência em sua época aceitavam participar de seus trabalhos mesmo que ficassem em cena menos de cinco minutos, mas só o fato de ter o nome vinculado a um projeto com embalagem mais sofisticada já era recompensador. Se realmente é essa relação de status que os astros buscam está justificado o bom elenco reunido para o drama romântico Corações Apaixonados, estreia na direção do diretor Willard Carroll que narra os conflitos de onze personagens principais, todos residentes em Los Angeles, que desfilam pela tela aparentemente sem relação alguma um com o outro. Melhor dizendo, todos buscam a felicidade em relações amorosas, mas cada um vivencia tal sentimento de uma maneira diferente. Paul (Sean Connery) e Hannah (Gena Rowlands) formam um casal unido há quatro décadas, mas alguns fantasmas do passado precisam ser exorcizados para manter a relação saudável. Milfred (Ellen Burstyn) vai redescobrir o que é ser mãe agora que reencontrará seu filho Mark (Jay Mohr) que vivencia um momento delicado por conta das complicações da AIDS. Gracie (Madeleine Stowe) é uma mulher que mesmo casada busca constantemente carinho e diversão na companhia de Roger (Anthony Edwards) que também trai sua esposa, mas no fundo tal situação não a agrada. Já Meredith (Gillian Anderson) é uma diretora de teatro que por conta de um pequeno acidente acaba conhecendo Trent (Jon Stewart) por quem demonstra interesse e é correspondida, no entanto, uma experiência traumatizante em seu passado acaba a impedindo de vivenciar o amor novamente, mas ao mesmo tempo ela anseia por isto. Representando os mais jovens, Joan (Angelina Jolie) é uma moça extrovertida que conhece Keenan (Ryan Phillippe) em uma balada, se apaixona imediatamente e é do tipo que não mede esforços para ter o que quer, porém, o rapaz teme o amor por conta de sua última namorada que teve um fim trágico. Por fim, Hugh (Dennis Quaid) é um homem de meia-idade cujo passatempo é contar mentiras sobre sua vida íntima para estranhos.

Costuma-se dizer que o teatro é uma arte onde o fascínio depende do talento e carisma do ator, mas teoricamente estes são os mesmo predicados necessários para prender o espectador a um filme. Contudo, como a sétima arte está cada vez mais dependente de efeitos sonoros e visuais não seria incorreto afirmar que tal mídia tornou-se um espaço onde quem brilha é a equipe que fica atrás das câmeras, principalmente os responsáveis pela pós-produção. Obviamente os aspectos técnicos são de suma importância, mas é triste ver que cada vez mais as produções populares investem menos em conteúdo e emoção em prol da realização de sonhos que tais como os pensamentos que temos quando dormimos se esvaem com rapidez absurda. Toda essa explanação é para chegar ao seguinte ponto: é maravilhoso poder acompanhar histórias onde as relações interpessoais são o foco de atenção, ainda mais quando os personagens são em sua maioria interpretados por rostos conhecidos, o que instiga o espectador a querer assistir tais filmes e quem sabe aprimorar seu gosto cinematográfico. Na narrativa-mosaico ainda temos o atrativo de tramas que nos fazem pensar e ter a sensibilidade de prestar atenção a todos os detalhes como se fosse um quebra-cabeças cuja compreensão definitiva só teremos juntando todas as peças. Carroll, também autor do roteiro, tinha experiência na criação de scripts para séries de TV e desenhos animados lançados diretamente em vídeo, mas foi com muita sede ao pote em seu debut nas telonas. A narrativa fragmentada exige talento, perspicácia e foco rigorosamente definido, o que até justifica sua opção em também assumir a direção. Abordando uma semana na vida dos personagens, todas as tramas estavam em sua cabeça e ninguém melhor que ele para direcioná-las durante as filmagens, mas fracassou ao cair em lugares comuns e as convergir em um final feliz e artificial. Nada contra o happy end, mas levando-se em consideração o tipo de projeto era de se esperar que o diretor quisesse se comunicar com plateias adultas que teoricamente tem embasamento emocional e psicológico suficiente para encarar conclusões mais realistas e dramáticas. Alguns podem apontar que a opção em capturar histórias de amor nas mais variadas faixas etárias de adultos seja um tanto clichê, mas o que mais incomoda é a sensação de que o excesso de ganchos comprometeu o conjunto não existindo tempo suficiente para desenvolvê-los por completo.

Amor é um tema universal e bastante abrangente, mas versar sobre ele não é fácil principalmente quando não se tem um foco bem definido. Você pode abordá-lo de forma leve e desinteressada através de uma comédia romântica, investir no romance puro e simples concentrando-se na construção de um clima adequado ou seguir um tom mais sério e dramático quando o objetivo é mostrar os possíveis efeitos negativos que tal sentimento acarreta. Em uma obra que deseja falar sobre a temática de forma ampla o ideal seria conseguir o equilíbrio entre os gêneros, o que é bem complicado, mas também a opção de se ater a um rótulo específico exige muita habilidade. Carroll leva a sério demais suas pretensões de criar uma obra madura e destinada a público idem e não abre espaço algum para um momento mais leve ou de descontração. As ações dos personagens parecem condicionadas à evolução de seus problemas, assim o espectador não se sente instigado a acompanhar tramas de pessoas infelizes e que mesmo diante de novas possibilidades parecem não querer sair do lugar. As histórias se limitam a ligeiras variações de um mesmo assunto que inicialmente chamam a atenção por conta da apresentação dos personagens, mas quando já estamos íntimos deles parece que o filme fica estático, nada acontece além de enfadonhos diálogos que divagam sobre as dificuldades que é encontrar a sua alma gêmea (se é que ela existe). A ausência de protagonistas também deixa o conjunto abalado, falta aquele pilar que ofereça sustentação e colabore no debate dos diversos dilemas. Pelo peso dos intérpretes, aparentemente a trama principal seria a do casal mais vivido. Paul enfrenta a descoberta de um tumor no cérebro ao mesmo tempo em que tem que lidar com as desconfianças da esposa que lhe cobra explicações sobre uma suposta infidelidade no passado. Por outro lado, a iminente morte de Mark chama a atenção por méritos de sua própria temática. Muitos podem reclamar da armadilha sentimental de inserir aidéticos em fase terminal em dramas, isso sem falar no clichê do doente ser homossexual, mas nunca é demais alertar sobre o problema e a trama se destaca por falar sobre o amor entre mãe e filho, um respiro entre tantos conflitos que no fundo visam a divisão de uma cama. Corações Apaixonados é um título que não é muito adequado à proposta, mesmo com o final adocicado, e o resultado dá impressão que as várias fichas queimadas por Carroll dariam excelentes curta metragens. Em conjunto, o tom melancólico é até válido, mas a redução do número de personagens seria essencial para um domínio maior da narrativa e um benéfico corte na longa duração. Suas duas horas parecem durar o dobro do tempo.

Drama - 120 min - 1998

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