quinta-feira, 13 de abril de 2017

AS BRANQUELAS

NOTA 2,0

Apesar de se sustentar sob uma
farsa tosca e mal arquitetada,
comédia é um sucesso de popularidade,
talvez justamente por ser mal feita
Quando vai ao ar a chamada de que mais uma vez A Lagoa Azul ou Ghost - Do Outro Lado da Vida vai ser exibido na "Sessão da Tarde" são inevitáveis as piadinhas quanto ao prazo de validade dos filmes (há controvérsias quanto a isso) e sobre a falta de bons programas para rechear a TV aberta. A lista de repetecos da clássica faixa de filmes da Globo é gigantesca, porém, o que é oferecido pelos canais pagos também não fica muito atrás. Reprises de fitas populares como De Repente 30, A Sogra e Como Se Fosse a Primeira Vez batem cartão com frequência em variados canais semanalmente, mas o caso da comédia besteirol As Branquelas é digno de uma análise mais profunda sobre números de audiência, perfil dos espectadores ou simplesmente para constatar a falta de conteúdo dos canais por assinatura. Praticamente todos os dias o longa é exibido em algum canal, isso quando também não é exibido duas vezes ou até mesmo simultaneamente. Qual o segredo para tanta popularidade? Aparentemente nenhum, apenas mais um certeiro golpe de sorte dos irmãos Marlon e Shawn Wayans que já tinham tirado a sorte grande com o deboche Todo Mundo em Pânico. Eles vivem respectivamente Marcus e Kevin Copeland, agentes do FBI que estão com o emprego por um fio após fracassarem feio em sua última missão. Dispostos a mostrar serviço eles embarcam por conta própria em uma secretíssima operação. Eles descobrem que as milionárias irmãs Wilson, Brittany (Maitland Ward) e Tiffany (Anne Dudek), duas patricinhas loucas por fama e diversão, estão na mira de sequestradores. Contudo, o caso é entregue aos agentes Vincent Gomez (Eddie Velez) e Jack Harper (Lochlyn Munro), uma dupla tão atrapalhada quanto os outros dois detetives que acabaram incumbidos da simplória e ingrata tarefa de escoltarem as jovens socialites durante um fim de semana em Beverly Hills. Elas vieram especialmente para participarem de um badalado evento em que sonham ser o centro das atenções e estamparem a capa de uma famosa revista. De fato elas vão roubar a cena, ou melhor, suas substitutas.

Graças as trapalhadas dos Copeland, as garotas sofrem um pequeno acidente de carro no qual uma sofre um pequeno arranhão no nariz e a outra tem um cortezinho no lábio, o bastante para entrarem em desespero e decidirem se isolarem no quarto do hotel. Mesmo enclausuradas, as dondocas ainda corriam risco de serem vítimas de sequestro, assim os Copeland têm a brilhante ideia de fingirem serem elas para atrair os criminosos para uma armadilha. Graças a uma forçada produção literalmente dos pés a cabeça, os negrões de 1,80 metros se transformam em duas criaturas albinas que não enganam nem criancinhas. Mais parecidos com travestis e passando longe da imagem de gostosinhas de vinte e poucos anos, somos induzidos a acreditar que os boçais personagens que cruzam o caminho dos protagonistas nem desconfiam da farsa. Até a indisfarçável malha segunda pele que usam passa despercebida. Tudo bem, esta é uma comédia assumidamente nonsense e talvez justamente os deslizes narrativos e de produção é que justifiquem seu sucesso. Se já não fosse o bastante andarem por aí travestidos de mulheres, os agentes ainda vão bater de frente com as arquiinimigas das Wilson, as também irmãs Heather (Jaime King) e Megan Vandergeld (Brittany Daniel), que invejosas e ardilosas vão armar mil e uma (força de expressão, fique claro) para serem o centro das atenções deste louco fim de semana. É claro que há também um grupinho de melhores amigas, Karen (Busy Phillips), Lisa (Jennifer Carpenter) e Tori (Jessica Cauffiel), para rolarem típicas cenas de constrangimento envolvendo piadas mais apimentadas que poderiam ter sido evitadas. A maioria da cenas realmente divertidas provocam risos de tão toscas que são e parecem terem sido inventadas de última hora no próprio set de filmagens. Até o clímax segue essa vibe usando e abusando de deslizes e tropeços. Literalmente!

A ideia desta brilhante produção é dos próprios protagonistas em parceria com outro de seus irmãos, Keenen Ivory Wayans, este que também assina a direção e não poupa os brothers de pagarem um mico atrás do outro. A grande piada do filme talvez seja o fato do "complexo" argumento ainda ter exigido a participação de Andrew McElfresh, Michael Anthony Snowden e Xavier Cook para ser desenvolvido. Muitas cabeças para criar algo tão tolo, não? Na época já sentindo a decadência da citada franquia Todo Mundo em Pânico, algo inevitável com o esgotamento da fórmula de tirar sarro de filmes de terror e certa perda de foco, os Wayans buscavam com As Branquelas iniciar uma nova série, desta vez aloprando em cima dos filmes policiais sobre duplas dinâmicas e das comédias adolescentes sobre patricinhas cujas maiores preocupações giram em torno de popularidade e futilidades. Apesar de inúmeros boatos, uma continuação estranhamente nunca saiu do papel, afinal justificativas financeiras existem. O filme foi uma das maiores bilheterias do gênero em 2004, bombou nas videolocadoras e praticamente sustenta a programação dos canais pagos. A premissa da troca de perfis, ainda que um tanto batida, vez ou outra ainda gera algo divertido, que o diga nós brasileiros que temos Se Eu Fosse Você como exemplo. No filme em questão o problema é que o argumento é apenas uma desculpa para uma mal amarrada colcha de piadas repetitivas, tolas e de mau gosto. De qualquer forma, a popularidade do filme é incontestável, uma triste e ao mesmo tempo irônica realidade. A que ponto de imbecilidade chegamos? Quando começaram a brincar de tocar o terror com piadas intertextuais envolvendo sucessos do cinema os Wayans ainda tinham certa criatividade e contavam com a muleta de não precisarem sustentar conexões com a realidade, mas ao vestirem máscaras e perucas mal ajambradas para darem uma de As Patricinhas de Beverly Hills pisaram feio na bola. A farsa ridícula que tentam sustentar chega a irritar pelo insulto que representa à inteligência do espectador. A roupa de cisne claramente inspirada no figurino usado certa vez pela cantora Björk em uma festa do Oscar é literalmente o canto do cisne da produção. Lembram-se da comentada malha segunda pele? Pois é, quando adentram numa passarela na reta final usando este e outros trajes bizarros o falso tecido grita na tela e é impossível não se lembrar dos Trapalhões quando parodiavam mulheres. Sentiu o drama?

Comédia - 109 min - 2004

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