terça-feira, 15 de maio de 2012

O VESTIDO

NOTA 6,0

Embora com furos no
enredo e sem época bem
especificada, longa ganha
pontos com elenco afiado
O cinema nacional reconquistou definitivamente a confiança dos brasileiros a partir dos anos 2000 quando começaram a surgir alguns sucessos esporádicos, mas a consolidação veio mesmo entre 2003 e 2004 com a consagração internacional de Cidade de Deus e trabalhos como Olga e Carandiru que levaram milhões de pessoas às salas de exibições. É uma pena que só mesmo produções com uma grande campanha de marketing atraiam os espectadores, assim muitos filmes passam em brancas nuvens e chegam as lojas e locadoras da mesma forma. É da safra citada que pertence O Vestido, dirigido por Paulo Tiago, de Policarpo Quaresma – Herói do Brasil, e roteirizado pelo próprio em parceria com Haroldo Marinho Barbosa. Baseado no poema “Caso do Vestido”, um dos últimos escritos de Carlos Drummond de Andrade, a dupla teve bastante trabalho para transformar em uma história com começo, meio e fim os versos da linguagem poética. Críticas negativas certamente não faltam a este trabalho que na época teve pouca repercussão e que só ganhou um mínimo de destaque por um ou outro veículo de comunicação citar que a atriz Gabriela Duarte ganhou o prêmio de Melhor Atriz do Festival de Cinema Íbero-americano de Huelva, uma lembrança que gerou comentários maldosos por a intérprete na época ainda não ter nem mesmo seu trabalho em novelas reconhecido. Ela dá vida a protagonista Bárbara que só entra em cena após cerca de vinte minutos de projeção. Antes quem brilha é Ana Beatriz Nogueira como Ângela que começa a contar às filhas Ritinha (Luiza Gonçalves) e Clara (Livia Dabarian) uma história triste que aconteceu em um passado não muito distante envolvendo o marido, ela e um vestido que as meninas encontraram no porão de casa. Ela era uma mulher feliz, uma professora querida pelos alunos e vivia um casamento harmonioso com Ulisses (Leonardo Vieira), um homem honesto e dedicado à família que muda completamente seu comportamento e idéias com a chegada de Bárbara, uma jovem moderninha que vai ao interior de Minas Gerais para passar alguns dias com o companheiro Fausto (Daniel Dantas). Pouco a pouco ela vai se aproximando desta família tradicional a ponto de Ângela lhe considerar uma grande amiga e a presentear com um vestido que seu marido mandou fazer para ela e que julgou cair melhor na moça. Quando Ulisses a vê vestindo o tal traje, ele se encantada e se entrega ao poder de sedução de Bárbara. O vestido do título funciona como uma espécie de objeto amaldiçoado, como se despertasse a ira e a luxúria.

Ulisses aparentava estar contente com seu casamento, mas no fundo não aguentava mais a mesmice de sua vida e enfrentava problemas financeiros. Ele não consegue reprimir seus desejos e não demora a ceder, porém, Bárbara só aceita passar uma noite com ele caso a própria Ângela peça para ela fazer isso e admita ao marido que a idéia de casamento perfeito é pura ilusão, o que acarretaria o rompimento entre eles. Até aí provavelmente o público se identifique com a personagem traída, uma mulher simplória e até certo ponto ingênua, uma representante da mulher do povo enquanto sua algoz é o arquétipo da mulher liberal e da cidade grande. O segundo ato é marcado por mudança de ares e de tons enfocando a relação entre Bárbara e Ulisses que partem para outra cidade fazendo juras de amor e planos para mudarem de vida, mas as coisas não saem como planejadas. Se antes Gabriela e Vieira mostravam-se apáticos defendendo seus personagens, depois eles mostram a revolta que sentem por terem errado. O rapaz não consegue esquecer a esposa e a jovem se sente humilhada por não ter conquistado seu amor completamente e se entrega a loucura propiciada pelo alcoolismo. Um dos grandes problemas que apontam é quanto ao aspecto envelhecido deste trabalho. Não fica claro e há informações dispares a respeito da época em que a trama se passa. O texto original é datado de 1945 e tem gente que afirma que a narrativa do filme se concentra em meados da década seguinte enquanto há quem defenda a idéia da transposição para a contemporaneidade. Embora seja provável que as a grande maioria das cidades de interior ainda guardem muito da aura de antiguidade, tal dúvida se torna conflitante e não colabora totalmente para a compreensão do enredo por completo.  A julgar pelas roupas e por certo baile que ocorre como marco de divisão da trama, a hipótese da narrativa ser desenvolvida nos anos 50 é a mais coerente. Dessa forma, o aspecto envelhecido da obra torna-se justificável, embora no conjunto o longa pareça esteticamente um produto de um passado longínquo do cinema nacional. Por outro lado uma citação a uma canção de Caetano Veloso não caberia a época.
A sensação de algo envelhecido não se deve especialmente a melancolia das locações ou aos detalhes e objetos cênicos, mas sim a forma de filmar e aos diálogos bem diversos dos padrões do nosso cinema atual. O cineasta não inova em seus enquadramentos e tampouco na edição, utilizando cortes secos bem típicos de nossas antigas produções. Entretanto, o problema mais gritante talvez seja o texto em si e a forma como ele é trabalhado em cena. A intenção era fazer algo teatral e assumidamente melodramático, mas Thiago exagerou na dose, ao menos no primeiro ato que faz a apresentação dos personagens e conflitos. Os diálogos são muito certinhos, solenes e não soam naturais, mas o pior mesmo são as citações a nomes famosos do mundo das artes e da cultura o que acentua o tom artificial dos diálogos, afinal ninguém anda por aí com versos e prosas na ponta da língua. Licenças poéticas e criativas a parte, o amor brutal de Bárbara por Ulisses parece ter resquícios de obras de Nelson Rodrigues e traz algumas sutis reviravoltas que seguram bem a atenção do espectador com destaque para Gabriela Duarte que praticamente vive duas personagens quase opostas, chamando a atenção por despir-se da imagem de moça recatada que construiu com seus trabalhos em novelas até então, inclusive aceitando fazer cenas de nudez. Em linhas gerais, O Vestido é mais um título que enriquece a lista de produções nacionais que são cheias de boas intenções, mas se atropelam nos próprios objetivos e sofrem com as críticas negativas que se alastram com uma velocidade impressionante. A transição do poema para uma narrativa sólida, linguagens bem distintas, necessitou que os roteiristas fantasiassem um pouco mais do que o material original sugeria, assim ocasionando alguns furos que passam quase que despercebidos quando nos deixamos envolver pelo plot principal, embora as quase duas horas de duração trabalhem contra o sucesso do produto. Cerca de meia hora a menos seria benéfico e daria tempo suficiente para contar esta história que no fundo trabalha com o tema da insatisfação do ser humano. Todos querem viver o amor e a paixão, o tradicional e a novidade, mas dependendo dos caminhos que seguimos para tanto o feitiço volta contra o feiticeiro.
Drama - 121 min - 2003 

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