terça-feira, 19 de junho de 2018

DIVINOS SEGREDOS

NOTA 5,0

Apesar do elenco estelar, mescla
de drama e comédia derrapa
por trama extremamente feminina
e arrastada por flashbacks
Filmes estrelados por Sandra Bullock estão para as mulheres tal qual as ações do brucutu Vin Diesel estão para os homens, mas nem sempre seu nome encabeçando o elenco garante o sucesso. Ao menos não no Brasil. O drama com pitadas de humor Divinos Segredos passou em brancas nuvens por aqui, mas nos EUA foi um sucesso surpreendente. Em Hollywood é comum atrizes de meia idade e veteranas reclamarem da carência de bons papeis, mas aqui um seleto grupo feminino encontrou uma chance de ouro. Só faltou que a história equilibrasse melhor a dose de estrogênio. É simplesmente um filme feito por e para mulheres que não dá brechas para a plateia masculina, a não ser os homens mais sensíveis (homo ou héteros, tanto faz). Callie Khori, vencedora do Oscar pelo roteiro do longa símbolo do feminismo Thelma e Louise, então fazia sua estreia como diretora após um longo hiato na carreira, quando roteirizou apenas a comédia romântica O Poder do Amor protagonizada por Julia Roberts. Dá para perceber que ela sabe bem como agradar seu público-alvo e no filme em questão caprichou no elenco, mas talvez devesse também ter assumido as rédeas do texto. Roteirizado por Mark Andrews, baseado no romance homônimo de Rebecca Wells, o filme começa apresentando um grupo de amigas que na adolescência formaram uma irmandade e se autointitularam como as Irmãs Ya-Ya. Ao longo dos anos elas estabeleceram regras de convivência e mantiveram a amizade por toda a vida. Isso até que a relação ficou estremecida quando uma delas não gostou nada de ver as companheiras se metendo em um problema pessoal. Siddalee Walker (Bullock), ou simplesmente Sidda, há muitos anos se mudou com a cara e a coragem para Nova York a fim de tentar a carreira como dramaturga, mas o principal motivo era deixar a casa de Vivi (Elle Burstyn), sua instável mãe. Tudo corria bem até que certa vez a moça concede uma entrevista a uma famosa revista e acaba tendo suas palavras deturpadas pela jornalista, assim quando comenta sua relação com a mãe dá a entender que teve uma infância e juventude infeliz. Um balde de água fria cai em cima da matriarca ao ler a matéria e se elas já não tinham muito contato antes agora o rompimento seria inevitável.

Então a vida da teatróloga vira de cabeça para baixo, inclusive colocando em risco os seus planos de casamento com Connor (Angus Macfadyen), que pacientemente aguarda a sete anos que ela resolva seus traumas do passado e perca o medo de constituir uma família. O problema é que a própria Sidda não tem muito claro os motivos de sua repulsa pela mãe, como se tivesse bloqueado certas memórias, mas eis que as irmãs Ya-Ya entram em ação. Teensy (Fionnula Flanagan), Necie (Shirley Knight) e Caro (Maggie Smith) armam um plano para sequestrar a filha da amiga e levá-la para o interior onde sua mãe a criou e poderiam apresentar com mais riqueza de detalhes os motivos que fizeram Vivi aparentemente rejeitar a família no passado. A partir de um antigo álbum de fotos e recortes, Sidda então começa a descobrir coisas inimagináveis sobre sua mãe e a repensar essa relação e seus medos quanto a se casar e ter filhos. Narrado por meio de muitos flashbacks, esse é o grande problema da produção. É certo que a trama necessita deles, não haveria como explanar o passado apenas verbalmente ou com imagens estáticas, mas as idas e vindas no tempo carecem de ritmo, beiram a monotonia constantemente. Para o espectador manter a atenção ainda fica mais difícil porque nas cenas nostálgicas o único nome de destaque é o de Ashley Judd interpretando Vivi na juventude, assim fica complicado fazer associações entre as demais personagens com suas intérpretes na melhor idade e até mesmo para a compreensão dos acontecimentos. Em alguns momentos tudo fica muito confuso e já não sabemos mais as ordens das memórias, se tal flashback ocorreu antes ou depois do último apresentado. Parece que tudo é jogado na tela sem muita justificativa, já que no passado ou presente as ações se repetem, não são desenvolvidas de forma a chegar a algum lugar, a não ser é claro à previsível reconciliação de mãe e filha. Não é segredo algum que o final feliz está garantido, já que esse é o tipo de filme em que o importante é ver a trajetória dos personagens até chegarem nele, mas neste caso o caminho é bem desinteressante.

Nos flashbacks acompanhamos as integrantes da irmandade em diferentes situações que vivenciaram entre as décadas de 1950 e 1960, algumas divertidas, como quando decidem fazer um passeio de carro à noite semi-nuas e são flagradas pela polícia, mas a maioria das memórias são de cunho dramático e enfocam o relacionamento conturbado de Vivi com o marido e seus filhos. Contudo, há certo exagero na representação destas cenas nostálgicas, momentos que parecem que a mãe de Sidda no passado era uma pessoa e a do presente é completamente outra. Tudo bem, mudamos nossa personalidade ao longo da vida, mas a essência não. Como já dito, entre um flashback e outro, parece que há lacunas a serem preenchidas para justificar o futuro de mãe e filha. De qualquer forma, não parece que Khori tinha intenções de se aprofundar nesse relacionamento conturbado ao nível de Ingmar Bergman, por exemplo, que tem como uma de suas obras mais famosas, Sonata de Outono, um verdadeiro tratado sobre o assunto. A diretora, no caso, queria fazer apenas um filme com alma feminina e depositou suas fichas no talento e carisma do elenco. Bullock, verborrágica e neurótica como sempre, veste bem sua personagem, mas acaba perdendo brilho diante das veteranas que roubam a cena com a maneira natural que atuam e transparecem se divertir em cena. Divinos Segredos poderia ser um entretenimento bem melhor se reduzisse as viagens no tempo ou encontrasse uma maneira mais criativa de inserir tais lembranças, assim ganharia mais tempo a parte contemporânea do enredo, dando ainda mais espaço para seu elenco de peso brilhar. Para viverem as irmãs Ya-Ya é possível imaginar Judi Dench, Lily Tomlin, Glenn Close entre outras veteranas do cinema assumindo tais papeis. Burstyn e Smith talvez seriam intocáveis, mas não desmerecendo o trabalho da pouco conhecida Knight e de Flanagan, que certamente foi escolhida pela repercussão de seu papel fundamental no suspense Os Outros pouco tempo antes, talvez dois nomes mais fortes para compor o quarteto traria mais luz ao longa.  Em tempo: o longa foi um dos últimos trabalhos como ator do saudoso James Garner como Shep, o marido de Vivi.

Comédia - 116 min - 2002
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