quinta-feira, 2 de maio de 2013

O SOM DO CORAÇÃO

NOTA 7,0

Drama é uma eficiente
reunião de clichês adornados
por bela trilha sonora e
interpretações sinceras
É curioso como o público se comporta em relação aos títulos indicados a prêmios, principalmente ao Oscar. Há anos os títulos mais badalados da festa da Academia de Cinema de Hollywood não conquistam bilheterias e repercussões estarrecedoras, aliás, a maioria, incluindo os vencedores da categoria de Melhor Filme, é esquecida rapidamente. Na contramão deste desinteresse, algumas produções que concorrem em menos categorias, geralmente os prêmios “menores”, acabam alcançando resultados muito superiores, principalmente quando são representantes do gênero drama. O Som do Coração é um bom exemplo desta tendência. Apreciado pelo público, mas rejeitado pela maioria dos críticos por considerarem uma história repleta de clichês e desnecessária, o longa era um dos cavaleiros solitários do Oscar 2008. Concorrendo apenas ao prêmio de Melhor Canção, a produção não levou a estatueta, mas ainda assim saiu vitoriosa da premiação consagrando-se como a obra de maior e melhor repercussão entre os espectadores comuns daquela safra e até hoje é um dos títulos líderes de procura para locação e venda. Ele faz parte de um seleto grupo de filmes que todos os anos é ampliado com o lançamento de pelo menos mais um expoente que chega tímido às premiações, mas surpreende e se torna tão ou mais famoso que os grandes vencedores da temporada. A história é muito simples e não esconde o objetivo de querer emocionar o espectador do início ao fim, tanto é que o protagonista é uma criança, artifício infalível para tocar os corações das platéias. Evan (Freddie Highmore) foi criado em um orfanato e possui um dom especial para lidar com música que impressiona a todos. Tal habilidade está em sua genética. Ele é filho da violoncelista Lyla Novacek (Keri Russell) e do roqueiro Louis Connelly (Jonathan Rhys Meyers), porém, nunca os conheceu. O casal se apaixonou a primeira vista, tiveram uma bela noite de amor, mas logo em seguida o romance foi interrompido pelos pais da moça. Cada um seguiu seu caminho, mas jamais conseguiram se esquecer um do outro. Alguns meses depois da separação, Lyla deu a luz a um garoto, mas seu pai o entregou à adoção sem nem ao menos deixar a moça conhecer o filho dizendo que o bebê morreu no parto. Assim, a moça caiu em depressão e passou a apenas dar aulas de música enquanto longe dela seu grande amor, que não sabia da gravidez, também desistiu de tocar com sua banda

Evan nunca perdeu as esperanças de encontrar seus pais. Mesmo sem informações relevantes sobre eles, o garoto toma coragem e foge do abrigo em que vive para seguir rumo a Nova York. Na cidade grande e agitada ele acaba conhecendo Wizard (Robin Willians), ou simplesmente O Mago, um homem que vive de explorar o talento musical de menores e que decide investir neste seu novo achado. O garoto é rebatizado de August Rush para causar mais impacto e parece ter um futuro promissor na carreira musical, mas a música também será imprescindível para a sua vida pessoal afinal ela própria é que vai se encarregar de unir o destino desta criança com os de seus pais. Justamente pelo eminente final feliz indicado por situações previsíveis e esquemáticas, este filme não ganhou a atenção da crítica, mas no boca-a-boca fez sua fama fácil e rapidamente. Baseada em uma história de Paul Castro e Nick Castle, com roteiro do próprio Castle em pareceria com James V. Hart, obviamente este não é um drama feito para aqueles que gostam de quebrar a cabeça para compreender uma narrativa ou que apreciam acompanhar personagens em longos momentos de contemplação ou lamento. Simplesmente é uma obra assumidamente piegas feita para agradar os espectadores que gostam de filmes convencionais e buscam mensagens positivas neles, algo bem no estilo sessão da tarde. Por mais raso que seja o enredo e seu desenvolvimento, de certa forma é um trabalho que oferece um sopro de esperança para aqueles que estão entristecidos e obviamente é uma excelente desculpa para reunir a família em torno da TV e fortalecer estes laços. Um pouco mais de empenho na construção do roteiro para alinhavar as situações poderia ter elevado esta obra a um patamar mais confortável. As quase duas horas de duração são bem recheadas, sem o famoso "encher linguiça", mas é nítido que algumas passagens são rápidas demais, como o envolvimento relâmpago do jovem casal de músicos, e outras inverossímeis, como o fato de uma criança ser aceita em uma conceituada escola de música até chegar a ter a honra de reger uma orquestra. Mas esses são detalhes mínimos quando a atenção e o coração já foram fisgados, principalmente pela atuação sincera e vigorosa do menino prodígio Highmore que deixa transparecer em seus olhos claros o fascínio de seu personagem pelas melodias.

A diretora irlandesa Kirsten Sheridan não arrisca muito em seu segundo trabalho no comando de longas-metragens, mas o primeiro a ter distribuição mundial. Ela usa a câmera de maneira comum e em alguns momentos usa ângulos que se casam perfeitamente com os momentos mais estridentes da trilha sonora, esta sem dúvida bem empregada e responsável por momentos marcantes. As vezes temos até a impressão de que as cenas forma construídas em razão da existência das músicas tamanha a sintonia entre o aspecto visual e o sonoro da produção. É impossível não se lembrar do talentoso Rhys Meyers soltando a voz ao som de uma balada romântica ou se emocionar com uma garotinha cantando uma bela canção com o coral da igreja justamente na hora em que August está precisando de uma palavra de apoio para ter forças para ir atrás da realização do grande sonho de sua vida. Aliás, não menosprezando o trabalho dos atores, valendo um destaque especial para Robin Willians que aqui está menos caricato que de costume e até deixa no ar uma dúvida se ele é do bem ou do mal, o personagem principal deste longa é sem dúvida a música. Ela está presente todo o tempo e qualquer barulho por menor que seja é transformado em melodia. A crítica e os mais intelectuais podem dizer até hoje que O Som do Coração é piegas e totalmente esquecível, mas para a faixa de público a quem esta obra se destina é uma opção excelente, contando com romantismo, simplicidade e certa ingenuidade uma história que reforça a importância dos laços de amizade e familiares, mesmo que tais pessoas estejam distantes, e obviamente o quanto é preciso acreditar e lutar por nossos sonhos. Esta é a prova que uma sinopse envolvente, atores competentes e até mesmo uma direção um tanto convencional são os ingredientes suficientes para uma produção de sucesso, além é claro de ser mais um exemplo de trabalho que carrega a essência do cinema independente, porém, que dialoga perfeitamente também com o estilo comercial. A trama batida e manjada torna-se tão gostosa quanto uma receita que mesmo estando cansados de saber o sabor não resistimos em provar mais e mais. Se você é do tipo durão, que não dá o braço a torcer e foge de títulos melosos e com a palavra coração, permita-se a viver essa experiência que renova as esperanças de qualquer um. Aproveite e inspire-se para conquistar seus objetivos e repensar seu relacionamento com as pessoas que lhe cercam.

Drama - 113 min - 2007 - Dê sua opinião abaixo.

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