terça-feira, 20 de outubro de 2020

O CÉU É DE VERDADE


Nota 7,0 Talhado para emocionar, longa derrapa em sua mensagem de fé ao ficar em cima do muro


Há certa resistência de muita gente para assistir filmes de cunho religioso, de mensagens ligadas não apenas a esperança, mas principalmente fé. Contudo, não é preciso necessariamente acreditar na existência de Deus e tampouco na do Paraíso para compreender e se emocionar com a história contada em O Céu é de Verdade, dirigido por Randal Wallace adaptando o best-seller homônimo que vendeu milhões de exemplares por todo o mundo. Somos apresentados à Todd Burpo (Greg Kinnear), um pai de família que se desdobra em diversos empregos. Bombeiro, dono de um pequeno empreendimento e até treinador da equipe de luta greco-romana, ele se destaca principalmente como pastor de igreja. Sua esposa Sonja (Kelly Reilly) cuida da casa e dos filhos do casal, Cassie (Lane Styles) e o pequeno Colton (Connor Corum), além de ser a responsável pelo coral do templo. O clã leva uma vida modesta e tem várias dívidas, até porque a economia local não vai nada bem. As coisas pioram quando Todd tem sua perna fraturada num acidente e posteriormente ainda é diagnosticado com problemas renais. Tais situações o obrigam a se afastar de algumas atividades e assim os rendimentos da família caem, embora os problemas financeiros sejam expostos mais em diálogos do que visualmente no dia-a-dia dos Burpo. Eles inclusive conseguem realizar uma viagem para espairecer depois de tantas turbulências, mas na volta os dois filhos adoecem aparentemente por conta de uma virose. 

Cassie logo se recupera, mas Colton não melhora até descobrirem se tratar de uma grave apendicite, obrigando-o a passar por uma cirurgia de emergência na qual quase vem a falecer. Os devotos da igreja se unem em uma forte corrente de oração e eis que sem mais nem menos o garoto se recupera. É nesse momento que o longa chega a seu verdadeiro argumento. Colton conta que enquanto era operado sua alma saiu de seu corpo e ele viu todo o sofrimento dos pais naquela situação e que ainda foi ao céu onde encontrou Jesus Cristo, anjos e até parentes já falecidos que nunca conheceu, inclusive a irmãzinha que teria, mas que Sonja perdeu. O primeiro ato do filme é totalmente descartável. Os infortúnios financeiros e os problemas físicos de Todd servem apenas preencher tempo e tentarem uma conexão do público com a família destacada, mas são elementos que pouco agregam à espinha dorsal do enredo, salvo a ligação dos Burpo com a religião. Entretanto, eles não são mostrados como fanáticos religiosos, mas sim gente comum que vive sua fé sem radicalismos. É interessante que com os relatos do filho o pastor passa a questionar sua própria crença. Se prega a existência do Paraíso, por que duvidar que Colton de fato conheceu esse mundo além da vida terrena? Neste ponto a personagem Nancy (Margo Martindale), uma mulher sofrida que perdeu o filho em uma guerra, serve como contraponto às ideias de Todd, num misto de raiva e ao mesmo tempo culpa incutida pelos ensinamentos religiosos. 


Com sua crença abalada, a própria comunidade a qual pregava sermões começa a duvidar da confiabilidade do pastor, achando que ele inventou a história do filho a fim de lucrar com a exposição que ela lhe trouxe. Só aqui podemos ver alguma justificativa para o longo prólogo, porém, o gancho não é bem trabalhado. Wallace, que chegou a estudar um pouco sobre religião quando universitário, teria condições de realizar uma obra mais relevante sobre a fé e os questionamentos que ela inevitavelmente gera, mas parece se acovardar diante do material oferecido pelo livro escrito por Lynn Vincent baseado nos relatos do Todd Burpo da vida real. Não se discute o potencial de uma história tida como verídica envolvendo uma criança que vive uma experiência de quase morte e consegue falar com o próprio Jesus Cristo a quem já estava sendo doutrinado a louvar, tanto que o sucesso de vendas do livro já é o bastante para certificar o interesse do público. Quando tais histórias geram filmes, não há preocupação em realizar obras que gerem fortunas ou que tenham qualidades cinematográficas a serem ressaltadas, apenas alimentar uma indústria de nicho cuja atividade á autossustentável, ou seja, atingir os devotos já é o bastante para cobrir os custos das produções e o que  faturar a mais é lucro. No entanto, com a temática sendo adotada por grandes produtoras e estúdios e conseguindo nomes do cinemão comercial para os projetos, tais filmes agora deveriam buscar melhorias para atender ao público extra que estão conseguindo.

Wallace é roteirista do oscarizado Coração Valente e diretor da superprodução O Homem da Máscara de Ferro, mas seu trabalho neste projeto gospel não revela traços de um grande cineasta. Com ares de telefilme, a parte técnica é minuciosa em trabalhar elementos que despertem emoções como a trilha sonoro melosa incessante e a fotografia que usa e abusa de feixes de luz evocando a divindade e que também destaca a beleza do céu em seus enquadramentos. Por outro lado, o conteúdo do filme pode surpreender até mesmo o público cristão pela contradição que expõe. Como justificar que um pastor, alguém acostumado a pregar os escritos da Bíblia, passe a questionar sua fé justamente no momento que consegue uma suposta prova de que o Paraíso realmente existe, ainda mais descrito pelo filho tal e qual ele vendia em seus cultos? A partir daí fica evidente a fragilidade do roteiro adaptado pelo próprio Wallace em parceria com Chris Parker. A narrativa é incapaz de soar convincente até mesmo aos cristão, então que dirá aos que não são religiosos. O diretor se esforça para endossar o conteúdo que conquistou milhares de leitores buscando a compreensão do público quanto ao que levou os pais de Colton e outros personagens a acreditarem em sua experiência divina, mas não deixa de plantar a dúvida se os relatos do garoto não seriam devaneios com imagens já implícitas em sua memória por crescer em um ambiente religioso. 


O fato do garotinho encontrar a irmã que nem sabia que teria já joga a narrativa para outro campo e a inserção de alguns céticos, como a própria Sonja que prefere não discutir sobre as visões do filho caçula, deixam a trama desnorteada. O Céu é de Verdade acaba sendo recheado de acontecimentos supérfluos para esticar a trama desnecessariamente enquanto o tema principal não é desenvolvido com segurança. É um assunto bastante controverso e que naturalmente suscita discussões. Para alguns, acreditar no céu e o inferno é a forma como as religiões encontraram para obrigar as pessoas a andarem na linha e evitarem pecados. Já outros creem piamente que existe um lugar onde daremos continuidade a nossa existência na companhia dos entes e amigos queridos que já partiram. Infelizmente, o filme se atém apenas ao ponto de vista de Todd e a materialização dos relatos do garotinho acaba por tirar o encanto até mesmo dos apaixonados pelo livro que podem não ter imaginado o céu da mesma forma.

Drama - 99 min - 2014

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