quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A VIDA SECRETA DOS DENTISTAS

NOTA 6,5

Longa acompanha o cotidiano
de um casal que vive uma união
de fachada, uma situação que traz
consequências para toda família
Mais difícil que escrever um roteiro ou concluir suas filmagens só mesmo a etapa de batizar um projeto. Alguns filmes só ganham título após todas as fases de produção terem sido concluídas, quando já se tem a ideia concreta do que o produto será. Outros trabalhos só ganham seu pontapé inicial, inclusive a redação da história, quando já estão intitulados.  Dar nome a um filme é muito complicado e é curioso quando a junção de algumas simples palavras podem passar ao público sentidos diferenciados. A Vida Secreta dos Dentistas é um bom exemplo. Embora seja claramente uma obra alternativa pela penca de indicações e participações em festivais que ostenta, com certeza quem se arrisca a assistir a este trabalho guiando-se pelo título se decepciona, inclusive os próprios profissionais da área de odontologia que não resistem a dar uma conferida. Ele remete a muitos espectadores a ideia de comédia, mas o nome cai como uma luva para este drama conjugal que envolve obviamente os dentistas, seus assépticos ambientes de trabalho e uma temática universal, mas cujo ritmo lento e ausência de momentos arrebatadores acabam trabalhando contra a obra em termos comerciais. Baseado no romance “The Age of Grief”, de Jane Smiley, o roteiro de Craig Lucas acompanha o cotidiano do casal Dana (Hope Davis) e David Hurst (Campbell Scott) que não dividem apenas a cama, mas também trabalham juntos em um consultório dentário. Quando estão em casa eles dedicam atenção para as três filhas pequenas, porém, no trabalho mal se falam optando por respeitarem suas individualidades. E tempo para eles dois? Perecbe-, portanto, que a aparente limpeza da clínica pode esconder germes e bactérias. Dana é apaixonada por ópera e participa do coro de uma produção teatral e em breve irá fazer uma apresentação. No dia do espetáculo, David encontra motivos para desconfiar que sua mulher o traia e passa a perceber que ela tenta se esquivar constantemente da família e do trabalho, provavelmente para poder ter seus encontros com o amante. Ao contrário da reação da maioria dos maridos traídos, ele resolve levar toda a situação com panos quentes, mas sem tirar os olhos de cima da esposa, chegando até mesmo a ter visões dela tendo relacionamentos com outros homens no próprio consultório. Todavia, a ruptura da família parece eminente, mas um problema inesperado de saúde que atinge a todos os membros pode uni-la novamente.

Uma boa sacada do roteiro, embora usada além da conta, é a introdução de um personagem extra para bagunçar ainda mais a relação dos Hursts. Em determinado momento Dave começa a sofrer alucinações e sua imaginação acaba sendo materializada em forma de um sarcástico alter ego, Slater (Denis Leary), que surge primeiramente como um delírio enquanto ele voltava para casa após o trabalho. Depois tal aparição começa a se tornar constante aparecendo como um paciente que acaba emitindo comentários cheios de veneno a respeito do cotidiano destes dentistas e dando conselhos duvidosos para tentar ajudar Dave a lidar com a esposa, um papel semelhante ao daquele diabinho que aparece de repente para tentar o inocente, mas aqui disfarçado de conselheiro amoroso. Filmes com pretensões de serem reconhecidos como obras alternativas, ainda que busquem alguma comunicação com as plateias mais populares, e que mantenham o foco das atenções em pequenas situações do cotidiano de seus personagens não precisam necessariamente apresentar um tradicional final feliz ou então podem apostar em uma felicidade momentânea. É por esse viés que esta obra se baseia, apresentando apenas um fragmento, uma etapa da vida de um casal de dentistas que passa por dificuldades no relacionamento, algo comum após certo tempo de união. Para justificar a trama, fatos comprometedores vão surgindo para aumentar as desconfianças do marido a respeito da traição da esposa, mas a própria vida se encarrega de intervir de certa forma para unir o casal novamente e consequentemente a família. Pela opção de Dave em não falar sobre suas desconfianças e não concordar com o comportamento leviano de Dana, ele acaba sem querer alimentando uma união de fachada que não faz apenas mal a ele ou a esposa, mas atinge em cheio também as filhas. A tensão psicológica e emocional que se instala no seio desta família acaba evoluindo para um quadro de doença física. Pouco a pouco todos os membros do clã começam a sentir enjôos, dores no corpo e distúrbios intestinais, mas o diagnóstico do médico não aponta um resultado conclusivo. As suspeitas são de que tais sintomas sejam manifestações somáticas provocadas por nervosismo em excesso. Só por este gancho, que reflete muito dos malefícios dos novos tempos em que manter as aparências parece uma regra para se viver bem perante a sociedade, já vale uma conferida nesta obra.

Discípulo do famoso Robert Altman, o cineasta Alan Rudolph, de À Beira da Louura, constrói aqui uma investigação da vida de uma família americana de classe média, explorando o trabalho, o convívio com a família e centralizando as dúvidas e conflitos na pele do personagem de Scott que está em crise de meia idade, acha seu emprego enfadonho e talvez não tenha percebido que se a esposa o trai é porque ele próprio não se dedica ao casamento, o velho problema pelo qual a maior parte dos casais passa com a chegada dos filhos. No meio desse turbilhão de emoções, que ao mesmo tempo em que capta as emoções do espectador também pode incomodar, o diretor tenta refrescar as coisas através do personagem de Leary responsável por bons e divertidos palpites, um interessante recurso narrativo usado, por exemplo, por Woody Allen em Sonhos de Um Sedutor. O protagonista leva a situação da dúvida da traição cozinhando em fogo brando, como se esperasse a esposa tomar a iniciativa de acabar ou não com o relacionamento deles. Só mesmo quando as coisas se tornam mais explícitas sua conduta muda, uma metáfora implícita aqui, como aquele sujeito que só procura os serviços do dentista em último caso. Aliás, tudo aqui pode ser visto através de um ângulo odontológico, o que já fica explícito pela abertura que faz uma explanação sobre a composição das estruturas dentárias explicitando o velho ditado que diz que você é o que você come, mas acrescentando ainda que muito da personalidade de um indivíduo pode ser deduzido através dos seus cuidado para manter a saúde bucal. A união dos protagonistas é tão artificial quanto a sensação que temos ao escovar os dentes com um creme dental que promete clareamento instantâneo. As cáries são representadas pelos desentendimentos velados do casal. As tentativas para colocar nos eixos a vida conjugal neste caso se arrastam por um bom tempo, assim como um tratamento dentário. Por fim, fica para os pacientes a decisão se levam os procedimentos até o fim ou se vão preferir transformar uma dor aguda em um problema crônico. A Vida Secreta dos Dentistas é uma obra singular, sensível e com um roteiro linear e sem surpresas, mas a condução do tema foi bem explorada e de forma muito digna, sem recorrer aos clichês dos filmes sobre traição, seguindo a risca a tradição dos longas que já nascem irremediavelmente impregnados de aura alternativa. Todavia faltam elementos para tornar esta obra um produto acima do regular. A passividade do casal principal em alguns momentos talvez seja o grande problema. De qualquer forma, tal qual uma ida ao dentista, esta é um opção que deixa você com uma sensação diferenciada ao subirem os créditos finais. Boa ou ruim, tudo depende da sensibilidade de cada um.

Drama - 101 min - 2002 - Dê sua opinião abaixo.

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