sexta-feira, 19 de abril de 2013

NAS PROFUNDEZAS DO MAR SEM FIM

NOTA 7,0

Clichê da família em crise por
conta do sumiço de um membro
ganha fôlego com exploração das
dificuldades da fase de readaptação
Família feliz tem suas estruturas abaladas quando um de seus três filhos pequenos some e precisa se adaptar a nova realidade. Por essa brevíssima descrição muita gente não se animaria a ver um filme do tipo, diga-se de passagem, um tanto clichê e ainda mais se for um típico drama familiar hollywoodiano. É previsível que a choradeira é inevitável ou na melhor e mais açucarada das hipóteses tal grupo voltaria a viver feliz com a volta repentina do membro desaparecido. Existem muitos exemplos de obras cuja ideia principal pode ser sintetizada como na frase que abre este texto, mas outras como Nas Profundezas do Mar Sem Fim procuram dar um passinho adiante na discussão da reestruturação familiar. Não apenas discute-se como lidar com a dor da perda, como também agir na hipótese de um final feliz, mas que pode não ser tão alegre para todos. Vamos por partes. A trama roteirizada pelo ex-crítico de cinema Stephen Schiff começa em 1988 quando a fotógrafa Beth Cappadora (Michelle Pfeiffer) decide levar seus três filhos pequenos junto a uma viagem para Chicago onde ela participará de uma reunião de ex-colegas de escola. No saguão do hotel em que se hospeda ela se distrai por um minuto apenas e quando se dá conta perdeu de vista seu filho do meio, Ben (Michael McElroy), então com apenas três anos de idade. A tranquilidade inicial desta mãe pouco a pouco vai dando lugar aos sentimentos de desespero e de culpa, ainda mais quando as buscas comandadas pela investigadora Candy Bliss (Whoopi Goldberg) revelam-se fracassadas. Após algumas semanas esperando por qualquer novidade, Beth retorna para sua casa com o marido Pat (Treat Williams) e com a difícil tarefa de encarar a triste realidade. Ela culpa-se pela negligência, decide parar de trabalhar e sem perceber passa a punir o marido e os outros filhos, o adolescente Vincent (Jonathan Jackson) e a garota Kerry (Alexa Veja), já que passa a tratar a família com displicência. Contudo, Beth não está completamente fora de seu juízo perfeito. Ela discute com o marido afirmando que não quer engravidar novamente, pois uma nova criança jamais substituiria Ben, e se irrita com um familiar que compra um presente de Natal para o garoto sumido como se fosse uma forma de alimentar as expectativas de sua mãe que um dia ele voltaria. Ela está totalmente cética quanto a isso.

Nove anos se passam e apesar de aparentemente recuperados do episódio o sofrimento desta mãe é compartilhado de maneira diferenciada, mas não menos dolorosa, pelo marido que procura segurar as rédeas de seu clã enquanto guarda para si mesmo a culpa de não ter os acompanhado na fatídica viagem, e também pelo filho mais velho que se sente igualmente responsável pelo sumiço já que deveria ter ficado de olho no irmão. Já Kerry não demonstra preocupação ou arrependimento afinal era um bebê quando Ben sumiu, não chegou a criar laços afetivos com ele, mas é graças a ela que um verdadeiro milagre é revelado. Certo dia um garoto bate na porta da família Cappadora oferecendo-se para cortar a grama do jardim. Logo que abre a porta Beth leva um grande susto. O menino é extremamente semelhante ao retrato que ela tem do filho segundo as projeções feitas pelos investigadores sobre como Ben estaria naquele momento, aos doze anos de idade. Imediatamente ela começa a querer saber mais sobre o menino e Kerry diz que o já viu em sua escola. Depois é descoberto que ele se chama Sam Karras (Ryan Merriman) e vive a poucos quarteirões da casa de Beth que recorre a Candy para ajudá-la a entender o que está acontecendo. Não demora muito e fica comprovado que Ben e Sam são a mesma pessoa e assim uma ordem judicial exige que ele seja afastado do convívio com o pai adotivo, George (John Kapelos), todavia este homem não é um criminoso. O garoto foi sequestrado a mando de sua futura companheira que sofria de desequilíbrios mentais, mas quando eles se uniram ela já estava com a criança e o convenceu de que era seu filho legítimo e assim Ben acabou sendo criado em um ambiente amoroso e saudável, mesmo quando sua sequestradora veio a falecer. Todavia, ainda que com esse quadro favorável, sua família legítima ganha o direito de abrigá-lo. Contar tudo isso não é estragar surpresa alguma já que o grande motivo deste filme existir revela-se na fase em que estranhos passam a conviver diariamente. Apesar da alegria de Beth, Pat e Kerry, e o mau humor típico juvenil de Vincent, é uma tarefa difícil se adaptar a rotina de um novo membro do clã cujos hábitos, experiências e sentimentos estão atrelados a uma outra família. As mesmas dificuldades são sentidas por Ben que se esforça em se dar bem com seus parentes originais, mas de qualquer maneira George é uma pessoa que não pode ser simplesmente cortada de sua vida por uma ordem do juiz e fatalmente chegará uma hora que a saudade falará mais alto. Infelizmente esse problema de como lidar com a relação de filho e pai adotivo é mal explorada, assim como a prestação de serviços de Candy não se mostra tão eficiente. A personagem não tem força na trama, aparecendo apenas em situações pontuais e proclamando frases descartáveis em sua maioria. Por outro lado, a rivalidade entre os irmãos é bem desenvolvida, deixando claro que o problema de Vincent não é diretamente com Ben, mas sim com seu próprio sentimento de inferioridade, por acreditar que ele está sempre em segundo plano para os pais.

Adaptado do romance homônimo de Jacquelyn Mitchard, por sua vez baseado em fatos reais, este drama não nega sua veia lacrimogênea e aposta em um roteiro esquemático e com ingredientes testados e aprovados a exaustão. Filmes que lidam com temáticas familiares costumam agradar grandes demandas, ainda mais quando crianças estão no centro das atenções, mas certamente não faltam pessoas para condenar a obra pelo seu sentimentalismo exagerado e que automaticamente fecham os olhos para cenas tocantes e contundentes que fazem toda a diferença no resultado final. Por exemplo, apresentar Vincent, então uma criança de apenas sete anos, acordando no meio da noite para dar mamadeira a irmãzinha ou desesperado para interromper uma discussão acalorada dos pais não são cenas gratuitas para emocionar facilmente, elas estão inseridas perfeitamente dentro de um contexto. A intenção é mostrar que Beth e Pat sem se darem conta estão prestes a perder de certa forma outro filho já que o primogênito deles sente-se renegado pelos próprios pais e sobrecarregado de tarefas. Terceiro e último filme do cineasta Ulu Grosbard, que veio a falecer em 2012, o longa não segue a risca o texto do livro. Apesar de bem realizada, sensível e com grandes cenas de Pfeiffer alternando momentos de melancolia e desespero, a parte inicial é bem resumida já que corresponde ao trivial que uma produção do tipo pede. Como já dito, o pulo do gato chega com a passagem de tempo inserida que nos faz enxergar a temática com outros olhos. O longa respeita a inteligência intelectual e emocional do espectador esquivando-se dos clichês, mostrando que nem tudo são flores. Os Cappadora sonharam por anos e anos com o reencontro com o membro desaparecido, mas quando o desejo é realizado eles percebem que as coisas não são tão fáceis. Cada um deles tem um sentimento quanto a volta do menino, inclusive o próprio garoto em relação a tal situação. O Ben idealizado por seus pais não existe mais. Quem está convivendo com eles é Sam que não carrega consigo lembrança alguma de sua anterior e breve passagem com sua família verdadeira. Seria correto fazer tudo que fosse possível para que o garoto virasse o filho dos sonhos do casal, mas no fundo ele se sentir infeliz? A opção de mostrar o lado negativo deste reencontro, ver o outro lado da moeda, é que faz com que Nas Profundezas do Mar Sem Fim seja um trabalho um pouco acima da média para seus padrões, mas ainda assim é inegável que ele tem problemas concentrados na narrativa que em alguns momentos parece apressada ou superficial, mas tais defeitos diminuem razoavelmente quando nos deparamos com uma cena tão bonita quanto a que Ben ensina seus pais a dança grega que aprendeu com seu pai adotivo. E o final deve surpreender por sua veracidade e naturalidade.

Drama - 105 min - 1999 

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