segunda-feira, 8 de agosto de 2016

EU TE AMO, CARA

NOTA 7,5

Embora previsível, comédia
ganha pontos colocando os homens em
destaque, discutindo e fazendo graça
com os problemas dos jovens adultos
As comédias românticas há décadas repetem fórmulas manjadas e focam a atenção em personagens femininos estereotipados, relegando aos homens papéis de meros coadjuvantes. Eu Te Amo, Cara se destaca nesta seara por justamente colocar o sexo masculino em destaque, embora não escape da estrutura tradicional do gênero: primeiro encontro, pico da paixão, separação e reconciliação, porém, tudo adaptado à relação de dois brothers e sem o tradicional beijo dos protagonistas no final. O filme não aborda uma temática homossexual, ainda que por vezes resvale no assunto. Na verdade, a fita soa mais como uma exaltação ao sentimento de amizade. O jovem agente imobiliário Peter Klaven (Paul Rudd) está prestes a dar um importante passo em sua vida. Ele acaba de propor casamento à Zooey (Rashida Jones), com quem já vive uma união estável há alguns anos. Tudo parecia perfeito, mesmo com as dificuldades profissionais, mas quando o rapaz escuta por acaso uma conversa da namorada com as amigas um grande vazio o pega de surpresa. Ele se dá conta de que não tem nenhum amigo para compartilhar a novidade, muito menos para convidar para ser seu padrinho. Mais preocupado em colecionar namoradas, engatando uma paquera atrás da outra, e depois sendo fiel à mulher que acredita ser seu par ideal, agora lhe caiu a ficha que de certa forma perdeu parte de sua juventude não dispensando tempo e tampouco vontade de cultivar amizades. Sem lembranças de uma noitada de bebedeira ou de se reunir com a galera para ver um filme ou o futebol pela TV, suas preocupações não são exatamente sobre o que deixou de experimentar e sim o receio de ser apontado como um esquisitão. Desesperado, Klaven decide pedir ajuda à Robbie (Andy Samberg), seu irmão gay que trabalha como instrutor em uma academia. Como conhece muita gente certamente ele lhe arranjaria algum amigo, mas o corretor de imóveis acaba participando de uma série de encontros fracassados, desde imbróglios marcados pela internet, passando por uma vexatória noite com um grupo de machos convictos até o óbvio jantar com um homossexual que desconhece as reais intenções do jovem.

A graça é justamente mostrar um homem à procura da companha de outro cara, porém, não basta rolar simpatia. Mesmo para amizade tem que ser um lance no estilo alma gêmea e Klaven após uma incessante e frustrada jornada de buscas vai encontra-lo como caído dos céus em seu trabalho. Num dia de visitação à mansão do ator Lou Ferrigno (cuja carreira ficou estagnada atrelada aos antigos seriado e filmes do incrível Hulk), a chance de finalmente ganhar reconhecimento na empresa caso a vendesse, o corretor conhece oportunamente Sydney Fife (Jason Segel), um sujeito grandalhão, desengonçado, despachado, enfim um perfil completamente oposto ao seu, mas que talvez fosse da maneira como ele sempre quis ser. Ocupando seu tempo com paqueras, amigos e passeando com o cachorro, o bonachão carrega cartões de visitas personalizados só para fazer tipo, mesmo assim Klaven acredita que encontrou o parceiro perfeito não só para ser seu padrinho, mas também para ajudá-lo a recobrar alguns momentos da juventude que desperdiçou. Abandonar o trabalho no meio do expediente, passar a tarde ensaiando músicas como se fosse um colegial, conversar abertamente sobre sexo e levar o tal brother à tiracolo até mesmo em passeios com a noiva são algumas das situações que passam a fazer parte da rotina do corretor, o que obviamente deixa Zooey enciumada. É interessante notar que Klaven representaria o perfil do homem que a sociedade considera ideal enquanto Fife bate de frente com as convenções e vive com a liberdade que todo rapaz certinho almeja. Todavia, quando o grude dos caras põe em risco o casamento então acontece o citado rompimento típico do gênero. E a briga não é entre Klaven e a namorada e sim com seu parceiro de farras, o que acarretará para ambos um breve período de deprê que os força a repensar o tipo de amizade que levavam. Como manda a cartilha é claro que o final feliz do protagonista está garantido com sua noiva, embora aqui ela seja apenas um detalhe na festa de casamento. É o padrinho quem acaba virando o centro das atenções no inerente momento de reatar os laços com o amigo de pouca data, mas que parece de infância.

Dar uma cara nova, ainda que de forma rasteira, é o grande trunfo do roteiro de Larry Levin, de Dr. Dolittle, e de John Hamburg, de Quero Ficar com Polly, este último também assinando a direção. O elenco feminino desta vez é usado quase como figuração e o núcleo masculino domina a cena, com destaque também para os coadjuvantes que mesmo com cenas rápidas são de suma importância para garantir a validade e qualidade das piadas que exalam testosterona. O enredo também reserva espaço para papos mais sérios a respeito das dificuldades da transição da juventude para a vida adulta. O resultado surpreende pelo realismo e naturalidade com que a trama é desenvolvida, muito por conta da excelente sintonia dos protagonistas cujos intérpretes passam mesmo a impressão de serem amigos de longa data. Eles já haviam trabalhado juntos em Ligeiramente Grávidos e Ressaca de Amor, que assim como o filme em questão fazem parte de uma vertente do humor que ganhou força nos últimos anos. Voltadas ao público masculino, dando voz aos marmanjos de 30 a 40 anos que tem consciência da vida adulta, mas muitos ainda vivem com um pé na adolescência, tais comédias não se envergonham de investir em piadas escatológicas (vômitos, flatulências e por aí vai), contudo, sempre buscam deixar alguma mensagem altruísta. Klaven e Fife no fundo são sensíveis e carentes, mas escondem isso vestindo a carapuça de pegadores. No entanto, as companhias femininas não bastam. Para se sentirem completos necessitam de alguém do mesmo sexo para trocar confidências e fazer programas típicos do universo masculino, levando adiante pensamentos antiquados certamente ensinados por seus pais e avós. Nos últimos anos essa forte relação de amizade entre homens sem interesse sexual ganhou até a alcunha de bromance, embora o termo também já faça parte do vocabulário homossexual para rotular um outro tipo de envolvimento, que não é o caso dos protagonistas. Os gays da trama, embora pouco apareçam, deixam bem claro em seus comportamentos as diferenças para os héteros parceiros, mas é claro que o roteiro não deixa de tirar partido de eventuais mal-entendidos quando os “opostos” se encontram. Conseguindo fácil identificação com a plateia masculina, mas sem excluir a feminina, embora Zooey seja tão insossa que até Fife questiona o noivo o porquê de querer se casar com ela, Eu te Amo, Cara é uma agradável surpresa que não subestima a inteligência do espectador e que trata de um tema universal e atemporal. Um bom exemplar das comédias de machinhos.

Comédia - 105 min - 2009

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