segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

A GAROTA IDEAL


Nota 8,5 Perturbado, rapaz se apaixona por boneca e mobiliza sua cidade em prol de seu bem-estar


Para quem assistiu Em Pé de Guerra, comédia besteirol com Billy Bob Thornton e que coloca Susan Sarandon em um papel vexatório para seu potencial, é difícil acreditar que seu diretor havia debutado no cinema poucos meses antes com o infinitamente superior e carismático A Garota Ideal. Craig Gillespie parecia muito mais inspirado em sua estreia para contar a história de Lars Lindstrom (Ryan Gosling), um rapaz comum que vive em uma gélida cidadezinha no interior dos EUA. Extremamente tímido e introvertido, ele mora na garagem da casa que fora de seus pais onde agora vive seu irmão mais velho Gus (Paul Schneider) com a esposa grávida Karin (Emily Mortimer). Seu dia-a-dia é bastante metódico, resumido a idas e vindas da casa para o trabalho, com exceção dos domingos quando não falta às missas, e sempre munido de um cobertorzinho de quando era criança adornando seu pescoço. Cansado da solidão, certa dia ele conhece uma garota pela internet e decide convidá-la para viver com ele, notícia que anima seus familiares, contudo, as coisas não são bem como eles esperavam.
 
Quando a leva para jantar e conhecer seu irmão e cunhada, a surpresa é que Bianca na realidade é uma boneca de plástico em tamanho natural e moldada o mais próximo possível de uma mulher de verdade, incluindo a existência de genitália. Detalhe, a companheira já vem de fábrica com todo um histórico de vida próprio. Ela é uma missionária brasileira defensora da preservação da virgindade antes do casamento, apesar de certo quê de sensualidade, e por isso deverá ficar hospedada na casa de Gus para evitar que o recente casal caia em tentações antes de subir ao altar. Preocupado com o estado de saúde mental do rapaz, que nunca foi normal, mas parece ter piorado com o medo de ser abandonado agora que um novo membro da família está prestes a nascer, seu irmão decide levá-lo para se consultar com a Dra. Dagmar (Patricia Clarkson), uma psicóloga que acredita que Lars encontrou apenas uma forma atípica para lidar com suas dores e receios, assim sugere à família tolerar a farsa tratando Bianca como uma pessoa de verdade enquanto ela tenta ajuda-lo com visitas semanais a seu consultório sempre trazendo a namorada a tiracolo. O que poderia ser considerado perversão, já que bonecas do tipo são associadas a instrumentos para saciar necessidades sexuais, acaba sendo compreendida positivamente por todos na pequena cidade que também passam a tratar Bianca como uma pessoa real. 


O argumento que tinha tudo para descambar para o humor pastelão e até mesmo grotesco com o protagonista descobrindo e tirando proveito da finalidade superficial de sua companheira, acaba fugindo do lugar comum e surpreendendo ao abordar de forma leve e divertida o lado dramático da situação. Mesmo com a boa vontade de todos engajados para gerar condições de vida melhores para Lars, até quando o próprio aguentaria levar tal fantasia adiante? Seria apenas uma ação paliativa para ter alguns momentos felizes antes da insanidade lhe tomar conta ou a boneca plástica poderia ser a solução definitiva para seu quadro de aversão social? Essas dúvidas preservam a atenção do espetador que fica curioso como será o desfecho dessa excêntrica história de amor, méritos do sensível e ao mesmo tempo complexo texto de Nancy Oliver, então estreando como roteirista. A trama traz certo frescor ao abordar as desventuras de um protagonista problemático sem fazer críticas, rotulá-lo como um coitadinho e tampouco humilhá-lo. O brilhantismo do enredo está na exaltação da solidariedade sem ser piegas. Parentes, amigos e até mesmo desconhecidos compreendem a situação e aguardam pacientemente o momento em que o jovem irá despertar da ilusão estando preparados para lhe oferecer suporte com o possível choque que vivenciaria. Ninguém tem coragem de lhe trazer à força para a realidade, nem mesmo Gus, embora demonstre diversas vezes incômodo ao ter que fazer refeições com a boneca o encarando ou fingir preocupação quando ela supostamente fica doente.

Para se divertir com a produção o espectador deve ter sensibilidade para comprar a ideia de que toda uma cidade compactuaria com uma farsa com a exclusiva finalidade de compreender o alguém diferente. É como um conto fantasioso, mas dotado de uma mensagem valiosa que merece ser absorvida em tempos em que o individualismo é tão onipresente. A escalação de Gosling como protagonista sem dúvida ajuda a ampliar a sensibilidade já contida no texto. Indicado pelo papel a diversos prêmios, mas esnobado pelo Oscar, o ator evita em sua composição repetir clichês já vistos em outras interpretações de personagem mentalmente perturbados, assim não é difícil acreditarmos piamente no amor que Lars sente pela boneca ignorando totalmente que os atos e falas dela só mesmo em sua cabeça ganham vida, como o fato de ele próprio ter que alimentar a companheira, mas enxerga-la à mesa compartilhando das refeições e interagindo com outras pessoas. Contudo, felizmente Gillespie não usa o batido recurso de realmente colocar uma mulher de carne e osso para explicitar as visões do rapaz. Tudo que Bianca faz ou conversa fica restrito à imaginação de Lars que faz a ponte entre a namorada e os outros personagens garantindo momentos divertidos pela ingenuidade que exalam. 


É muito interessante como pouco a pouco a boneca deixa de ser um objeto estranho à ação e passa na verdade a comandá-la. Os responsáveis por tal façanha são os próprios coadjuvantes que na tentativa de serem os mais simpáticos possíveis à causa acabam agregando novas características a ela a ponto de o próprio Lars estranhar o comportamento da namorada que vai ficando cada vez mais distante do perfil que idealizou. É quando ele começa a repensar seu relacionamento, o que pode significar uma piora de sua condição pelo sofrimento ou quem sabe uma resposta positiva, o estopim para voltar à realidade. A Garota Ideal é uma pequena joia com pegada de produção independente, mas que consegue dialogar com os mais variados tipos de público graças a leveza e delicadeza com que é tratado um tema no fundo bastante preocupante. Quem começa assistir com um pé atrás certamente chega ao final comovido e torcendo por um final feliz. 

Drama - 106 min - 2007

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