sexta-feira, 26 de agosto de 2016

VOCÊ É O PRÓXIMO

NOTA 9,0

Terror surpreende com cenas
sádicas e violentas aliadas a um
texto que, embora não guarde surpresas,
deixa o espectador em tensão constante
Se em décadas passadas John Carpenter, de A Bruma Assassina, e Wes Craven, de Pânico, eram sinônimos de terror, agora é o momento de passar o bastão para outros. James Wan, de Invocação do Mal, é “o cara” quando o assunto é meter medo, mas correndo por fora temos também Adam Wingard... Quem? Realmente seu nome ainda não tem o poder de atrair público aos cinemas, mas já tem sua turminha de fãs virtuais. Com um ritmo de trabalho acelerado, suas produções de baixo orçamento e calcadas em violência e realismo certamente fariam sucesso caso o mercado de locação estivesse em voga, assim como bombam entre os adeptos de download e assistir online. O ABC da Morte e V/H/S são alguns dos longas lacradores que lançou, mas que para nós brasileiros só se tornaram conhecidos pela internet. Enquanto Wan tem o respaldo de grandes produtoras e distribuidoras a seu favor, Wingard conta com a sorte do boca-a-boca do público. De olho nesses sucessos paralelos, Você é o Próximo acabou se tornando uma experiência, ainda que tímida, para ver a repercussão do trabalho do diretor em circuito comercial. A trama gira em torno da família Davison que vai um passar um fim de semana em uma casa de campo para comemorar o aniversário de casamento dos patriarcas Paul (Rob Moran) e Aubrey (Barbara Crampton). O primeiro convidado a chegar é Crispian (A. J. Bowen) que traz a namorada Erin (Shami Vinson), uma tímida e doce ex-aluna sua. Frustrado com os rumos de sua vida, ele é o tipo que almeja demais, porém, não é destemido e inveja seu irmão mais velho Drake (Joe Swanberg), considerado o orgulho da família com um emprego estável e já formando sua própria família com Kelly (Sarah Myers), esta que no fundo esconde sua infelicidade. Já Felix (Nicholas Tucci) seria a ovelha negra do grupo, desajustado, misterioso e que se relaciona com Zee (Wendy Glenn), uma companheira tão excêntrica quanto ele. Por fim, a caçula Aimée (Amy Seimetz) é o xodó de todos, mas não deixa de ter um problema a tiracolo visto que seu namorado Tariq (Ti West) é um diretor de cinema incompreendido. Os vinte minutos iniciais que servem para apresentar tais personagens são pontuados por pistas do que está por vir, podendo até tornar-se óbvio o mistério antes mesmo das ameaças surgirem, mas nada que desmereça a produção. O negócio aqui é suspense, violência e sangue, muito sangue!

Se o protocolo da educação pede para manter as aparências, o reencontro da família tenta (com dificuldades) seguir o padrão, mas quando chega a hora do jantar o clima de festa cai totalmente por terra ao ser interrompido por conta de antigas rivalidades e mal-entendidos que vêm à tona, principalmente por conta de Drake que é provocador e não perde a chance de ficar calado. No entanto, quando a discussão está em seu clímax todos são surpreendidos por uma janela que é quebrada por uma flecha arremessada do lado de fora da casa. A partir deste momento o clã passa a ser atormentado e literalmente dilacerado por um grupo de psicopatas usando sugestivas máscaras de animais. O tigre, o cordeiro e a raposa comumente são alvos de caça, mas aqui invertem o jogo e são os caçadores. O clã desconhece a razão para ser vítima do ataque e os feridos e os mortos vão surgindo em velocidade recorde, porém, Erin surpreende com a forma racional que lida com a situação. Humilde, ela não consegue esconder o desconforto ao conhecer os pais do namorado rico, ainda mais percebendo que a sogra temperamental não faz a menor questão de disfarçar que não gostou dela. No entanto, sem ter como pedir socorro por telefone com as linhas bloqueadas e sem vizinhos por perto (preste atenção na introdução), a garota mostra sua superioridade e coragem que até o namorado desconhecia e lidera um plano de ataque aos invasores. A personagem é o grande destaque da produção invertendo expectativas. Ela seria o tipo perfeito para ser a mocinha histérica cuja participação se resumiria a gritos, fugas e talvez até uma cena de nudez gratuita, mas sua determinação em sobreviver e lutar pela vida de pessoas que mal conhece criam vínculo com o espectador, fazendo com que até deixemos de questionar como tudo parece estar a seu favor quando bola seus planos mirabolantes. Tudo bem, ela explica que teve uma infância sofrida, que precisou aprender a se defender, mas vamos combinar que é muita sorte (para ela) que um dos bandidos finque o pé em um prego estrategicamente posicionado em uma madeira. Que dirá então ter um liquidificador à mão para literalmente estraçalhar uma cabeça!

A premissa pode nos fazer lembrar de produções como Uma Noite de Crime e Os Estranhos, mas a trama escrita por Simon Barrett não se preocupa apenas em exibir violência gratuita ou se prende ao suspense psicológico. A ideia era buscar realismo. Todos os dias casos bizarros de assassinatos viram manchetes em jornais e nos EUA histórias de massacres é o que não faltam. Se já é assustador quando ocorrem por conta de fatalidades, como não se chocar quando toda uma família é trucidada estrategicamente? O que eleva a produção, fora os requintes de crueldade extrema, é que ela não fica refém das cenas de morte e tortura. Pouco a pouco alguns personagens vão se revelando interessantíssimos e mesmo quando montamos o quebra-cabeças ainda na metade do filme ficamos intrigados para ver como tudo isso irá acabar. O gênero terror é movido por tendências e já tivemos o auge dos “slashers movies”, aqueles dos mascarados indestrutíveis, a época dos remakes de terrores orientais e o próprio Wingard fez escola usando em outros trabalhos o “found footage”, o uso de fitas com imagens supostamente caseiras e reais. Desta vez o diretor foi revisitar um estilo mais usado na década de 1970, quando fitas do gênero serviam para criticar problemas sociais e políticos. O modo cru como a violência é exacerbada nos faz lembrar do longa O Massacre da Serra Elétrica original que acabou se tornando um clássico do gênero usando a antropofagia e o sadismo para peitar as atrocidades da Guerra do Vietnã. Você é o Próximo também tem potencial para tanto com seu tema atemporal, afinal vivemos em uma época em que a vida de um ser humano parece um tanto desvalorizada quando se está em jogo dinheiro ou vingança. A satisfação pessoal vem em primeiro lugar. Até hoje nos sentimos instigados com histórias de assassinatos do passado e infelizmente falar que o futuro será só de paz e amor é uma utopia. Casos como o retratado no filme continuarão acontecendo e queira ou não alimentando a indústria de entretenimento. Usando humor negro em momentos oportunos, indo direto ao assunto sem muita enrolação e escamoteando alguns equívocos e clichês alinhando muito bem texto, climatização e uma edição caprichada, Wingard despretensiosamente criou uma obra que daqui alguns anos virará referência sobre uma época e até mesmo de um estilo de fazer cinema. Literalmente, um dia, ou melhor noite, é da caça e o outro do caçador. Mesmo sabendo desde o início quem levará a melhor, a experiência sádica do longa compensa totalmente.

Terror - 95 min - 2011

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