domingo, 21 de dezembro de 2014

AGNES BROWNE - O DESPERTAR DE UMA VIDA

Nota 7,5 Anjelica Huston dirige e protagoniza drama com apelo universal, mas esquecido

Ela tem um tipo exótico que lhe permite interpretar os mais diversos papéis. Mulheres fortes, sofridas, esnobes, excêntricas, comuns ou vilãs. Não importa. Anjelica Huston sempre dá conta do recado, pena que selecione tanto seus trabalhos, o que priva o público de desfrutar de seu talento por longos hiatos de tempos. Conhecida por atuações em A Família Addams e Convenção das Bruxas, clássicos das sessões da tarde, e detentora de um Oscar por A Honra do Poderoso Prizzi, pouca gente sabe que a atriz também já se arriscou a trabalhar atrás das câmeras. Experiência para tanto ela tem sobra. Além de observar os trabalhos de diretores quando está atuando, dentro da própria casa ela já tinha uma verdadeira escola. Filha do cultuado cineasta John Huston, a intimidade com a direção foi passada de pai para filha. Em Agnes Browne – O Despertar de Uma Vida ela se divide entre viver a personagem-título e dirigir este drama que fala sobre dar a volta por cima, família, desafios e valorização da amizade. Em 1967, na Irlanda, Agnes Browne está passando por uma situação complicada. Após perder o marido, ela precisa dar conta de sustentar seus sete filhos e pagar suas contas, assim é obrigada a pedir um empréstimo a um agiota inescrupuloso, o Sr. Billy (Ray Winstone). Para recomeçar a vida, passa a vender legumes e frutas no mercado local, onde faz amizade com Marion Monks (Marion O'Dwye), uma mulher diferente de todas as outras que havia conhecido até então. Mesmo lutando contra um câncer, ela é otimista e encoraja a nova amiga a não desistir de lutar pelo que quer. Agnes estaria disposta a esquecer definitivamente os homens, mas o tempo passa e reserva uma surpresa para ela. A novata feirante percebe que o francês Pierre (Arno Chevrier), o padeiro que se instala próximo a sua barraca, está tentando se aproximar com interesse amoroso. Assim, ela tem uma segunda chance de ser feliz e reavalia sua vida, sempre sofrida e nunca totalmente feliz em seu primeiro casamento. Tudo conspira a favor da felicidade da protagonista e certamente já vimos este mesmo conto em muitos outros filmes, mas o que importa não é o final e sim como os fatos são narrados. A delicadeza e emoção de Anjelica fazem toda a diferença para a condução deste drama. E neste caso em dose dupla.

A história é uma adaptação do romance “The Mammy”, de Brendan O´Carroll, um sucesso de vendas na Irlanda e que teve suas origens em um programa de rádio escrito pelo próprio autor. A ideia era narrar o cotidiano de uma mulher do povo e com apelo provinciano, mas aos poucos ele mesmo percebeu que criou uma personagem com características universais, que há muitas Sras. Brownes espalhadas pelo mundo. Claro que como pai da protagonista O’ Carroll não perderia a chance de explorar mais profundamente o mundo dessa mulher em versão cinematográfica. O enredo escrito em parceria com John Goldsmith não surpreende, apenas reforça ao espectador a ideia que nunca é tarde para ser feliz dispondo diversos elementos que, apesar das dificuldades pelas quais a protagonista passa no início, sinalizam uma vida melhor, como o inesperado amor ainda no início da viuvez e a solidariedade de pessoas que não pensam duas vezes antes de tirar dinheiro do próprio bolso para ajudar quem necessita. Só mesmo em décadas passadas e em países europeus e tradicionalistas para vermos uma situação como esta em que a doação é espontânea e sem esperar algo em troca, a não ser um sorriso sincero de agradecimento. Foi justamente esse apelo nostálgico que encantou Anjelica para o projeto, já que sua infância passou na Irlanda e na mesma época em que a trama se desenrola. Com muita sinceridade e emoção, a diretora e atriz construiu uma bela história com mensagens positivas e que emocionam facilmente o espectador. Para muitos, a estratégia é piegas e indigna de uma pupila de um grande cineasta, mas cada um tem o seu jeito de interpretar e fazer cinema. Até então apenas com a produção do telefilme Marcas do Silêncio em seu currículo de direção, drama arriscado por abordar um tema tenso, os abusos contra menores de idade, Anjelica em sua segunda incursão no comando das câmeras optou por um trabalho mais intimista e que cumpre plenamente ao que se propõe. Agnes Browne – O Despertar de Uma Vida é um bonito longa e com o chamariz de um nome de peso a frente e atrás das câmeras. Infelizmente, o longa passou voando pelos cinemas brasileiros, teve um lançamento muito modesto na época do VHS e hoje é mais um título esquecido e que merece ser resgatado.

Drama - 92 min - 1999 

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