domingo, 20 de dezembro de 2020

ANASTASIA


Nota 8,0 Longa diverte, emociona, enche os olhos visualmente, mas carece de personalidade própria


Durante muitas décadas a Disney ostentou a fama de maior estúdio de animações, contudo, no final da década de 1990 outras empresas começaram a se organizar para contra-atacar a gigante do entretenimento familiar. Após um longo e conturbado período, a casa do Mickey Mouse conseguiu se reerguer com sucessos como O Rei Leão, projeto que mostrou que ousar poderia ser o segredo para se manter no topo, porém, versões infantilizadas de contos como Pocahontas e Hércules não conseguiram a repercussão esperada, mas ainda assim não abalaram os alicerces do estúdio. Todavia, a Twenty Century Fox, uma das mais tradicionais companhias cinematográficas dos EUA, aproveitou um momento de descuido da concorrente que relançava no Natal de 1997 o clássico A Pequena Sereia, apoiando-se na publicidade da restauração do longa, e assim conseguiu espaço para Anastasia brilhar, ainda que discretamente. Animação tradicionalíssima, a fita combina todos os elementos que fizeram a fama da Disney: capricho visual, cenários e figurinos repletos de detalhes, canções que ajudam a contar a história e astros e estrelas emprestando suas vozes aos personagens, além de momentos açucarados ou de emoção escancarada. 

Baseada na peça teatral de Marcelle Maurette, no centro das atenções temos uma linda princesa que se encarrega de passar a mensagem de que para ser alguém na vida é preciso ter coragem, determinação e caráter. Para confrontá-la, obviamente temos um detestável vilão para justificar a lição de moral de que o crime não compensa. A trama se passa na Rússia entre as primeiras décadas do século 20 e segue os passos da infância à juventude de Anastasia, a filha do Czar Nicholas. Em dezembro de 1916, durante uma noite de festa no palácio da nobre família Romanov, uma confusão acontece devido a Revolução Russa e o feiticeiro Rasputin aproveita para se livrar de todos aqueles a quem declarou guerra. Do tradicional e poderoso clã apenas a Imperatriz Maria sobrevive ao ataque. Sua dor é maior pela perda da neta ainda criança, assim decide se mudar para Paris a fim de esquecer a tragédia. Os anos passam e então surge o boato de que a princesa Anastasia estaria viva e a Grã-duquesa Imperial se enche de esperanças e decide recompensar quem reencontrar sua neta, a situação perfeita para espertalhões tentarem se dar bem.  Em Moscou, Dimitri e Vladimir, dois vigaristas de carteirinha, tentam encontrar a todo custo uma jovem que tenha o mínimo de educação ou elegância para treinarem e apresentá-la como a moça desaparecida, mas o destino deu uma mãozinha e tanto e colocou no caminho deles ninguém menos que a própria Anastasia em carne e osso, porém, totalmente desmemoriada.


Depois de viver muitos anos em um orfanato, Anya, como passou a ser chamada desde que foi recolhida das ruas, aos poucos consegue relembrar seu passado conforme vai tomando contato com pequenas lembranças. Essa seria a oportunidade de ouro para Dimitri conquistar a vida que sempre sonhou com o dinheiro da recompensa, mas acabou se apaixonando pela garota e não seria digno trair seu amor em troca de dinheiro. Disposto a levar Anastasia até a duquesa simplesmente para lhe devolver a felicidade de ter um pouco de sua família e passado de volta, o rapaz embarca para a França para organizar o reencontro da avó e da neta, mas o vingativo Rasputin está no encalço deles e arquiteta um plano para eliminar os últimos descendentes dos Romanov. O roteiro escrito por Susan Gauthier, Bruce Graham, Bob Tzudiker, Noni White e Arthur Laurents privilegia o drama e o romance, mas segue à risca o padrão Disney de animação e roteiro. Com toques de humor, ação e números musicais em ritmo de videoclipe, o longa arrecadou mais que o dobro de seu orçamento nas bilheterias mundiais, porém, até hoje é alvo de críticas de historiadores que apontam fatos incorretos e também subestimado por boa parte do público. Todavia, esta animação surpreende ao trazer à tona uma história adulta em tom de fábula infantil. Baseado em um episódio verídico, o enredo cria uma emotiva fantasia acerca dos boatos que cercam o desaparecimento da Grã-duquesa Anastasia Nikolaevna durante a Revolução Russa. 

Muitas lendas existem sobre o destino real da personagem-título, mas é óbvio que os roteiristas deram asas à imaginação para transformar fatos tristes e sombrios em algo palatável ao público infantil que desconhece os possíveis deslizes históricos. O importante é vivenciar o conto de fadas. Os diretores Don Bluth e Gary Goldman usaram a essência dos acontecimentos reais como pontapé inicial para a história do massacre dos Romanov em uma introdução compacta e eficiente. Depois somos convidados a dar um salto no tempo e descobrir que o mistério acerca do desaparecimento de Anastasia ultrapassou fronteiras, mesmo sendo sua avó a única pessoa que acreditava que ela ainda estaria viva. A produção não poupou esforços para entregar ao público belíssimas imagens, como as sequências iniciais que reproduzem o glamour da nobreza russa e também todo o charme da noite parisiense quando a protagonista deixa para trás seus trajes e trejeitos de andarilha para assumir uma postura mais refinada. Também é preciso registrar que algumas cenas até lembram sequências de clássicos Disney. O passeio pelos detalhes arquitetônicos lembra o apuro visual de O Corcunda de Notre Dame, o ápice da trama, o embate entre vilão e mocinhos, tem cores e elementos que nos remetem as cenas finais de A Bela Adormecida e o número musical que usa a noite boêmia de Paris como cenário tem ritmo frenético semelhante ao da apresentação do Gênio em Aladdin


Falando no universo de Aladdin, o visual de Rasputin, diga-se de passagem, o personagem mais interessante da trama com seu humor ácido e descompromisso com a realidade, lembra bastante ao do malvado Jafar, com direito a um endiabrado mascote à tiracolo, o morcego albino Bartok. Contudo, nem só de homenagens ou de reciclagem de ideias esta produção é feita. Em uma época em que a animação digital ainda encarecia demasiadamente os filmes, os desenhistas de Anastasia conseguiram efeitos impressionantes de movimentos para os personagens usando técnicas tradicionais, algo que sem dúvida valoriza ainda mais a corajosa atitude da Fox, estúdio sem tradição no ramo, mas que logo na estreia se deu bem. Com momentos de altos e baixos, obviamente esta obra não está entre as melhores animações, porém, marcou seu nome na História do cinema por ser o primeiro projeto ambicioso do gênero em anos gerado fora da Disney. A princesinha de cabelos ruivos não chegou a abalar tal império, até porque do início ao fim sua história foi talhada para reciclar fórmulas de sucesso formando assim um filme sem personalidade própria, todavia, a obra é um agradável passatempo e que abriu portas para outros estúdios investirem pesado e sem medo no gênero.

Animação - 94 min - 1997 

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Um comentário:

disse...

Não vi o desenho (ou talvez tenha visto na infância e esquecido) mas me lembro bem da versão com Ingrid Bergman, de 1956. É muito boa, ela até ganhou um Oscar por sua performance.
Abraços e um feliz Natal!

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