domingo, 9 de outubro de 2016

O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR

Nota 7,0 Embora esteticamente bela, obra não explora todo potencial de seu elenco e argumento 

Como é bom quando começamos a assistir de forma descompromissada um filme pouco conhecido e ao final temos a sensação de termos descoberto uma pequena joia. Apesar de não aproveitar todo o potencial de seu argumento e elenco, O Violinista Que Veio do Mar é uma dessas gratas surpresas, embora por contar com as veteranas e exigentes Maggie Smith e Judi Dench como protagonistas já deixa claro que é um produto no mínimo com roteiro interessante. Aqui ainda há a contemplação de belíssimas imagens de um de cenário litorâneo, uma direção de arte impecável e uma trilha sonora encantadora. Inspirada em um conto do escritor inglês William Locke, a história se passa em meados da década de 1930 quando as irmãs Ursula (Dench) e Janet (Smith), já idosas, dividem a mesma casa em uma pequena vila na costa norte da Inglaterra. A rotina pacata delas é abalada ao encontrarem um jovem náufrago após uma forte tempestade. Com dificuldades inicialmente para se comunicarem com o alemão Andrea (Daniel Brühl), as bondosas senhoras lhe oferecem abrigo e cuidam para reestabelecer sua saúde. Com talento para tocar violino, aos poucos o rapaz vai aprendendo a falar uma nova língua e a criar intimidade com as irmãs, um sentimento de afeição mútuo, porém, com direções diferentes. A renovação de ânimos e de prazer em viver que o jovem traz acaba se tornando um motivo para tirar a paz de suas cuidadoras já que ambas se apaixonam por ele. Para Janet ele traz de volta lembranças do seu marido, o grande amor que perdeu na Primeira Guerra Mundial, enquanto a solteirona Ursula demonstra um carinho e preocupação exagerados pelo violinista impulsionada por sentimentos que até então jamais havia vivenciado. Todavia, Andrea acaba se apaixonando pela artista plástica russa Olga (Natascha McEllone) com quem divide o apreço pela arte e se identifica com as dificuldades de se adaptar a um novo endereço. Fascinada pelo dom musical do rapaz, a pintora convence seu irmão, um famoso maestro que comanda uma orquestra em Londres, a lhe dar uma chance de trabalho, contudo, ele vive o dilema de escolher realizar seu sonho profissional ciente de que sua partida traria sofrimento para aquelas que o acolheram num momento de dificuldades.

Se fosse um produto tipicamente hollywoodiano, o conflito amoroso de três mulheres apaixonadas por um mesmo homem, com atenção especial aos sentimentos das mais idosas, poderia render momentos marcados por rompantes de sofrimento e até mesmo de tensão sexual, mas o roteirista e diretor Charles Dance prefere seguir o espírito cândido do conto original narrando a história de um amor platônico, um sentimento que não pode ser extravasado para não confrontar convenções sociais. Imagine o escândalo para a época de um jovem se envolver com uma mulher com idade para ser sua avó?  Com estofo emocional mais apurado ao personagem de Dench, não é difícil nos pegarmos torcendo por este improvável enlace, muito por conta do talento e sensibilidade da atriz, todavia, a construção do perfil de Andrea compromete essa fantasia romântica. Brühl é talentoso e tornou-se um ícone do cinema alemão recente, tendo seu talento requisitado por outros países como neste caso, porém, lhe ofereceram um personagem que carece de personalidade. Ele se mostra simpático, educado, honesto, mas não sentimos paixão alguma pulsar dentro de si, a não ser o apreço pela música. Fica evidente que para ele a relação com as senhoras que o ajudaram é de um carinho quase maternal, mas nem mesmo para com Olga sentimos sua empolgação, deixando no ar que seu romance com a jovem poderia ter meramente segundas intenções. Contudo, o filme parece ter sido mesmo feito sob encomenda para as veteranas britânicas brilharem com atuações contidas, mas ainda assim tocantes e sinceras. É uma pena que não chegamos a ter o clímax de um embate de verdade entre as suas personagens sobre seus reais sentimentos pelo alemãozinho, uma oportunidade ímpar de ver as duas grandes intérpretes duelarem. Fica a bonita lembrança da dupla durante os créditos inicias com cenas que revelam o quão bucólico e harmonioso era o cotidiano das irmãs até a chegada do naufrago. Com quesitos técnicos impecáveis e seguindo a linha de cinema feito para entusiastas das artes, O Violinista Que Veio do Mar deixa uma agradável sensação de bem-estar e nostalgia no ar que compensam a narrativa frágil, porém, longe de descartável. Produção para quem tem sensibilidade aflorada.

Drama - 103 min - 2004

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