sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

FILHA DA LUZ


Nota 3,0 Longa requenta temática da guerra do Bem contra o Mal inerente a chegada do anticristo


De tempos em tempos ocorre um fenômeno no cinema e curiosamente diversas produções com temáticas semelhantes são lançadas em períodos muito próximos. Seria espionagem industrial? Bom, no caso de Filha da Luz podemos dizer que foi oportunismo mesmo, porém, muito mal aproveitado. Durante o período que antecedeu a virada para o século 21 e para o novo milênio existia o medo do fim do mundo ou da chegada do anticristo na Terra, o que aguçou Hollywood a extravasar seus demônios literalmente. Diversas produções exploraram estes temas e até o clássico O Exorcista foi então relançado com cenas adicionais. O longa estrelado por Kim Basinger e dirigido por Chuck Russel, que já havia se aventurado no campo do horror com A Hora do Pesadelo 3 e A Bolha Assassina, foi só mais um título a explorar o filão do satanismo e a engrossar a lista de produções ruins da safra. 

Pouco antes deste lançamento, O Sexto Sentido já havia exorcizado qualquer chance de um terror com crianças assustar por um bom tempo, tanto que ainda hoje ecoa na mente de muita gente. Mesmo assim,  Russel quis tocar o projeto capenga de olho em outro gancho. Produzido pegando carona no frisson das dúvidas espalhadas por fanáticos religiosos quanto ao futuro da humanidade, certamente na época a fita atraiu curiosos e aficionados pela temática, mas hoje o título é esquecido. E com razão. Basinger interpreta Maggie O’Connor, uma solitária e pacata enfermeira que tem sua rotina modificada com a visita surpresa de sua irmã mais nova, a irresponsável e viciada em drogas Jenna (Angela Bettis), que chega acompanhada da filha recém-nascida. O intuito da visita é apenas entregar a criança para Maggie que acaba a adotando meio que à força, porém, o tempo passa e uma relação natural de mãe e filha se estabelece com a pequena Cody (Holliston Coleman). 


Aos seis anos de idade e com um leve autismo diagnosticado, a menina começa a demonstrar ter dons especiais, o que chama a atenção de uma seita religiosa que acredita que ela seria uma espécie de reencarnação de Jesus Cristo, a única pessoa capaz de deter os planos do Diabo para dominar o planeta. A certa altura da trama, a irmã da protagonista ressurge aparentemente mais sóbria e consciente, porém, acompanhada do estranho Eric Stark (Rufus Sewell), cujo olhar demoníaco já denuncia a que veio. Ele sequestra Cody e para ajudar na resolução de todo este drama com toques sobrenaturais, entra em cena um especialista em crimes que envolvem práticas ritualísticas, o agente John Travis (Jimmy Smits), que descobre coincidências entre esse caso com outros desaparecimentos de menores, como o fato de todos terem nascido na mesma data. 

Baseado no livro de Cathy Cash Spellman, o roteiro de Thomas Rickman e do então casal Ellen e Clifford Green não tem um pingo de originalidade, apenas requenta clichês conhecidos desde os tempos de O Bebê de Rosemary. Será mesmo que eram necessárias três cabeças para pensar em algo tão manjado? Longe de ser apocalíptico como seu argumento sugere, pelo menos o filme não sofre de carência de unidade, não há situações dissonantes ao contexto ou forçosamente alinhavadas, a não ser a participação rápida de Christina Ricci como uma amiga de Jenna que pouco ou nada acrescenta ao filme. Fica claro desde o início que ela teria algo a ver com a tal seita satânica, mas sua aparição tem como única justificativa alongar a trama que é apenas mais uma entre tantas outras a travar a guerra entre o Bem e o Mal. Se não se levasse tão a sério, numa tentativa em vão de ser o filme-símbolo da negação de profecias apocalípticas acerca da virada de século, e apostasse mais na diversão com violência gráfica e figuras bizarras, talvez o longa não tivesse ficado datado e hoje ainda despertaria interesse, ainda que seja uma opção curiosa frente a tantas outras produções medíocres que surgiram depois com temática semelhante.


Embora faça uma leve crítica a diferentes seitas religiosas que manipulam as pessoas a ponto de as levarem a cometerem crimes em nome da fé (seja em Cristo ou no coisa ruim), Filha da Luz é o típico suspense que promete muito mais do que cumpre. Rápido e aparentemente interessante, infelizmente sua lembrança esmiúça em nossa memória em minutos. Todavia, a trama rasa e previsível não é seu maior pecado e sim seus efeitos especiais. Embora tenha direção do homem que pintou e bordou com a tecnologia para trajar Jim Carrey em O Máskara com mil e uma facetas, as trucagens utilizadas neste suspense soam ultrapassadas e surgem tão rapidamente em cena que parece que faltou dinheiro para a produção caprichar mais. Bem, na realidade grana tinha, mas tudo deve ter sido gasto para bancar o cachê de Basinger que, embora tivesse conquistado um Oscar dois anos antes por Los Angeles – Cidade Proibida, parecia esquecida precocemente por Hollywood (até hoje, diga-se de passagem) e estava topando qualquer parada. 

Suspense - 107 min - 2000  

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