sábado, 12 de dezembro de 2020

A MOÇA DA LIMPEZA


Nota 7,0 Mais um suspense a abordar relações obsessivas, este surpreende com vilã que cativa


Cuidado com quem parece inofensivo, as aparências enganam. Esse é um dos temas mais trabalhados por suspenses de baixo orçamento, desses que tapam buraco na TV e muita gente escolhia nos tempos das videolocadoras na falta de um lançamento bombado. Produções do tipo agora ganharam abrigo nos serviços de streaming que precisam inflar seus catálogos para chamar a atenção. A maioria é esquecível, mas algumas até podem surpreender como é o caso de A Moça da Limpeza, longa previsível, mas ainda assim com seu próprio charme e acima da média, muito por conta da ambientação soturna que investe em tons azulados e muitas cenas noturnas, o que confere um clima frio e envolvente à trama. Aos desavisados, o título parece vender uma obra cult, contudo, o material publicitário deixa explicita a oferta de um filme B. De fato, é uma produção sem grandes requintes, mas não é essencialmente trash. 

O roteiro nos apresenta à Alice (Alexis Kendra), uma esteticista de classe média alta muito bela e atraente, mas infeliz no amor. Há muito tempo ela vive um relacionamento com Michael (Stelio Savante), um homem casado, e frequenta grupos de terapia para apaziguar suas frustrações, mas acaba encontrando conforto com o apoio da pessoa mais improvável. Shelly (Rachel Alig) é a tal moça do título, uma jovem enviada pela empresa de limpeza que é muito tímida e se envergonha por ter seu rosto desfigurado por cicatrizes de queimaduras. Com pena da garota que mostra-se muito gentil e solícita, Alice começa a se aproximar dela e até conta detalhes sobre sua intimidade sem perceber que por trás daquela face apática existe uma alma rancorosa e violenta. Mais da metade do longa não nega sua vocação para telefilme, tempo dedicado a apresentar detalhadamente o perfil de Alice e dar certas pistas sobre Shelly, embora desde sua primeira aparição não fique dúvidas de que a relação de amizade que ela busca não é simplesmente para aplacar sua solidão. 


O fato da faxineira desfigurada ir trabalhar justamente na limpeza da casa e do consultório de uma esteticista já induz que a própria ambientação influenciará em seu comportamento obsessivo que criará em relação à patroa. A relação entre as duas não tem teor sexual e tampouco é movida pela ganância de Shelly, aliás em momento algum se percebe que ela é seduzida pelo padrão de vida de Alice. A faxineira sente-se atraída por encontrar na patroa um ombro amigo, alguém que não lhe enxerga como um monstro e a evita. A especialista em beleza que tinha tudo para ser antipática apresenta-se como uma pessoa gentil e bondosa convidando a moça para jantar, lhe oferecendo roupas e as vezes carona, importando-se em melhorar sua aparência com truques de maquiagem  e certa noite até a permite dormir em sua casa por conta do adiantado da hora. É nessa ocasião que fica explícita a obsessão de Shelly pela mulher bonita e suas intenções. A partir de então coisas estranhas começam a acontecer e Alice passa a demonstrar certo receio de ficar perto da empregada, mas é tarde demais para impor limites nesta relação. 

Ampliando o universo que havia criado dois anos antes para um curta-metragem homônimo e com as mesmas protagonistas, o diretor Jon Knautz, que assina o roteiro em parceria com a própria intérprete de Alice, insere elementos tradicionais do cinema de horror e entrega uma boa quantidade de atrocidades frutos de uma mente insana. A partir de flashbacks conhecemos detalhes sobre o eminente passado trágico da faxineira, fatos  que envolvem Colleen (Joanne McGrath), sua mãe ríspida e abusiva. Os traumas que viveu na infância e adolescência justificam suas atitudes de hoje e a dependência que passa a desenvolver quanto a sua patroa. Ainda que economize na violência explícita, algumas cenas não dispensam facadas, tesouradas e há o emprego até de ácido corrosivo como elemento de tortura e ligeiramente inédito para a seara. Todavia, a trama não se esforça minimamente para jogar pistas falsas e confundir. Tudo é bem mastigadinho e previsível.


Apesar de pequenos problemas de ritmo que fazem o filme parecer ter muito mais tempo que sua declarada duração, A Moça da Limpeza prende a atenção com uma narrativa tensa, mas também muito bem delineada no campo dramático fazendo o espectador compreender e refletir sobre os dramas das mulheres em situações opostas. Alice tem beleza e dinheiro, mas não pode comprar o amor, assim sua felicidade não é completa. Já Shelly desde novinha foi condicionada à tristeza e pobreza e ter sua aparência de certa forma mutilada só colaborou para alimentar seus instintos de revolta e vingança, afinal suas chances de vencer na vida foram diminuídas ainda mais. É fácil simpatizar-se com  a faxineira mesmo com suas atitudes controversas, ainda que sua porção vilã só seja de fato explicitada no último ato que termina de forma abrupta. Fica um gostinho de quero mais, porém, a intenção do diretor aparentemente é mesmo deixar espaço para o espectador imaginar sua própria conclusão.

Suspense - 90 min - 2018

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