segunda-feira, 23 de novembro de 2020

MISS SIMPATIA


Nota 8,0 Sem desrespeitar, longa tira proveito do glamour e futilidade dos concursos de beleza


Sandra Bullock despontou para o grande público com o longa de ação Velocidade Máxima e a comédia romântica Enquanto Você Dormia, dois grandes sucessos que provavam que ela tinha competência e carisma para ser protagonista e que poderia flertar com os mais variados gêneros. Alguns anos depois, a atriz encontrou o filme perfeito para interpretar uma mulher forte e decidida, porém, ainda romântica e, principalmente, engraçadíssima, marca que viria a pautar boa parte de sua carreira. No estrondoso sucesso Miss Simpatia a atriz dá vida à Gracie Hart, uma agente do FBI de comportamento rudimentar e sem um pingo de vaidade. Ela tem horror a maquiagem, vive com os cabelos desgrenhados, usa roupas amassadas, caminha feito um dinossauro e tem uma risada medonha. Contudo, por falta de opções, ela acaba sendo a escolhida pela entidade para se infiltrar no concurso de Miss Estados Unidos para investigar uma suposta ameaça de atentado que pode eclodir ao vivo para todo o país assistir no dia da final. Relutante no início, ela acaba aceitando a tarefa e conta com o apoio de Eric Matthews (Benjamin Bratt), encarregado de chefiar a missão, que tem como primeiro obstáculo convencer Mathy Morningside (Candice Bergen), a organizadora do evento, que Gracie precisa tomar a vaga de alguma participante e chegar até a final para evitar uma tragédia, o que obviamente implicaria em fazer vista grossa aos deslizes da moça ao longo das etapas de eliminação.

Gracie então é alçada a candidata pelo estado de New Jersey e a árdua tarefa de transformar a desleixada policial em uma mulher bonita e de fino trato em poucos dias, além de convencê-la que a principal qualidade de uma candidata é defender a paz mundial,  fica a cargo de Victor Melling (Michael Caine), um especialista em assessoria de etiqueta e elegância. Ele caiu no esquecimento depois de exigir demais de uma aspirante a miss no passado, mas continua tão exigente quanto antes e coloca a agente sob um treinamento mais pesado que o da polícia. E o que parecia uma missão impossível é concluída com sucesso e assim ressurge montada em saltos altos, cabelos hidratados e vestido sensual a bela Gracie Lou Freebush, mas ainda sem conseguir domar seu instinto natural e muito menos sua gargalhada indefectível que lembra ao grunhido de um porco. Ela se une as outras finalistas de cada estado americano e as cativa aos poucos com seu comportamento incomum as incentivando a cometerem alguns excessos antes impensáveis para jovens que desejam ser sinônimo de beleza, elegância e pureza. Consegue também olhares embasbacados e lânguidos de seus colegas de trabalho que antes a tratavam como uma companhia do sexo masculino e isso inclui Matthews que, apesar de encantado com a nova imagem da moça, inicialmente não dá o braço a torcer que está interessado nela. 


A velha temática do peixe fora d'água ganha aqui uma injeção de ânimo graças ao despretensioso trabalho do diretor Donald Petrie que evita rotular a produção como uma comédia romântica, mas também não a permite descambar para o escracho total e tampouco para o politicamente incorreto. Suas intenções são simplesmente entreter com uma mescla de piadas inocentes com outras carregadas de críticas implícitas, mas principalmente fazer Bullock brilhar de ponta a ponta, até porque ela própria é produtora do filme que lhe abriu caminho para se tornar uma estrela de comédias, embora com o passar dos anos também tenha se arriscado em papéis mais dramáticos até ganhar um Oscar por Um Sonho Possível, adorno que não poderia faltar na estante de uma queridinha da América. O roteiro de Marc Lawrence, Katie Ford e Caryn Lucas foi escrito minuciosamente para causar risos genuínos ridicularizando todas convenções possíveis dos concursos de beleza, como as entrevistas com as candidatas, bem como a exposição de seus dotes artísticos quanto de seus atributos físicos em trajes de banho. Nestes momentos, Bullock brilha e não tem medo de se expor ao ridículo caindo no palco, dando respostas improváveis e até improvisando um número no qual mostra como se autodefender no caso de um ataque nas ruas, o que Gracie sabe fazer melhor. Ainda assim, a intenção não é desmoralizar tais eventos, assim é claro que ao final da jornada a protagonista irá compreender o sentido do concurso e prometer respeitar e defender as garotas que sonham com o dia de serem presenteadas com o kit de coroa, faixa e buquê de flores.

Bullock tem que se controlar para não cair no riso com sua própria atuação e ainda convencer o espectador que a sua personagem acredita ser feia e desengonçada, embora a beleza natural da atriz seja difícil de esconder. Equilibrando-se entre a transformação de Gracie em uma estonteante mulher, mas ainda mantendo a essência rústica da agente, a intérprete foi inteligente ao usar tiques corporais para mostrar que o banho de loja não inclui a aquisição de boas maneiras, assim, mesmo maquiada e penteada, a personagem continua desbocada e com a mania de limpar os dentes com a língua. Isso também não a impede de chamar a atenção de Matthews, mas o romance da trama é mínimo. Assim como Gracie, as demais candidatas, por mais fúteis que possam parecer, não estão em busca de príncipes encantados ou de homens viris para sustentá-las, nem mesmo a dócil e deslumbrada Cheryl Frasier (Heather Burns), que vem a se tornar a melhor amiga da protagonista durante o concurso. Dessa forma, o personagem masculino que se destaca é o defendido pelo veterano Caine com uma interpretação deliciosamente afeminada , ainda que divida a atenção com William Shatner, o eterno Capitão Kirk da série "Star Trek", também encarnando um tipo bastante afetado como Stan Fields, o apresentador do Miss Estados Unidos. 


Já a veterana Bergen, engessada em um perfil obcecada por educação e estética, desde o início não consegue esconder o que seria o grande segredo do longa. Eleita no passado miss, Mathy fica restrita a fazer caras e bocas de espanto ao ver seu amado evento tornar-se piada a cada aparição de Gracie. Para não exceder o tempo de arte necessário, obviamente a maior parte das candidatas estão em cena apenas para sorrir e acenar para o público, mas claro que há aquela que se acha a melhor de todas e outra que está no concurso para provar que lésbicas não precisam se vestir ou se comportar feito um homem. Miss Simpatia então é desenvolvido do início ao fim tal qual as qualidades necessárias para consagra-se na disputa: com graça, leveza e talento. Esse último requisito fica totalmente sob a responsabilidade de Bullock que prova que o título lhe cai como uma luva.

Comédia - 105 min - 2000

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