sexta-feira, 23 de maio de 2014

SAHARA (2005)

NOTA 5,0

Muito extenso e pretensioso,
filme não cumpre sua promessa
de ser uma super aventura, mas
quebra o galho como passatempo
O título nos lembra a deserto, que nos remete a aventura e que por sua vez evoca diversão. Matthew McConaughey, Penélope Cruz (antes de serem premiados e fazerem parte do alto escalão de Hollywood) e Steve Zahn, aquele cara que já fez vários filmes, mas é um eterno ilustre desconhecido, encabeçam o elenco de uma produção que tinha tudo para ser um legítimo representante do estilo sessão da tarde, porém, peca em um requisito básico: ser envolvente. Um filme-pipoca não precisa ser necessariamente calcado no humor ou na aventura, mas quando até seu material publicitário vende esse peixe é preciso no mínimo honrar o compromisso. Eis o problema. Quem se prepara para ver Sahara imbuído do sentimento nostálgico das antigas aventuras no deserto deve se decepcionar. A trama nos apresenta ao explorador e caçador de tesouros Dirk Pitt (McConaughey) e ao sue fiel companheiro de aventuras Al Giordino (Zahn) que após encontrarem uma moeda mitológica começam uma obcecada busca por um encouraçado dos tempos da Guerra Civil norte-americana que naufragou na perigosa região do Oeste Africano. Conhecido pelos nativos sugestivamente como Navio da Morte, a embarcação estaria em Mali, mais precisamente nos arredores do deserto do Saara. A dupla, obviamente de perfis opostos, um é bonitão e metido a valente enquanto o outro é o engraçadinho e desengonçado, trabalham para o almirante Jim Sandecker (William H. Macy) que os apoia reticente nessa empreitada, mas quis o destino que cruzasse os seus caminhos a doutora Eva Rojas (Cruz), uma bela pesquisadora que está estudando a origem de uma estranha epidemia que está se alastrando pelo continente africano. Claro que a origem deste mal estaria em Mali e com ligações com o tal navio misterioso, no entanto, o ditador local, o General Kazim (Lennie James), não quer que a notícia se espalhe e prontamente recruta soldados para impedir a cientista. Ganha um doce quem descobrir quem a salvará. O pior é que a previsibilidade não se reserva apenas ao final, mas toda a narrativa é certinha demais, tudo se encaixa perfeitamente. Quando duas pessoas com objetivos opostos, mas com interesses de ir a um mesmo local, coincidentemente iriam se encontrar em um momento oportuno e em pleno oceano? Em nome da diversão, acatamos as soluções esquemáticas. Sem elas não teria filme, não é?

O gancho político e dramático até que é interessante. Mali é uma região que carece de uma estrutura política mais organizada e democrática, além de incentivos financeiros. O caos levou um ditador a tomar o poder e ele está sendo seduzido por industriais que querem explorar o local com promessas de lucros altos, mas para tanto não podem evitar a poluição do solo que quando entrar em contato com a água poderá espalhar a contaminação pelos oceanos e atingir todos os continentes. Por isso é que o governo dos EUA resolveu interferir, para mostrar sua superioridade, caso contrário, Pitt e Giordino estariam apenas brincando de caça ao tesouro, mas o diretor estreante Breck Eisner tentou arriscar e apostar em uma subtrama mais substanciosa. A ideia seria fazer uma alusão de como os países subdesenvolvidos são superexplorados pelos países ricos que não usam critérios ou tem preocupações com consequências negativas, somente são motivados por lucros. Pena que esse adendo é mal desenvolvido e acaba sucumbindo aos anseios por corre-corre, tiroteios e planos mirabolantes. Contudo, a diversão prometida é superficial e a narrativa arrastada é um convite ao desânimo. Duas horas de arte são proibitivas para um filme que tem pouco a dizer, ainda mais quando o final é previsível. São raros os momentos em que sentimos os protagonistas em meio a situações realmente perigosas e quando as estão vivenciando rapidamente dão a volta por cima, não necessariamente por serem astutos, mas sim por imposições do roteiro que acabam não dando credibilidade às ações. Por mais que saibamos que os heróis vão escapar das armadilhas, é preciso vivenciar juntos os momentos de tensão para nos sentirmos inseridos na história. A catarse não ocorre totalmente neste caso. As sequências de ação se resumem a lutas e tiroteios rápidos que atingem os figurantes, com os quais não temos conexão alguma. Será que não havia verba para maquiagem a fim de manter os mocinhos com alguns ferimentos até o final? Positivamente, como o longa é de uma época em que não havia a febre do 3D, os tímidos efeitos especiais acabam casando bem com o espírito nostálgico de matinê proposto pelo enredo, mas se fosse hoje... As críticas ruins seriam multiplicadas a se perder de vista.

Apesar do resultado razoável para um passatempo descompromissado, as raízes do projeto são respeitáveis. A trama é baseada em um dos romances de Clive Cussler que tinha o objetivo de criar não um simples livro, mas sim a base da história de um herói que poderia inspirar uma saga literária que agradasse a todas as idades. As aventuras de Dirk Pitt tem um quê das situações vividas por Indiana Jones, mas é bom lembrar que o famoso personagem criado por Steven Spielberg surgiu alguns anos depois. Certamente o diretor foi influenciado pelas histórias narradas nos 17 livros protagonizados pelo explorador que foram sucesso de venda nos EUA por cerca de trinta anos. Nos anos 70, produtores de cinema começaram a espichar os olhos para as obras de Cussler, mas quando um de seus livros deu origem em 1980 ao longa O Resgate de Titanic, o escritor se decepcionou com o casamento entre mídias considerando o filme pavoroso do início ao fim. Como o sucesso de um filme pode manter a vida útil de um livro e vice-versa, o autor resolveu proteger seu trabalho e negou novas adaptações até que em 2004, após muita negociação, foi convencido pelos roteiristas Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer, John C. Richards e James V. Hart a ceder os direitos de um dos livros para a realização de Sahara. Será que Cussler se arrependeu mais uma vez? Eisner aparentemente tentou respeitar o conteúdo da obra original renegando a adrenalina que o público espera deste tipo de produto, mas a ausência de uma continuação tendo material farto para uma série de filmes denuncia que o escritor não deve ter gostado do resultado final, embora seja mais confiável acreditar que os produtores não ficaram animados com os lucros e repercussão abortando qualquer futuro projeto com o personagem. Como já dito, a duração acima da média pode ser o grande problema, ou melhor, um dos principais. Mesmo com quatro cabeças pensando no roteiro, deve ser difícil rechear duas horas de aventura quando as cenas clímax teoricamente devem ser apresentadas próximas da conclusão. Com uma duração mais enxuta, não sobra espaço para muita embromação e a ação ficaria mais condensada, as situações de conflitos ficariam mais próximas e não haveria a sensação de marasmo. Tecnicamente, a produção é bem feita, com boa fotografia, cenografia e efeitos sonoros caprichados e até as execradas atuações de McConaughey e Zahn não são de todo ruim e cumprem o protocolo de seus arquétipos, sendo que suas diferenças físicas e de personalidade servem de alívio cômico. Já Penélope, bem, ela ainda sofria o estigma da latina tentando vencer em Hollywood, assim sua beleza é mais requisitada que seu talento. 

Aventura - 124 min - 2005

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