quarta-feira, 25 de junho de 2014

IDIOCRACY

NOTA 7,0

Comédia critica sem pudor
algum o consumismo e a alienação
das pessoas, mas erra por se entregar
ao escracho sem aprofundar reflexões
Antigamente, muitos acreditavam que nos primeiros anos do século 21 a humanidade já estaria vivendo em modernos apartamentos no melhor estilo família Jetsons e que tudo seria possível com apenas um toque na tela do computador ou da TV. O tempo passou e realmente chegamos a esse famigerado futuro ou algo bem próximo das expectativas, mas com ele também vieram os pontos negativos. Cada vez mais as pessoas estão dependentes de celulares e computadores a ponto de passarem mal quando estão desprovidas de tais ferramentas. Ainda se fosse para trabalho ou estudo, mas é triste constatar que a maioria usa essas bugigangas tecnológicas para fofocar e se exibir em redes sociais. Mais triste ainda é saber que até as crianças estão entrando nessa onda. Da mesma forma que há anos a televisão é considerada uma grande vilã com suas programações de baixo nível, hoje também não podemos descartar a internet como instrumento manipulador e difusor de conteúdo duvidoso. Vendo o atual cenário, vale muito a pena conferir a crítica realizada por Idiocracy, comédia de humor negro que apresenta um futuro apocalíptico no qual absolutamente todas as pessoas sofrem de um grande mal: o baixíssimo índice de QI. Pena que a própria produtora, a Fox, mostrou que sua ganância é maior que sua inteligência e negligenciou a obra. Não confiando em seu potencial, a empresa a lançou mal nos EUA e consequentemente prejudicou sua distribuição em outros países, sendo que no Brasil saiu diretamente em DVD e sem publicidade. Escrito por Etan Cohen e Mike Judge, este também diretor, a trama gira em torno de Joe Bauers (Luke Wilson), um jovem soldado americano que nunca recebeu o devido valor no Exército até que foi recrutado para uma experiência inovadora. Os cientistas descobrem como congelar humanos, mas a novidade precisa passar por um teste definitivo. Sozinho no mundo e um profissional desacreditado, Bauers teria o perfil ideal para cobaia afinal de contas se algo desse errado ninguém sentiria sua falta. Por falta de modelos semelhantes femininos dentro da própria corporação, o jeito foi procurar entre os civis e assim foi recrutada Rita (Maya Rudolph), uma prostituta que topa tudo por um dinheirinho extra. Os dois ficariam congelados por um ano e depois seriam avaliados por uma junta médica, mas algo dá errado e o experimento acaba sendo abortado, ou melhor, completamente esquecido até que no século 26 o inesperado acontece.

O mundo imaginado por Judge para daqui uns 500 anos é um verdadeiro caos. Com índices de natalidade exorbitantes e cada vez mais a população se entupindo de comidas congeladas e fast food, não havia espaço para tanto lixo e eis que um dia uma avalanche de porcarias literalmente invade uma grande metrópole (não especificada). A cena nos remete aos filmes-catástrofes em que ondas gigantes de água desbravam as cidades com fúria ultrapassando tudo o que vê pela frente. No meio dos detritos estava a câmera de resfriamento de Bauers que com a força do deslizamento acaba invadindo o apartamento de Frito Pendejo (Dax Shepard), um completo idiota que mal percebe o desastre afinal de contas sua atenção estava totalmente voltada para o seu gigantesco televisor cuja tela se divide em vários quadradinhos cada um com uma programação diferente. Percebendo que com esse cara não teria ajuda alguma, nosso viajante do tempo resolve enfrentar o mundo, mas seu modo de falar torna-se um empecilho. As pessoas do futuro abusam de gírias e balbuciam algumas poucas palavras, mas a maneira de conversar de Bauers o rotula como um estranho ou afeminado. Até as máquinas parecem se comunicar melhor que os humanos dando respostas irônicas às perguntas sem noção. É justamente por se complicar com uma dessas engenhocas que o militar acaba sendo preso e tratado quase como um alienígena devido a ausência do seu código de barras tatuado no braço. Como se fosse uma espécie de RG, o rapaz é obrigado a fazer seu cadastro neste mundo de loucos e mais uma vez a tecnologia lhe atrapalha sendo registrado com o nome de Não Sei. Quando lhe cai a ficha de que está cercado de retardados, Bauers decide usar sua inteligência, outrora menosprezada, para conseguir fugir da cadeia. Eis que ele reencontra Frito, diga-se de passagem, o advogado que o ajudou a ser preso com sua defesa furada, e também revê Rita que também foi descongelada. O casal “inteligência pura” quer a ajuda do panaca do futuro para fugirem ou ao menos encontrarem um lugar seguro para ficarem, mas apesar da idiotice imperar na cidade ela é até avançadinha em alguns aspectos, ainda que a tecnologia tivesse evoluído até certo ponto séculos antes e estagnou. A tal tatuagem-registro alarma sistemas de segurança e assim o militar acaba sendo forçado a se encontrar com o presidente Dwayne Elizondo Mountain Dew Herbert Camacho (Terry Crews), um ex-ator pornô e campeão de luta livre. Se até humoristas, esportistas e pagodeiros em fim de carreira conseguem entrar para a política aqui no Brasil, não podemos duvidar do futuro tenebroso da política interna e porque não mundial.

Os resultados de QI do rapaz chamam a atenção do presidente que então o convoca a ser Secretário do Interior, a única esperança para a fome e a miséria do país que enfrenta uma grave crise na agricultura. Simplesmente as plantações não dão o menor sinal de vida e cabe a Bauers apresentar uma solução para um problema causado pelo excesso de consumismo e lavagem cerebral feita pelas grandes empresas de bens de consumo. Aliás, parte da população é batizada pelo nome de grandes corporações comprovando a alienação das pessoas, todas desprovidas de personalidade e apenas servindo como propagandas ambulantes da alienação. A burrice é tanta que o grande sucesso cinematográfico do período chama-se “Bundas”, longa que está há meses em cartaz com salas abarrotadas de gente gargalhando por uma hora e meia de uma simples imagem de uma buzanfa rebolativa. Cúmulo do absurdo: a obra ganhou vários Oscars, incluindo o de melhor roteiro. Apesar de ter sido produzido em 2006, Idiocracy ainda mantém sua crítica mordaz intacta, talvez hoje em dia até mais em evidência. O problema é que um indivíduo viciado em bugigangas da modernidade, mas que ainda não tenha sido totalmente corrompido, certamente sabe que seu estilo de vida é que está sendo criticado e a verdade dói. Apesar do longa exagerar na “idiotização” das próximas gerações, não podemos negar que tal problema já está se manifestando a começar pela dependência de redes sociais, manipulação da TV, invasão de produtos alimentícios multiprocessados e o culto a marcas que escravizam prometendo um falso upgrade em seu estilo de vida. Crianças e adolescentes já sofrem os males desses impactos negativos lotando consultórios de nutricionistas e psicólogos com suas queixas basicamente acerca de problemas de aceitação, ou seja, se adequarem a um estereótipo, se transformarem em um produto para serem aceitos em determinados grupos. É uma pena que Judge descarte discussões do tipo e tenha se limitado a metralhar uma piada atrás da outra sem pausa para reflexão. Poucos conseguem assimilar as mensagens implícitas nas tiradas de humor, mas é certo que esta comédia por trás do verniz de puro besteirol tem muito conteúdo a oferecer. É só observar a introdução que mostra como casais inteligentes planejam suas famílias, sempre retardando a procriação a espera do melhor momento tanto pessoal quanto profissional, sendo que um filho é o bastante ou talvez o ideal é não ter nenhum. Em contrapartida, casais que já vem de criações desleixadas tendem a repetir os mesmos erros de seus pais fazendo filhos a torto e a direito, sejam frutos de relações oficiais ou até mesmo extraconjugais. Mais filhos, menos grana, mais frustrações, menos educação e por fim mais erros para acompanhar as novas gerações. Vale uma conferida só por diversão e um repeteco com olhar mais crítico para refletir sobre aquilo que o filme tinha pretensões de explorar, mas não cumpriu totalmente.

Comédia - 84 min - 2006 - Dê sua opinião abaixo.


Um comentário:

Ramon Prates disse...

Mike Judge é um ótimo diretor, mas eu esperava um pouco mais desse filme, apesar de ter achando bom.

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