terça-feira, 8 de abril de 2014

UMA FAMÍLIA EM APUROS

NOTA 6,0

Ícones das comédias no passado

protagonistas tentam achar 
espaço em meio ao mundo moderno
na ficção e na realidade
Conflitos entre gerações são boas matérias-primas para filmes e quando usadas no campo de humor costumam gerar ótimas produções familiares. Bem, a visão otimista fica por conta do público-alvo que gosta justamente de rever piadas e situações, mas é sempre bom lembrar que o que é previsível para os mais velhos pode ser uma grande novidade para as crianças que ainda estão em contato com suas primeiras experiências cinematográficas e se familiarizando com os clichês. Uns quatro ou cinco filmes de temática semelhante e provavelmente eles já conseguirão narrar um longa baseando-se em uma breve sinopse sem necessariamente precisar assistir. Contudo, se produções do tipo ainda são realizadas é porque existe público e, diga-se de passagem, um filme-pipoca bobinho e sem um pingo de apelação às vezes faz uma falta danada. Para assistir com os pais ou os avós, e ninguém chegar ao fim constrangido, uma boa opção é Uma Família em Apuros, fortíssimo candidato a futuro clássico da “Sessão da Tarde”. A trama escrita por Lisa Addario e Joe Syracuse reúne dois grandes astros do humor de um passado não muito distante, mas parece que Billy Crystal e Bette Midler estão tendo dificuldades para encontrar espaço no cinema contemporâneo e é justamente essa adaptação à modernidade o ponto principal do enredo e que eleva esta comédia de patamar. Os veteranos astros dão vida a Artie e Diane Decker, um casal pré-terceira idade que apesar de muita disposição percebe na marra que estão desatualizados, praticamente peças de museu para os tempos atuais. Ele dedicou a sua vida a narrações esportivas, mas inesperadamente foi demitido com a justificativa de que seu estilo de trabalho, piadas e linguajar não condizem mais com a realidade, o que reflete diretamente em sua popularidade nas redes sociais. Hoje o talento pouco importa, o que vale é a quantidade de curtidas no Facebook.  Sempre muito amável, sua esposa tenta consolá-lo e uma proposta inesperada cai dos céus para animar os dois: cuidar dos três netos por uma semana. Bem, na realidade a vovó se mostra muito mais entusiasmada, ainda que saiba que eles foram a segunda opção após a recusa dos avós paternos. Como ela mesma diz, a filha não mantém nem mesmo fotos dos pais em cima da lareira, apenas dos sogros felizes com os netinhos. 

O casal tem uma única filha, Alice (Marisa Tomei), que deseja acompanhar o marido Phil (Tom Everett Scott) em uma viagem de trabalho. O problema é que a distância geográfica acabou formando um abismo emocional e de convivência entre avós e netos, estes que crescem superprotegidos pelos pais adeptos de tecnologia para segurança e conforto, alimentação saudável e educação rigidamente moldada sob aspectos politicamente corretos e de conceitos pedagógicos modernos. A palavra “não” é ao máximo evitada, dando lugar a frase “vamos discutir suas opções”, uma forma de não limitar ou traumatizar as crianças que já são bastante problemáticas. Harper (Bailee Madison), a neta mais velha, está pressionada a se dedicar ao máximo para passar em uma audição de violino. O do meio, Turner (Joshua Rush), é frustrado na escola e com isso acabou desenvolvendo uma gagueira. Por fim, Barker (Kyle Harrison Breitkopf), o caçula que apelidou o avô de “punzão”, é hiperativo e interage com um amigo imaginário. Obviamente, os pais não enxergam os problemas dos filhos e passam uma série de recomendações aos avós que até tentam seguir a risca, mas as coisas desandam e logo a gurizada está trocando iogurte natural pelo sorvete e na TV os filmes de terror passam a reinar. Na realidade, é Artie quem perde a mão ao se distrair. Só depois de muitos anos ele descobriu que Alice trabalha para um famoso canal esportivo e ao ter acesso a emails sobre um concurso de locutores perde o foco nos netos e pensa em tentar voltar ao trabalho. Pelo título nacional, o longa pode parecer puro besteirol, mas para compensar o humor pouco criativo o diretor Andy Fickman, dos divertidos Ela é o Cara e Você de Novo, adiciona uma crítica aos tempos modernos, mais especificamente aos modismos que estão interferindo diretamente na educação de crianças e adolescentes. Sem punições, mas também pouca diversão significativa, os filhos estão sendo criados como robôs a serviço dos pais, estes que precisando se dividir entre o trabalho e a casa acreditam que ocupando os guris com atividades extracurriculares e presentes, que agreguem algo as suas vidas evidentemente, estão suprindo suas ausências com qualidade, as vezes até tentando realizar com os filhos os sonhos que não puderam. Os avós então decidem ensiná-los o que é ser criança de verdade de forma um pouco chocante... Para os pais!

É interessante notar que a crítica às novas formas de educação, que acabam ajudando no amadurecimento precoce das crianças e porque não a formar os adultos depressivos e neuróticos do futuro, não ficam restritas ao ambiente familiar, mas se estendem à escola. A professora de música de Harper é um tanto rígida e agressiva, cobrando demais de seres humanos que ainda não compreendem totalmente o sentido da palavra responsabilidade. A fonoaudióloga de Turner quer curar sua gagueira com um método pouco convencional baseado em mímicas para não traumatizar. Já o pequeno Barker joga em um time de beisebol infantil onde não há ganhadores ou perdedores, apenas empates para não expor ninguém a decepção e tampouco incentivar a superioridade. Que seres humanos serão esses mais adiante sem vivenciar plenamente experiências de vitória e frustrações? Crystal, também produtor da fita, é quem teve a ideia do argumento a partir de experiências próprias. Ele também precisou cuidar das netas por uma semana e sua filha lhe entregou um manual de instruções, um caderno com tudo que ele poderia fazer e reprovar e até as respostas para serem dadas a determinados questionamentos e situações. Com muita propriedade para lidar com o assunto, é natural que o ator tenha maior participação no longa, até porque o personagem tem mais dramaticidade por conta da aposentadoria forçada, mas ele, Midler e as crianças tiveram liberdade total para improvisar, deixar o mais natural possível o diálogo entre gerações tão distintas e que com o passar dos anos parece mais distante, ainda que hoje em dia as pessoas de meia e terceira idade estejam correndo atrás das atualizações e da manutenção da vitalidade, não por só por questão de vaidade, mas principalmente por saúde física e mental. Além do texto em tom de bate-papo informal, conversa caseira mesmo, teve até espaço para a vovó Diane cantar, cena que não estava no script, mas adicionada para aproveitar os dotes vocais de sua intérprete. Após muitas discussões, não é surpresa alguma que todos irão perceber que as pessoas devem ser aceitas com suas qualidades e defeitos ao término de Uma Família em Apuros. O equilíbrio enfim chegará e os avós e os pais tirarão lições importantes deste convívio em um mundo onde o excesso de possibilidades acaba suplantando os ingredientes essenciais entre as relações humanas: amor e respeito. Mesmo com toda a previsibilidade e repetição de piadas, o conjunto funciona principalmente se você pensar nesta produção como uma justa homenagem aos protagonistas e ao próprio gênero no qual eles colheram tantos frutos nos anos 80. Quem conseguir ainda refletir sobre os prós e os contra da educação moderna, o excesso de tecnologia no cotidiano e a consideração aos mais velhos e suas adequações aos novos tempos, certamente este filme não se resumirá a um simples passatempo, podendo se tornar uma ferramenta para pais e professores trabalharem tais questões com os mais novos. 

Comédia - 104 min - 2012 - Dê sua opinião abaixo.

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