quarta-feira, 17 de julho de 2019

JUNTOS E MISTURADOS

NOTA 5,0

Terceira parceria entre Adam
Sandler e Drew Barrymore mostra
sinais de desgaste da dupla, mas estilo
de humor do ator ainda domina a fita
Adam Sandler e Drew Barrymore trabalharam juntos pela primeira vez em 1998 no pouco lembrado Afinado no Amor, interpretando dois jovens de perfis completamente opostos que se apaixonam à primeira  vista. Com uma premissa batida destas o ostracismo da fita é perfeitamente justificável. Mais sorte a dupla teve no reencontro seis anos mais tarde em Como Se Fosse a Primeira Vez. Com seus nomes já valendo peso de ouro e uma história bem mais elaborada, a do cara que precisa diariamente reconquistar uma garota que sofre de um estranho tipo de amnésia, essa comédia romântica caiu no gosto popular e se tornou campeã de reprises na televisão. A química do casal sem dúvidas é o grande trunfo da fita, não menosprezando o enredo levemente diferenciado. Se o passar de alguns poucos anos os beneficiou em termos de amadurecimento, tanto pessoal quanto profissional, que tal mais um reencontro, agora uma década depois? Sandler certamente deve ter pensado nisso quando convidou a atriz para dividir as atenções em Juntos e Misturados, mas o resultado não mostra avanços e sim retrocessos para seus currículos. A história começa com o primeiro encontro a sós de Jim (Sandler) e Lauren (Barrymore), mas o jantar mais parece uma aula prática de como fugir de um relacionamento. Da escolha do local, um restaurante famoso por suas garçonetes gostosonas vestindo roupas insinuantes, passando pela atenção especial dedicada ao que está passando na TV e até chegar ao prato principal com camarões apimentados que culmina em um escatológico fim de noite, a introdução não é nada convidativa. Depois disso eles acabam se cruzando vez ou outra por acaso, sempre em meio a situações embaraçosas, até que se veem obrigados a dividir uma mesma suíte em uma viagem para a África. Por uma daquelas estranhas coincidências roteirísticas, somos forçados a engolir que o passeio a um resort de luxo com tudo pago caiu dos céus para ambos. Detalhe, o público-alvo do lugar são casais a fim de curtir uma segunda lua-de-mel, a maioria levando a tira-colo os filhos, uma peculiaridade que vem a calhar ao casal-torto. Jim é um pai viúvo que não tem o menor traquejo para cuidar de suas três filhas, oferecendo uma criação masculinizada, o que inclui cortes de cabelo em barbearia e roupas esportivas que compra com desconto na loja em que trabalha.

Hilary (Bella Thorne), a filha mais velha, costuma ser chamada de Larry pelo próprio pai e por conta de seu visual é sempre confundida com um menino, o mesmo problema que persegue Espn (Emma Fuhrmann) que ainda carrega o fardo de ter sido batizada com o nome de um canal esportivo e acredita que a falecida mãe está sempre acompanhando a família e se comunica com ela. Por fim, Lou (Alyvia Alyn Lind), a caçula, é a mais sensata e normal do clã, pelo menos por enquanto. Se a elas falta uma figura feminina como referência, aos filhos de Lauren falta um espelho paterno, já que seu ex-marido Mark (Joel McHale) faz o que pode para fugir de qualquer compromisso com os meninos. Brendan (Braxton Beckham), o primogênito, está na fase da puberdade e se sente atraído pela babá enquanto Tyler (Kyle Red Silverstein), o caçula, sente-se inferior aos colegas devido a sua falta de aptidão com atividades físicas. Todos os personagens são dotados de características facilmente aplicadas a perfis manjados, assim de antemão já temos ideia das piadas que estão por vir e como tudo vai acabar. O próprio Sandler como ator é um estereótipo ambulante, sempre vivendo um protagonista infantilizado, curtindo a vida adoidado e cercado de figuras que lhe paparicam conquistadas por sua carinha de cachorro manhoso e maneira ingênua de ver o mundo. Repetindo esse mesmo tipo de personagem, o ator conquistou uma inexplicável conexão com o público, assim não importa a qualidade do texto. Qualquer coisa que venha a lançar automaticamente ganha a chancela de seus fãs, afinal ele é "o cara". Uma pena, já que provou ser bom ator de verdade em outras oportunidades, inclusive para enredos mais dramáticos ou que lhe exijam humor na declaração de suas falas, não sua comédia física. Prova disso são Embriagados de Amor ou Reine Sobre Mim. Já Barrymore construiu sua carreira basicamente com mocinhas sonhadoras e engraçadinhas, mas o tempo passa. Como mãe enérgica de dois guris ela até pode enganar, ainda que exagere nos ataques de nervos, mas suas falas soam artificiais, não está acostumada ao humor escrachado de seu companheiro, tanto que até a metade sentimos a atriz pouco à vontade. Conforme o gancho romântico ganha força ela vai se soltando mais, porém, um pouco tarde para salvar a atenção do espectador que até então não tem uma experiência muito satisfatória com o primeiro ato marcado por piadas grosseiras, muita confusão, trocadilhos infames e por aí vai. Ainda assim, a atuação de Barrymore é o que o longa tem de melhor a oferecer.

Outra coisa que incomoda bastante é a maneira como a África é retratada, quase como uma escola de samba, tudo muito alegórico. Animais selvagens, tribos subdesenvolvidas e submissivas, costumes exóticos e um ambiente multicolorido. Completando o espetáculo, o cantor Tatoo (Terry Crews) invade a trama por diversas vezes acompanhado de seus dançarinos para números musicais constrangedores. Acreditando que os protagonistas formam um casal de verdade, ele funciona como uma espécie de cupido tentando manter a harmonia entre eles ou, em outras palavras, faz as vezes daqueles monitores chatos de viagens que pagam os maiores micos para divertir os hóspedes. Detalhe, em nenhum momento é revelado em qual país exatamente fica situado o tal resort. São dezenas de pátrias distintas que compõem o continente africano, mas o diretor Frank Coraci despreza a diversidade de culturas e povos e generaliza tudo. Isso sem falar que as mazelas da região que são muitas, todos sabemos, não são nem mencionadas. A África é lugar de festa e ponto final. Uma visão medíocre, mas Juntos e Misturados não pretende ensinar nada a ninguém, a não ser reforçar no final que, não importe o quão excêntrica, a família é sempre importante. Essa é a terceira parceria entre Coraci e Barrymore e a quarta com Sandler, assim o longa tem meio que aquele jeitão de brincadeira entre amigos. Liga-se a câmera e estejam a vontade para fazer o que quiserem. Ao menos muitas cenas dão a impressão de terem sido improvisadas durante as filmagens, mas brincar é alma do negócio. O roteiro de Ivan Menchell e Clare Sera constrói personagens rasos e de forma agressiva, perde muito tempo com os primeiros encontros dos protagonistas para evidenciar que a repulsa inicial é mútua e permite que Sandler em curtos espaços de tempo repita piadas. No final das contas quem leva a melhor é o elenco infanto-juvenil, não por seus conflitos, mas pelo carisma que imprimem na tela. A mesma simpatia nossos protagonistas também exalam, mas sendo essa a terceira parceria da dupla podemos perceber sinais de desgaste. É como um relacionamento amoroso. Na primeira vez que contracenaram juntos estavam se conhecendo, criando certa intimidade assim como seus personagens. O segundo encontro mostrou amadurecimento, química total entre os dois. Já na terceira a relação soa truncada, não falam mais sobre os mesmos assuntos. Barrymore quer romance e Sandler Besteirol e Coraci não conseguiu equilíbrio entre os interesses. Haverá uma quarta parceria dos atores? Bem provável, mas esperamos que assim como um casal que reata na expectativa de recuperar a harmonia, os astros escolham um texto que permita o mesmo.

Comédia - 117 min - 2014
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