terça-feira, 31 de outubro de 2017

CONVENÇÃO DAS BRUXAS

NOTA 9,0

Anjelica Huston brilha como a
bruxa-mor que quer exterminar as
crianças neste clássico divertido e
nostálgico que envelhece em boa forma
Dia 31 de outubro festejamos o Halloween, ou melhor, tentamos curtir a data o mais próximo possível do estilo americano, principalmente as crianças e jovens, porém, ficamos nas baladas à fantasia e só. Não temos a tradição de sair por ai pedindo doces, esculpir rostos medonhos em grandes morangas e tampouco temos um personagem característico para representar a época em terras brasileiras. O jeito é recorrer às influências dos ianques e nesse quesito Hollywood é uma fonte riquíssima de inspiração. Hoje não é tão frequente, mas em um passado não muito distante o filme Convenção das Bruxas era uma das vedetes das sessões da tarde na TV e um coringa para ser exibido no Dia das Bruxas. O longa é uma envolvente mistura de suspense, aventura, comédia e fantasia que faz parte das lembranças da infância de muito marmanjo. O filme começa com um tom sombrio de atiçar a curiosidade de qualquer guri. Helga (Mai Zetterling) gosta muito de contar a seu neto Luke (Jasen Fisher) histórias sobre bruxas, o que contraria as ordens dos pais do garoto. Certa noite ela lhe conta que uma menina que conheceu quando criança sumiu misteriosamente quando ia fazer compras, mas a própria começou a aparecer depois em um quadro na sala de sua família e tal imagem ia se desenvolvendo como uma garota real até o dia em que desapareceu de vez. Essa introdução extremamente eficiente não tem desdobramentos ao longo da narrativa, existe apenas uma rápida menção ao episódio mais adiante, porém, nada que estrague a produção. Prosseguindo, a avó ensina o garoto todos os truques que as bruxas utilizam para se manterem vivas por tanto tempo e seus planos para atrair as crianças, estas que para elas tem cheiro parecido ao das fezes de cachorros e devem ser exterminadas. Diabolicamente perversas, elas aparentemente são mulheres comuns, mas suas reais e horrendas feições são encobertas por impecáveis máscaras, perucas e vestimentas. Elas na verdade tem a pele bastante enrugada e deteriorada, não possuem dedos nos pés, são carecas, sentem muita coceira na cabeça, tem as mãos muito grandes e seus olhos reluz uma cor púrpura. Aparentemente tais ensinamentos são inúteis, mas Luke nem imagina que muito em breve eles lhe serão de grande serventia. 

domingo, 29 de outubro de 2017

DOIDAS DEMAIS

Nota 6,0 Comédia investe em clichês e se acomoda sobre talento e carisma de protagonistas

Manter uma amizade não é nada fácil. Se já é complicado quando jovem e sem maiores complicações, pior ainda quando adultos, época em que relacionamentos amorosos, carreira e até o nível social podem revelar-se entraves para manter os amigos por perto. A comédia Doidas Demais aborda o assunto através do reencontro de duas mulheres que já foram grandes amigas, mas quis o destino que elas trilhassem caminhos bem opostos no futuro. Suzette (Goldie Hawn) é alto-astral e desencanada, mas quando perde seu emprego em uma boate cai na real de que não tem como se sustentar, assim resolve viajar centenas de milhas para procurar uma antiga amiga com quem aprontou poucas e boas nos tempos das discotecas. Bem, elas não eram adeptas dos passinhos coreografados e polainas com brilhos e sim do som pauleira e das jaquetas de couro. Elas eram tão próximas que eram chamadas como as "irmãs doidas demais" e amavam tietar bandas de rock, inclusive faziam verdadeiras loucuras para conseguirem chegar perto de seus ídolos. Contudo, Lavinia (Susan Sarandon) deixou o jeitão porra-louca para trás e agora é uma mãe de família e dona-de-casa cheia de regras e metódica e renega totalmente seu passado desregrado, inclusive não atende chamados por Vinnie, o nome que usava quando era roqueira. Obviamente o reencontro gera estranhamento. Enquanto uma insiste em viver como se estivesse nos anos setentistas, a outra se empenha para evitar que as filhas Ginger (Eva Amaurri - filha de Sarandon na vida real) e Hannah (Erika Christensen) façam tantas besteiras quanto ela e se arrependam no futuro. Detalhe, as adolescentes e o marido Raymond (Robin Thomas), este com aspirações políticas, desconhecem suas estripulias da juventude, mas tais lembranças inevitavelmente voltam à tona com a chegada da amiga. Inicialmente Lavínia tenta manter certo distanciamento, mas não demora a querer provar para si mesma que ainda pode ser feliz como antigamente dosando com a vida de responsabilidades que assumiu.

sábado, 28 de outubro de 2017

DE CASO COM O ACASO

Nota 7,0 Longa aborda como pequenos detalhes cotidianos podem ou não interferir no futuro

Nem a publicidade da atriz Gwyneth Paltrow ter ganho o Oscar no início de 1999 por Shakespeare Apaixonado ajudou. De Caso Com o Acaso teve um lançamento um tanto modesto, algo como vamos estrear nos cinemas para algumas pessoas saberem que o filme existe e depois procurarem nas locadoras. Bem, de fato, este romance se adapta melhor ao aconchego do lar, visto que é desprovido de qualquer atrativo visual ou técnico parecendo muito mais um telefilme. Contudo, a trama é simpática e bem construída. Com direção e roteiro de Peter Howitt, a história tem um ponto de partida reflexivo: pequenos acontecimentos do cotidiano podem alterar drasticamente nossos destinos? Paltrow vive Helen, uma jovem que certo dia levanta da cama com o pé esquerdo. Ela era relações públicas de uma conceituada empresa, mas da noite para o dia perdeu o emprego graças aos seus excessos na vida pessoal que começaram a atrapalhar em sua rotina de trabalho. Voltando mais cedo para casa, ela perde o metrô ao trombar por acaso com uma garotinha. O que poderia acontecer na vida da moça caso tivesse conseguido embarcar naquele vagão? E pegando o próximo? O enredo então passa a se alternar nestes dois distintos caminhos. A deixa é um efeito visual como se rebobinasse alguns poucos segundos do dia da protagonista, mais especificamente quando descia uma escadaria. A partir de então, em uma possibilidade, Helen pegaria o primeiro metrô, onde conheceria o carismático James (John Hannah), e chegaria em casa mais cedo surpreendendo o namorado Gerry (John Lynch) a traindo com Lydia (Jeanne Tripplehorn), sua ex. A outra hipótese é que ela poderia perder a condução e ser assaltada, indo parar no pronto-socorro e assim dando tempo de chegar em casa sem flagrar o companheiro com outra, embora existam algumas evidências que ele deverá esconder para ela não desconfiar que alguém esteve no apartamento.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

UM TIO QUASE PERFEITO

NOTA 6,5

Com a velha premissa do sem
noção que cresce com as adversidades,
comédia agrada crianças e adultos com
fórmula comum a filmes para toda família
O título tenta um claro link com Uma Babá Quase Perfeita, a clássica comédia do saudoso Robin Williams, mas felizmente a estratégia é apenas para publicidade. Para o bem do cinema nacional e seu amadurecimento, mesmo com um ou outro momento que possam remeter a citada comédia, estruturalmente Um Tio Quase Perfeito segue seu próprio caminho e foge de tentar recriar situações vividas pelo pai que para poder conviver mais tempo com os filhos assume a identidade de uma simpática senhora. No caso, o bonachão Tony (Marcus Majella) é um aspirante a ator que sem sorte se aproveita de seu talento para ganhar alguns trocados nas ruas vivendo desde uma estátua viva em trajes de guerreiro romano até um pastor vigarista que vende uma água pretensiosamente milagrosa, mas o tipo mais difícil de interpretar é aquele que já deveria estar acostumado: o de tiozão. Sempre contanto com o apoio de Cecília (Ana Lucia Torre), sua mãe, ele vive de pequenos golpes na rua, mas sempre endividados eles acabam sendo despejados de onde moram e para não ficarem pedindo esmolas, o que para eles não seria problema algum tamanha cara-de-pau que ambos tem, eles pedem asilo para Angela (Letícia Isnard), irmã do rapaz. O convívio com a família nunca foi dos melhores e a moça sempre tentou manter certo distanciamento, assim não gosta nada da ideia de abrigar a dupla em sua casa, ainda mais para evitar que os seus maus costumes sirvam de exemplo aos filhos pequenos, Patrícia (Julia Syacinna), João (João Barreto) e Valentina (Sofia Barros). Contudo, um compromisso profissional fora da cidade a obriga a viajar de uma hora para a outra e com o sumiço da babá das crianças não lhe resta alternativa a não ser deixá-las sob a batuta do tio e da avó destrambelhados. Eles não teriam que fazer nada de outro mundo, apenas manter a rotina dos pequenos de ir à escola, fazerem a lição, manter a casa em ordem, mas como já é de se esperar, uma série de situações vão revelar o quanto Tony é imaturo ao mesmo tempo que aos poucos os sobrinhos vão conquistando seu carinho e atenção.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

MORTE SÚBITA (2007)

NOTA 6,0

Apesar da premissa de filme B,
suspense envolvendo gigantesco
crocodilo investe mais no suspense
que na carnificina gratuita
Houve um tempo em que os filmes de animais assassinos estavam em alta. Geralmente pautados em cima de enredos sobre mutações genéticas que deram errado, a mescla de suspense e horror não demorou muito a ser rotulada como trash, produções que causam risos involuntários devido as condições precárias, além de situações e atuações um tanto bizarras. Na época das videolocadoras fitas do tipo eram lançadas aos montes, mas nos cinemas o espaço sempre foi restrito. Agora os animais-vilões acharam lugar na TV fechada, tem até canais que parecem especializados em garimpar pérolas do subgêneros (não é um elogio, é no sentido irônico mesmo). Morte Súbita é um exemplo que tem tudo para virar clássico da telinha. Ou melhor, das multitelas, afinal os tempos são outros. Uma excursão pelas águas do  Parque Nacional Kakadu, no norte da Austrália, conhecidas pelos gigantescos crocodilos que as habitam, se transforma em um verdadeiro pesadelo. Guiados pela corajosa Kate (Radha Mitchell), o passeio seguia bem, mesmo com a desagradável intromissão do ex-namorado dela, o rude Neil (Sam Worthington), até que ela desvia o caminho planejado para socorrer um suposto pedido de ajuda disparado por um sinalizador em uma parte mais densa do rio onde são surpreendidos por um ataque de algo que não conseguem identificar (no meio de um rio cheio de crocodilos, dãããã). Com a embarcação danificada, os turistas ficam ilhados a espera de socorro, mas a maré sobe com rapidez e em questão de poucas horas o local será submerso. Entre os acuados está o jornalista Pete McKell (Michael Vartan), que em um primeiro momento mostra-se fechado e evita contato com seus companheiros de viagem como Simon (Stephen Curry), o viúvo Russell (John Jarratt), Allen (Geoff Morrell) e sua esposa Elizabeth (Heather Mitchell), além da filha do casal, a jovem Sherry (Mia Wasikowska). Contudo, eles terão que se unir para fugir do local que além do avanço das águas guarda um perigo ainda maior: um gigantesco e agressivo crocodilo. Então já sabemos que vai ter muito corre-corre, gritaria, estrondos e que os personagens vão ser devorados um a um até sobrarem os heróis que desde o início são anunciados. Errado!

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

ERNEST E CELESTINE

NOTA 9,0

Com traços delicados e narrativa,
singela, animação francesa aborda
o preconceito através de uma relação
de amizade que desperta ira e medo 
Disney, Pixar, Dreamworks e alguns esforços intensificados nos últimos anos por empresas como Fox e Paramount. Com os avanços das animações digitais o mercado cinematográfico ganhou muito e a concorrência acirrada fez com que os enredos cada vez se tornassem mais inteligentes, até para também poderem fisgar o público adulto que agora não usa mais a desculpa de levar o filho ou sobrinho ao cinema. Tranquilamente os marmanjos podem assistir a produções animadas com a certeza de que estão vendo uma obra tão boa quanto um elaborado filme com atores de carne e osso. Hollywood abriu os olhos para essa possibilidade dos anos 2000 para cá e ao passo que cada vez mais busca modernidades no campo também volta-se à simplicidade jogando certa luz sobre produções estrangeiras ou do próprio circuito alternativo ianque que se não fossem indicadas ao Oscar da categoria certamente não chegariam a ser conhecidas nem mesmo pelos cinéfilos de carteirinha. A delicada animação Ernest e Celestine é um bom exemplo. Coprodução da França e Bélgica, o longa é baseado nos contos infantis da escritora e ilustradora Gabrielle Vicent que através da fábula aborda a valorização da amizade acima de qualquer obstáculo, principalmente tabus sociais como o preconceito entre raças. A trama conta a história da ratinha Celestine, uma aspirante a pintora que cresceu em um orfanato e nunca compreendeu o medo que outros roedores habitantes do subterrâneo tinham dos ursos, os moradores do chamado mundo de cima. Fascinada pelo desconhecido, pois é justamente desbravando esse outro universo que ela conhece Ernest, um grande urso que em nada lembra a imagem da fera que fora forçada a imaginar com as histórias sobre como os grandalhões peludos eram malvados e forçavam as ratazanas a se refugiarem nos esgotos. Divertido, simpático e prestativo, ele ganha alguns poucos trocados tocando música nas praças, mas garante o sustento da família com pequenos furtos. Ernest encontra a roedora em uma lata de lixo e rapidamente conquista a sua confiança, porém, precisam viver essa amizade escondido, pois as sociedades de ambos não aceitam que animais tão distintos, tanto no físico quanto na personalidade, se relacionem.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A PIRÂMIDE

NOTA 1,5

Apesar do tema rico em
possibilidades, suspense parece
não sair do lugar com trama chata
e efeitos especiais precários
A mitologia egípcia é uma riquíssima fonte de inspiração o cinema desde que ele era em preto-e-branco e sem som. A Múmia com Boris Karloff é um clássico absoluto do gênero de terror enquanto a fita homônima estrelada por Brendan Fraser aos pés da virada do milênio procurou adaptar o universo fúnebre ao campo da aventura com bastante sucesso. Já a caça de Tom Cruise à criatura em 2017 revelou ser um projeto mal lapidado e com pressa de faturar. Outros símbolos da cultura do Egito também instigam a imaginação de cineastas, entre eles obviamente as pirâmides que até hoje intrigam como foram construídas em tempos tão remotos, mas mesmo assim com formas tão perfeitas e arrojadas. Se por fora impactam pelo design e tamanho, por dentro dão arrepios com sua atmosfera claustrofóbica e sensação de que em todos os cantos podem surgir surpresas, belas ou assustadoras. Os desenhos e inscrições nas paredes além dos objetos e adornos das salas colaboram para a mescla de fascínio e tensão. Pena que tal cenário é tão mal explorado pelo cinema, geralmente servindo de palco para histórias tolas em produções obscuras. A Pirâmide poderia fugir desse rótulo, mas infelizmente a estreia na direção do francês Grégory Lavasseur não foi das melhores. Experiente roteirista de horror, tendo escrito Viagem Maldita e Espelhos do Medo, ambos dirigidos por Alexandre Aja, seu amigo de longa data que aqui retribui a parceria assinando como produtor, ao assumir a câmera encontrou dificuldades, afinal há muita diferença entre criar uma história e transformá-la em imagens. Tendo em mãos o enredo feito pela dupla Daniel Meersand e Nick Simon, parece que Lavasseur não teve muita noção de onde estava colocando os pés, alternando a produção entre um "mockumentary" (falso documentário) e um "found footage" (compilação de cenas supostamente reais). O resultado é um trabalho tedioso e extremamente escuro que dispersa a atenção logo nos primeiros minutos desperdiçando o intrigante argumento (fictício, fique claro) da descoberta de uma pirâmide de três lados, quando tais monumentos são quadriláteros.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

TERROR NOS BASTIDORES

NOTA 7,5

Desconstruindo os clichês dos
filmes de assassinos mascarados e
repleto de nostalgia, mescla de horror
e comédia diverte e e inteligente
Não se espante com o título. Medo é a última coisa que você vai sentir com Terror nos Bastidores, mais uma produção terrir que busca fazer graça homenageando e ao mesmo tempo desconstruindo um gênero, ou melhor, um subgênero, no caso os slashers movies, os filmes de assassinos mascarados louquinhos para extirpar jovens incautos e salientes. Pode parecer uma tarefa fácil unir dois estilos que de certa forma já se comunicam muitas vezes, muito mais pelo excesso de continuações que fizeram com que as franquias perdessem o vigor original e descambassem para o trash. Todavia, quando o objetivo é de fato divertir propositalmente através do sarro e não involuntariamente as coisas se complicam, até porque é necessário que o espectador tenha repertório cinematográfico suficiente para entender a proposta. O trabalho do diretor Todd Strauss-Schulson não exige que você conheça os pormenores de filmes citados, como é o caso de Todo Mundo em Pânico, mas é preciso ter certo conhecimento do universo a ser recriado, o que aproxima sua produção mais do estilo de O Segredo da Cabana. Contudo, o cineasta é mais modesto e se atém ao mundinho dos seriais killers para narrar a história de Max (Taissa Farmiga), filha de Amanda Cartwright (Malin Akerman) que nos na década de 1980 se tornou um ícone dos filmes de terror de baixo orçamento ao estrelar "Camp Bloodbath" (algo como "banho de sangue no acampamento"), considerado o avô de todos os filmes com a premissa de um grupo de jovens que viajam a fim de curtição e muito sexo e acabam vítimas de um maníaco com passado traumático. É o argumento de Sexta-feira 13 de fato, mas devemos imaginar que ele veio depois do filme fictício que lançou a modinha. Muitos anos se passam e Amanda continua bela e alto astral, mas frustrada por sua carreira ter estagnado. Pena que não teria tempo para tentar dar a volta por cima. Junto com a filha ela sofre um acidente de carro no qual vem a falecer ainda muito jovem. Três anos se passam e Max se torna uma adolescente ainda mais introspectiva do que era antes e vivendo à sombra das lembranças da mãe. Certa noite ela é convidada para uma sessão de cinema especial em homenagem ao filme na qual também será exibida a sua continuação, o que deixa os seus amigos em polvorosa.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

CINDERELA (2015)

NOTA 8,0

Visualmente e artisticamente
perfeito, sem exageros de efeitos
especiais, adaptação de clássico só
perde pontos por não inovar no enredo
A maioria dos contos de fadas são histórias clássicas criadas no período da Idade Média e o tal felizes para sempre não constam nos originais. Há registros de que na verdade histórias como da Branca de Neve acabam de formas bastante trágicas, porém, as gerações formadas a partir do início do século 20 se acostumaram a comprar as versões dos estúdios Disney como as verídicas e assim um vasto leque de produtos culturais e de bens de consumo derivados dessas animações fizeram a roda do dinheiro girar e muito. Peças de teatro, quadrinhos, livrinhos de colorir, adaptações para a TV, brinquedos, bonecos, materiais escolares, roupas e até produtos alimentícios e de higiene tratam ainda de levar adiante as versões adocicadas da casa do  Mickey Mouse para os contos, além das próprias animações replicadas em mídias físicas, televisão e serviços de streaming. Aproveitando-se de todo esse portfólio, muitas produtoras de cinema se arriscam a fazer suas versões destas histórias ou até mesmo reimaginá-las carregando no humor, tensão ou divagando sobre o que teria acontecido aos personagens caso tivessem tomados decisões diferentes em suas vidas. De olho nessa movimentação dos concorrentes, a Disney não ficou parada e também tentou fazer adaptações diferentes de alguns de seus desenhos consagrados como Alice no País das Maravilhas, acentuando o clima psicodélico já intrínseco no conto original, e Malévola, recontando a história da Bela Adormecida pela ótica da vilã. Ambas adaptações com atores em carne e osso e carregada de efeitos especiais, o público correspondeu as expectativas com polpudas bilheterias, mas visualmente os exageros incomodaram se assemelhando mais a produções adaptadas de quadrinhos de heróis ou videogames que propriamente às famosa obras animadas com traços delicados e cores aquareladas. Com a versão live-action de Cinderela parece que o estúdio finalmente encontrou a fórmula mágica do sucesso: simplesmente recontar a mesma história da versão em desenho animado. Na contramão das histórias de princesas mais recentes do estúdio, como A Princesa e o Sapo e Frozen - Uma Aventura Congelante, nas quais as mocinhas não são mais tão indefesas e o sonho de conseguirem um amor para toda a vida ficou em segundo plano, o roteirista Chris Weitz preferiu não inovar e criou uma protagonista tão bela, gentil e recatada quanto a do desenho que em 1950 salvou a Disney da falência.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A ESPINHA DO DIABO

NOTA 8,0

Um dos primeiros filmes do mexicano
Guillermo Del Toro já deixava suas
marcas abordando suspense, drama e
fantasia com pano de fundo histórico
Os melhores filmes de horror não são aqueles escorados em efeitos especiais ou em violência gráfica. Ok, O Exorcista está aí como uma exceção à regra, mas temos os clássicos O Bebê de Rosemary, O Iluminado e até da safra mais recente Os Outros para comprovar que acima de tudo é preciso ter uma boa história para contar sustentada por personagens críveis e motivações essencialmente humanas. O título A Espinha do Diabo sugere uma obra de literalmente gelar a espinha, mas levando a assinatura do cineasta mexicano Guillermo Del Toro sabemos que não se trata de um terror convencional. Bem, hoje conhecemos muito bem seu estilo de unir drama, fantasia e suspense, porém, na época ainda era um ilustre desconhecido. Ele já tinha engatilhado projetos em Hollywood, como Blade 2 e Hellboy, ambos já carregados de vícios da indústria para faturar alto até por serem baseados em personagens existentes no universo dos quadrinhos. Sendo assim, seu drama com pitadas de sobrenatural tendo como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola servia praticamente como seu cartão de visitas. Em meados da década de 1930, um orfanato estrategicamente instalado no meio do nada abriga os já órfãos e os filhos de pais recrutados para o combate. A diretora Carmem (Marisa Paredes) é uma senhora bastante rígida, mas bondosa, e que esconde uma fortuna em barras de ouro que são a obsessão de Jacinto (Eduardo Noriega), um ex-interno que agora trabalha para a idosa com quem também divide a cama eventualmente. Na verdade ele quer o tesouro para fugir com a jovem Conchita (Irene Viseto), cozinheira da casa que também é administrada pelo Dr. Casares (Federico Luppi), poeta, professor e que guarda uma paixão platônica por Carmem por se sentir impedindo pela impotência. Parece um novelão mexicano, mas a mente de Del Toro é muito mais fértil. A relação amorosa mal resolvida destas pessoas vai interferir drasticamente no futuro dos internos, entre eles Carlos (Fernando Tielve) que perdeu o pai vítima de um ataque de bombas e é deixado lá por seu tutor. Logo que chega o menino sente que a vida não será nada fácil e faz alguns amigos graças a curiosidade que desperta por trazer alguns gibis na bagagem, um tesouro para um grupo que necessitava de distração. Assim, de imediato, ele causa ciumeira em Jaime (Iñigo Garcés), até então o centro das atenções e líder natural da turminha.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A GUERRA DE HART

NOTA 4,0

Fugindo dos clichês de filmes de
guerra e se assumindo como um
drama de tribunal, longa não empolga
com trama tão fria quanto seu cenário
Costumamos reclamar sobre a repetição de temas em comédias românticas, mas o que dizer dos dramas de guerra? Está certo que conflitos como os da Segunda Guerra Mundial oferecem inúmeras possibilidade e um mesmo recorte do período pode sugerir mais de uma visão dos fatos. Na época das videolocadoras geralmente até catalogado como um gênero à parte, é certo que as produções do tipo dificilmente hoje em dia fazem sucesso, a não ser quando amparadas por indicações a prêmios. De qualquer forma, há um público cativo e sempre há a esperança de sobrevida como material de apoio à estudantes e professores. A Guerra de Hart foi lançado já sem muita pompa, até porque foi um mega fracasso nos EUA, e o tempo passou e nem nas aulas de História conseguiu ser um título de prestígio. Realmente não é nada de excepcional, mas visualmente transmite bem a frieza do episódio que retrata excluindo até mesmo qualquer participação feminina para evitar dar alguma cor ao longa. No ano de 1944, Tommy Hart (Colin Farrell) é um estudante de direito que se alista no exército para lutar pelos Aliados, mas acaba sendo capturado em uma emboscada e enviado a um campo de concentração onde encontra diversas dificuldades de adaptação, entre elas as desconfianças e inimizade do coronel William McNamara (Bruce Willis), também americano e encarcerado pelos nazistas. Os conflitos entre os confinados se agravam quando os alemães capturam dois pilotos negros, Lamar Archer (Vicellous Reon Shannon) e  Lincoln Scott (Terrence Howard), gerando revolta de alguns brancos que não aceitam compartilhar seu espaço com pessoas de outras raças, mesmo que eles exibam alguma patente. O primeiro é vítima de uma cilada e executado e pouco tempo depois Scott é acusado de matar o suposto assassino do amigo quando pego em flagrante na cena do crime. Apesar dos indícios, tal situação também poderia ser uma armadilha dos demais confinados por puro preconceito, mas o coronel Werner Vissel (Marcel Iures), quem realmente dita as ordens no campo, ordena a execução do negro imediatamente.

domingo, 1 de outubro de 2017

RUTH E ALEX

Nota 3,0 Sem uma trama com objetivo concreto, longa se apoia no carisma e talento dos atores

Para as novas gerações mudar de endereço dificilmente é um bicho de sete cabeças, a maioria já está acostumada com casas de pais separados, estudar ou trabalhar em outra cidade ou dividir o espaço com amigos ou até mesmo desconhecidos. A tendência é que quando forem idosas continuem não sofrendo com apegos a moradias, uma realidade diferente da terceira idade de agora. Ainda há muitos tradicionalistas que se apegam a lembranças, principalmente quando passaram muitos anos e praticamente construíram suas vidas em uma mesma moradia e esse é o dilema vivido pelos protagonistas do drama com pitadas de humor Ruth e Alex protagonizado por Diane Keaton e Morgan Freeman. Casados há cerca de 40 anos e sem filhos, os Carver sempre viveram no mesmo e pacato edifício no subúrbio de Nova York que nem elevador tem, mas agora não reconhecem mais o bairro em que vivem. A abertura da loja de uma poderosa empresa de comunicação na área é a gota d'água para perceberem que não se encaixam mais no local e decidem vender o apartamento, que mesmo antigo está supervalorizado, e procurar um novo cantinho sossegado. Para tanto contam com a ajuda da corretora imobiliária Lily (Cynthia Nixon), sobrinha de Ruth, que organiza um open house, um evento para apresentar o imóvel para possíveis compradores. Contudo, conforme se aproxima a hora de se despedir da antiga moradia, o casal começa a enfrentar uma série de contratempos, inclusive a própria incerteza se querem trocar de casa. Além da disputa de vários interessados no apartamento, cujo valor de venda deve ser equivalente ao que desembolsariam para comprar um novo, eles terão que enfrentar uma inesperada doença da cadelinha de estimação e ainda a presença no bairro de um possível terrorista, fato que pode espantar compradores. Uma mistura de temas um tantinho estranha, não é? Baseado na obra de Jill Ciment, o roteiro de Charlie Peters, de Três Solteirões e Uma Pequena Dama, não se define como um drama, romance, comédia ou até mesmo uma crítica social, visto que aborda a pressão exercida pela exploração imobiliária desenfreada.

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