domingo, 30 de abril de 2017

A ÚLTIMA DANÇA

Nota 4,0 Projeto antigo de Patrick Swayze, drama musical é mal desenvolvido e não cativa

Em meados da década de 2000, o cinema descobriu na dança uma forma de fazer dinheiro. O tema atrai o público feminino que acaba levando a tiracolo o marido, o namorado, filhos e por aí vai. Dança Comigo? e Vem Dançar são alguns títulos de sucesso dessa safra, mas o drama A Última Dança não teve a mesma sorte, mesmo tendo no elenco Patrick Swayze em um de seus últimos papéis. Aqui ela dá vida à Travis MacPhearson, um quarentão que abandonou a carreira de bailarino por conta de problemas nas pernas, frutos dos esforços excessivos durante os ensaios de um grande espetáculo que jamais foi apresentado ao grande público. O criador do número veio a falecer sete anos depois, mas sua companhia de dança não quer encerrar suas atividades e quer continuar a perpetuar o legado do dançarino. Como forma de homenageá-lo surge a ideia de ensaiar novamente seu espetáculo que ficou inédito, mas para tanto precisariam da presença do trio de bailarinos originais. O problema é que depois de tantos anos eles podem estar fora de forma ou simplesmente não toparem. Max Delado (George de La Pena) é o único dos três que permaneceu na companhia e se encarrega de convencer os antigos colegas a voltarem a ensaiar juntos, mas o tal espetáculo deixou marcas em todos eles, principalmente por causa das cobranças e pressões exercidas pelo falecido diretor. Travis começou a desenvolver seus problemas durante os ensaios do show “Sem Palavras” e não suportou tanta exigência, mas hoje se arrepende de ter desistido. Max tem o óbvio interesse de recobrar o prestígio da companhia a qual se dedica há anos, porém, lembra sempre dos conselhos de seu pai que ele deveria ter um emprego comum. O rapaz dá aulas e já participou de dezenas de apresentações, mas isso não lhe trouxe dinheiro tampouco fama, considerando que por culpa da desistência dos colegas sua carreira desandou. Por fim, Chrissa Lindh (Lisa Niemi), hoje assistente de um mágico, depois de muitas decepções entrou para o mundo da dança para aprender a se comportar e se vestir melhor, ou seja, pensou no que poderia conseguir como consequência de seus esforços, ser uma mulher atraente e possivelmente com passe livre nas rodas da alta sociedade. Com as cobranças do diretor, Chrissa, com sua inseparável baixa-estima, percebeu que procurava vestir um personagem e cada vez mais se distanciava de sua essência e esse mal estar a desestabilizava durante os ensaios e consequentemente irritava os demais.

sábado, 29 de abril de 2017

ENTRE A VIDA E A MORTE (2008)

Nota 5,0 Condenado a morte ganha uma segunda chance, mas precisa esquecer seu passado 

Voltar no tempo para reparar os erros do passado. Ter uma segunda chance para colocar em prática o que se aprendeu com os equívocos ou ter a oportunidade de ter uma vida completamente diferente. Estes são temas corriqueiros no cinema e nos mais variados gêneros, tendo produções excelentes e outras que literalmente viajam na fantasia. Entre a Vida e a Morte tem sua dose de fantasia, mas constrói um clima bem realista para contar a história de Ben Garvey (Paul Walker), um rapaz que leva uma vida simples ao lado da esposa Lisa (Piper Perabo) e da pequena filha Katie (Brooklyn Proulx), esta que só conheceu quando já estava com três anos por estar preso devido a negócios ilegais, mas agora que sua liberdade condicional está chegando ao fim deseja viver dignamente. Para tanto, ele se dedica ao máximo ao trabalho que conseguiu, mas mesmo assim acaba sendo despedido quando os donos tem acesso a sua ficha de antecedentes criminais. Poucos dias antes ele havia recebido a visita de Ricky (Shaw Hatosy), seu irmão que também estava preso, porém, ele não se resignou e oferece a Ben a oportunidade de participar do roubo de uma quantidade considerável de ouro em pó pertencente a um laboratório. Inicialmente o jovem chefe de família recusa a proposta, mas quando se vê sem dinheiro volta atrás prometendo que este seria seu último passo em falso. Mesmo com tudo muito bem planejado, o assalto dá errado e resulta em três mortos e na captura de Ben que deixa de ser um ex-condenado para se tornar um réu sentenciado à execução, embora afirme não ter matado ninguém. Dois anos se passam e todos os recursos do condenado foram negados pela Justiça e assim ele é submetido a uma injeção letal, no entanto, estranhamente ganha uma segunda chance. Ben subitamente se vê em uma região campestre e afastada onde trabalha como caseiro de uma instituição para doentes mentais comandada pelo padre Ezra (Bob Gunton) que o alerta que sua vida antiga ficou para trás e que agora seu foco deve ser trilhar um novo caminho.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O ABRIGO (2011)

NOTA 7,0

Drama convida o espectador a
vivenciar o cotidiano amedrontador
de protagonista que não sabe se está
louco ou tendo visões proféticas
Os empresários donos de salas de cinema é que só visam lucros ou é o público que cada vez está mais alienado e vendido a tecnologias que prometem uma experiência única no escurinho do cinema a preços exorbitantes? Infelizmente essas duas hipóteses já faz tempo que ganharam o status de constatação e com isso quem sai prejudicado é o próprio espectador, principalmente aqueles que se dizem cinéfilos e perdem a oportunidade de ver excelentes filmes no cinema simplesmente porque eles não têm firulas visuais ou necessitam que a cadeira chacoalhe em determinados momentos. Sem passagem pelas telonas, a maioria também é lançada no formato home vídeo sem grande publicidade e mais uma vez não chega ao conhecimento do grande público. É triste ver que esse quadro não acontece apenas no Brasil, mas é um problema mundial, o que explica o fracasso de O Abrigo, um sucesso de crítica e exibido em diversos festivais que acabou não arrecadando nem o suficiente para cobrir seu mísero orçamento. A trama se passa em uma pequena cidade em desenvolvimento no estado de Ohio onde vive Curtis (Michael Shannon), um homem trabalhador, honesto e amoroso e dedicado com a esposa Samantha (Jessica Chastain) e com Hannah (Tova Stewart), sua filha de apenas seis anos que está prestes a ser submetida a uma cirurgia por conta de uma deficiência auditiva. A família vive em harmonia, mas obviamente tem seus problemas, inclusive financeiros. Enquanto a mulher tenta vender bordados em uma feira popular, geralmente tendo que baixar os preços para conseguir alguma venda, Curtis leva a sério a posição de chefe de família como uma espécie de protetor e cuida para que nada falte em sua casa. Operário de obras, ele tem não tem um emprego dos sonhos, mas ao menos garante a cobertura das necessidades básicas, incluindo um plano de saúde, algo essencial neste momento para Hannah. Contudo, ventos ruins parecem soprar. O rapaz começa a ser atormentado por constantes pesadelos e ilusões envolvendo ameaças a sua família, principalmente à filha. Tais pensamentos remetem a uma forte tormenta com catastróficas consequências e são compreendidas por ele como espécies de pressentimentos de que algo ruim está para acontecer. As imagens assustadoras que só Curtis vê fazem um contraponto interessante ao bucólico ambiente em que reside, um local que transmite paz e a sensação de que nada de mal pode vir a abalá-lo, embora a região constantemente sofra com violentas tempestades e tornados, mas não na proporção de seus pensamentos.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

LEIS DA ATRAÇÃO

NOTA 4,5

Reciclando clichês e forçando
a química entre protagonistas,
longa desperdiça bom argumento e
gancho principal não convence
Quem não conhece o clichê do casal que não se bica, mas que no fundo segura a tentação de revelar seus verdadeiros sentimentos? Uma hora a coisa explode, os dois se entendem e vivem felizes para sempre. Bem, a comédia romântica Leis da Atração buscava justamente desfazer a mágica do final feliz, mas por mais que dê voltas acaba sendo previsível do início ao fim. Aqui a intenção do diretor Peter Howitt, do bem mais divertido Johnny English, era mostrar como um casal poderia viver um amor sem dar o braço a torcer, principalmente quando há interesses profissionais em jogo. Os advogados Daniel Rafferty (Pierce Brosnan) e Audrey Woods (Julianne Moore) são especialistas em casos de divórcios e conhecem todas as artimanhas para saírem vitoriosos dos tribunais. O defensor é novo em Nova York, mas sua fama de vencedor já chegou aos ouvidos da advogada que apesar da imagem autoconfiante na verdade morre de medo de falhar, principalmente perder uma causa para um novato no pedaço. Quando surge a oportunidade de eles terem que defender pontos divergentes de uma mesma questão as coisas pegam fogo e as rusgas começam desde quando se apresentam. Ela, muito hipócrita, se gaba de praticar seu ofício seguindo rigorosamente os mandamentos da lei, mas não hesita em invadir o escritório do rival em busca de algum material comprometedor sobre os processos. Ele, por sua vez, sempre tem uma carta na manga e usa todo seu poder de persuasão para conquistar uma sentença vantajosa aos seus clientes, mesmo que para tanto precise ser desonesto. Logo na primeira audiência em que se cruzam, Rafferty mostra que é muito perspicaz e sabe até fazer sua publicidade junto a imprensa, vencendo o primeiro round de um caso em que Audrey foi trapaceada pela própria cliente que lhe omitiu certos segredos sobre sua vida particular. Com segundas intenções, a advogada até tenta fazer amizade com o rival com o objetivo de conhecer seu estilo de trabalho para estruturar melhor suas defesas, mas seu jeito explosivo acaba levando-os a um bate-boca que termina, ironicamente, na cama. Sim, depois de uma noitada logo pela manhã eles voltam a brigar nos tribunais e Rafferty discretamente se aproveita do segredinho sobre o que vivenciaram horas antes para acuar a rival que acaba perdendo a ação.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

CRIME FERPEITO

NOTA 9,0

Comédia espanhola faz uma crítica
à valorização da beleza usando
como base o suspense e artifícios
pouco convencionais no humor
Muitas comédias hollywoodianas, principalmente adolescentes, investem na crítica à vaidade humana e ao culto à imagem. Quantos filmes você já não viu sobre a garota menos popular do colégio triunfando no final com direito a conquistar o gatinho do pedaço? O próprio conto clássico “O Patinho Feio” já trata de levar para o universo infantil conceitos a respeito da importância da beleza interior em contraponto a exterior. Na teoria tudo é muito lindo e civilizado, mas na prática sabemos que as coisas não são tão fáceis para quem não nasceu com a dádiva da beleza extrema. O diretor Álex de La Iglesia traz tal temática tão trabalhada em produções fincadas em ambiente escolar para o universo adulto e corporativo na comédia de humor negro espanhola Crime Ferpeito. Não é erro de digitação. A palavra perfeito é grafada errada propositalmente no título, uma homenagem do cineasta ao longa Disque M Para Matar que na Espanha foi traduzido como Crimem Perfecto. A brincadeira está na coincidência de ambos os filmes girarem em torno do plano de assassinato, mas no caso da comédia as coisas não saem da forma perfeita que o protagonista desejava. Iglesia, autor do roteiro em parceria com Jorge Guerricaechevarría, oferece ao público uma imagem diferente do cinema espanhol. Esqueça os pontos turísticos e históricos ou o universo particular em que circulam as personagens bizarras e problemáticas de Pedro Almodóvar. A crítica social já começa pelo fato de quase toda a trama ser desenvolvida dentro de um shopping, mostrando o quão consumista está a população local, substituindo as tradições que encantam os turistas para cada vez mais se aproximar ao estilo frenético e vazio da vida dos ianques. Rafael González (Guillermo Toledo) tem seu cotidiano restrito às atividades e contatos que faz dentro de uma loja de departamentos onde ele é supervisor do setor de roupas femininas. Como um legítimo conquistador latino, ele não se sente nem um pouco constrangido em transitar entre calcinhas e camisolas, pelo contrário, seu trabalho facilita seu envolvimento com as funcionárias do local e ele não perde a chance de conquistar as clientes com sua lábia, tirando proveito do aconchego dos provadores e do setor de camas e do poder que sua posição lhe confere sobre os seguranças que se fazem de cegos diante da libertinagem. Não é a toa que os homens que trabalham na loja o repudiam.

terça-feira, 25 de abril de 2017

FOCUS

NOTA 8,0

Longa mostra o quão assustadora
era a perseguição a judeus na
década de 1940 e um simples detalhe
visual poderia condenar alguém à morte
É impressionante, mas quando parece que não há mais o que ser explorado acerca do período da Segunda Guerra Mundial, incluindo fatos da fase pré e pós-conflitos, sempre surge alguma nova história para elucidar um pouco mais sobre este triste episódio. É claro que as mais lembradas são aquelas que concentram ações nos campos de batalha ou que vão fundo nas questões acerca do nazismo, mas imagine quantas milhares de histórias interessantes e impactantes aconteceram e ninguém ficou sabendo. É uma pena que as memórias vivas da época já não estão mais entre nós, contudo, o cinema assume um papel tão importante quanto os livros para manter ativos tais registros e quem sabe até produzir novos documentos. Não eram apenas as pessoas que estavam em meio ao furor do fogo cruzado que corriam riscos, mas até quem estava quietinho dentro de casa e a muitos quilômetros de distância também podia sofrer com respingos desta onda de violência e intolerância. O drama Focus fala justamente sobre esse período de medos, ódio e insegurança de não saber se estaria vivo no dia seguinte. Baseado no livro homônimo de Arthur Miller, a trama roteirizada por Kendrew Lascelles se passa em Nova York em meados da década de 1940. Lawrence Newman (William H. Macy) é um homem maduro, introspectivo, inseguro e defensor de convenções. Sem esposa, filhos ou amigos, sua rotina se resume a ida ao trabalho e a volta para casa onde vive com sua idosa mãe (Kay Hawtrey). Comprovando que sua vida sem graça pode ter algo a ver com problemas na infância, as primeiras cenas do filme mostram um carrossel que gira rapidamente até que o protagonista acorda assustado e suando. O sonho na verdade é um pesadelo corriqueiro e que o faz se levantar. De poucas palavras, mas muito observador, do alto da janela de seu quarto ele passa a admirar um casal aparentemente se divertindo na rua, provavelmente matando sua curiosidade já que o amor carnal não parece fazer parte do seu universo. De repente, o homem e a mulher passam a agir estranhamente, como se ele quisesse forçá-la ao sexo, mas a visão fica comprometida por conta de um carro estacionado. Ao invés de prestar socorro ou chamar a polícia, Newman restringe-se a voltar para a cama, mesmo estando inquieto emocionalmente. No dia seguinte fica sabendo pelo vizinho Fred (Meat Loaf Aday) que a mulher estava acompanhada de outro morador da rua, ambos embriagados, mas que nada demais aconteceu.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

CACHÉ

NOTA 8,5

Suspense propõe uma angustiante
narrativa em que um família pode se
dissolver por conta de consequências
de mazelas históricas e segredos
Chato, estranho, perturbador, melancólico, ousado, estilístico, autoral, alternativo ou excepcional. São várias as palavras que podem ser empregadas para definir o suspense francês Caché, tanto negativas quanto positivas, mas o fato é que não dá para ficar inerte quanto à obra. Os cinco primeiros minutos já demonstram que o filme foge do convencionalismo. Um longo plano estático de uma residência de classe média alta é mostrado à distância, mas aparentemente nada de anormal acontece. A certa altura a imagem é congelada, rebobinada e depois avançada enquanto ouvimos uma discussão a respeito do conteúdo desta fita VHS, um presentinho misterioso que o casal Anne (Juliette Binoche) e Georges Laurent (Daniel Auteil) recebeu embrulhado em um papel contendo um sinistro desenho feito com traços aparentemente infantis, mas chama a atenção que em meio aos rabiscos negros existe um detalhe em vermelho simbolizando sangue. A família aparentemente não tem problemas emocionais, financeiros ou inimigos, pelo contrário, pais de um único filho, o adolescente Pierrot (Lester Makedonsky), o casal vive imerso em um universo burguês e cultural. Georges apresenta um programa de crítica literária na televisão enquanto a esposa trabalha em uma editora de livros. A gravação da fachada da casa dura cerca de duas horas, incluindo também cenas noturnas, e os Laurent acreditam que pode ser alguma brincadeira de mau gosto de algum colega do filho, mas mesmo assim eles ficam com a pulga atrás da orelha afinal não é nada confortável ter a sensação de alguém estar vigiando seu cotidiano. A preocupação aumenta com telefonemas cuja voz do outro lado se cala, cartões com imagem macabras enviados até mesmo para Pierrot e uma segunda fita contendo imagens da fachada da casa de mãe de Georges. Não há dúvidas, alguém que conhecesse esta família muito bem está tentando apavorá-la, aliás, tem conhecimento de detalhes da infância do patriarca, mas sem danos materiais ou físicos a polícia diz que nada pode fazer. O monótono cotidiano do clã então sofre uma sacolejada forçada e até mesmo desequilibra o relacionamento modelo de Georges e Anne. Ela acredita que o marido está escondendo algo e o crítico, por sua vez, liga alguns pontos coincidentes e suspeita que um ex-amigo de infância que não via a muito tempo está por trás de todas essas ameaças, mas explica esse passado com meias palavras à esposa.

domingo, 23 de abril de 2017

REPÚBLICA DO AMOR

Nota 4,0 Apesar do início estranho, romance entra nos eixos, mas é tocado em banho-maria

Os tempos mudaram, a instituição do casamento já não tem mais o peso de antigamente e o cinema está sempre tentando compreender as mentes e sentimentos das novas gerações repletas de adeptos da solidão ou parceiros múltiplos. Se amarrar a alguém parece uma alternativa apenas em último caso e geralmente colocando na balança outros valores, sendo o amor talvez o requisito de menor valor nas relações modernas e o respeito ao individualismo a prioridade. Baseado no livro de Carol Shields, República do Amor conta uma história romântica que explora o fascínio, os dilemas e as barreiras de uma relação a dois. Tom Avery (Bruce Greenwood) é um locutor de rádio que tem um programa nas madrugadas destinado a ouvir lamentações e questionamentos, principalmente de ordem sentimental, de ouvintes insones. Ele teve uma infância pouco convencional com pais liberais e provavelmente isso influenciou sua vida amorosa, visto que ele já foi casado três vezes e hoje prefere encontros casuais apenas para satisfação sexual. Já Fay McLeot (Emilia Fox) é uma pesquisadora que está mais focada em seu trabalho dedicando-se a escrita a respeito de uma tese sobre o mito das sereias. Ela está entediada com seu atual namorado, a relação caiu na rotina. Quando aceita o convite de um amigo para uma festa, Tom conhece e se interessa por Fay e a recíproca é das melhores. Após algum tempo longe por conta de uma viagem da moça, os dois se reencontram e engatam um namoro que parece perfeito, porém, cada um tem seu próprio espaço, sua maneira particular de ver o relacionamento. Já quarentão, possivelmente Tom vê o casamento como uma necessidade, tanto para cessar especulações sobre sua vida “desregrada” quanto para contar com o apoio de alguém no futuro, tal qual seus pais vivem em harmônio auxiliando um ao outro na velhice. Já Fay deseja o casamento perfeito assim como de seus pais que mesmo após tantos anos de união aparentam manter o amor bem acima do simples respeito e solidariedade. Todavia, essa utopia pode arruinar seu relacionamento atual quando surge uma frustração em seu caminho.

sábado, 22 de abril de 2017

DORM - O ESPÍRITO

Nota 4,0 Longa surpreende com mudança de foca na metade, mas transição é mal construída

Um colégio interno instalado em um antigo e isolado prédio, onde as crianças são comandadas a punhos de ferro e histórias assombrosas percorrem os amplos corredores. Esse é o cenário ideal para uma trama de horror e Dorm – O Espírito tenta tirar partido disso. Bem, pelo menos até certa altura. A trama escrita por Chollada Teaosuwan, Vanridee Pongsittsak e Songyos Sugmakanan, este último também assinando a direção, narra a adaptação de Chatree (Charlie Trairat) à rotina de seu novo colégio só para garotos, local que seu pai acredita que o obrigará a ser mais aplicado nos estudos e o ensinará a ser um homem de verdade assumindo responsabilidades agora que estará longe da família. O menino não parece empolgado em ter que mudar de escola em plena metade do ano letivo, ainda mais quando conhece a Srta. Pranee (Chintar Sukapatana), a inspetora dos dormitórios que parece ser o terror de todos os alunos. Em vários momentos, o novato sente a presença de alguém o seguindo ou o observando e seu pavor aumenta quando os seus colegas começam a contar histórias de arrepiar sobre o colégio. A que mais lhe impressiona é a de um garoto que morreu afogado na piscina que ficava nos fundos e que há anos foi desativada. Dizem que seu espírito aparece no banheiro na calada da noite e que sua cama, até então guardada no depósito, foi recolocada em um dos dormitórios, sendo justamente o leito destinado a Chatree. Enquanto se apavora diariamente por ficar impressionado com as lendas que cercam a escola, o novo aluno constata que o comportamento estranho de Pranee é verídico. Desde a morte de Vichiem (Sirachuch Chienthaworn) a inspetora mudou completamente seu comportamento tornando-se amarga e com o hábito de diariamente ouvir uma música melancólica enquanto chora observando o fundo de uma gaveta que ela jamais deixou alguém ver o que tinha dentro. É óbvio que Chatree vai se sentir instigado a descobrir qual a relação de Pranee com a morte do aluno e para tanto vai ter a ajuda especial de ninguém menos que o próprio espírito dele.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

CAPITÃO SKY E O MUNDO DE AMANHÃ

NOTA 7,0

Apostando no casamento de
uma narrativa nostálgica com
visual moderno, longa diverte,
mas sua trama tem defeitos
Já fazia algum tempo que os filmes de ação e aventura estavam dependentes da tecnologia para atrair público e cada vez mais deficientes de trama para se sustentarem, mas eis que o estreante diretor e roteirista Kerry Conran trouxe em 2004 uma proposta ousada e inovadora. Capitão Sky e o Mundo de Amanhã tem visual de videogame, mas enredo que homenageia o cinema de antigamente. O início do projeto foi extremamente pessoal e sem recursos financeiros, apenas apostando na criatividade. O cineasta levou aproximadamente quatro anos de trabalho para criar míseros seis minutos de filme, uma pequena introdução que realizou em um simples computador para apresentar o universo diferenciado desta aventura e então apresentar a produtores e correr atrás de financiamento para levar a ideia adiante no formato de longa-metragem. A surpresa é que quem resolveu comprar a ideia e bancar o filme como um dos produtores foi o ator Jude Law que também se prontificou a protagonizá-lo. Na realidade, o projeto não era tão ambicioso inicialmente. O diretor apenas queria melhorar o que já tinha em mãos e lançar como um curta, mas foi convencido de que seu trabalho, que mostrava gigantescos robôs atacando uma Nova York nostálgica, inspirava uma projeção mais apurada. Até pouco tempo antes deste lançamento, Conran era apenas um estudante de cinema que trabalhava fazendo programação de computadores. Fã de quadrinhos e séries de TV antigas, como passatempo ele bolou um roteiro que colava estas lembranças aliadas a uma colcha de retalhos visuais, uma mistura de diversas técnicas que iam desde o uso de simples fotografias, passando por reproduções de trechos de filmes até chegar à animação computadorizada. O resultado retrô-futurista acabou conquistando a confiança de investidores e um razoável orçamento foi liberado ao cineasta de primeira viagem para investir naquela que podia ser uma obra divisora de águas, mas que acabou não sendo um sucesso e abortou qualquer possibilidade de se tornar uma franquia duradoura. Antes de falar sobre tal frustração vamos ao enredo. Em Nova York no final dos anos 30, a jornalista Polly Perkins (Gwyneth Paltrow) recebe um objeto de um homem misterioso que está sendo perseguido. Ela então descobre que os cientistas mais famosos do mundo estão desaparecendo sem deixar pistas, mas todos coincidentemente envolvidos em um projeto secreto dos tempos da Primeira Guerra Mundial.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

VIOLAÇÃO DE CONDUTA

NOTA 5,0

Thriller militar começa bem,
mas na obsessão de surpreender
a narrativa vai somando elementos
desnecessário para render final tolo
Houve um tempo em que qualquer suspense meia boca bombava nos cinemas e locadoras facilmente, ainda mais se nomes famosos constavam nos créditos, mas os tempos mudaram. Depois dos finais impactantes de O Sexto Sentido e Os Outros e o quebra-cabeças proposto por Amnésia e Efeito Borboleta, o público se acostumou a achar que suspenses bons são unicamente aqueles que fogem da narrativa convencional e possuem um arsenal de truques na manga. Pensando bem, desde Os Suspeitos, lançado em 1995, surpreender o espectador tornou-se uma obsessão de muitos cineastas que na preocupação de criar momentos arrebatadores esquecem-se que para sustentá-los é preciso também ter uma boa narrativa. Violação de Conduta tentou ser mais um marco do tipo no gênero, mas acabou se tornando um filme complicadíssimo que tropeça em suas próprias trucagens. Roteirizado por James Vanderbilt, a trama tem uma introdução passada na Zona do Canal do Panamá e em off temos uma rápida explanação sobre o passado do local que em nada acrescenta a trama principal, a não ser o fato de ser conhecido como uma região que tem uma forma especial de lidar com lucros e a morte. Essa é a tônica do enredo. Literalmente nas selvas, um grupo de fuzileiros está fazendo um treinamento militar onde matar torna-se uma necessidade para se viver e alguns tiram um dinheirinho extra com comércio ilegal. Mesmo sob a ameaça de uma grande tempestade, o sargento Nathan West (Samuel L. Jackson) não cancela o treino e divide sua equipe em dois grupos, mas algumas horas depois os militares perderam contato com a base. Quando as equipes de busca estavam para desistir de achar alguém com vida, dois homens são avistados correndo pela mata, no entanto, parecem estar trocando tiros entre eles. O sargento Raymond Dunbar (Brian Van Holt) e o segundo tenente Levi Kendall (Giovanni Ribisi) foram resgatados, mas não parecem dispostos a colaborar com as investigações. Ao que tudo indica ambos tinham motivos para matar o comandante da operação, um típico sujeito durão e abusivo que qualquer recruta nutriria ódio. Bastariam alguns diálogos bem construídos e conduzidos para que aos poucos a identidade do assassino fosse revelada e fosse descoberto o que aconteceu aos outros militares, mas para que simplificar o que pode ser complicado?

quarta-feira, 19 de abril de 2017

CORRENDO COM TESOURAS

NOTA 6,5

Apostando em personagens
problemáticos, comédia cede
espaço ao drama conforme as
bizarrices tornam-se crônicas
Explorar os dramas e bizarrices de famílias problemáticas tornou-se uma coqueluche em Hollywood, principalmente depois que produções independentes passaram a ter passe livre nas grandes premiações. Estúdios consagrados entraram nessa onda e atores livraram-se de vaidades ou preconceitos para encarnar tipos pouco convencionais. Entre um filme de ação e uma comédia romântica é sempre bom um título alternativo para dar aquele upgrade em seus currículos. Correndo com Tesouras parece uma mescla da crítica explícita contida em Beleza Americana, a melancolia de Magnólia e generosas doses de elementos pinçados do estilo do diretor Wes Anderson, de Os Excêntricos Tenembauns, ou seja, um filme que promete diversão com conteúdo reflexivo. Roteirizado e dirigido por Ryan Murphy, criador da série de TV “Nip/Tuck” e estreando nos cinemas, o filme é inspirado na vida do escritor Augusten Burroughs. Quem? Pois é, a falta de informações sobre este ilustre desconhecido pode ser umas das razões para o fracasso do longa, mas antes de mais nada vamos ao enredo baseado no livro de memórias homônimo de sua própria autoria. O jovem ator Joseph Cross vive o protagonista na adolescência. Estamos nos anos 70, tempos de muitos tabus, e o rapaz precisou enfrentar diversas situações escandalosas. Deirdre (Annette Bening), sua mãe, nutria o desejo de se tornar uma famosa poetiza, mas só recebia constantes negativas quanto a publicação de seus textos. Suas mudanças bruscas de humor e comportamento pouco convencional atrapalharam seus sonhos e principalmente sua vida particular. Seu marido, Norman (Alec Baldwin), é alcoólatra e displicente com a família, assim Augusten se sentia inseguro dentro da própria casa. Para tentar enfrentar a separação, a aspirante a escritora decide procurar ajuda do Dr. Finch (Brian Cox), um sujeito também um tanto excêntrico e amante inveterado das teorias de Freud. A loucura de Deirdre é tamanha que ela simplesmente decide deixar o filho sob os cuidados do psicólogo e sua estranha família composta pela submissa esposa Agnes (Jill Clayburgh), a sádica e solteirona filha mais velha Hope (Gwyneth Paltrow) e a caçula e descolada Natalie (Evan Rachel Wood).

terça-feira, 18 de abril de 2017

REINO DE FOGO

NOTA 6,0

Dragões voltam à vida em pleno
século 21 para destruir o mundo,
mas o filme que poderia ser uma
bomba rende um passatempo bacana
Dragões em pleno século 21? Quem se arrisca a colocar tais criaturas nas telas deve estar querendo conquistar plateias infantis adocicando o gênio destes seres ou carregando na vibe da ferocidade máxima para saciar os fãs de trash movies. Contudo, sempre há exceções. O problema é desafiar paradigmas. Mesmo com tecnologias avançadas para recriar estes monstros mitológicos e em tempos em que o gênero fantasia estava em alta, Reino de Fogo não fez o sucesso esperado. Sua bilheteria mundial praticamente só cobriu os gastos e o relativo fracasso deve estar diretamente ligado ao preconceito do espectador implícito na pergunta que abre este texto. Os dragões já foram os chamarizes de produções épicas e fantasiosas, quase sempre assumindo o papel de adversário a ser vencido pelo herói que deve provar sua coragem para conquistar o amor de alguma donzela. Contudo, o histórico de participações destes lendários seres no cinema ajuda a associar suas imagens a péssimas produções. O diretor Rob Bowman, de Arquivo X – O Filme, estava disposto a surpreender e abriu mão dos clichês em prol de uma narrativa mais original. Esqueça a Idade Média com seus opulentos castelos e cavaleiros de armadura. A trama escrita por Gregg Chabot, Kevin Peterka e Matt Greenberg começa no ano de 2002, em Londres, quando o garoto Quinn (Ben Thornton) entra em uma área de escavação para encontrar Karen (Alice Krige), sua mãe que é engenheira e atua nas obras do metrô. É ensaiado um draminha familiar, mas rapidamente o melhor da festa acontece. Uma caverna é encontrada e algo desconhecido parece habitá-la. Quando cai a ficha, todos estão observando o renascimento de um dragão que emerge dos subterrâneos da cidade, mas não há tempo para admiração. Com seus instintos hibernando a séculos, a fera imediatamente começa a acabar com tudo o que vê pela frente levando a cidade ao apocalipse. Vinte anos depois a praga se alastrou. Praticamente todos os humanos foram exterminados e os cuspidores de fogo passaram a se reproduzir com velocidade espantosa e a dominar o planeta. Então surgem as explicações científicas. Tardiamente é descoberto que os dinossauros não foram extintos por conta da colisão de um meteoro com a Terra, mas sim pelos monstros alados que os devoraram.  Sem alimento, o desaparecimento deles também era inerente, mas algo sobreviveu.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

MORTE NO FUNERAL (2007)

NOTA 9,5

Embora com piadas previsíveis
e personagens estereotipados,
comédia inglesa recicla clichês
e simpatia do elenco conquista
Comédias americanas investem em humor pastelão e visual. O humor inglês é ácido, baseado em críticas e geralmente é demonstrado nos diálogos. Muitas pessoas têm essas visões simplistas de um gênero por vezes menosprezado, o que facilita a divisão entre o que é fuleiro e o que se adéqua a um estilo mais refinado. Os dois estilos juntos é possível? A resposta é sim como mostra Morte no Funeral, produção que infelizmente passou discretamente nos cinemas e chegou ao home vídeo na surdina, mas sem dúvidas um dos melhores produtos do gênero lançados na década de 2000. No conjunto, o longa não apresenta absolutamente nada de novo, mas compensa a previsibilidade com personagens cativantes propositalmente estereotipados e situações divertidíssimas que carregam certo ar nostálgico. A trama apresenta uma família numerosa, problemática e cheia de segredos, um tipo de enredo cômico muito comum nos anos 70 e 80. É como se assistíssemos as férias frustradas do ator Chevy Chase só que aqui o cenário é o de um velório e os protagonistas são ingleses e com piadas concentradas na ponta da língua ao invés de investirem no humor de caras e bocas, embora momentos do tipo não sejam descartados. O momento é (ou deveria ser) de emoção e tristezas, mas desde a chegada do corpo do falecido as confusões não param nem por um minuto. A história criada por Dean Craig no fundo quer mostrar que em um velório o defunto é o que menos importa em tempos modernos, cada convidado e até mesmo possíveis estranhos estão mais preocupados com seus problemas ou em “fazer uma social”. O filme já começa bem pelos créditos iniciais mostrando uma animação em que um caixão anda meio desgovernado sobre um mapa como se estivesse trilhando o caminho para o cemitério. Em seguida, Daniel (Matthew Macfadyen) está apreensivo por ser o primeiro ao ver o pai no caixão, mas toda a sensação de melancolia se esvai em uma única mudança de expressão facial: a cara de tristeza vira de espanto. Ele se surpreende ao ver que o serviço funerário trocou o corpo do seu pai pelo de outro homem. Por aí já podemos perceber o que nos espera. Escândalos, confusões, revelações, lamentações exageradas e até um drogado por acaso entra em cena no funeral do patriarca de uma tradicional família inglesa de classe média alta. Bem, a educação e fineza deles são de fachada e a oportunidade de reunir toda a família, amigos e até algumas pessoas que só o defunto conhecia é ideal para lavar a roupa suja.

domingo, 16 de abril de 2017

POR AMOR E HONRA

Nota 5,0 Contexto histórico e político é o que salva romance cujas tramas de amor não cativam

Em épocas de guerra muitas histórias de amor foram interrompidas e o cinema está sempre tentando levar ao público contos do tipo como alternativa para atrair pessoas avessas as atrocidades tão comuns aos conflitos (mortes, mutilações, bombardeios). Baseado em fatos reais, Por Amor e Honra é um desses exemplos, uma obra que em vários momentos nos faz até esquecer que a trama se passa no efervescente ano de 1969, época em que os ânimos acerca da guerra do Vietnã esquentavam, mas ao mesmo tempo as atenções estavam voltadas para aquela que seria a primeira viagem do homem à Lua. A trama escrita por Garrett K. Schiff e Jim Burnstein começa na província de Quang Nam quando um grupo de jovens militares americanos é atacado violentamente por vietnamitas. Após essa noite de tensão, o pelotão ganha uma semana de licença para seus membros poderem descansar. Entre os contemplados está Dalton Joiner (Austin Stowell) que sofre muito com as saudades que tem da namorada Jane (Aimee Teegarden), mesmo com o relacionamento um pouco abalado antes de sua viagem. Ele está disposto a reencontrá-la, afinal está certo que ela tinha medo dele não retornar e não queria ficar alimentando falsas esperanças, e no dia que deveria pegar o avião de volta ao Vietnã o rapaz desiste da guerra e decide seguir para os EUA. Mickey Wright (Liam Hemsworth), seu grande amigo no exército, está certo que a moça já deve estar com outro, mas resolve acompanhar Joiner na viagem, até porque ele está a fim de se divertir com garotas e bebidas. Jane vive em uma república e aceita bem a volta do namorado que chega até a pedi-la em casamento, porém, mais adiante o ciúme excessivo do rapaz começa a prejudicar a relação. Enquanto isso, Wright, que só pensava em diversão, logo se encanta por uma das colegas da moça, Candace (Teresa Palmer), e esse namoro começa a ficar cada vez mais sério. Embora seja uma história romântica, é curioso que nenhuma dessas tramas empolgam realmente, soando muito frouxas. O romance de Jane e Joiner não convence, inclusive a moça por várias vezes insiste que tem outro nome, detalhe que não agrega nada a trama. Já a outra trama é mais previsível e só ganha força porque está ligada diretamente ao conflito do Vietnã e a redenção, isca infalível para colocar o público na torcida.

sábado, 15 de abril de 2017

IMPÉRIO DOS LOBOS

Nota 6,5 Suspense policial prende atenção com duas tramas paralelas violentas e impactantes

O ator Jean Reno é uma espécie de Juliette Binoche da calças. Trabalha muito na França, assim como também não lhe faltam convites para produções hollywoodianas. Ele é o grande nome do suspense policial Império dos Lobos, produção do diretor francês Chris Nahon, de O Beijo do Dragão, que recicla a velha fórmula da caça a seriais killers. A trama escrita pelo próprio cineasta em parceria com Christian Clavier e Franck Olliver, é uma adaptação do romance de Jean-Christophe Grange, mesmo autor do livro “Rios Vermelhos”, que também ganhou uma adaptação cinematográfica protagonizada por Reno que aqui da vida ao policial aposentado Jean-Louis Schiffer. Na realidade este investigador foi afastado do cargo e até sua carteira de motorista foi apreendida por conta de um fato de seu passado. De qualquer forma, sua ajuda foi requisitada por Paul Netteaux (Jocelyn Quivrin), um policial mais jovem que está às voltas com um complicado caso. Existe a suspeita de que um assassino em série está a solta e que já vitimou três imigrantes turcas, todas vivendo ilegalmente na França, portanto, não há documentos para descobrir suas identidades. Em comum, todos os corpos foram encontrados mutilados e com suas faces extremamente desfiguradas o que leva a crer que o assassino faz isso como uma espécie de assinatura ou ritual. Schiffer desconfia que o criminoso faz parte de uma máfia especializada em imigrar pessoas ilegalmente e as venderem para trabalho escravo. O líder seria Malek Dfessur (Vincent Grass), também conhecido como Marius, bandido famoso na região, mas que acaba agindo com liberdade pelo medo que as pessoas tem de denunciá-lo. A dupla de policiais então decide se infiltrar no submundo, mas o modo violento de Schiffer agir bate de frente com o estilo mais racional de Netteaux. Possivelmente tal agressividade é o motivo do veterano investigador ter sido obrigado a aceitar uma aposentadoria forçada, mas Nahon felizmente evita aqueles clichês envolvendo pessoas completamente opostas obrigadas a trabalhar juntas levando com seriedade o entrosamento da dupla em busca de um bem maior. O perfil dos atores também colabora para não existir um choque visual e sim uma explosiva combinação entre astúcia e força bruta, racionalidade e rapidez.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

ENDIABRADO

NOTA 7,5

O velho conto do pacto com o
diabo é a inspiração para trama
previsível, porém, divertida e que dá
chance para Brendan Fraser brilhar
Quem nunca ouviu falar do velho conto de Fausto e seu famoso pacto com o diabo? A lenda de origem alemã conta a história de um homem que em troca da realização de alguns desejos cai em uma armadilha preparada pelo coisa-ruim que deseja levar sua alma para o inferno. Neste pacto maldito, a satisfação anda de mãos dadas com a infelicidade e quanto mais vontades atendidas mais enrolado fica o inocente pedinte, mas no caso da comédia Endiabrado quanto mais o protagonista tem suas vontades realizadas melhor para Brendan Fraser que tem a chance de interpretar vários papéis em um mesmo filme. O ator dá vida a Elliot Richards, um enfadonho e desengonçado programador de computadores que está perdidamente apaixonado por Allison (Frances O’Connor), uma colega de trabalho. O problema é que a moça não lhe dá menor atenção, aliás, para a maioria das pessoas ele é insignificante, não passa de um perdedor. Certa noite, após mais uma frustrada tentativa de conquistar aquela que julga ser a mulher de sua vida, Elliot encontra com o capeta em carne e osso, mas jamais esperava que tal visão fosse tão maravilhosa. O diabo se apresenta aproveitando-se das curvas do corpo e da beleza de uma mulher incrivelmente sedutora, um papel perfeito para a atriz Elisabeth Hurley exercitar seu pouco talento para a interpretação. Quando uma garota daquele tipo daria atenção a um fracassado? Só mesmo na base do toma lá dá cá. A diabinha decide ajudá-lo lhe ofertando sete desejos que podem melhorar sua aparência e seu estilo de vida, assim finalmente tornando-se um sujeito atraente e com chances de conquistar a garota dos seus sonhos. Não seria mais fácil fazer de uma vez a mágica do cupido? Sim seria, mas no caso o diabo estaria sendo muito bonzinho e perdendo a chance de literalmente infernizar a vida de um inocente. O acordo deixa claro que caso aceite a proposta a alma de Elliot automaticamente viria a ser propriedade das forças do Mal, mas na hora da empolgação o bobalhão não percebe que mesmo que alcance seu objetivo estaria condenado a ser escravizado no inferno e não poderia viver plenamente o amor. Realmente de boas intenções o andar de baixo está cheio.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

AS BRANQUELAS

NOTA 4,0

Apesar de se sustentar sob uma
farsa tosca e mal arquitetada,
comédia é um sucesso de popularidade,
talvez justamente por ser mal feita
Quando vai ao ar a chamada de que mais uma vez A Lagoa Azul ou Ghost - Do Outro Lado da Vida vai ser exibido na "Sessão da Tarde" são inevitáveis as piadinhas quanto ao prazo de validade dos filmes (há controvérsias quanto a isso) e sobre a falta de bons programas para rechear a TV aberta. A lista de repetecos da clássica faixa de filmes da Globo é gigantesca, porém, o que é oferecido pelos canais pagos também não fica muito atrás. Reprises de fitas populares como De Repente 30, A Sogra e Como Se Fosse a Primeira Vez batem cartão com frequência em variados canais semanalmente, mas o caso da comédia besteirol As Branquelas é digno de uma análise mais profunda sobre números de audiência, perfil dos espectadores ou simplesmente para constatar a falta de conteúdo dos canais por assinatura. Praticamente todos os dias o longa é exibido em algum canal, isso quando também não é exibido duas vezes diárias ou até mesmo simultaneamente. Qual o segredo para tanta popularidade? Aparentemente nenhum, apenas mais um certeiro golpe de sorte dos irmãos Marlon e Shawn Wayans que já tinham tirado a sorte grande com o deboche Todo Mundo em Pânico. Eles vivem respectivamente Marcus e Kevin Copeland, agentes do FBI que estão com o emprego por um fio após fracassarem feio em sua última missão. Dispostos a mostrar serviço eles embarcam por conta própria em uma secretíssima operação. Eles descobrem que as milionárias irmãs Wilson, Brittany (Maitland Ward) e Tiffany (Anne Dudek), duas patricinhas loucas por fama e diversão, estão na mira de sequestradores. Contudo, o caso é entregue aos agentes Vincent Gomez (Eddie Velez) e Jack Harper (Lochlyn Munro), uma dupla tão atrapalhada quanto os outros dois detetives que acabaram incumbidos da simplória e ingrata tarefa de escoltarem as jovens socialites durante um fim de semana em Beverly Hills. Elas vieram especialmente para participarem de um badalado evento em que sonham ser o centro das atenções e estamparem a capa de uma famosa revista. De fato elas vão roubar a cena, ou melhor, suas substitutas farão isso.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A TROCA

NOTA 9,0

Angelina Jolie carrega nas costas
drama baseado em fatos reais que se
estende além do necessário, mas ainda
assim uma opção de primeira e requintada
Histórias baseadas em fatos reais costumam dividir opiniões. Muitos compram a ideia de que realmente tudo que se vê na tela de fato aconteceu enquanto outros tem a sabedoria de compreender que muitas passagens são adaptadas ou até mesmo inventadas em prol dos objetivos de seus realizadores. Com A Troca, drama de época dirigido por Clint Eastwood, não foi diferente, sendo que a produção colheu um considerável número de críticas negativas. Ou melhor, em partes. Tecnicamente o longa é correto, com reconstituição de época, fotografia e iluminação de primeira, mas em questões narrativas muitos condenam a opção pelo melodrama rasgado e que estende além do necessário o drama vivido por Christine Collins (Angelina Jolie), embora ele propicie facilmente a identificação com o público. Em meados de 1928, em Los Angeles, a telefonista sai de casa em um sábado a tarde para trabalhar tranquilamente não imaginando que aquela seria a última vez que poderia abraçar e beijar seu pequeno filho Walter. Quando volta ele simplesmente sumiu sem sinal algum de que possa ter ocorrido algum tipo de violência ou furto em sua casa. De imediato ela procura ajuda da polícia que age desdenhosamente no caso. Após cerca de cinco meses de angústia finalmente vem a notícia de que o garoto fora encontrado, mas na verdade Christine é forçada a aceitar uma criança em sua vida. Na época o Departamento de Polícia local estava com sua credibilidade abalada e precisava com urgência de uma boa ação para recuperar seu prestígio. Atordoada com o assédio da mídia e dos populares, além de sua própria excitação com a boa nova, Christine aceita levar o suposto Walter para casa, mas no fundo sabe que está se agarrando em vão em um breve momento de conforto. Persuadida a acreditar que o menino está diferente tanto física quanto emocionalmente por conta do trauma do sumiço e pelo passar do tempo, ela tira a prova dos nove comprovando a ausência de um sinal de nascença no corpo da criança. Revoltada, ela decide enfrentar a justiça, mas acaba caindo em uma perigosa armadilha na qual sua vida é colocada em risco para manter uma farsa orquestrada por gente poderosa e influente. Mulher, mãe solteira e corajosa, Christine passa a ser vítima de preconceito e rejeição. Tachada como louca, ela chega inclusive a ser internada em um hospital psiquiátrico onde sofre diversos abusos e humilhações. Nessa fase ela conta com o apoio do Reverendo Gustav Briegleb (John Malkovich), que bem relacionado consegue colocar boa parte da imprensa e dos populares a seu favor e a ajudou a manter sua determinação viva em busca da verdade.

terça-feira, 11 de abril de 2017

DIAS DE TROVÃO

NOTA 6,0

Abordando o universo das
corridas de automóveis, longa
é super previsível e uma mera
desculpa para Tom Cruise brilhar
Os americanos adoram competições, o que justificaria o excesso de produções envolvendo esportes que raramente saem do lugar comum. Seja beisebol, basquete ou qualquer outra modalidade, os ingredientes básicos da receita estão lá reunidos para no fim o protagonista sagra-se campeão e dar a lição de superação aguardada. Enfocando o mundo das corridas de carro, Dias de Trovão se encaixa nesse grupo, mas acaba se destacando pelo fato de abordar um esporte pouco visto nas telonas (sem levar em consideração comédias e animações que corriqueiramente exploram tal universo). Hoje, mais de vinte anos após sua estreia, o longa carrega uma grande carga de nostalgia, uma dádiva para alguns e para outros um baita entrave, mas o fato é que, embora garanta um passatempo razoável, não encontramos razões para que o título seja lembrado como um grande sucesso a não ser pela presença de Tom Cruise, na época o galãzinho do momento repetindo a parceria com o diretor Tony Scott. Em 1986 a dupla emplacou Top Gun – Ases Indomáveis, mas cerca de quatro anos depois o longa ainda repercutia e certamente beneficiou esta nova parceria entre Scott e Cruise, inclusive o próprio astro é quem escreveu o argumento desta aventura sobre quatro rodas. Diretor e protagonista afinados, bastava trocar os aviões pelos carros e um novo filme talhado para lucrar milhões estava para ser lançado. Abordando o universo da Nascar, então a categoria de corrida mais valorizada nos EUA, o roteiro de Robert Towne acompanha a trajetória de Cole Trickle (Cruise), um jovem amante da velocidade e muito corajoso, mas não fazia ideia de como usufruir destas qualidades (além da beleza) para se dar bem na vida.  As coisas mudam quando ele é descoberto pelo empresário Tim Daland (Randy Quaid) que pede ao veterano piloto Harry Hooge (Robert Duvall), então atuando como chefe de equipe e engenheiro de automóveis,  que construa um carro exclusivo e treine Cole para dirigi-lo. O convívio entre eles acaba gerando uma grande amizade baseada na confiança e o jovem corredor tem a oportunidade de usufruir de valiosos conselhos para se tornar um campeão das pistas.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

UM BEIJO ROUBADO

NOTA 7,0

Estreia de diretor chinês no
cinema americano é 
tecnicamente
perfeita, mas ritmo lento e estilo
narrativo comprometem o conjunto
Ator é ator e cantor é cantor. Embora sejam muito comuns artistas estrangeiros que acumulam as duas funções, ainda para nós brasileiros isso soa como algo estranho. A música pode ter vindo antes ou depois da interpretação, mas é difícil disfarçar a sensação de que o profissional que atua nas duas áreas só está querendo se promover. Ainda bem que há casos que nos fazem repensar este pensamento tacanho. Certamente muita gente deve ter torcido o nariz quando ouviu falar que a cantora Norah Jones ia estrelar um filme, mas quem a apedrejou precocemente provável que tenha se arrependido ao ver sua atuação no drama romântico Um Beijo Roubado. Ela dá vida à Elizabeth, ou simplesmente Lizzie, uma jovem que está transtornada quando entra no restaurante-cafeteria de Jeremy (Jude Law), um homem pacato que se lembra dos clientes pelos pratos que consumiram e que tem como hobby colecionar chaves esquecidas por eles. Para cada uma delas ele tem uma história para contar e se recusa a jogá-las fora alegando que ao fazer isso algumas portas nunca mais poderiam ser abertas. São mensagens do tipo justamente o que Elizabeth precisa neste momento em que descobre através do menu que o ex-namorado pediu que ele não só terminou o relacionamento de uma hora para a outra como também já estava circulando com uma nova companhia. Como o rapaz costumava frequentar o local, a garota acaba desabafando com o barman que pacientemente escuta as lamentações e procura aconselhá-la afinal ele a compreende totalmente. Para se manter ocupado e esquecer uma desilusão amorosa, buscou refúgio confinado atrás de um balcão, mas cada um enfrenta a tristeza de uma maneira diferente. E assim nasce uma relação de amor, amizade e cumplicidade entre eles que se estende por várias noites de sedução velada. Ao invés de amargar uma ressaca a base de destilados, a jovem simplesmente afoga suas mágoas em um bom pedaço de torta de blueberry que, diga-se de passagem, sempre sobrava no fim do dia. Fazendo uma metáfora, Jeremy diz que não há nada de errado no doce, apenas costumava ser preterido por outros sabores, mas há sempre alguém disposto a experimentá-lo e dessa forma Elizabeth também deveria encarar o momento difícil. Se o namorado a trocou por outra o jeito é dar a volta por cima e é exatamente isso que ela faz.

domingo, 9 de abril de 2017

O TESOURO PERDIDO (2003)

Nota 3,0 Desde o genérico título, longa denuncia sua falta de originalidade e pinta de filme B

A caça a tesouros é um dos temas mais clássicos do cinema e serviram como argumento para várias produções que rechearam as tardes na TV, as prateleiras de locadoras e marcaram a infância de muita gente, mas produtos do tipo viveram um período de ostracismo em meados dos anos 90 ressurgindo com força no século 21 graças a franquia Piratas do Caribe. Diz o ditado que quem não tem cão caça com gato e assim quem não pode contar com um polpudo orçamento precisa brincar usando a criatividade, dessa forma muitos produtos menores com temática semelhante foram produzidos para lançamento direto em DVD como é o caso de O Tesouro Perdido que só por seu título genérico já aniquila expectativas e clama pelo rótulo de filme B. O diretor Jay Andrews claramente quis realizar um projeto que resgatasse o espírito de antigas aventuras que dispensavam o uso de efeitos mirabolantes e investiam mais na história e em situações realistas, porém, o resultado é apenas um passatempo esquecível. A trama escrita por Harris Done e Diane Fine começa com um incêndio em um museu de onde um ladrão passando-se por bombeiro furta, entre outras coisas, um quadro. Logo que toma conhecimento do episódio, a polícia sai ao encalço do bandido que em meio a perseguição acaba fugindo e deixando a mercadoria na estrada. O investigador Carl McBride (Coby McGlaughlin) fica curioso com o tal quadro que aparentemente não tem nada demais para ser alvo de um roubo e resolve pedir ajuda ao seu irmão Bryan (Stephen Baldwin), um especialista em antiguidades que revela uma surpreendente lenda. Analisando o tecido e a pintura, o rapaz afirma que este seria um mapa feito pelo famoso Cristóvão Colombo que indicaria a localização de um navio perdido que estaria repleto de ouro e outras riquezas esquecidas pelo historiador. Os irmãos partem para o Panamá, mais especificamente para a Ilha Damas, para tentar achar o tesouro, mas é óbvio que bandidos estarão na cola deles. O mandante do roubo, Ricardo Arterra (Hannes Jaenick), tem em seu poder outra parte do mapa, sequestra Carl e parte rumo a ilha.

sábado, 8 de abril de 2017

MENSAGENS DO ALÉM

Nota 4,0 Apesar do título, longa é suspense policial com boa premissa, mas resultado é irregular

Quem se sente atraído pelo genérico título Mensagens do Além certamente espera que a temática da comunicação do mundo dos mortos com o dos vivos seja destacada, porém, o longa do diretor David Fairman deve decepcionar os fanáticos pelo assunto, revelando-se um suspense muito mais de cunho policial que espiritual. O roteiro de Wayne Kinsey e Ivan Levene começa apresentando um rápido acidente de carro no qual a vítima é arremessada para fora pelo vidro dianteiro. Oito meses depois, um corpo de mulher é encontrado em um matagal, mais uma vítima de um assassino serial que parece estar atacando na região. O que tem a ver estes dois episódios? Ambos são de interesse do Dr. Richard Murray (Jeff Fahey) que perdeu a esposa Carol (Geraldine Alexander) no citado desastre e trabalha no setor de autópsias do hospital local que está recebendo os corpos mutilados das vítimas do desconhecido maníaco. Este médico legista é um bom profissional, porém, constantemente está em atrito com o Dr. Robert Golding (Bruce Payne) que implica com suas constantes faltas e seu vício em bebidas, problemas que Murray justifica pelas dificuldades em superar a morte da mulher que aparece em flashbacks mostrando que a vida do casal estava um pouco conturbada. Ela amava demais o marido e jamais sentiu que seu amor foi correspondido à altura, assim passou a criar em sua cabeça delírios a respeito de infidelidade que culminaram em sua trágica morte. Além de lidar com o Dr. Golding, que não inspira ser de confiança, o legista ainda terá que enfrentar um encontro com seu passado com a chegada da Dra. Frances Beales (Kim Thompson), sua namorada nos tempos da faculdade. O fogo da paixão nas reascende, mas ela serve como uma espécie de confidente, afinal sua área de atuação é a psicologia. Murray conta a ela que certa noite viu no seu computador uma mensagem de pedido de ajuda, mas não se lembra de tê-la escrito. Em outra ocasião sonhou com a morte de uma jovem e quando acordou viu no espelho do banheiro o nome Julie French, justamente a quinta garota a falecer de forma brutal e que ele mesmo terá que fazer a autópsia.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO

NOTA 9,0

Drama que enfureceu católicos
no final dos anos 80 ainda tem

potencial para impactar, mas parece
que suas chagas foram esquecidas
Todo e qualquer filme com conteúdo religioso ou mais especificamente que evoque a imagem de Jesus Cristo de alguma forma costuma gerar polêmicas assim que surgem as primeiras notícias de que alguém terá coragem de mexer com esse vespeiro, principalmente quando tal figura cristã será retratada com toques mais realistas e desprovida do semblante de ser iluminado e livre de pecados que a maioria dos católicos se apegam em suas preces. Mel Gibson deu a cara para bater assumindo a direção do polêmico e angustiante A Paixão de Cristo em 2004 e lucrou alto, mas dezesseis anos antes Martin Scorsese não teve a mesma sorte. Grupos conservadores atacaram ferozmente A Última Tentação de Cristo, drama literalmente longo baseado no romance homônimo de Nikos Kazantzákis publicado originalmente em 1951. Lançado nos EUA de maneira estratégica em poucas salas 40 dias antes da data prevista para gerar burburinho na mídia e consequentemente enfraquecer os comentários negativos dos cristãos, o filme começa já com o aviso de que não é baseado nas escrituras do Evangelho e que seu real objetivo é falar do conflito entre o espírito e a carne ou em outras palavras da razão versus o desejo tomando como instrumento Jesus Cristo imaginando como seria sua vida se caísse em tentação. O ator Willem Dafoe dá vida ao protagonista, um carpinteiro da Judeia que vive um grande dilema, pois é ele quem faz as cruzes com as quais os romanos crucificam seus oponentes, os judeus, assim ele se sente um traidor perante seu povo. Sua revolta interior o faz se sentir constantemente inquieto e o leva a se autopenitenciar sem piedade. Além disso, ele tem plena fé de que Deus tem um plano traçado que justificaria sua presença entre os mortais, mas ao mesmo tempo não se vê como um messias e sim um homem comum que tem necessidades carnais e precisa relutar contra seus desejos, ainda que não saiba bem o porquê. Judas Iscariotes (Harvey Keitel) havia sido designado a matar Jesus, mas ao suspeitar que ele é um enviado do Senhor pede para liderar uma revolução contra os romanos, porém, recebe como resposta de que o amor é a sua grande mensagem para a humanidade. Procurando resolver seu conflito interior, o carpinteiro decide ir para o deserto vivenciar uma espécie de retiro espiritual, mas antes pede perdão a Maria Madalena (Barbara Hershey), uma prostituta que acreditava que o relacionamento entre eles podia ser sua salvação. Mesmo brigados, mais tarde o rapaz a salva de uma multidão que se reuniu para apedrejá-la lembrando que todos tem seus pecados e merecem perdão.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

DICIONÁRIO DE CAMA

NOTA 5,0

Apostando nos clichês do amor
proibido e choque de culturas,
longa parece datado e com um
gancho que pode gerar polêmicas
Um paraíso tropical habitado por um povo com traços ligeiramente indígenas e tom de pele bronzeado está prestes a receber a visita dos branquelos e engomadinhos imigrantes europeus. Contrariando expectativas, os nativos mostram-se bastante empolgados com a ideia, os visitantes logo se sentem completamente a vontade, mas o tempo mostra que o choque de culturas tem consequências negativas também. É nesse universo que se desenvolve a trama de Dicionário de Cama, romance ambientado nas selvas da Malásia no início do século 20 (provavelmente em meados dos anos 30 a julgar por alguns objetos cênicos e vestimentas) que tem como protagonista o jovem oficial inglês John Truscott (Hugh Dancy). Recém-saído da universidade, ele é escolhido por Henry Bullard (Bob Hoskins) e enviado pelo governo britânico ao povoado de Sarawak para colaborar no processo de colonização e da administração da província, mas a tarefa não é das mais fáceis. A intenção era que o rapaz implantasse o programa de educação idealizado por seu finado pai, só que o povo local, os Ibans, possui costumes e tradições bastante peculiares, mas o principal entrave seria a comunicação. Estando em minoria, os europeus é que deveriam aprender o dialeto da região e assim os chefes locais oferecem aos estrangeiros (somente aos aristocratas solteiros) um dicionário de cama, assim eles chamam as mulheres selecionadas para ajudar os homens a aprenderem a língua e hábitos de seu povo. Como o processo de colonização levaria alguns anos, tais damas também serviriam como companhias, inclusive na cama. Pode parecer estranho, mas esta prática era comum e reforçava os papéis antiquados de que a mulher foi feita para servir o homem e eles, por sua vez, tinham a necessidade da atividade sexual constante. De qualquer forma, para todos os efeitos elas seriam apenas serviçais. Truscott em um primeiro momento rejeita a obrigação de viver com Selima (Jessica Alba), mas logo acaba cedendo aos encantos e personalidade forte da jovem. O que era para ser apenas um envolvimento passageiro acaba se tornando algo sério e o rapaz decide por abandonar sua missão e até mesmo seu país, passando a adotar Sarawak, sua língua e seu povo como seu novo universo.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

DISTÚRBIOS DO PRAZER

NOTA 7,5

Com temática difícil, o prazer
através da dor, longa incomoda,
mas poderia explorar melhor o
universo de personagens tão infelizes
Sabemos que as vivências de uma pessoa durante a infância e a adolescência podem ditar os caminhos de seu futuro, mas mesmo depois de adultas os acontecimentos influenciam decisivamente em suas trajetórias. Um passado traumatizado pode ser revertido graças a um amadurecimento saudável, mas um histórico de vida positivo também pode ser destruído com maus passos no futuro. A protagonista de Distúrbios do Prazer, para sua infelicidade, carrega traumas da infância e também não tem tido sorte em sua vida adulta. Nancy Stockwell (Maria Bello) era constantemente abusada pelo tio desde os sete anos de idade, mas pior que ter sua vida sexual iniciada precocemente é que ela também foi incentivada a gostar do masoquismo, assim ela se transformou em uma viciada em sexo e violência. Mesmo assim ela conseguiu se casar com um sujeito aparentemente normal e é justamente esse detalhe que coloca a relação no fio da navalha literalmente. Albert (Rufus Sewell), seu marido, é um executivo insensível que pouco dá atenção à mulher. Em flashbacks, a narrativa mostra um pouco da rotina do casal. Nancy até tentava levar uma vida descontraída e normal, mas o companheiro sempre sisudo cortava totalmente o clima, ainda mais quando ela procurava instigar o lado perverso do rapaz, mas só conseguia se frustrar ainda mais com as reações. Assim ela buscava prazer na dor e constantemente se automutilava, uma rotina doentia que já durava 15 longos e angustiantes anos até que ela decidiu tomar uma decisão radical e abandonar o marido, mas não sem ter um plano traçado para seu próprio bem estar e vingança. Há algum tempo ela vinha se comunicando pela internet com Louis Farley (Jason Patric), outro pervertido que a convence a abandonar sua vida sem graça e a embarcar com ele para uma viagem onde a dor e o prazer caminham paralelamente e sem limites. Para Albert ela simplesmente deixa uma mensagem por escrito de uma hora para a outra avisando que estaria passando uns dias com uns amigos, algo no mínimo estranho para um marido admitir, mas por aí já temos uma ideia de como andava a relação deles. Ele nem mesmo percebia as marcas de cortes com giletes que ela fazia nos braços e pernas, porém, se recorda de ter visto a mulher dias antes com um comportamento estranho quando usava o computador.

terça-feira, 4 de abril de 2017

INVASORES (2007)

NOTA 3,5

Deixando mensagens subliminares
de lado, quarta adaptação de clássico
livro de ficção científica proporciona
diversão rasteira e esquecível
Assim como Guerra dos Mundos causou frisson nos anos 50 ao apresentar uma trama alegórica envolvendo alienígenas para criticar a pretensiosa soberania dos norte-americanos, praticamente na mesma época Vampiros de Almas era lançado como uma metáfora ao momento político que os EUA vivia. Baseado no livro “The Body Snatchers”, escrito por Jack Finney, o longa de 1956 critica o macarthismo e sua caça às bruxas disfarçadamente através de uma invasão alienígena e o diretor Don Siegel conseguiu realizar um filme aterrorizante que alcançou status de obra-prima com o passar dos anos. Em 1978, Philip Kaufman assumiu a direção de um remake, Invasores de Corpos, obtendo um filme diferente do original, mas preservando a sensação de paranoia e pavor aproveitando-se das feridas deixadas pela Guerra do Vietnã. O mesmo título (com o acréscimo do subtítulo “a invasão continua”) viria batizar em 1993 a versão de Abel Ferrara para o consagrado romance de ficção científica abordando uma epidemia trazida pelos alienígenas em uma clara alusão aos temores da AIDS, mas já não obtendo a repercussão dos filmes anteriores. Um é pouco, dois é bom, mas se três já é demais porque insistir em um quarto filme? É fato que o argumento do livro é atemporal e permite diversas interpretações, assim executivos da Warner Bros certamente imaginaram que era hora de mais uma vez trazer a temática à tona para discutir implicitamente os conflitos étnicos ou a degradação acelerada da natureza, por exemplo. Contudo, Invasores não é lembrado por algum tipo de subtexto, mas sim por ser um retumbante fracasso que deve ter feito um rombo considerável nas finanças de sua produtora. A trama escrita por David Kajganich parte da premissa de que os destroços da explosão de um ônibus espacial entraram em contato com algo alienígena e que ao caírem na Terra trouxeram uma espécie de vírus que modifica drasticamente o comportamento das pessoas que contamina. A população entra em desespero, mas o governo vende a ideia de que esta epidemia em breve será controlada, no entanto, a psiquiatra Carol Bennell (Nicole Kidman) e seu namorado, o médico Ben Driscoll (Daniel Craig), descobrem a verdadeira origem do problema, um mal que acomete as pessoas quando elas estão dormindo. Os infectados mostram-se incapazes de demonstrar algum tipo de emoção, mas à medida que o vírus se espalha fica cada vez mais difícil descobrir quem é portador da anomalia.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

KUNG FU FUTEBOL CLUBE

NOTA 7,0

Para os saudosistas dos antigos
filmes de lutas marciais esta
comédia é um prato cheio com o
bônus de bons efeitos especiais
Nos nostálgicos tempos das fitas VHS existia uma categoria peculiar e não-oficial em que certas produções eram catalogadas nos acervos das locadoras. Elas poderiam figurar entre fitas policiais, de ação, comédia ou aventura, mas um detalhe em especial reunia alguns títulos em um seleto grupo: os filmes de kung fu. Para os fãs talvez o enredo fosse o de menos. O importante eram as cenas de lutas coreografadas e até surgiram distribuidoras especializadas em importar produções orientais do tipo. Contudo, assim como os trash movies e as ficções científicas que bombavam antigamente, este gênero caiu em declínio e já a alguns anos goza de uma posição bastante inferior, praticamente inexistente, o que fez com que alguns atores asiáticos buscassem trabalho em Hollywood, sendo Jackie Chan e Jet Li bons representantes. No entanto, quem diria que no início do século 21 produções do tipo voltariam a circular mundialmente. E este texto não é para exaltar épicos como O Clã das Adagas Voadoras e O Mestre das Armas, mas sim falar a respeito da tentativa de resgate dos filmes de kung fu contemporâneos, a milenar arte marcial aplicada em meio ao caos do trânsito e entre um clique e outro no computador. Kung Fu Futebol Clube é um ótimo exemplo, uma mistura improvável de influências totalmente díspares. Dos golpes do saudoso Bruce Lee ao ritmo alucinante dos videogames, o longa reúne comédia, futebol, artes marciais e efeitos especiais que lhe dão direito no mínimo a alguns elogios por conta das inovações que propõe. A trama, no entanto, é das mais rebuscadas. Feng (Man Tat Ng) foi uma estrela dos gramados em sua juventude, mas inocentemente buscou sua própria decadência ao aceitar errar propositalmente um pênalti em um importante jogo ludibriado pelo presidente de seu time, o inescrupuloso Hung (Patrick Tse Yin). Anos depois, ele é apenas um auxiliar da equipe, mas ainda nutre o desejo de um dia se tornar um treinador, vontade que aumenta ainda mais quando conhece por acaso Sing (Stephen Chow), um jovem que vive como mendigo por força das circunstâncias. Em um passado não muito distante ele era um mestre das artes marciais, mas não conseguiu sobreviver às custas de seu talento. Mesmo assim ainda busca formas de reavivar a esquecida técnica do Kung Fu Shaolin se apresentando pelas ruas de Hong Kong.

domingo, 2 de abril de 2017

O GRANDE MENTIROSO

Nota 6,0 Espertalhão fica nas mãos de um jovem pentelho em comédia simples, mas eficiente

Hoje em dia é tão difícil encontrar uma comédia literalmente com classificação livre, ou seja, sem absolutamente nada que constranja ou ofenda o espectador, que qualquer filmeco que se encaixe nessa categoria acaba automaticamente se tornando um coringa para os pais que prezam pela integridade moral de seus filhos. Pode parecer bobagem, mas quem não tem ao menos uma lembrança de ter visto algum filme bobinho em uma tarde de ócio ou chuvosa na companhia da mãe, avó ou amigo? Será que é daí que surgiram os clássicos estilo sessão da tarde? Possivelmente e O Grande Mentiroso atende aos requisitos para entrar nessa lista. Razoavelmente divertido e livre de piadas grotescas ou ofensivas, ele garante uma hora e meia de sossego para quem tem que cuidar de uma criança por trazer uma temática muito comum ao universo infanto-juvenil: a mentira e suas consequências. A trama escrita por Dan Schneider e dirigida por Shawn Levy nos apresenta à Jason Shepherd (Frankie Muniz), um adolescente de 14 anos que não liga muito para os estudos e vive contando mentiras, principalmente quando se vê em enrascadas como certo dia que chega atrasado para a aula da Sra. Caldwell (Sandra Oh) e sem a redação que deveria entregar. Curiosamente, ele não consegue criar uma história para colocar no papel, porém, bola uma mirabolante para justificar suas falhas para a professora. No entanto, a verdade logo vem à tona e com o agravante que agora seus próprios pais não confiam mais nele. Como castigo na escola, Jason terá que fazer uma redação em tempo recorde, caso contrário terá que perder as férias de verão para frequentar um curso de recuperação. Inesperadamente ele se vê inspirado e cria uma história com título homônimo ao filme. Todo orgulhoso, ele sai de casa com a cabeça nas nuvens e acaba sendo atropelado por uma limusine na qual está Marty Wolf (Paul Giamatti), um antipático produtor de cinema que não está em uma boa fase na carreira já há alguns anos.

sábado, 1 de abril de 2017

HENRIQUE IV - O GRANDE REI DA FRANÇA

Nota 7,5 Épico francês surpreende com sua qualidade técnica e narrativa focada em conteúdo

Filmes que retratam períodos históricos costumam ter seu público cativo e Hollywood tem investido pesado em produções do tipo, mas provavelmente não com a preocupação de levar algum conhecimento ao público e sim lucrar alto investindo em muitas cenas de batalhas para justificarem os altos ingressos das salas 3D e outras firulas que vendem tecnologia e não conteúdo. Na contramão desse movimento, é comum que algumas obras épicas europeias sejam lançadas diretamente em home vídeo e sem respaldo de publicidade, assim muito provavelmente só mesmo os fiéis clientes de locadoras físicas é que tomam conhecimento de tais produtos e isso se os funcionários derem aquela badalada no título para convencer o consumidor. Bem, quem indicar Henrique IV – O Grande Rei da França não poderá ser tachado de enrolador. Realmente esta superprodução entre a Alemanha e a França revela-se uma opção de qualidade que nos faz pensar ao final como ela não encontrou espaço em circuito de exibição comercial em meio a tanto lixo lançado semanalmente. Para quem gosta de História e está cansado de apenas conhecer o passado do Brasil, Portugal e quiçá EUA, o longa do diretor alemão Jo Baier é um prato cheio. Baseado no livro de Heinrich Mann, a trama escrita pelo próprio cineasta em parceria com Coocky Ziesche começa com um breve prólogo que situa o espectador a respeito do estado em que se encontrava a França em 1561. O país mais poderoso da Europa estava divido por uma guerra religiosa que escamoteava a cobiça por terras e poder. O lado católico era o mais populoso e o que controlava a corte em Paris, o que dificultava os avanços da minoria protestante, estes também conhecidos como huguenotes que pouco a pouco foram conquistando a confiança de quem estava descontente com o governo. Catarina de Médici (Hannelore Hoger) conduzia os assuntos do Estado e tentava a todo custo manter o direito ao trono sob sua batuta para proteger o futuro de seus três filhos. Nessa mesma época, crescia um adversário ainda ignorado pela família real na região sudoeste do país. Henrique de Navarra (Julien Boisselier) desde pequeno era metido a valente e tinha pompa de nobre herdada de seus pais, mas fazia questão de viver como um jovem comum entre os camponeses, mas uma profecia o apontava como um líder natural e quem daria novos rumos ao país.

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