É uma prática comum no mundo do cinema as adaptações de pequenos contos cuja premissa tem certo potencial, assim como também são rotineiros os problemas envolvendo invenções dos roteiristas para preencher o tempo de arte. Muitos textos de leitura rápida do autor Stephen King já passaram por esse processo e a maioria sem sucesso, porém, há sempre exceções. Baseado no conto intitulado "O Último Turno", o filme A Criatura do Cemitério esforça-se para adaptar uma breve e rasa aventura de terror, uma tarefa árdua, um desafio provavelmente muito mais cansativo que abreviar uma obra de centenas de páginas. O trabalho é maior justamente porque os envolvidos precisam ser criativos para elaborar sequências e tramas que não constam no material original, sempre buscando respeitar sua essência, bem como as vezes há a necessidade de criar personagens adicionais. O roteirista John Esposito e o diretor Ralph S. Singleton não se preocuparam em aumentar a trama trazendo invenções, mas sim desenvolvendo melhor o que é apenas sugerido no conto, assim criando um bom filme que entretém, mas longe de ser uma obra-prima, sendo hoje beneficiado pelo aspecto nostálgico e obviamente o nome de King envolvido.
A premissa do enredo é bastante simples e não é guardada a sete chaves, assim antes dos créditos iniciais já temos uma morte detalhada e conhecimento da ameaça que move o roteiro. Logo após o incidente, o misterioso itinerante John Hall (David Andrews) chega até uma minúscula cidade no Maine, onde rapidamente encontra emprego no principal ramo de negócio do local, uma fábrica têxtil supervisionada pelo arrogante Sr. Warwick (Stephen Macht). Sua função é ser o operador do maquinário pesado envolvido na fiação do algodão. O problema é que a fábrica, que opera no que são praticamente as ruínas úmidas de um antigo moinho, encontra-se infestada de ratos e ocupa o terreno vizinho a um cemitério. Além disso, a má ventilação do local junto ao calor gerado pelas máquinas acabam forçando os trabalhadores a realizar o trabalho pesado durante a madrugada. A este ambiente extremamente inóspito soma-se ainda uma série de mortes de funcionários aparentemente ligadas a uma bizarra criatura que vive junto aos roedores no subterrâneo. Isso é o que mais amedronta os colegas de Hall, incluindo seu interesse romântico Jane Wisconsky (Kelly Wolf).
Com tal premissa temos o pano de fundo para um terror que, se não é inovador, tem pelo menos potencial para explorar os extremos horripilantes do desconforto, em especial na claustrofobia e no caráter repulsivo do cenário da fábrica. A adaptação do conto para o formato audiovisual necessitaria não apenas dar conta de apurar o argumento, mas também de garantir que a ambientação inóspita da fábrica convencesse e impressionasse, que fosse quase tão ameaçadora quanto a tal criatura e os roedores que a habitam. Embora ficamos com a desconfortável impressão de se tratar de uma produção das mais baratas, logo os cenários mostram-se condizentes com uma fábrica suja e decadente, repleta de bagunça e entulho, além de maquinários velhos e enferrujados. Os ratos se movimentam livremente pelos corredores, tubulações e orifícios, além de transitarem em um porão úmido e depressivo que esconde passagens ocultas para outros ambientes ainda mais obscuros. Warwick vem subornando a vigilância sanitária para não ter a sua fábrica fechada por conta das precárias condições oferecidas aos funcionários, o que também compromete a qualidade de seu produto final.
A atuação de praticamente todo o elenco é no piloto automático, fracas e apáticas, e nem mesmo o protagonista consegue se destacar genuinamente. Por sua vez, Warwick parece representar o chefe que é um pesadelo a qualquer assalariado. Abusivo e grosseiro a ponto de beirar a psicopatia explícita, o personagem é um dos que ganha contornos mais divertidos, em grande parte devido à interpretação de Macht, cuja absoluta inconsistência de tom e o uso de um sotaque, aparentemente criado especialmente para o papel, mantém o espectador sempre atento. Porém, não se pode nem ao menos dizer que o personagem seja bem aproveitado, uma vez que as subtramas que o envolvem simplesmente não agregam nada ao roteiro. Algumas sequências e diálogos parecem apontar para a ideia de que ele sabe da existência ou possui alguma ligação com o monstro do subterrâneo, revelação que poderia significar sua ruína como empresário e como pessoa física.
Também vale destacar o trabalho de Brad Dourif como um tresloucado exterminador de pragas que se destaca entre o marasmo instaurado entre os demais personagens. Inexistente no conto original de King, este homem demonstra uma obstinação ímpar quando o assunto é destruir ratos, algo melhor explicado quando ele revela as razões do seus ódio aos roedores. Todavia, o roteiro desperdiça o potencial deste tipo peculiar o limando da ação repentinamente sem deixar claro se o tal monstro do título pode ter alguma ligação com o acidente que o vitima. Em suma, este é o exemplo típico de um filme bagaceiro que diverte justamente por assumir sem rodeios sua precariedade em termos de custos, mas que compensa pela honestidade de não querer ser nada mais além do que pode, como prova a concepção do monstro do título nos bons moldes dos efeitos visuais práticos, o que confere um aspecto naturalmente mais medonho e nojento. Produzido numa época em que a indústria de efeitos especiais já caminhava a passos largos, A Criatura do Cemitério já nasceu datado, mas hoje se beneficia da nostalgia dos tempos em que até os elementos fantásticos pareciam mais críveis e tangíveis.
Terror - 89 min - 1990
Leia também a crítica de:









