segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

NOTA 9,0

Drama mostra lado pouco
esplendoroso da Índia através da
história de rapaz de origem humilde
que literalmente vence na vida
Entra ano e sai ano e muita gente continua com suas simpatias e rituais em busca de ajuda para conseguir uma vida financeira confortável. Bem, já que a maioria tem esse desejo, a dica é fechar o ano assistindo Quem Quer Ser Um Milionário?, elogiada e premiada produção americana que mostrou ao mundo uma Índia realista, pobre, repleta de problemas, mas ainda assim com uma população esperançosa. A sugestão não é só pelo fato de ter dinheiro envolvido na história, mas principalmente pela mensagem de otimismo e reflexiva que o filme nos deixa. A câmera do eclético diretor Danny Boyle apresenta o cotidiano do povão que por coincidência não difere muito da realidade das áreas menos favorecidas brasileiras. Até mais interessante que o próprio filme em si é a sua trajetória desde a concepção até o clímax, a festa do Oscar. Um diretor que já trabalhou com a juventude rebelde, lidou com zumbis, frequentou uma ilha aparentemente deserta e se aventurou pela ficção científica em uma época em que o gênero estava praticamente sepultado, só prova que ele não tem medo de experimentar, testar novos temas e ambientações. Por isso não é para se estranhar a sua audácia de voltar suas atenções para um país pouco conhecido e procurar o que havia de mais comum e pobre por lá. O que é espantoso mesmo é a recepção acalorada do público e crítica americana a uma obra com diversos diálogos em língua estrangeira, o hindu, o idioma oficial da índia, o que exige o uso de legendas, coisa que os ianques detestam. E o fenômeno não foi só por lá. Com uma mensagem universal, o longa fez uma carreira brilhante por onde passou e conquistou quase todos os prêmios disponíveis da temporada. O único senão é que o elenco foi esnobado nessas festas, algo já esperado por serem desconhecidos até então e pela origem indiana (foram selecionados entre os populares e aprenderam a atuar “pegando no batente”). Curiosamente, na própria Índia houve rejeição a este trabalho, muito porque condenaram a opção de explorar o universo de favela, mas se a história exige tal cenário não se pode fazer nada. Se a ambientação causa incômodo por expor mazelas sociais, o cinema nada mais fez que mostrar a realidade. Queixas devem ser direcionadas a governantes e afins para mudar esse quadro. O realismo da obra se deve muito ao auxílio do dramaturgo e cineasta indiano Loveleen Tandan, contratado para ceder uma minuciosa pesquisa sobre seu país, mas cuja importância foi tanta que acabou recebendo o crédito de co-diretor.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

JUNTOS E MISTURADOS

NOTA 5,0

Terceira parceria entre Adam
Sandler e Drew Barrymore mostra
sinais de desgaste da dupla, mas estilo
de humor do ator ainda domina a fita
Adam Sandler e Drew Barrymore trabalharam juntos pela primeira vez em 1998 no pouco lembrado Afinado no Amor, interpretando dois jovens de perfis completamente opostos que se apaixonam à primeira  vista. Com uma premissa batida destas o ostracismo da fita é perfeitamente justificável. Mais sorte a dupla teve no reencontro seis anos mais tarde em Como Se Fosse a Primeira Vez. Com seus nomes já valendo peso de ouro e uma história bem mais elaborada, a do cara que precisa diariamente reconquistar uma garota que sofre de um estranho tipo de amnésia, essa comédia romântica caiu no gosto popular e se tornou campeã de reprises na televisão. A química do casal sem dúvidas é o grande trunfo da fita, não menosprezando o enredo levemente diferenciado. Se o passar de alguns poucos anos os beneficiou em termos de amadurecimento, tanto pessoal quanto profissional, que tal mais um reencontro, agora uma década depois? Sandler certamente deve ter pensado nisso quando convidou a atriz para dividir as atenções em Juntos e Misturados, mas o resultado não mostra avanços e sim retrocessos para seus currículos. A história começa com o primeiro encontro a sós de Jim (Sandler) e Lauren (Barrymore), mas o jantar mais parece uma aula prática de como fugir de um relacionamento. Da escolha do local, um restaurante famoso por suas garçonetes gostosonas vestindo roupas insinuantes, passando pela atenção especial dedicada ao que está passando na TV e até chegar ao prato principal com camarões apimentados que culmina em um escatológico fim de noite, a introdução não é nada convidativa. Depois disso eles acabam se cruzando vez ou outra por acaso, sempre em meio a situações embaraçosas, até que se veem obrigados a dividir uma mesma suíte em uma viagem para a África. Por uma daquelas estranhas coincidências roteirísticas, somos forçados a engolir que o passeio a um resort de luxo com tudo pago caiu dos céus para ambos. Detalhe, o público-alvo do lugar são casais a fim de curtir uma segunda lua-de-mel, a maioria levando a tira-colo os filhos, uma peculiaridade que vem a calhar ao casal-torto. Jim é um pai viúvo que não tem o menor traquejo para cuidar de suas três filhas, oferecendo uma criação masculinizada, o que inclui cortes de cabelo em barbearia e roupas esportivas que compra com desconto na loja em que trabalha.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

DIVÃ A 2

NOTA 1,5

Pegando carona no sucesso alheio,
comédia já erra ao tentar se passar de
uma continuação e as coisas só pioram com
texto enfadonho e atuações desmotivadas
Até crianças devem saber o significado da expressão popular comprar gato por lebre, mas parece que os envolvidos na produção de Divã a 2 o desconhecem. Ou são assumidamente caras-de-pau. Utilizando o mesmo estilo de diagramação e cores para seu material publicitário e ainda destacando em seu título o dois em numeral, muito facilmente qualquer desavisado ao ver alguma propaganda desta comédia pode acreditar que seja a continuação do grande sucesso estrelado por Lilia Cabral seis anos antes. Fique bem claro, os longas são totalmente independentes, nada a ver um com o outro. A produtora detentora da marca provavelmente queria iniciar uma franquia cujo alicerce seria apenas o argumento, assim não tendo a necessidade de recorrer a uma mesma equipe de trabalho o que poderia inviabilizar projetos. Do Divã original só sobrou a proposta de personagens problemáticos com a necessidade de conversarem, extravasarem suas emoções. Contudo, sai de cena os conflitos de uma mulher madura e entra no lugar os dilemas amorosos de uma balzaquiana, ou seja, o diferencial é trocado pelo trivial. Elenco, direção e roteiristas foram substituídos por sangue novo, o que no caso não significa necessariamente que temos novidades. Se no longa de 2009 tínhamos uma história consistente baseada no romance homônimo de Martha Medeiros, aqui temos que nos contentar com um fiapo de enredo, uma desculpa esfarrapada que os roteiristas Leandro Matos e Saulo Aride encontraram para conseguirem pagar suas contas. A ocupadíssima médica ortopedista Eduarda (Vanessa Giácomo) e o hiperativo produtor de eventos Marcos (Rafael Infante) casaram-se e tornaram-se pais muito jovens e como tantos outros casais com trajetórias parecidas estão vivendo uma crise precoce no relacionamento. Separados após dez anos de convivência, cada um procura individualmente resolverem seus conflitos com a ajuda de terapeutas. Enquanto desabafam, o público vai tomando conhecimento de suas vidas através de flashbacks, como se os discursos deles próprios já não fossem o suficientes para entendermos suas situações. É o velho hábito do cinema nacional em entregar tudo mastigadinho ao público, este que por vezes não percebe que sua inteligência está sendo subestimada.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

UM PLANO PERFEITO

NOTA 4,5

Comédia romântica francesa
tenta se aproximar do estilo de
Hollywood, mas peca com casal
protagonista com pouca química
Quando se fala em cinema francês automaticamente nos vem a cabeça referências melodramáticas, de erotismo, contemplação ou reflexão. Quem ainda acredita que a indústria de filmes de lá sobrevive de produções destinadas a um público mais cult e maduro é quem parou no tempo, precisa rever seus conceitos. Diretores, produtores e roteiristas locais estão cada vez mais procurando diversificar os estilos e, para o bem ou para mal, se aproximar dos padrões das produções de Hollywood visando uma penetração maior no mercado. Em outras palavras lixo em embalagem de luxo. Não exageremos. Se dos EUA recebemos muita porcaria, o cinema europeu com pegada mais comercial no mínimo traz certa dose de refinamento como verificamos, por exemplo, em Um Plano Perfeito. O título genérico nos remete de imediato a uma produção de ação ou suspense, mas na verdade trata-se de uma comédia romântica que poderia perfeitamente ser estrelada por alguma queridinha dos ianques e faturar alto, mas a protagonista escolhida, a alemã Diane Kruger, infelizmente não conta com uma grande legião de fãs, embora esbanje beleza, seja talentosa e tenha iniciado sua carreira em solo norte-americano. Após chamar a atenção no épico Tróia, mas não a ponto de ofuscar Brad Pitt, a atriz fez várias fitas comerciais por lá, mas mantendo sempre um estreito laço com a cinematografia europeia alternando roteiros mais elaborados com outros cuja função é simplesmente oferecer uma diversão escapista. No longa dirigido por Pascal Chaumeil, que já havia investido no gênero em Como Arrasar Um Coração, Kruger interpreta Isabelle, uma bela balzaquiana que faz parte de uma linhagem de mulheres que, coincidência ou não, só conseguem um casamento feliz e duradouro quando trocam alianças pela segunda vez. A relação com o primeiro marido sempre acaba em brigas, separação e até mesmo morte, o que as leva a crer que sofrem de alguma espécie de maldição que perpetua geração após geração.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

ESQUECERAM DE MIM 2 - PERDIDO EM NOVA YORK

NOTA 8,5

Repetindo os acertos do primeiro
filme, comédia perde um pouco a
graça pela falta de ineditismo, mas
ainda assim diverte e reforça valores
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas aconteceu para a família McCallister. Em Esqueceram de Mim 2 - Perdido em Nova York, o garoto Kevin (Macaulay Culkin) mais uma vez foi esquecido, mas desta vez no aeroporto. Com viagem marcada para a ensolarada Flórida, o clã quer esquecer os apuros que vivenciaram dois anos antes no Natal com o menino sozinho na fria Chicago, porém, novamente se atrasam e saem de casa às pressas. O frenético corre-corre dos membros para ajeitar tudo de última hora e até mais um ataque de fúria do loirinho para deixar de ser alvo de chacota são propositalmente copiados do produção anterior, uma maneira de mostrar que apesar de tudo os McCallister continuam os mesmos. Desta vez eles tem total certeza que não esqueceram nada e muito menos ninguém, mas o arteiro caçula tinha que aprontar das suas. Distraído mexendo na mochila de Peter (John Heard), seu pai, ele acaba se confundindo e seguindo o homem errado, embarcando sem querer para Nova York. Munido de cartão de crédito e muita curiosidade, o garoto não pede ajuda para reencontrar os parentes e inventa uma trolagem para se hospedar em um luxuoso hotel, mesmo sob as desconfianças do afetado Sr. Hector (Tim Curry), o concierge que passa a cercá-lo. Mais uma vez Kevin lança mão de áudios de filmes e também de gravações amadoras para espantar todos que queiram atrapalhar suas férias regadas a luxos e guloseimas. Mais complicado que segurar a farsa, é que novamente o moleque vai estar na mira de Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), a mesma dupla que assaltara a sua casa e que ele ajudou a colocar atrás das grades, mas eles fugiram e já bolam planos para novos assaltos. Agora os alvos são as lojas de brinquedos, estabelecimentos que faturam alto no Natal, mas quando descobrem a chance de se vingar, caçar Kevin torna-se o principal objetivo da dupla culminando em mais uma série de torturas que o menino planeja desta vez aproveitando-se do apartamento em reforma de um tio que está viajando. Como no longa anterior, todas as situações se encaixam perfeitamente para nosso pequeno herói deitar e rolar. E como se diz, em time que está ganhando não se mexe, assim Chris Columbus novamente assumiu a direção e John Hughes ficou responsável pelo roteiro, mas ambos não se esforçam a criar nada de novo, apenas reciclam o que já foi testado e aprovado.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

ESQUECERAM DE MIM

NOTA 9,0

Clássico absoluto natalino, as peripécias
de um esperto menino para se defender
de bandidos ainda diverte gerações
e desperta a nostalgia dos adultos
Natal é sinônimo de recordações, alegria e família. Reunindo tais características nada mais tradicional que nessa época do ano relembrarmos o clássico das sessões da tarde Esqueceram de Mim, o surpreendente sucesso do longínquo ano de 1990, mas que parece atual de tão fresco que permanece em nossa memória. Custou uma ninharia e terminou sua carreira nos cinemas como a maior bilheteria daquele ano e a oitava maior da década. E olha que quase ninguém apostava no projeto de uma comédia protagonizada por um guri inteligente e astuto que apronta mil e umas para se livrar de uma dupla de criminosos. Macaulay Culkin dispensa apresentações. Mesmo para quem não é daquela época, certamente tem conhecimento que ele foi um dos atores mirins mais bem sucedidos de todos os tempos, mas também lembrado como um exemplo de como a fama mal administrada pode destruir uma vida, ou quase isso. O ator cresceu e ao invés de ganhar espaço na mídia para divulgar seus filmes o que vinha a público eram os desdobramentos de sua disputa judicial com os próprios pais para ter direito a administrar a fortuna que acumulou em tempo recorde. Problemas familiares é praticamente porta aberta para outros problemas e ele se envolveu com drogas, bebidas e polêmicas, incluindo uma criticada amizade com o cantor Michael Jackson com alusão a pedofilia. Fisicamente desfigurado e com semblante depressivo, o fato é que poucos lembram de sua imagem adulta. Seu nome automaticamente nos remete a figura ambígua do moleque com carinha ingênua e sorriso maroto e confundi-lo com seu personagem é perfeitamente normal. Kevin McCallister tem um perfil de fácil identificação, o que justifica a longa vida do filme. Carismático, engraçado, arteiro, esperto e equilibrando-se entre a inocência inerente a sua idade e certa dose de maturidade precoce, ele tira sua família do sério constantemente, mas chega ao ápice da pentelhice às vésperas do Natal quando sua família está prestes a aportar na França. Pais, irmãos, tios e primos. São quinze pessoas dentro de uma bela mansão vivenciando a agitação pré-viagem, excitação certamente compartilhada pelo espectador anualmente na noite que antecede os festejos, você viaje ou simplesmente fique em casa com parentes e amigos. A impressão de que a noitada não tem fim e as agradáveis sensações de liberdade, conforto e alegria nos toma.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

OS PICARETAS

NOTA 9.0

Steve Martin e Eddie Murphy
unem seus talentos em inteligente
comédia que tira sarro e de certa forma
homenageia a indústria do cinema
O lendário programa "Saturday Night Live" lançou grandes nomes do humor que migraram para o cinema, entre eles Steve Martin e Eddie Murphy. Representantes de épocas distintas da atração, suas carreiras foram calcadas em comédias sendo que o primeiro tem predileção por atuar em seus próprios roteiros e o segundo é famoso por gostar de interpretar mais de um personagem em um mesmo filme. Unindo os gostos da dupla, Os Picaretas é uma divertida sátira ao universo que eles mesmos habitam. Hollywood é um lugar que alimenta muitos sonhos, mas não tanto quanto o número de decepções. Muitos filmes já abordaram a obsessão pelo sucesso a qualquer preço no cinema, mas faltava uma comédia digna a abordar o tema. Eis que em 1999 o roteiro de Martin chegou as mãos do diretor Frank Oz. O ator dá vida a Bobby Bowfinger, um produtor e diretor afogado em dívidas que precisa de um grande estouro de bilheterias para dar a volta por cima e nada melhor que um nome famoso para atrair as atenções. "Chuva Rechonchuda", o filme dentro do filme, é uma aventura de ficção científica bem tosca desprezada por Kit Ramsey (Murphy), um astro das fitas de ação. Disposto a tudo para tê-lo no elenco, o cineasta arquiteta um plano que julga ser brilhante para realizar seu trabalho e de quebra experimentar uma maneira inusitada de filmar. Ele faria sim o filme com Ramsey como protagonista, contudo, o próprio ator não saberia disso. Usando os mais variados artifícios para captar imagens, Bowfinger passaria a persegui-lo e o colocaria em situações absurdas e outras de perigo, todas para se encaixarem no script, porém, fugindo completamente da rotina do astro. O elenco é convencido que o intérprete tem uma maneira peculiar de atuar e construir suas personagens, assim aceitam gravar suas cenas mantendo generosa distância dele, mas que após uma caprichada edição pareceria que estavam de fato dividindo o mesmo set de filmagens. Os atores então declamam estranhas falas e com exageradas entonações e as vezes são percebidos por Ramsey que tem reações ainda mais esdrúxulas acreditando estar sendo perseguido por extraterrestres.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O RETORNO DOS MALDITOS

NOTA 2,0

Continuação às pressa deturpa as
qualidades conquistadas em Viagem
Maldita
apostando em trama capenga
aliando terror e clichês de guerra
No Brasil, Viagem Maldita não pegou, passou em brancas nuvens, efeito que provavelmente aconteceu em muitos outros países devido a violência explícita da fita. Em solo americano também fracassou, mas estranhamente os parcos lucros abriram as portas para uma continuação que obviamente já devia estar engatilhada antes mesmo do lançamento do primeiro filme. A pressa para jogar no mercado uma segunda carnificina gerada pelo embate de humanos versus mutantes foi um tiro no pé. O Retorno dos Malditos é uma grande decepção já pelo argumento. Como parte de uma missão de treinamento, um grupo de soldados americanos é enviado para uma remota região do Novo México onde encontram um campo de pesquisas nucleares abandonado. Após presenciar um sinal de perigo em uma montanha distante, os recrutas decidem iniciar uma missão de busca e resgate por conta própria, porém, eles desconhecem o fato de que cerca de dois anos antes o local fora visitado por uma família que sofreu o diabo nas mãos de canibais. Esse é o fiapo que une os dois longas. No original, na verdade uma refilmagem de Quadrilha de Sádicos do mestre Wes Craven, o espectador era pressionado a confrontar uma história sobre instinto primitivo e de sobrevivência, tanto por parte da vítimas quanto dos vilões, um intenso e violento exercício principalmente estético para qualquer diretor. A função ficou a cargo do francês Alexandre Aja que entregou um trabalho digno de elogios indo fundo na bizarrice e sanguinolência, mas sem perder a mão com o conteúdo em torno de críticas a política e imperialismo dos EUA. Os insanos mutantes que atacaram a família Carter eram justificados como descendentes de uma tribo que sofreu com os efeitos nocivos da radiação gerada por experimentos com bombas nucleares bancados pelo governo norte-americano. Com uma obra praticamente redondinha, Aja sabiamente pulou fora da sequência, mas Craven infelizmente quis levar o projeto adiante envolvendo-se como produtor e roteirista.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

VIAGEM MALDITA

NOTA 8,0

Investindo pesado em violência e
bizarrice. remake de terror cult
preserva a tensão e crítica política
fazendo jus a memória do original
O cineasta Wes Craven foi um dos responsáveis por literalmente dar cara aos slashers movies quando criou a figura deformada de Freddy Krueger para A Hora do Pesadelo. Anos mais tarde reinventou o universo dos assassinos mascarados com Pânico, mas no início de sua carreira investia em um outro tipo de terror, uma vertente calcada em um crescente e angustiante clima de tensão. Lançado em 1977, Quadrilha de Sádicos faz parte de um período marcado por extrema violência mundo afora, sendo alguns dos acontecimentos mais emblemáticos a Guerra Fria e a Guerra do Vietnã. O cinema de horror então peitava a realidade investindo em carnificina explícita, incluindo a prática do canibalismo tão comum em situações em que sobreviver está acima de qualquer lição de ética ou moral. Era a ficção tentando chocar perante as atrocidades da vida real. Passados quase trinta anos, em meio ao marasmo das fitas de psicopatas e refilmagens de terror orientais, Craven teve a ideia de revisitar seu clássico cult, mas desta vez apenas como produtor. Com algumas mudanças no roteiro e rebatizado como Viagem Maldita, o remake ganhou a direção do francês Alexandre Aja, então estreando em Hollywood após a boa repercussão de Alta Tensão, fita em que toda uma família era assassinada dentro de uma mesma casa e o criminoso seguia no encalço de duas jovens durante toda uma noite, o cartão de visitas perfeito para assumir o comando de um enredo com foco na barbárie. Os créditos iniciais, contrastando uma trilha sonora agradável com imagens impactantes de bombas explodindo e anomalias humanas, já dá o tom do que está por vir. Escrita pelo próprio diretor em parceria com Grégory Levasseur, a trama nos apresenta à família Carter que planejava uma viagem para comemorar o aniversário de casamento dos patriarcas, Ethel (Kathleen Quinlan) e Bob (Ted Levine). A ideia era atravessar com um trailer o deserto do Novo México até chegar a Califórnia, mas o sonho acaba se tornando um aterrorizante pesadelo real.

domingo, 9 de dezembro de 2018

PALAVRAS DE AMOR

Nota 4,0 Abordando concursos de soletrar e religião, longa se arrasta e jamais atinge a emoção 

Como diz o ditado, uma imagem vale mais que mil palavras. Será mesmo? Infelizmente vivemos tempos de desvalorização do vocabulário e de tudo aquilo que ele carrega consigo. Com o passar dos anos, expressões que deveriam ser carregadas de sentimentos foram banalizadas e são ditas por aí ao acaso e a linguagem da internet cheia de gírias e abreviações causam confusão quando necessário uma escrita ou conversa oral de maneira mais formal. Palavras de Amor, abordando o tema através de concursos de soletrar, até tenta nos lembrar da importância dos significados que a junção de letras tem, mas infelizmente acaba se perdendo em uma miscelânea de assuntos que dispersam a atenção do foco principal. A pequena Eliza (Flora Cross) é a filha caçula da família Naumann, um clã aparentemente feliz. Saul (Richard Gere), seu pai, é um respeitado professor universitário de teologia que sempre encontra tempo para se dedicar em casa, ou ao menos acredita que cumpre bem seu papel no lar. Miriam (Juliette Binoche), sua mãe, é uma mulher carinhosa e ao que tudo indica confortável com sua vida pacata. Já Aaron (Max Minghella), seu irmão mais velho, não demonstra sinais de rebeldia como a maioria dos adolescentes e mantém um relacionamento amistoso com os parentes. Apaixonado pelas palavras e seus significados e afins, Saul se entusiasma ao perceber o dom da filha para soletrar e começa a treiná-la para campeonatos estudantis. No entanto, a dedicação do pai torna-se uma obsessão que acaba modificando a dinâmica de toda a família cuja base antes sólida revela-se estruturada sobre frágeis alicerces, principalmente quando vem à tona a fé de cada um dos membros. Os treinamentos para os concursos são meras desculpas para mostrar que há uma forma mundana para se conversar com Deus. Ao incentivar a filha a se aprimorar na arte de soletrar, Saul acredita que a está guiando para alcançar a sabedoria divina, não apenas falando com o criador, mas também o ouvindo.

sábado, 8 de dezembro de 2018

ARRUME UM EMPREGO

Nota 1,0 Pretendendo abordar temas relativos ao mercado de trabalho, comédia só fica na intenção

Se a geração que cresceu jogando videogames naquelas gigantescas televisões de tudo conseguiu gerar vários exemplos de fracassados, imagine as novas levas de jovens que estão por aí e ainda estão por vir. Computadores, celulares, internet de alta velocidade e games super interativos. Apesar de todas estas opções também servirem de fonte de informação, a juventude as quer com o intuito de se divertir, mas chega um momento em que é preciso encontrar um equilíbrio entre o prazer e o dever. É certo que hoje há muito marmanjo que nem chegou na casa dos vinte anos e já fatura alto criando softwares, jogos virtuais e aperfeiçoando o trabalho de empresas consolidadas com o apoio de tecnologia de ponta. Todavia, há muitos jovens que não encontram o ponto de amadurecimento e preferem viver a vida como eternas crianças, só caindo a ficha que pararam no tempo quando decidem se casar ou procurar um emprego. A dinâmica dos novos tempos também obriga os mais responsáveis e até mesmo aqueles com currículos experientes a abrirem os olhos para não perderem suas vagas de trabalho, seja por crises econômicas ou por serem substituídos por sangue novo. Esses são os problemas que a comédia Arrume Um Emprego pretendia discutir de forma bem humorada, mas o resultado é catastrófico. Risadas aqui são escassas (as poucas em cima de piadas de mal gosto) e para o espectador perder o fio da meada não custa muito, afinal os próprios personagens parecem perdidos dentro da trama em estilo mosaico, várias histórias entrelaçadas por um motivo em comum. No caso, quatro amigos são obrigados a abandonar seus sonhos para entrarem no competitivo mercado de trabalho norte-americano em meio a uma crise das bravas. O personagem principal é Will Davis (Miles Teller) que após um ano de estágio não remunerado é demitido repentinamente e começa refletir sobre o que é mais importante, um emprego que ofereça estabilidade financeira ou aquele que realize com prazer mesmo ganhando pouco? A julgar pelo seu currículo, em que faz questão de destacar que faz vídeos para o YouTube, a segunda opção é a mais acertada.

domingo, 2 de dezembro de 2018

LOUCO POR VOCÊ

Nota 4,0 Concentrando-se no romance, longa desperdiça assuntos pertinentes ao universo juvenil

Universitário bonito, inteligente e boa praça conhece a garota dos seus sonhos, mas para viver essa amor terá que vencer obstáculos, principalmente os que ele próprio se impõe. Esse pequeno resumo serviria como sinopse para a maioria dos filmes estrelados por Freddie Prinze Jr. Quem? Ele foi um ator de relativo sucesso entre o público adolescente entre o final da década de 1990 e início dos anos 2000. Sua carreira foi catapultada pelo terror teen Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado e sua continuação, mas imediatamente o alçaram ao posto de galã em comédias românticas. Antes de ter feito a má escolha de aceitar ingressar no elenco do live action de Scooby-Doo e sua turma, o jovem estrelou pelo menos cinco comédias românticas onde praticamente repetiu o mesmo perfil, sendo a mais lembrada Ela é Demais que acabou ganhando certa aura cult com o passar dos anos. O mesmo não aconteceu com Louco Por Você em que vive Al Connelly, um jovem que pretende seguir os mesmos passos de seu pai e se tornar um grande chef de cozinha. Solitário e por vezes se sentindo como um peixe fora d'água por não ser igual a seus amigos que só pensam em sexo e curtição, o rapaz sente-se atraído de imediato ao conhecer Imogen (Julia Stiles), uma aspirante a artista plástica que até então não estava disposta a assumir as responsabilidades de um namoro sério. Eles se conheceram casualmente em um barzinho, mas depois descobriram estudar na mesma universidade e voltaram a se cruzar por acaso várias vezes. Logo estavam namorando e não queriam se separar mais. Inteligentes e criativos, assunto não faltava ao casal que parecia perfeito. Tudo ia de vento em popa, mas pela pouca idade e experiência de vida que acumulavam, as muitas dúvidas que surgem sobre como estão conduzindo o relacionamento vão minando aos poucos a relação que dura poucos meses, mas o suficiente para deixar marcas na vida de ambos.

sábado, 1 de dezembro de 2018

BREAKDOWN - IMPLACÁVEL PERSEGUIÇÃO

Nota 7,0 Mesmo repetindo clichês, longa se beneficia com protagonista e conflitos verossímeis

Um cenário desértico por si só já é bastante perturbador, um lugar onde as regras não existem e só os mais fortes sobrevivem, agora imagine estar no meio do nada e ainda se sentir encurralado. Breakdown - Implacável Perseguição trabalha com eficiência e bastante objetividade uma das maiores fobias que o ser humano enfrenta: o medo de encarar sozinho uma situação de extremo perigo, além de inesperada e inexplicável. O conflito vivido por Jeff Taylor (Kurt Russell) é passível de acontecer com qualquer um e intima o espectador a refletir sobre o que faria se vivenciasse situação parecida. Em meio a um gênero tão combalido já na década de 1990, quando todos os clichês possíveis já haviam sido usados e reciclados em abundância, destaca-se o trabalho do então estreante diretor Jonathan Mostow que prova que sabia muito bem o que apresentar em seu debut no cinema. Dividindo o roteiro com Sam Montgomery, a partir de seu próprio argumento, o cineasta desenvolveu de modo direto uma história simples e que prende a atenção sem precisar apelar para reviravoltas mirabolantes. Ponto positivo também para a escolha do protagonista. Russell na época tinha predicados para se portar tanto como galã  quanto justiceiro e o diretor tira o melhor proveito disso, mas felizmente nunca alçando o personagem a condição de super-herói. Taylor é um cidadão comum e vulnerável que na companhia da esposa Amy (Kathleen Quinlan) está de mudança para a Califórnia buscando recomeçar sua vida profissional. Esperançosos, o casal atravessa vastas paisagens desérticas, mas no meio do caminho o carro quebra e o celular, para variar, não funciona quando é preciso. Esse parece ser o prenúncio de um pesadelo que de fato irá se concretizar. Eis que surge Red (J.T. Walsh), um caminhoneiro que oferece uma carona até o posto mais próximo de onde poderiam pedir ajuda. Relutante, Amy o acompanha até o local e o marido fica na estrada para tomar conta do veículo. Com tantos filmes que abordam criminosos que se aproveitam de turistas incautos, difícil compreender como o casal dá um mole desses. Fica a dica: sempre esteja acompanhado em locais do tipo, há loucos para tudo.

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