segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

MOULIN ROUGE - AMOR EM VERMELHO

NOTA 10,0

Longa ressuscita o gênero
musical em grande estilo,
apostando em história de amor
contada de maneira vibrante
Durante muitos anos os musicais foram sinônimos de cinema de primeira e marcaram uma fase de ouro de Hollywood. Em meados dos anos 60 o gênero começou a sua decadência sendo sucumbido por produções mais ousadas e realistas. Em tempos de guerras, ganância e luta pela liberdade e direitos, já não havia mais espaço para a magia do casamento da sétima arte com o mundo da música. Um ou outro musical como Cabaret ou Grease – Nos Tempos da Brilhantina conseguiu fazer sucesso e atravessar décadas sendo lembrado de forma ativa e indicado às novas gerações, mas definitivamente as produções do tipo pareciam fadadas ao ostracismo. Eis que em pleno início do novo século o mundo foi surpreendido com o lançamento de Moulin Rouge – Amor em Vermelho, um ousado e criativo projeto do diretor e roteirista Baz Luhrmann, antes responsável por uma versão mais moderninha de um conto clássico, Romeu + Julieta. Sua especialidade parece ser oferecer verdadeiros espetáculos visuais e sem medo de reinventar fórmulas. No caso ele reinventou os musicais e entregou ao público uma obra ímpar utilizando ao máximo os recursos sonoros e visuais a favor de sua narrativa, optando por toques sutis de computação gráfica e exaltando o lado artesanal de se fazer cinema. Tudo isso sem abrir mão de imprimir sua marca: o exagero, no bom sentido. A história começa na virada do século 19 para o 20 nos apresentando ao jovem Christian (Ewan McGregor), um escritor que está passando por um bloqueio criativo por perceber que nunca se apaixonou de verdade e assim não poderia jamais escrever sobre o amor de forma clara e sincera. Em Paris, no bairro boêmio de Montmartre, ele recebe o apoio do artista plástico Henri de Toulouse-Lautrec (John Leguizano) e de uma trupe de artistas que o ajudam a participar da vida social e cultural do local que giram em torno do famoso cabaré Moulin Rouge. Ao visitar o local, Christian se apaixona a primeira vista por Satine (Nicole Kidman), a grande estrela da casa de espetáculos, que na realidade é um bordel. Graças a um mal-entendido, os dois têm a chance de ficarem a sós por alguns minutos, tempo suficiente para que a moça correspondesse ao amor do rapaz, porém, ela já está prometida ao Duque de Monroth (Richard Roxburgh), que em troca do casamento promete transformá-la em uma grande atriz e o Moulin Rouge em um elegante teatro. Mesmo pressionada por Harold Zidler (Jim Broadbent), o ganancioso dono do cabaré, em comum acordo Satine e Christian decidem viver seu romance às escondidas, mas uma hora ela deverá escolher entre viver um amor verdadeiro ou realizar-se profissionalmente.

domingo, 30 de dezembro de 2018

UM PORTO SEGURO

Nota 5,0 Mais uma obra do romancista Nicholas Sparks apenas recicla sua velha fórmula

Assim como o nome do escritor Stephen King se tornou um chamariz para a indústria de cinema em menor proporção podemos dizer que a alcunha Nicholas Sparks também tem o seu valor. Autor de best sellers românticos com boa dose de drama, suas obras passaram a ser cobiçadas por produtores desde que Diário de Uma Paixão tornou-se instantaneamente um clássico do gênero. Não a toa é seu trabalho mais bem acabado estruturalmente e o que mais difere na lista do que já fora adaptado. Um Amor Para Recordar, Noites de Tormenta e Um Homem de Sorte, por exemplo, em comum possuem um casal bonitinho e carismático que se une contra todas as adversidades que possam surgir a fim de impedir que vivam esse amor, mas cuja trajetória culmina em algum final impactante ou traumático. Todas são obras tipicamente "sparkinianas", produções que contam histórias alienantes, mas inegavelmente com graça e beleza. Adaptado por Leslie Bohem e Dana Stevens, Um Porto Seguro engrossa tal lista apresentando mais um romance água-com-açúcar marcado por reviravoltas previsíveis. Após uma briga doméstica, Katie (Julianne Hough) foge de casa toda coberta de sangue e passa a ser perseguida pela polícia, mas consegue escapar e busca por acaso refúgio em uma bucólica cidadezinha no litoral dos EUA. No local, além de arranjar uma bela casa e um descontraído trabalho em um estalar de dedos, ela acaba fazendo amizade com Jo (Cobie Smulders), uma vizinha confidente, e após relutar um pouco inicia um romance com Alex (Josh Duhamel), o dono da mercearia local, viúvo boa-praça e pai de duas crianças. Como manda a cartilha de Sparks, o namoro é contemplado com dias ensolarados, bela paisagem natural, torcida dos amigos e muitas juras de amor. Tudo vai bem na vida da moça até que o passado volta para reencontrá-la através do obstinado detetive Tierney (David Lyons). É através de suas investigações e flashbacks que pouco a pouco vamos descobrindo o que Katie tanto luta para manter em segredo.

sábado, 29 de dezembro de 2018

SEGREDO DE SANGUE

Nota 4,0 Intrigas manjadas tentam segurar trama que não se aprofunda no tema possessividade

Jessica Lange já viveu seus tempos de glória, sendo uma das atrizes mais requisitadas na década de 1980, mas após conquistar seu segundo Oscar por Céu Azul em 1995 parece que o cinema a esqueceu. Ou seria o contrário? Ao aceitar co-estrelar o suspense Segredo de Sangue, genérico desde o título, parece que a estrela já não fazia mais questão alguma de ver seu nome emparelhado ao lado de outras grandes intérpretes em premiações renomadas. Só assim para explicar a sua até então inédita indicação ao Framboesa de Ouro, um mimo para os piores do cinema. Ela dá vida à Martha Baring, uma milionária de meia-idade acostumada a controlar a vida de Jackson (Jonnathon Schaech), seu único filho, um rapagão que mesmo morando em Nova York, longe dos olhos da mamãe, não foge de sua vigilância. Ela sabe que ele tem suas aventuras sexuais, mas jamais se preparou para o momento em que o rapaz decidisse lhe apresentar sua futura nora de fato. Eis que ele decide voltar à fazenda onde cresceu e visitá-la para os festejos de fim de ano levando a tiracolo não apenas a noiva Helen (Gwyneth Paltrow), mas sim a mãe de seu herdeiro que já cresce em seu ventre. O casal buscava refúgio após uma traumática situação de violência, porém, mal sabiam o que os esperava no campo. Lembram-se da reação de Jane Fonda em A Sogra ao ser apresentada à namorada do filho? Sua personagem no exato momento que conhece a futura nora começa a imaginar que está torturando a moça. Lange tem reação parecida, mas na cabeça de sua possessiva criação não paira uma cena besteirol com direito a enfiar a cara em um bolo e sim uma sequência de episódios para perturbar psicologicamente a jovem que acreditava estar sendo recebida naquela casa com total cordialidade. Contudo, não demora muito para ela se sentir desconfortável sob o mesmo teto que a sogra, principalmente quando descobre que ela rejeita e maltrata Alice (Nina Foch), a avó de seu marido.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

NOTA 9,0

Drama mostra lado pouco
esplendoroso da Índia através da
história de rapaz de origem humilde
que literalmente vence na vida
Entra ano e sai ano e muita gente continua com suas simpatias e rituais em busca de ajuda para conseguir uma vida financeira confortável. Bem, já que a maioria tem esse desejo, a dica é fechar o ano assistindo Quem Quer Ser Um Milionário?, elogiada e premiada produção americana que mostrou ao mundo uma Índia realista, pobre, repleta de problemas, mas ainda assim com uma população esperançosa. A sugestão não é só pelo fato de ter dinheiro envolvido na história, mas principalmente pela mensagem de otimismo e reflexiva que o filme nos deixa. A câmera do eclético diretor Danny Boyle apresenta o cotidiano do povão que por coincidência não difere muito da realidade das áreas menos favorecidas brasileiras. Até mais interessante que o próprio filme em si é a sua trajetória desde a concepção até o clímax, a festa do Oscar. Um diretor que já trabalhou com a juventude rebelde, lidou com zumbis, frequentou uma ilha aparentemente deserta e se aventurou pela ficção científica em uma época em que o gênero estava praticamente sepultado, só prova que ele não tem medo de experimentar, testar novos temas e ambientações. Por isso não é para se estranhar a sua audácia de voltar suas atenções para um país pouco conhecido e procurar o que havia de mais comum e pobre por lá. O que é espantoso mesmo é a recepção acalorada do público e crítica americana a uma obra com diversos diálogos em língua estrangeira, o hindu, o idioma oficial da índia, o que exige o uso de legendas, coisa que os ianques detestam. E o fenômeno não foi só por lá. Com uma mensagem universal, o longa fez uma carreira brilhante por onde passou e conquistou quase todos os prêmios disponíveis da temporada. O único senão é que o elenco foi esnobado nessas festas, algo já esperado por serem desconhecidos até então e pela origem indiana (foram selecionados entre os populares e aprenderam a atuar “pegando no batente”). Curiosamente, na própria Índia houve rejeição a este trabalho, muito porque condenaram a opção de explorar o universo de favela, mas se a história exige tal cenário não se pode fazer nada. Se a ambientação causa incômodo por expor mazelas sociais, o cinema nada mais fez que mostrar a realidade. Queixas devem ser direcionadas a governantes e afins para mudar esse quadro. O realismo da obra se deve muito ao auxílio do dramaturgo e cineasta indiano Loveleen Tandan, contratado para ceder uma minuciosa pesquisa sobre seu país, mas cuja importância foi tanta que acabou recebendo o crédito de co-diretor.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

EXORCISTAS DO VATICANO

NOTA 2,0

Mais um filme pretende abordar
o já surrado tema das possessões
demoníacas, mas apenas repete clichês
e erros de outras produções semelhantes
É preciso reconhecer a ousadia de quem ainda se atreve a fazer um filme sobre exorcismo, afinal qualquer produção que aborde o tema já nasce com uma assombração em sua cola chamada O Exorcista. Os anos passam e o longa continua imbatível e assustador, a obra máxima sobre o assunto. Centenas de outros filmes tentaram repetir tal êxito, inclusive tentaram em vão transformar o clássico de William Friedkin em uma franquia, mas todos se perdem em teorias tentando explicar o inexplicável ou se entregam a efeitos especiais (ou as vezes defeitos visuais) achando que eles podem sustentar roteiros vazios. Exorcistas do Vaticano é mais um filme genérico para engrossar a lista deste subgênero do terror. O roteiro de Michael C. Martin e Christopher Borelli não consegue trazer absolutamente nada de novo para diferenciar a produção. Em Los Angeles, a jovem Angela (Olivia Taylor Dudley) vive uma vida pacata ao lado do namorado Pete (John Patrick Amedori), mas sem a aprovação de seu pai, o coronel Roger Holmes (Dougray Scott). Tudo muda quando durante uma festa de aniversário ela se fere acidentalmente com uma faca e vai parar na emergência de um hospital. Conforme o tempo passa o ferimento em seu dedo não cicatriza e infecciona cada vez mais ao passo que a moça começa a agir de forma estranha ao mesmo tempo que passa a ser acompanhada e observada por corvos. Em uma de suas várias idas e vindas ao hospital, Angela provoca um acidente de táxi que a deixa em coma por dezenas de dias e a equipe hospitalar começara a cogitar a possibilidade de realizar a eutanásia uma vez que a paciente não manifestava nenhuma atividade cerebral e vivia com a ajuda de aparelhos. Neste momento difícil, seu companheiro e seu pai recebem o conforto do padre Lozano (Michael Peña) que colocará sua própria fé em cheque ao presenciar eventos incomuns. Prestes a confirmação do óbito a moça milagrosamente volta à vida, é quando o demônio começa a manifestar que tomou conta do corpo dela. Depois de causar uma verdadeira carnificina no hospital, o religioso entra em contato com um grupo secreto do Vaticano liderado pelo cardeal Brunn (Peter Andersson) e o vigário Imani (Djimon Hounsou), mas quando eles vão ao encontro da jovem já é tarde demais e o exorcismo talvez não seja a melhor solução.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

UM PLANO PERFEITO

NOTA 4,5

Comédia romântica francesa
tenta se aproximar do estilo de
Hollywood, mas peca com casal
protagonista com pouca química
Quando se fala em cinema francês automaticamente nos vem a cabeça referências melodramáticas, de erotismo, contemplação ou reflexão. Quem ainda acredita que a indústria de filmes de lá sobrevive de produções destinadas a um público mais cult e maduro é quem parou no tempo, precisa rever seus conceitos. Diretores, produtores e roteiristas locais estão cada vez mais procurando diversificar os estilos e, para o bem ou para mal, se aproximar dos padrões das produções de Hollywood visando uma penetração maior no mercado. Em outras palavras lixo em embalagem de luxo. Não exageremos. Se dos EUA recebemos muita porcaria, o cinema europeu com pegada mais comercial no mínimo traz certa dose de refinamento como verificamos, por exemplo, em Um Plano Perfeito. O título genérico nos remete de imediato a uma produção de ação ou suspense, mas na verdade trata-se de uma comédia romântica que poderia perfeitamente ser estrelada por alguma queridinha dos ianques e faturar alto, mas a protagonista escolhida, a alemã Diane Kruger, infelizmente não conta com uma grande legião de fãs, embora esbanje beleza, seja talentosa e tenha iniciado sua carreira em solo norte-americano. Após chamar a atenção no épico Tróia, mas não a ponto de ofuscar Brad Pitt, a atriz fez várias fitas comerciais por lá, mas mantendo sempre um estreito laço com a cinematografia europeia alternando roteiros mais elaborados com outros cuja função é simplesmente oferecer uma diversão escapista. No longa dirigido por Pascal Chaumeil, que já havia investido no gênero em Como Arrasar Um Coração, Kruger interpreta Isabelle, uma bela balzaquiana que faz parte de uma linhagem de mulheres que, coincidência ou não, só conseguem um casamento feliz e duradouro quando trocam alianças pela segunda vez. A relação com o primeiro marido sempre acaba em brigas, separação e até mesmo morte, o que as leva a crer que sofrem de alguma espécie de maldição que perpetua geração após geração.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

ESQUECERAM DE MIM 2 - PERDIDO EM NOVA YORK

NOTA 8,5

Repetindo os acertos do primeiro
filme, comédia perde um pouco a
graça pela falta de ineditismo, mas
ainda assim diverte e reforça valores
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas aconteceu para a família McCallister. Em Esqueceram de Mim 2 - Perdido em Nova York, o garoto Kevin (Macaulay Culkin) mais uma vez foi esquecido, mas desta vez no aeroporto. Com viagem marcada para a ensolarada Flórida, o clã quer esquecer os apuros que vivenciaram dois anos antes no Natal com o menino sozinho na fria Chicago, porém, novamente se atrasam e saem de casa às pressas. O frenético corre-corre dos membros para ajeitar tudo de última hora e até mais um ataque de fúria do loirinho para deixar de ser alvo de chacota são propositalmente copiados do produção anterior, uma maneira de mostrar que apesar de tudo os McCallister continuam os mesmos. Desta vez eles tem total certeza que não esqueceram nada e muito menos ninguém, mas o arteiro caçula tinha que aprontar das suas. Distraído mexendo na mochila de Peter (John Heard), seu pai, ele acaba se confundindo e seguindo o homem errado, embarcando sem querer para Nova York. Munido de cartão de crédito e muita curiosidade, o garoto não pede ajuda para reencontrar os parentes e inventa uma trolagem para se hospedar em um luxuoso hotel, mesmo sob as desconfianças do afetado Sr. Hector (Tim Curry), o concierge que passa a cercá-lo. Mais uma vez Kevin lança mão de áudios de filmes e também de gravações amadoras para espantar todos que queiram atrapalhar suas férias regadas a luxos e guloseimas. Mais complicado que segurar a farsa, é que novamente o moleque vai estar na mira de Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), a mesma dupla que assaltara a sua casa e que ele ajudou a colocar atrás das grades, mas eles fugiram e já bolam planos para novos assaltos. Agora os alvos são as lojas de brinquedos, estabelecimentos que faturam alto no Natal, mas quando descobrem a chance de se vingar, caçar Kevin torna-se o principal objetivo da dupla culminando em mais uma série de torturas que o menino planeja desta vez aproveitando-se do apartamento em reforma de um tio que está viajando. Como no longa anterior, todas as situações se encaixam perfeitamente para nosso pequeno herói deitar e rolar. E como se diz, em time que está ganhando não se mexe, assim Chris Columbus novamente assumiu a direção e John Hughes ficou responsável pelo roteiro, mas ambos não se esforçam a criar nada de novo, apenas reciclam o que já foi testado e aprovado.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

ESQUECERAM DE MIM

NOTA 9,0

Clássico absoluto natalino, as peripécias
de um esperto menino para se defender
de bandidos ainda diverte gerações
e desperta a nostalgia dos adultos
Natal é sinônimo de recordações, alegria e família. Reunindo tais características nada mais tradicional que nessa época do ano relembrarmos o clássico das sessões da tarde Esqueceram de Mim, o surpreendente sucesso do longínquo ano de 1990, mas que parece atual de tão fresco que permanece em nossa memória. Custou uma ninharia e terminou sua carreira nos cinemas como a maior bilheteria daquele ano e a oitava maior da década. E olha que quase ninguém apostava no projeto de uma comédia protagonizada por um guri inteligente e astuto que apronta mil e umas para se livrar de uma dupla de criminosos. Macaulay Culkin dispensa apresentações. Mesmo para quem não é daquela época, certamente tem conhecimento que ele foi um dos atores mirins mais bem sucedidos de todos os tempos, mas também lembrado como um exemplo de como a fama mal administrada pode destruir uma vida, ou quase isso. O ator cresceu e ao invés de ganhar espaço na mídia para divulgar seus filmes o que vinha a público eram os desdobramentos de sua disputa judicial com os próprios pais para ter direito a administrar a fortuna que acumulou em tempo recorde. Problemas familiares é praticamente porta aberta para outros problemas e ele se envolveu com drogas, bebidas e polêmicas, incluindo uma criticada amizade com o cantor Michael Jackson com alusão a pedofilia. Fisicamente desfigurado e com semblante depressivo, o fato é que poucos lembram de sua imagem adulta. Seu nome automaticamente nos remete a figura ambígua do moleque com carinha ingênua e sorriso maroto e confundi-lo com seu personagem é perfeitamente normal. Kevin McCallister tem um perfil de fácil identificação, o que justifica a longa vida do filme. Carismático, engraçado, arteiro, esperto e equilibrando-se entre a inocência inerente a sua idade e certa dose de maturidade precoce, ele tira sua família do sério constantemente, mas chega ao ápice da pentelhice às vésperas do Natal quando sua família está prestes a aportar na França. Pais, irmãos, tios e primos. São quinze pessoas dentro de uma bela mansão vivenciando a agitação pré-viagem, excitação certamente compartilhada pelo espectador anualmente na noite que antecede os festejos, você viaje ou simplesmente fique em casa com parentes e amigos. A impressão de que a noitada não tem fim e as agradáveis sensações de liberdade, conforto e alegria nos toma.

domingo, 23 de dezembro de 2018

UM HÓSPEDE DO BARULHO

Nota 6,0 Mesmo com trama previsível, longa ainda diverte e alimenta a nostalgia dos anos 80

Os anos 80 foram repletos de filmes bobinhos que acabaram virando sensação e hoje são alvo da atenção de nostálgicos. O grande segredo destas obras talvez fosse a sinceridade com que elas eram concebidas, sendo que muitas eram lançadas sem grandes pretensões, apenas servir como uma diversão ligeira para toda a família, mas o sucesso acabava superando expectativas como é o caso de Um Hóspede do Barulho, comédia simplória cujo tema guarda algumas semelhanças com o clássico E.T. – O Extraterreste, obviamente guardada as devidas proporções. Em ambos os filmes uma curiosa criatura é acolhida por uma família carismática, mas que não consegue manter este segredo por muito tempo. Certa vez os Henderson estavam voltando para casa após alguns dias de descanso no campo, mas foram surpreendidos na estrada por uma gigantesca e estranha criatura que acaba sendo atropelada por George (John Lithgow). Ao verificarem no que bateram, todos acreditam que encontraram o lendário Pé Grande e resolvem levá-lo para a cidade visando tirar algum proveito da situação, mas a criatura não está morta, pelo contrário, está bem viva. Após o estranhamento inicial, pouco a pouco todos nesta família vão percebendo que ele não é agressivo, pelo contrário, é até muito dócil como um cãozinho e tem os olhos cativantes e curiosos de uma criança que está conhecendo o mundo. George então batiza esta espécie de gorila de Harry e decide mantê-lo em casa para protegê-lo, mas o estranho no ninho começa a explorar o novo território e não demora para que outras pessoas o conheçam e para que os boatos sobre sua presença na vizinhança alerte caçadores e a imprensa de plantão, assim podendo ser declarada a perseguição a este animal que pode ser o único de sua espécie vivo.  Devorando peixinhos do aquário e as plantas dos vasos, quebrando portas e degraus da escada entre outras estripulias, Harry provoca cenas previsíveis com uma inocência que infelizmente não condiz mais com nossa realidade, talvez algo ultrapassado até para a época de lançamento quando os games e videoclipes já anestesiavam crianças e adolescentes com altas doses de adrenalina, cores e sons. De qualquer forma, o relativo sucesso e o apelo popular do longa acabou originando um seriado que durou três anos e foi exibido no Brasil pela Rede Globo no início da década de 1990.

sábado, 22 de dezembro de 2018

REFÉNS DO MAL

Nota 5,0 Suspense sem grandes sustos é mero produto para publicidade do protagonista

Crianças endemoniadas parecem um fetiche do cinema de horror. Símbolos de pureza e inocência, realmente até hoje não deixa de ser impactante ver guris que giram a cabeça, com olhar macabro, se automutilando ou atentando verbalmente contra a moral e a crença religiosa. Bem, o demoniozinho de Reféns do Mal vem em embalagem mais econômica, sendo a fixação de seus olhos, cara séria e dom para premonição suas principais armas para amedrontar, mas no caso ele só mete medo em quem merece. Será mesmo? Não há como falar sobre esta produção assinada pelo diretor Stewart Hendler sem revelar seu grande trunfo que na realidade não é nenhum truque para surpreender o espectador, mas sim a matéria-prima do roteiro de Christopher Borrelli. David (Blake Woodruff) é um garoto de oito anos filho único da Sra. Sandbom (Teryl Hothery), uma jovem e rica viúva que sempre o mimou com presentes e fez suas vontades, mas ainda assim ele parece sério demais. No dia de seu aniversário, em pleno período natalino, comparece a sua festa um animador vestido de Papai Noel que na verdade não é do ramo. Ele é Max (Josh Holloway), um ex-detento que aprendeu a cozinhar na prisão e agora que está livre sonha em abrir um restaurante com a noiva Roxanne (Sarah Wayne Calles), mas devido ao seu histórico criminal será difícil conseguir financiamento para o projeto, assim ele cai na tentação de fazer um último serviço sujo para um desconhecido que só consegue contatar pelo telefone: sequestrar David e em troca pedir um polpudo resgate. O rapto dá certo e com a ajuda da noiva e dos comparsas Vince (Joel Edgerton) e Sidney (Michael Hooker), Max aprisiona o garoto nas acomodações de um acampamento que está fechado provisoriamente devido ao inverno rigoroso. O futuro casal trata o menino de forma mais amigável, pois desejam que tudo acabe bem para todos, mas são alertados de que não devem se afeiçoar a ele. De qualquer forma, bastava um primeiro contato com a milionária que ela não se negaria a pagar uma fortuna para ter seu pimpolho de volta, mas as coisas saem dos trilhos.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

OS PICARETAS

NOTA 9.0

Steve Martin e Eddie Murphy
unem seus talentos em inteligente
comédia que tira sarro e de certa forma
homenageia a indústria do cinema
O lendário programa "Saturday Night Live" lançou grandes nomes do humor que migraram para o cinema, entre eles Steve Martin e Eddie Murphy. Representantes de épocas distintas da atração, suas carreiras foram calcadas em comédias sendo que o primeiro tem predileção por atuar em seus próprios roteiros e o segundo é famoso por gostar de interpretar mais de um personagem em um mesmo filme. Unindo os gostos da dupla, Os Picaretas é uma divertida sátira ao universo que eles mesmos habitam. Hollywood é um lugar que alimenta muitos sonhos, mas não tanto quanto o número de decepções. Muitos filmes já abordaram a obsessão pelo sucesso a qualquer preço no cinema, mas faltava uma comédia digna a abordar o tema. Eis que em 1999 o roteiro de Martin chegou as mãos do diretor Frank Oz. O ator dá vida a Bobby Bowfinger, um produtor e diretor afogado em dívidas que precisa de um grande estouro de bilheterias para dar a volta por cima e nada melhor que um nome famoso para atrair as atenções. "Chuva Rechonchuda", o filme dentro do filme, é uma aventura de ficção científica bem tosca desprezada por Kit Ramsey (Murphy), um astro das fitas de ação. Disposto a tudo para tê-lo no elenco, o cineasta arquiteta um plano que julga ser brilhante para realizar seu trabalho e de quebra experimentar uma maneira inusitada de filmar. Ele faria sim o filme com Ramsey como protagonista, contudo, o próprio ator não saberia disso. Usando os mais variados artifícios para captar imagens, Bowfinger passaria a persegui-lo e o colocaria em situações absurdas e outras de perigo, todas para se encaixarem no script, porém, fugindo completamente da rotina do astro. O elenco é convencido que o intérprete tem uma maneira peculiar de atuar e construir suas personagens, assim aceitam gravar suas cenas mantendo generosa distância dele, mas que após uma caprichada edição pareceria que estavam de fato dividindo o mesmo set de filmagens. Os atores então declamam estranhas falas e com exageradas entonações e as vezes são percebidos por Ramsey que tem reações ainda mais esdrúxulas acreditando estar sendo perseguido por extraterrestres.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O RETORNO DOS MALDITOS

NOTA 2,0

Continuação às pressa deturpa as
qualidades conquistadas em Viagem
Maldita
apostando em trama capenga
aliando terror e clichês de guerra
No Brasil, Viagem Maldita não pegou, passou em brancas nuvens, efeito que provavelmente aconteceu em muitos outros países devido a violência explícita da fita. Em solo americano também fracassou, mas estranhamente os parcos lucros abriram as portas para uma continuação que obviamente já devia estar engatilhada antes mesmo do lançamento do primeiro filme. A pressa para jogar no mercado uma segunda carnificina gerada pelo embate de humanos versus mutantes foi um tiro no pé. O Retorno dos Malditos é uma grande decepção já pelo argumento. Como parte de uma missão de treinamento, um grupo de soldados americanos é enviado para uma remota região do Novo México onde encontram um campo de pesquisas nucleares abandonado. Após presenciar um sinal de perigo em uma montanha distante, os recrutas decidem iniciar uma missão de busca e resgate por conta própria, porém, eles desconhecem o fato de que cerca de dois anos antes o local fora visitado por uma família que sofreu o diabo nas mãos de canibais. Esse é o fiapo que une os dois longas. No original, na verdade uma refilmagem de Quadrilha de Sádicos do mestre Wes Craven, o espectador era pressionado a confrontar uma história sobre instinto primitivo e de sobrevivência, tanto por parte da vítimas quanto dos vilões, um intenso e violento exercício principalmente estético para qualquer diretor. A função ficou a cargo do francês Alexandre Aja que entregou um trabalho digno de elogios indo fundo na bizarrice e sanguinolência, mas sem perder a mão com o conteúdo em torno de críticas a política e imperialismo dos EUA. Os insanos mutantes que atacaram a família Carter eram justificados como descendentes de uma tribo que sofreu com os efeitos nocivos da radiação gerada por experimentos com bombas nucleares bancados pelo governo norte-americano. Com uma obra praticamente redondinha, Aja sabiamente pulou fora da sequência, mas Craven infelizmente quis levar o projeto adiante envolvendo-se como produtor e roteirista.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

VIAGEM MALDITA

NOTA 8,0

Investindo pesado em violência e
bizarrice. remake de terror cult
preserva a tensão e crítica política
fazendo jus a memória do original
O cineasta Wes Craven foi um dos responsáveis por literalmente dar cara aos slashers movies quando criou a figura deformada de Freddy Krueger para A Hora do Pesadelo. Anos mais tarde reinventou o universo dos assassinos mascarados com Pânico, mas no início de sua carreira investia em um outro tipo de terror, uma vertente calcada em um crescente e angustiante clima de tensão. Lançado em 1977, Quadrilha de Sádicos faz parte de um período marcado por extrema violência mundo afora, sendo alguns dos acontecimentos mais emblemáticos a Guerra Fria e a Guerra do Vietnã. O cinema de horror então peitava a realidade investindo em carnificina explícita, incluindo a prática do canibalismo tão comum em situações em que sobreviver está acima de qualquer lição de ética ou moral. Era a ficção tentando chocar perante as atrocidades da vida real. Passados quase trinta anos, em meio ao marasmo das fitas de psicopatas e refilmagens de terror orientais, Craven teve a ideia de revisitar seu clássico cult, mas desta vez apenas como produtor. Com algumas mudanças no roteiro e rebatizado como Viagem Maldita, o remake ganhou a direção do francês Alexandre Aja, então estreando em Hollywood após a boa repercussão de Alta Tensão, fita em que toda uma família era assassinada dentro de uma mesma casa e o criminoso seguia no encalço de duas jovens durante toda uma noite, o cartão de visitas perfeito para assumir o comando de um enredo com foco na barbárie. Os créditos iniciais, contrastando uma trilha sonora agradável com imagens impactantes de bombas explodindo e anomalias humanas, já dá o tom do que está por vir. Escrita pelo próprio diretor em parceria com Grégory Levasseur, a trama nos apresenta à família Carter que planejava uma viagem para comemorar o aniversário de casamento dos patriarcas, Ethel (Kathleen Quinlan) e Bob (Ted Levine). A ideia era atravessar com um trailer o deserto do Novo México até chegar a Califórnia, mas o sonho acaba se tornando um aterrorizante pesadelo real.

domingo, 9 de dezembro de 2018

PALAVRAS DE AMOR

Nota 4,0 Abordando concursos de soletrar e religião, longa se arrasta e jamais atinge a emoção 

Como diz o ditado, uma imagem vale mais que mil palavras. Será mesmo? Infelizmente vivemos tempos de desvalorização do vocabulário e de tudo aquilo que ele carrega consigo. Com o passar dos anos, expressões que deveriam ser carregadas de sentimentos foram banalizadas e são ditas por aí ao acaso e a linguagem da internet cheia de gírias e abreviações causam confusão quando necessário uma escrita ou conversa oral de maneira mais formal. Palavras de Amor, abordando o tema através de concursos de soletrar, até tenta nos lembrar da importância dos significados que a junção de letras tem, mas infelizmente acaba se perdendo em uma miscelânea de assuntos que dispersam a atenção do foco principal. A pequena Eliza (Flora Cross) é a filha caçula da família Naumann, um clã aparentemente feliz. Saul (Richard Gere), seu pai, é um respeitado professor universitário de teologia que sempre encontra tempo para se dedicar em casa, ou ao menos acredita que cumpre bem seu papel no lar. Miriam (Juliette Binoche), sua mãe, é uma mulher carinhosa e ao que tudo indica confortável com sua vida pacata. Já Aaron (Max Minghella), seu irmão mais velho, não demonstra sinais de rebeldia como a maioria dos adolescentes e mantém um relacionamento amistoso com os parentes. Apaixonado pelas palavras e seus significados e afins, Saul se entusiasma ao perceber o dom da filha para soletrar e começa a treiná-la para campeonatos estudantis. No entanto, a dedicação do pai torna-se uma obsessão que acaba modificando a dinâmica de toda a família cuja base antes sólida revela-se estruturada sobre frágeis alicerces, principalmente quando vem à tona a fé de cada um dos membros. Os treinamentos para os concursos são meras desculpas para mostrar que há uma forma mundana para se conversar com Deus. Ao incentivar a filha a se aprimorar na arte de soletrar, Saul acredita que a está guiando para alcançar a sabedoria divina, não apenas falando com o criador, mas também o ouvindo.

sábado, 8 de dezembro de 2018

ARRUME UM EMPREGO

Nota 1,0 Pretendendo abordar temas relativos ao mercado de trabalho, comédia só fica na intenção

Se a geração que cresceu jogando videogames naquelas gigantescas televisões de tudo conseguiu gerar vários exemplos de fracassados, imagine as novas levas de jovens que estão por aí e ainda estão por vir. Computadores, celulares, internet de alta velocidade e games super interativos. Apesar de todas estas opções também servirem de fonte de informação, a juventude as quer com o intuito de se divertir, mas chega um momento em que é preciso encontrar um equilíbrio entre o prazer e o dever. É certo que hoje há muito marmanjo que nem chegou na casa dos vinte anos e já fatura alto criando softwares, jogos virtuais e aperfeiçoando o trabalho de empresas consolidadas com o apoio de tecnologia de ponta. Todavia, há muitos jovens que não encontram o ponto de amadurecimento e preferem viver a vida como eternas crianças, só caindo a ficha que pararam no tempo quando decidem se casar ou procurar um emprego. A dinâmica dos novos tempos também obriga os mais responsáveis e até mesmo aqueles com currículos experientes a abrirem os olhos para não perderem suas vagas de trabalho, seja por crises econômicas ou por serem substituídos por sangue novo. Esses são os problemas que a comédia Arrume Um Emprego pretendia discutir de forma bem humorada, mas o resultado é catastrófico. Risadas aqui são escassas (as poucas em cima de piadas de mal gosto) e para o espectador perder o fio da meada não custa muito, afinal os próprios personagens parecem perdidos dentro da trama em estilo mosaico, várias histórias entrelaçadas por um motivo em comum. No caso, quatro amigos são obrigados a abandonar seus sonhos para entrarem no competitivo mercado de trabalho norte-americano em meio a uma crise das bravas. O personagem principal é Will Davis (Miles Teller) que após um ano de estágio não remunerado é demitido repentinamente e começa refletir sobre o que é mais importante, um emprego que ofereça estabilidade financeira ou aquele que realize com prazer mesmo ganhando pouco? A julgar pelo seu currículo, em que faz questão de destacar que faz vídeos para o YouTube, a segunda opção é a mais acertada.

domingo, 2 de dezembro de 2018

LOUCO POR VOCÊ

Nota 4,0 Concentrando-se no romance, longa desperdiça assuntos pertinentes ao universo juvenil

Universitário bonito, inteligente e boa praça conhece a garota dos seus sonhos, mas para viver essa amor terá que vencer obstáculos, principalmente os que ele próprio se impõe. Esse pequeno resumo serviria como sinopse para a maioria dos filmes estrelados por Freddie Prinze Jr. Quem? Ele foi um ator de relativo sucesso entre o público adolescente entre o final da década de 1990 e início dos anos 2000. Sua carreira foi catapultada pelo terror teen Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado e sua continuação, mas imediatamente o alçaram ao posto de galã em comédias românticas. Antes de ter feito a má escolha de aceitar ingressar no elenco do live action de Scooby-Doo e sua turma, o jovem estrelou pelo menos cinco comédias românticas onde praticamente repetiu o mesmo perfil, sendo a mais lembrada Ela é Demais que acabou ganhando certa aura cult com o passar dos anos. O mesmo não aconteceu com Louco Por Você em que vive Al Connelly, um jovem que pretende seguir os mesmos passos de seu pai e se tornar um grande chef de cozinha. Solitário e por vezes se sentindo como um peixe fora d'água por não ser igual a seus amigos que só pensam em sexo e curtição, o rapaz sente-se atraído de imediato ao conhecer Imogen (Julia Stiles), uma aspirante a artista plástica que até então não estava disposta a assumir as responsabilidades de um namoro sério. Eles se conheceram casualmente em um barzinho, mas depois descobriram estudar na mesma universidade e voltaram a se cruzar por acaso várias vezes. Logo estavam namorando e não queriam se separar mais. Inteligentes e criativos, assunto não faltava ao casal que parecia perfeito. Tudo ia de vento em popa, mas pela pouca idade e experiência de vida que acumulavam, as muitas dúvidas que surgem sobre como estão conduzindo o relacionamento vão minando aos poucos a relação que dura poucos meses, mas o suficiente para deixar marcas na vida de ambos.

sábado, 1 de dezembro de 2018

BREAKDOWN - IMPLACÁVEL PERSEGUIÇÃO

Nota 7,0 Mesmo repetindo clichês, longa se beneficia com protagonista e conflitos verossímeis

Um cenário desértico por si só já é bastante perturbador, um lugar onde as regras não existem e só os mais fortes sobrevivem, agora imagine estar no meio do nada e ainda se sentir encurralado. Breakdown - Implacável Perseguição trabalha com eficiência e bastante objetividade uma das maiores fobias que o ser humano enfrenta: o medo de encarar sozinho uma situação de extremo perigo, além de inesperada e inexplicável. O conflito vivido por Jeff Taylor (Kurt Russell) é passível de acontecer com qualquer um e intima o espectador a refletir sobre o que faria se vivenciasse situação parecida. Em meio a um gênero tão combalido já na década de 1990, quando todos os clichês possíveis já haviam sido usados e reciclados em abundância, destaca-se o trabalho do então estreante diretor Jonathan Mostow que prova que sabia muito bem o que apresentar em seu debut no cinema. Dividindo o roteiro com Sam Montgomery, a partir de seu próprio argumento, o cineasta desenvolveu de modo direto uma história simples e que prende a atenção sem precisar apelar para reviravoltas mirabolantes. Ponto positivo também para a escolha do protagonista. Russell na época tinha predicados para se portar tanto como galã  quanto justiceiro e o diretor tira o melhor proveito disso, mas felizmente nunca alçando o personagem a condição de super-herói. Taylor é um cidadão comum e vulnerável que na companhia da esposa Amy (Kathleen Quinlan) está de mudança para a Califórnia buscando recomeçar sua vida profissional. Esperançosos, o casal atravessa vastas paisagens desérticas, mas no meio do caminho o carro quebra e o celular, para variar, não funciona quando é preciso. Esse parece ser o prenúncio de um pesadelo que de fato irá se concretizar. Eis que surge Red (J.T. Walsh), um caminhoneiro que oferece uma carona até o posto mais próximo de onde poderiam pedir ajuda. Relutante, Amy o acompanha até o local e o marido fica na estrada para tomar conta do veículo. Com tantos filmes que abordam criminosos que se aproveitam de turistas incautos, difícil compreender como o casal dá um mole desses. Fica a dica: sempre esteja acompanhado em locais do tipo, há loucos para tudo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

DIVÃ A 2

NOTA 1,5

Pegando carona no sucesso alheio,
comédia já erra ao tentar se passar de
uma continuação e as coisas só pioram com
texto enfadonho e atuações desmotivadas
Até crianças devem saber o significado da expressão popular comprar gato por lebre, mas parece que os envolvidos na produção de Divã a 2 o desconhecem. Ou são assumidamente caras-de-pau. Utilizando o mesmo estilo de diagramação e cores para seu material publicitário e ainda destacando em seu título o dois em numeral, muito facilmente qualquer desavisado ao ver alguma propaganda desta comédia pode acreditar que seja a continuação do grande sucesso estrelado por Lilia Cabral seis anos antes. Fique bem claro, os longas são totalmente independentes, nada a ver um com o outro. A produtora detentora da marca provavelmente queria iniciar uma franquia cujo alicerce seria apenas o argumento, assim não tendo a necessidade de recorrer a uma mesma equipe de trabalho o que poderia inviabilizar projetos. Do Divã original só sobrou a proposta de personagens problemáticos com a necessidade de conversarem, extravasarem suas emoções. Contudo, sai de cena os conflitos de uma mulher madura e entra no lugar os dilemas amorosos de uma balzaquiana, ou seja, o diferencial é trocado pelo trivial. Elenco, direção e roteiristas foram substituídos por sangue novo, o que no caso não significa necessariamente que temos novidades. Se no longa de 2009 tínhamos uma história consistente baseada no romance homônimo de Martha Medeiros, aqui temos que nos contentar com um fiapo de enredo, uma desculpa esfarrapada que os roteiristas Leandro Matos e Saulo Aride encontraram para conseguirem pagar suas contas. A ocupadíssima médica ortopedista Eduarda (Vanessa Giácomo) e o hiperativo produtor de eventos Marcos (Rafael Infante) casaram-se e tornaram-se pais muito jovens e como tantos outros casais com trajetórias parecidas estão vivendo uma crise precoce no relacionamento. Separados após dez anos de convivência, cada um procura individualmente resolverem seus conflitos com a ajuda de terapeutas. Enquanto desabafam, o público vai tomando conhecimento de suas vidas através de flashbacks, como se os discursos deles próprios já não fossem o suficientes para entendermos suas situações. É o velho hábito do cinema nacional em entregar tudo mastigadinho ao público, este que por vezes não percebe que sua inteligência está sendo subestimada.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

JOGADA DE REI

NOTA 8,0

Apesar da temática manjada,
longa ganha pontos com empenho do
elenco e por apresentar o jogo de xadrez
como motivação a jovens sem perspectivas
O cinema já apresentou centenas, senão dezenas, de histórias de superação e mudanças de comportamento incitados pela dedicação de um professor ou membro de alguma comunidade deficitária. Tal temática é universal, mas é certo que os EUA é o maior produtor de filmes do tipo, como os emblemáticos Ao Mestre Com Carinho e Sociedade dos Poetas Mortos, entre tantos outros. Geralmente baseados em episódios da vida real, tais produções não costumam fazer grandes bilheterias e a maioria é lançada diretamente para consumo doméstico, no entanto garantem vida longa graças ao tema atemporal e as mensagens edificantes que deixam. Jogada de Rei é mais um título a engrossar tal lista. Cuba Gooding Jr. é incumbido de encarnar o personagem real Eugene Brown que aprendeu com seus erros e decidiu compartilhar as lições que teve para tentar salvar as vidas de jovens sem rumo como ele foi um dia. Ele passou dezessete anos na prisão onde aprendeu a se autocontrolar com as dificuldades cotidianas e a jogar xadrez com Searcy (Dennis Haysbert), um detento mais velho e experiente. Com o jogo de raciocínio lógico, ele tem a percepção que a vida não pode ser construída por atitudes impensadas. Basta uma ação impulsiva e tudo pode se perder. Quando ganha sua liberdade, Brown volta às ruas de Washington com o desejo de recuperar o tempo perdido principalmente com os filhos Katrina (Rachael Thomas), estudante de direito que rejeita o pai completamente, e Marcus (Jordan Calloway), que está na cadeia seguindo o mesmo caminho desvirtuado paterno. Outro problema a enfrentar são as dificuldades para conseguir um emprego sendo fichado na polícia. Mentindo sobre seu passado, ele é aceito como faxineiro de uma escola frequentada por uma turma barra pesada. Não demora muito para que uma professora temendo as ameaças feitas pelos alunos abandone o cargo, a chance para o ex-presidiário assumir uma classe como monitor temporário, mesmo sem qualquer experiência no campo da educação. Com a má fama do colégio, funciona o ditado que diz quem não tem cão caça com gato e o que era para ser uma medida paliativa para cobrir alguns poucos dias acaba se estendendo a longo prazo.

domingo, 25 de novembro de 2018

UMA MÃE PARA MEU BEBÊ

Nota 7,0 Tolerância, responsabilidade e amizade são discutidos em comédia leve e acima da média

Assim como no Brasil tornou-se comum um comediante de sucesso da TV fazer carreira no cinema, em Hollywood também temos exemplos de fenômenos que estendem sua popularidade migrando para as telonas. De tempos em tempos surge um nome que parece dominar as atenções e a indústria aproveita-se para tirar o máximo de seu proveito, mas não tarda para que a decadência bata a sua... Não! Para Tina Fey não é chegada a hora de completar essa maldita frase. Muito premiada pela série "30 Rock"e ex-participante do lendário programa "Saturday Night Live", seu debut nos cinemas foi com honrarias. Ela surgiu no espaço cinematográfico como uma mera coadjuvante em Meninas Malvadas, mas seu papel de destaque estava mesmo nos bastidores. Simplesmente é dela o roteiro desta comédia teen que surpreende abordando com humor ácido e crítico o universo dos jovens. Seu texto é elogiado até hoje, assim é de se questionar: será que Uma Mãe Para Meu Bebê poderia ser bem melhor caso ela tivesse roteirizado além de atuar? No mínimo poderíamos esperar algo sarcástico, mas temos que nos contentar com a versão do diretor e roteirista Michael McCullers que se não oferece oportunidade para sonoras gargalhadas, ao menos deixa quem assiste com um sorriso sincero no rosto por sua leveza e simplicidade. Fey interpreta Kate, uma mulher de meia-idade realizada profissionalmente, mas na vida pessoal fracassada, tendo tido apenas um namorado a vida inteira. Quando decide que é hora de ter um filho, mesmo que fosse uma produção independente, ela perde o chão ao descobrir ser estéril e então procura os serviços de uma empresa especializada em mães de aluguel. É assim que surge em sua vida a espevitada e desmiolada Angie (Amy Poehler), uma jovem de pouca instrução, pobre, viciada em cigarros e bebidas e totalmente desencanada de problemas, um perfil extremamente oposto ao de sua contratante, uma mulher de educação refinada, inteligente, porém, neurótica e controladora.

sábado, 24 de novembro de 2018

AS RUÍNAS

Nota 7,0 Com pinta de filme B, longa surpreende com tensão crescente em meio a situação extrema

O cinema norte-americano já ofereceu no passado grandes produções de horror, mas ultimamente tudo que vem de lá é tão pueril, artificial e clichê que qualquer sinal mínimo de originalidade é capaz de elevar um filme medíocre ao patamar de obra de arte. Monstros lendários, animais mutantes, assassinos mascarados, fantasmas de olhinhos puxados e carnificina sem rodeios. O gênero terror vive de fases, mas algumas delas tem períodos de declínio e muitas produções acabam já sendo lançadas pré-definidas como fitas trash. Hoje em dia, por exemplo, poucos se animam a assistir enredos sobre humanos fugindo de animais enfurecidos. Na hora nos vem a cabeça referências a efeitos especiais precários, atuações risíveis e tramas... Bem, história para contar é só um detalhe, o que importa são as mortes e quanto mais detalhadas melhor. Houve uma época em que também tornaram-se comuns as desventuras de exploradores presos em cavernas malditas, assombradas, perigosas e por aí vai. A falta de imaginação para intitular tais produções já funcionam como um aviso das bombas que se tratam. As Ruínas poderia cair facilmente neste grupo seleto e infeliz, mas se salva razoavelmente por ter em seus créditos o roteirista Scott Smith que sabiamente resolveu adaptar seu próprio livro. Mesmo com algumas sutis modificações, nada melhor que o próprio criador cuidar de sua criatura. Ele já havia feito isso com sua obra Um Plano Simples cujo roteiro foi indicado ao Oscar. Aventurando-se pelo campo do horror, ele não realiza um trabalho transgressor, marcante ou digno de elogios rasgados, simplesmente entrega um produto razoavelmente diferenciado em meio ao marasmo da época, embora o cenário não tenha se modificado muito nos últimos anos. Dois casais jovens, Jeff (Jonathan Tucker) e Amy (Jena Malone) acompanhados de Eric (Shawn Ashmore) e Stacy (Laura Ramsey), estão curtindo férias no México, mas pouco antes de voltarem para casa tem o azar de conhecer Mathias (Joe Anderson), um alemão bom de lábia que os convida para ajudá-lo a procurar seu irmão Henrich (Jordan Patrick Smith), que foi participar de uma escavação arqueológica, mas não dá notícias há vários dias.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

AMITYVILLE - O DESPERTAR

NOTA 3,5

Tentando dar novos rumos à
franquia de terror sem apelar para
um remake literal, fita não inova nos
sustos e trama fica a dever em emoção
Família se muda para uma casa que no passado foi palco de uma chacina e desde então todos os moradores tiveram terríveis experiência no local. Esse é o argumento básico dos filmes de residências assombradas, mas também é a semente de uma das mais longínquas franquias do cinema norte-americano. Amityville - O Despertar é nada mais nada menos que o 18º longa com raízes fincadas na obra do autor Jay Anson a respeito de um homem que assassinou toda a família supostamente guiado por vozes malignas que o obrigaram. A primeira adaptação foi lançada em 1979, mas Terror em Amityville teve uma recepção fria por parte de público e crítica e foi preciso o passar dos anos para ser reconhecido, tanto que hoje é considerado um clássico do terror. Depois vieram continuações, produtos caça-níqueis direto para consumo doméstico, teve um telefilme e em 2005 uma refilmagem tentou resgatar a franquia. Após quatro anos de adiamentos, o diretor e roteirista Franck Khalfoun encontrou uma boa ideia para voltar ao lendário casarão do vilarejo localizado na cidade de Babylon, uma remota parte de Nova Iorque. A quem interessar, a residência ainda existe e vira e mexe está disponível para novos e corajosos moradores. Talvez pensando justamente nisso, sobre como seria viver em um local cercado de negativismo e ciente de toda tragédia que lá aconteceu, é que o cineasta preferiu realizar uma história ligeiramente original e abandonar a ideia de mais um desnecessário remake (se bem que não dá para fugir muito do argumento original). Após sofrer um acidente indiretamente provocado por um ato inconsequente de sua irmã gêmea Belle (Bella Thorne), o jovem James (Cameron Monaghan) entrou em estado vegetativo e acabou tendo morte cerebral, porém, Joan (Jennifer Jason Leigh), sua mãe, decide se mudar com a família, que inclui a pequena Juliet (Mckenna Grace), para a tal casa macabra onde teria espaço para montar uma UTI doméstica. De fato, na nova moradia o rapaz começa milagrosamente a apresentar melhoras, mesmo com os médicos afirmando que seria impossível ele voltar do coma.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

HORROR EM AMITYVILLE

NOTA 8,0

Embora abuse da imaginação,
refilmagem acerta no ritmo,
ambientação e em sustos, sendo
um respiro ao gênero terror
Remexer em situações misteriosas do passado para conseguir material para filmes de terror e suspense pode soar como uma ideia batida e que vai dar com os burros n'água, mas esse tipo de produção tem seu público cativo e por isso anualmente algumas dezenas de títulos com pretensões de deixar os espectadores roendo as unhas desembarcam nos cinemas ou diretamente nas locadoras. O famoso baseado em fatos reais é o chamariz e quanto mais instigantes e bizarros forem os fatos que deram origem ao roteiro melhor, embora muitas produções utilizem esse recurso de forma desonesta só para atrair público. Ainda bem que vez ou outra surge um excelente filme de terror que não se prende a apenas agradar plateias acéfalas, mas tem pretensões de arrebatar novos fãs para o gênero e agregar ou até mesmo reconstruir sua imagem. Um bom exemplo disso é Horror em Amityville, longa dotado de muitas qualidades, como uma narrativa coesa, boas interpretações, ambientação aterrorizante e cenas que assustam, mas não chegam a chocar totalmente. Uma pena que pouca gente o tenha assistido, ao menos no cinema. Os fatos que originaram esta história começaram no dia 13 de novembro de 1974 quando a polícia da região de Amityville foi chamada para atender um caso de assassinato coletivo. Em uma casa grande, de estilo antigo e a beira de um lago, o sonho de muitas pessoas, a cena que foi encontrada é digna de pesadelo. Uma família inteira foi assassinada de madrugada enquanto dormia. Poucos dias depois, Ronald Defeo Jr. confessou ter matado com um rifle seus pais e seus quatro irmãos e alegou que foi levado a esses atos por vozes misteriosas que ouvia dentro da residência. Ignorando a história macabra, um ano depois a propriedade é adquirida pelo casal George (Ryan Reynolds) e Kathy Lutz (Melissa George) que vão morar lá com seus dois filhos. Não demora muito e situações estranhas passam a acontecer e o chefe da família começa a demonstrar um comportamento violento. Sua esposa então passa a investigar o passado da casa e tem certeza de que há algo de maligno por lá que precisa ser combatido o mais rápido possível antes que o destino de sua família seja o mesmo dos antigos habitantes.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

TERROR EM AMITYVILLE

NOTA 6,0

Apesar de contar com argumento
impactante terror pouco causa
sustos, preferindo sugestionar o
medo, mas narrativa é bem frágil
Filmes sobre casas assombradas existem aos montes, mas poucos resistem a ação do tempo. Terror em Amityville é um dos poucos títulos do tipo que ainda permeiam a memória de alguns fãs de terror. Nos tempos do VHS conhecido como Amityville – A Cidade do Horror, o longa dos anos 70 ainda exerce certo fascínio devido ao relativo sucesso da refilmagem lançada em 2005, Horror em Amityville, e também pelo fato de ser inspirado em uma impactante tragédia real envolvendo ocultismo. Localizada em Long Island nos EUA, a história desta casa ficou mundialmente famosa na época e foi perpetuada com o passar dos anos. O roteiro é baseado no best seller homônimo de Jay Arson, que contava relatos supostamente reais de experiências assustadoras vividas por uma família que ousou morar na mesma residência onde um ano antes, em 13 de novembro de 1974, Ronald Defeo Jr. matou a sangue frio os pais e os irmãos alegando ter agido guiado por vozes misteriosas. O livro frequentou as listas dos mais vendidos e aterrorizou vários leitores durante muito tempo, assim obviamente chamou a atenção de produtores de cinema que buscavam um candidato para duelar com o sucesso de O Exorcista que continuava imbatível. O roteiro de Sandor Stern capta a essência da obra literária, no entanto, adiciona diversas modificações ou invenções para torná-lo mais aterrorizante. Os créditos iniciais ilustrados pela fachada da casa com duas grandes janelas no alto refletindo luzes vermelhas já enfatizam que o local possui forças demoníacas, algo comprovado logo em seguida mostrando os assassinatos dos Defeo rotulados como um fatídico episódio. Alguns meses depois, embalados pela felicidade da recente união, Kathy (Margot Kidder) e George Lutz (James Brolin) se entusiasmam em comprar a tal residência oferecida por uma pechincha, mesmo sabendo das mortes que ocorreram por lá. Com três enteados pequenos para criar, o marido acredita que outro casarão tão espaçoso como esse e a um preço tão baixo não conseguiriam encontrar e, acima de tudo, construções não tem memória, o que passou entre aquelas paredes em nada iria interferir a rotina feliz dos novos moradores. Ledo engano. A própria corretora mostra-se incomodada com a atmosfera do lugar que parecia já acumular má fama, tanto que o Padre Malone (Rod Steiger) surge para abençoar o recinto. Sem querer atrapalhar um momento de diversão dos Lutz, o religioso, que já era aguardado, entra de mansinho na casa, prepara seu material de benção, mas rapidamente passa a ser afrontado por vozes sinistras que pedem sua saída e é atacado por insetos que o fazem adoecer gravemente.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

A NOIVA CADÁVER

NOTA 9,0

Conto romântico conquista o
espectador com seu visual
simplório, porém, arrebatador,
e trama inteligente e irônica
Filmes sobre almas de outro mundo e cadáveres que saem de suas tumbas para voltar ao mundo dos vivos são coisas para adultos. Bem, para Tim Burton isso não é verdade e tais criaturas apavorantes podem tranquilamente habitar o imaginário infantil. Conhecido pela sua excentricidade e adoração ao gótico, o cineasta imprime seu estilo em uma animação de stop-motion (aquela que anima bonecos quadro a quadro) e chama a atenção não só dos pequenos, que encontram a mistura ideal de humor e suspense que tanto curtem, mas também do público mais velho que se depara com uma história inteligente tingida praticamente de tonalidades escuras e frias. Terror, suspense, comédia, drama, romance, fábula ou fantasia? A Noiva Cadáver é uma mistura perfeita de referências a todos esses gêneros e a opção pelo desenho animado para amarrar tudo isso casa bem com a ideia, ainda mais com a técnica de animação em desuso que dá todo um charme a mais à produção. A narrativa se passa em meados do século 19 e gira em torno do franzino Victor Van Dort, um rapaz atrapalhado e muito inseguro que deseja se casar com Victoria Everglot, uma jovem de famíia tradicional e que é tão tímida quanto o noivo. Na realidade, as famílias de ambos é que fazem mais questão desta união arranjada. As duas estão em decadência e enxergam a solução para seus problemas financeiros neste casamento, pois ambas desconhecem a real situação das finanças uma da outra.  Sem estes pensamentos egoístas, os jovens realmente acabam se apaixonando, mas Victor coloca tudo a perder quando ensaia seus votos de casamento em um local afastado da cidade. Muito azarado, ele acaba fazendo sua declaração próximo onde repousava o corpo de uma jovem que foi assassinada justamente no dia de seu casamento, assim não realizando seu grande sonho. Emily, conhecida como a tal Noiva Cadáver, então encasqueta que o rapaz deve cumprir seu juramento de amor eterno e se unir a ela. Relutante inicialmente, ele acaba conhecendo um mundo divertido junto aos mortos e surge a dúvida se ele deve abdicar de sua vida sem graça e aderir a um descanso eterno e feliz ou voltar e cumprir o desejo da família, o que pode significar sua infelicidade e mais uma decepção para a noivinha pálida e gelada. Aliás, a defunta é uma super criação. Ao mesmo tempo em que é bizarra com seu corpo semi-decomposto, ela também é adorável e passa ares de melancolia e ingenuidade irresistíveis através de seus grandes olhos adornados por uma maquiagem chamativa. É curioso que sempre que está em cena ela é envolta por uma espécie de aura, um efeito de iluminação obtido com trucagens caseiras com a intenção de retratar a personagem como uma espécie de diva. Outra curiosidade sobre Emily é que uma minhoca vive literalmente em sua cabeça, uma espécie de consciência como se fosse o Grilo Falante de Pinóquio, embora bem menos inteligente e astuta.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

TURMA DA MÔNICA EM UMA AVENTURA NO TEMPO

NOTA 7,5

Após várias tentativas, Maurício de
Souza finalmente acerta ao levar seus
personagens para o cinema com enredo
que preserva a essência dos quadrinhos
Se fazer filmes convencionais no Brasil já é difícil, imagine então investir em um desenho animado. Com leis de incentivo e apoio de canais pagos, algumas séries animadas estão fazendo sucesso em canais fechados e já chamam atenção no mercado internacional, contudo, a produção de longas-metragens do tipo ainda é um tabu que o público brasileiro precisa vencer. Nem mesmo personagens conhecidos conseguem virar o jogo. A Turma da Mônica é sem dúvidas um dos maiores acertos do ramo editorial nacional de todos os tempos e já passaram por diversas empresas, tendo sua fase áurea quando habitavam a Editora Globo e alguns gibis chegavam a ser lançados quinzenalmente. Entre os anos 80 e 90, várias animações da turminha foram lançadas, mas apenas A Princesa e o Robô do distante ano de 1983 fez sucesso, embora as outras tenham se aproveitado do surgimento das fitas VHS o que lhes garantiu visibilidade nas locadoras. Já nos tempos do DVD, o criador Maurício de Souza resolveu investir novamente nos desenhos animados, mas desta vez mais comedido. Simplesmente selecionou boas histórias entre seus inúmeros gibis, os roteiristas deram uma esticadinha nelas e os curtas-metragens foram reunidos no Cine Gibi cujo sucesso gerou uma franquia sem limites. A repercussão dos dois primeiros filmes da série ajudou a alavancar o projeto cinematográfico de Turma da Mônica em Uma Aventura no Tempo, mistura de animação tradicional com cenários em 3D, uma forma de tentar brigar por espaço com os gigantes Disney, Pixar, Dreamworks e tantos outros estúdios.  A trama escrita por Didi Oliveira, Emerson Bernardo de Abreu e Flávio Souza começa com Cebolinha apresentando mais um de seus planos infalíveis para Cascão, uma emboscada que deixa Mônica furiosa. Tentando fugir de levarem umas boas coelhadas, a dupla acaba invadindo o laboratório de Franjinha que estava trabalhando em uma máquina do tempo, mas o invento só funcionaria quando conseguisse reunir quatro elementos básicos da natureza: ar, água, fogo e terra. Eles já estavam na engenhoca, só faltava descobrir como reuni-los adequadamente para formar um portal que permitisse as idas e voltas no tempo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

EM PÉ DE GUERRA

NOTA 4,0

Sustentada por piadas previsíveis
e por vezes de gosto duvidoso,
comédia não sai do lugar comum
e  reforça estereótipos
Quem se liga em detalhes das produções de filmes e adora bisbilhotar as fichas técnicas certamente deve desacreditar que o mesmo responsável pelo sensível e inteligente A Garota Ideal também está por trás da esculachada comédia Em Pé de Guerra. Trabalho de estreia do diretor Craig Gillespie, a trama tem como temática central a rivalidade. John Farley (Sean William Scott) é um bem sucedido escritor de livros de auto-ajuda, mas demorou muitos anos para superar seus próprios traumas de infância devido aos abusos e humilhações que sofreu de Jasper Woodcok (Billy Bob Thornton), seu professor de educação física que adorava tirar um sarro de seus desengonçado e rechonchudo aluno. Seus piores pesadelos voltam à tona quando decide voltar à sua cidade-natal para receber um prêmio, uma homenagem de seus conterrâneos pela figura ilustre que se tornou. Todavia, seu momento de glória é estragado ao descobrir que Beverly (Susan Sarandon), sua mãe, está com um namorado novo, ninguém menos que o protagonista de seus pesadelos. Na hora do desespero, o rapaz deixa de lado seus conselhos e filosofias para viver em paz e parte para o ataque tentando provar que seu futuro padrasto é um tremendo mau-caráter, porém, seu rival não vai deixar de comprar essa briga e também vai tocar o terror contra seu adversário. Mais que salvar sua mãe de um cafajeste, Farley tem a necessidade de provar ao antigo professor que é "o cara", bom em tudo que se propõe a fazer. Todavia, o Sr. Woodcok também curte bancar marra e vai testar os limites do escritor, tanto emocionais quanto físicos. Nessa gangorra para medir forças, o correto seria um personagem com o qual nos simpatizamos de um lado e do outro alguém para odiarmos. Eis o grande problema do longa: ambos são insuportáveis em semelhantes proporções, o que dificulta a identificação com o público que não tem mais a fazer que torcer que ao final os dois percam a pose e entendam que ninguém é melhor do que ninguém. Todavia, esperar tal reflexão de uma comédia repleta de piadas de gosto duvidoso é querer demais.

domingo, 16 de setembro de 2018

MÚSICA DO CORAÇÃO

Nota 7,5 Drama com temática batida se sustenta graças ao carisma e talento de Meryl Streep

Wes Craven gravou seu nome na História do cinema com filmes de terror que enraizaram na cultura pop mundial, como A Hora do Pesadelo e Pânico, mas o diretor, roteirista e produtor também tinha seu lado mais sensível como prova o edificante Música do Coração. O longa poderia ser apenas mais um título a explorar a desgastada relação de um educador bem intencionado com um grupo de alunos desestimulados, mas com Meryl Streep no papel principal a fita escapou do limbo e como de costume seu perfeccionismo na composição do papel a levou a concorrer ao Oscar. Na época esta era a sua 12ª indicação ao prêmio e então igualava ao recorde de nomeações alcançada pela saudosa Katherine Hepburn. Baseado em fatos reais, a atriz interpreta Roberta Guaspari, uma mulher que precisava dar novos rumos a sua vida após o baque de ser abandonada pelo marido e com dois filhos para criar e decide fazer uso de seu talento para a música, mais especificamente com o violino. Ela então encontra dificuldades para conseguir uma vaga em alguma escola devido aos cortes de custos com atividades extracurriculares, principalmente as ligadas as artes e cultura, mas acaba sendo aceita em uma instituição pública no subúrbio de Nova York após insistir muito com Janet Williams (Angela Bassett), uma reticente coordenadora do colégio. Munida de cinquenta violinos, um investimento por sua conta e risco, Roberta começa a dar as suas aulas a um grupo de crianças pouco interessadas em arte, mas surpreendendo a todos com sua força de vontade ela alcança seu objetivo e seu programa de música consegue sobreviver por uma década até que um corte de verbas ameaça seu sonho. E o roteiro de Pamela Gray se resume a isso, mas um grande acerto é não ter enveredado pelo caminho lacrimoso e dramático ao extremo. A situação dos alunos de Roberta, e porque não dizer a sua própria vida, já são bastante delicadas, não havia porque forçar a barra para o chororô. Até a trilha sonora dispensa tal viés, deixando espaço apenas aos acordes dos violinos se destacarem em momentos oportunos.

sábado, 15 de setembro de 2018

SHOW BAR

Nota 6,0 Com trama batida, longa se segura com carisma e sensualidade do elenco feminino

Músicas, danças e mulheres bonitas em trajes sumários ou colantes. Essa é a base de sustentação de Show Bar que abusa da paciência e inteligência do espectador para contar a história de Violet (Piper Perabo), a típica jovem do interior repleta de sonhos e força de vontade que vai para a cidade grande tentar a sorte em carreira artística como compositora. Em Nova York, munida de uma fita demo com suas gravações, ela cai na real e vê que as coisas não são nada fáceis na cidade que nunca dorme. Ela deixa suas aspirações profissionais de lado quando recebe a proposta de trabalhar como atendente em um bar chamado Coyote Ugly (homônimo ao título original da fita). Lil (Maria Bello), a inteligente e rígida proprietária, comanda um grupo de lindas e sensuais garotas que não servem apenas bebidas, mas interagem com os clientes dançando e fazendo performances em cima do balcão.  Contudo, o local não é um antro de prostituição e tem como principais regras as meninas nunca levarem seus namorados ou ficantes ao bar, assim como não devem sair com os clientes e saber a hora de dizer já chega para eles. Mostre-se disponível, mas jamais se faça disponível, esse é o lema seguido pela paqueradora Cammie (Izabella Miko), a truculenta Rachel (Bridget Moynahan) e a campeã de arrecadação de gorjetas Zoe (Tyra Banks). As Coyotes, como são carinhosamente chamadas, levam dezenas de rapazes descompromissados todas as noites para assisti-las e passam a chamar a atenção até mesmo da mídia, principalmente com a chegada da novata tímida, mas que logo se adequa ao estilo do grupo e até dá um passo além. Com uma linda voz, mas sempre sem coragem de segurar em um microfone, certa noite ela surpreende a todos quando sobe no balcão e começa a cantarolar a música que estava tocando, tornando-se a nova sensação do bar. Porém, quando já está acostumada a rotina como bartender e dançarina, surge a oportunidade de ela realizar seu real objetivo quando se mudou de cidade com a ajuda de Kevin (Adam Garcia), um jovem que se encanta a primeira vista por ela.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

GRACE DE MÔNACO

NOTA 6,0

Focado na vida da lendária atriz
Grace Kelly a partir do momento em
que se tornou princesa, longa frustra
com texto que não faz jus a sua trajetória
Um conto de fadas baseado em uma história real. Não há melhor definição para a biografia de Grace Kelly, uma das mais populares estrelas de Hollywood da década de 1950, vencedora de um prêmio Oscar, endeusada por seus fãs e que colocou um ponto final em sua carreira em pleno auge. Ela encerrou sua história com o cinema, mas começou a escrever uma outra em meio a realeza. Em 1956 ela veio a se casar com o príncipe Rainier III de Mônaco, um país muito pequeno em termos geográficos, mas de enorme status quando o assunto são luxo e riqueza. De fato então ela viria a receber o título de princesa, alcunha que já carregava anteriormente devido a sua graça e beleza. Isso sem falar na fama que conquistou por ser uma das musas do mestre Alfred Hitchcock, estrelando obras lendárias como Disque M Para Matar e Janela Indiscreta, embora tenha tido seu trabalho reconhecido pela Academia de Cinema por Amar é Sofrer do diretor George Seaton. Seu último filme foi O Cisne lançado apenas cinco anos após o início de sua breve, porém, meteórica carreira. Contudo, ela saiu de cena parcialmente. Entrando para uma família real, eventos sociais eram constantes em sua agenda, assim como o assédio da imprensa que a pressionava a voltar aos sets de filmagem, mas agora como princesa Kelly se via atrelada as convenções da nobreza e devia respeito e obediência ao marido. Dona de uma trajetória literalmente cinematográfica, era evidente que mais cedo ou mais tarde sua história seria enredo de filme, mas Grace de Mônaco não faz jus a grandiosidade e importância dessa mulher. O diretor Olivier Dahan, que já havia dirigido a cinebiografia Piaf - Um Hino ao Amor, opta por acompanhar a vida da ex-atriz a partir do momento que assume sua posição como esposa do herdeiro de um trono. Se no filme a respeito de Edith Piaf, um mito da música francesa, o diretor arrancou uma interpretação arrebatadora de Marion Cottilard, merecidamente agraciada com o Oscar, aqui ele conta com a beleza de Nicole Kidman interpretando a princesa de Mônaco, mas não com seu talento. Embora Kelly fosse conhecida por certa frieza em seu comportamento, a atriz exagera quanto a essa característica e está apenas eficiente no papel.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

A VOLTA DOS BRAVOS

NOTA 7,0

Através de quatro personagens
fictícios, longa tenta expor os danos
emocionais e psicológicos causados
aos soldados da guerra ao terror
Como era de se esperar, muitos filmes foram realizados abordando os atentados de 11 de setembro de 2001 e o medo e o preconceito que passou a assombrar o cotidiano dos americanos. Paralelo a isso, um outro momento histórico, político e social estava sendo desenvolvido: os plano de ofensiva dos EUA ao Iraque. Obviamente, produtores de Hollywood estavam atentos e não deixaram os fatos esfriarem antes de os usarem como matéria-prima para novos filmes, mesmo sem saberem qual seria o final deste conflito. Muitas produções surgiram abordando principalmente o drama dos soldados americanos que participaram das várias invasões, alguns inclusive sem ao menos saberem o porquê de realmente se alistarem ao exército ou terem sido convocados, mas é uma pena que boa parte destes títulos ficou restrito ao mercado doméstico, assim bons produtos acabaram passando em brancas nuvens pelos olhos do público. Esse é o caso do drama A Volta dos Bravos que apesar do título não faz exaltação à carreira militar, tampouco a denigre, apenas mostra a dura realidade daqueles que são obrigados a assistirem diariamente atrocidades, conviverem com o medo de talvez não voltarem para casa ou ainda sofrerem com a readaptação às suas vidas normais caso tenham sorte de sobreviverem às inúmeras situações de perigo a que são expostos. Com direção de Irwin Winkler, especialista na condução de obras de cunho dramático, a trama co-escrita por Mark Friedman mostra as consquências deste conflito contra o terrorismo para um grupo de soldados americanos e consequentemente para seus familiares e amigos. Will Marsh (Samuel L. Jackson), Vanessa Price (Jessica Biel), Tommy Yates (Brian Presley) e Jamal Aiken (Curtis Jackson) foram informados que no prazo de duas semanas poderiam finalmente deixar o Iraque após meses de dedicação e abdicação de suas vidas pessoais. Logo eles começam a fazer planos para o regresso, mas a alegria não demora muito a cessar. Durante uma ronda por uma cidade devastada pela guerra, o grupo é interceptado por tropas inimigas que os atacam fervorosamente e neste episódio todos sofrem com ferimentos, não só físicos como também emocionais, males de gravidade que talvez até então não os tivessem atingido. É interessante observar que a fotografia utilizada reforça o contraste da situação que será deflagrada. O Iraque é retratado com cores quentes enquanto as ações em solo americano são captadas em tons frios e acinzentados como se fosse uma analogia visual ao fato de que em combate eles se sentiam como heróis e a volta para casa vivos, porém, combalidos de certa forma, representaria uma espécie de fracasso.

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