sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

CAMINHOS DA FLORESTA

NOTA 8,0

Junção de contos de fadas tem
seus furos e equívocos narrativos, mas
carisma e talento do elenco e recursos
técnicos apurados garantem a qualidade
Espetáculos de sucesso da Broadway mais cedo ou mais tarde terão sua versão cinematográfica, isso é fato. Desde os tempos áureos dos musicais no estilo My Fair Lady, passando pelo premiado Cabaret e culminando em fracassos como Rent – Os Boêmios, projetos que migram dos palcos para as telonas sem dúvida são apostas arriscadas. Teatro e cinema, embora compartilhem características, no fundo são artes distintas, cada qual com seus encantos e recursos para fisgar a atenção de quem assiste. O que pode dar certo ao vivo pode não funcionar na versão filmada e vice-versa. Contando com o aval popular e da crítica graças ao sucesso nos palcos de muitos países, além do chamariz de narrar uma história de fácil assimilação interligando personagens e contos clássicos do universo infantil, Caminhos da Floresta parecia uma aposta segura, mas sua realização complicada se reflete claramente no resultado final. “Into The Woods” foi lançado nos teatros americanos em 1986 com a proposta inovadora de misturar várias histórias dos lendários irmãos Grimm. A adaptação cinematográfica quase três décadas mais tarde já esbarraria na questão criatividade. A saga de Shrek levou ao ápice a fórmula de reinventar e mesclar os contos de fadas e outras produções seguiram a tendência como a própria Disney que em Encantada deitou e rolou tripudiando (ainda que com classe e respeito) em cima dos próprios estereótipos que fizeram a fama do estúdio. A casa do Mickey Mouse mais uma vez banca uma brincadeira com seu portfólio neste musical que não abandona as lições de moral, mas em muitos momentos transpira originalidade e vai muito além do felizes para sempre com uma guinada tensional da trama quando achamos que estamos no clímax. Não é a toa que muitos dizem que o filme poderia ter sido dirigido por Tim Burton devido ao casamento do lúdico com o sombrio. No entanto, a produção é responsabilidade de Rob Marshall, amante dos musicais, tendo acumulado prêmios com o divertido Chicago, incluindo seis Oscars, e sofrido com as críticas ao inconsistente Nine onde os números musicais deveriam alinhavar uma trama que apesar do argumento metalinguístico, um cineasta com bloqueio criativo que busca inspiração nas mulheres que de alguma forma marcaram sua vida, revelou-se um videoclipe megalomaníaco. Nesta nova incursão no gênero, o diretor procurou se ater mais ao script original e a cantoria é parte imprescindível da narrativa substituindo vários diálogos, um tipo de armadilha que o longa supera graças ao carisma do elenco.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

BONECO DO MAL

NOTA 5,0

Inicialmente intrigante, bom
argumento aos poucos é minado por
trama repleta de clichês, situações
inverossímeis e final desconectado
Realizar um filme de terror original é uma obsessão de muitos cineastas e ao mesmo tempo uma tarefa ingrata. É provável que todos os tipos de fobias já tenham sido explorados e nos últimos anos um dos poucos cineastas a dar certa vivacidade ao gênero foi o mexicano Guillermo del Toro com suas produções esmeradas no apuro técnico e visual e seu estilo já vem fazendo escola. Boneco do Mal não é sequer produzido pelo premiado criador de O Labirinto do Fauno, mas muitas características presentes em sua filmografia compõem o universo deste trabalho calcado na mistura do lúdico com o tensional. A história tem como protagonista Greta (Lauren Cohan), uma jovem americana que está de mudanças para um antigo casarão na Inglaterra para cuidar do filho do casal Heelshire (Jim Norton e Diana Hardcastle) que viajarão em breve deixando pela primeira vez o herdeiro aos cuidados de um estranho. Na verdade, muitas moças já foram recrutadas para ocupar o cargo em outras ocasiões, mas todas foram reprovadas pelo exigente Brahms. No entanto, ele não é um garoto de verdade e sim um boneco de cerâmica no tamanho real de uma criança de oito anos que é criado como se fosse alguém de carne e osso pelos pais idosos que nunca aceitaram a morte do filho verdadeiro em um incêndio há duas décadas. A babá obviamente não leva a sério quando lhe apresentam o menino, mas muda de ideia por conta da seriedade com a qual seus patrões lidam com a situação. Quando descobre sobre a tragédia que abalou a família ela se compadece, porém, existe um motivo bem mais forte para ela aceitar uma ridícula rotina que inclui aulas de música, fazer refeições balanceadas e até dar beijinho de boa noite em um brinquedo. A moça opta pelo trabalho levando em consideração não só o polpudo pagamento, mas também o refúgio oferecido, mantendo-a bem longe de Cole (Ben Robson), seu ex-namorado que a persegue. A mansão dos Heelshire pode ter parado no tempo, mas o mundo fora dele não e é óbvio que será fácil para Greta ser localizada, tempo suficiente para ela estabelecer uma estranha relação com Brahms. É um tanto forçada a ideia de que alguém aceitaria viver em um cinzento e depressivo mausoléu, ainda mais incumbida de ingratas tarefas, mas de alguma forma Laura faz o espectador criar rápida intimidade com o bizarro universo que adentra, ainda que ela siga à risca o perfil das protagonistas de filme de terror.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

COMO VOCÊ SABE

NOTA 3,0

Aposta em comédia romântica
amparada por questões mais complexas
sobre relacionamentos frustra com sua
falta de graça e elenco mal aproveitado
James L. Brooks é um diretor, produtor e roteirista que não tem um currículo muito extenso, porém, conta com produções de prestígio. Acumulando as três funções ele foi o grande vencedor do Oscar de 1984 com o dramalhão assumido Laços de Ternura, quatro anos depois figurou com Nos Bastidores da Notícia na lista de melhores do ano abordando um triângulo amoroso em meio ao dinâmico e estressante universo do jornalismo televisivo e ainda uma década mais tarde alcançou a maturidade do seu trabalho com Melhor Impossível, fita que deu a terceira e famigerada estatueta dourada para Jack Nicholson vivendo um maníaco-compulsivo, papel de repercussão que há anos o ator não tinha o privilégio de interpretar. No entanto, entre uma produção bombada e outra, Brooks parece querer descansar diminuindo consideravelmente seu ritmo de trabalho e cada vez mais dá indícios que carece de inspiração. A comédia romântica Como Você Sabe prova isso. A trama gira em torno de Lisa Jorgenson (Reese Whiherspoon), uma jovem que desde a infância desejou se tornar uma grande jogadora de beisebol, mas os anos passaram e mesmo com todos os seus esforços não conseguiu ser chamada para as principais competições. Aos 31 anos de idade, no momento ela já é considerada velha para o esporte e sua carreira já pode ser dada como encerrada, assim ela busca consolo no amor para preencher o vazio que sua vida se tornou e acaba se envolvendo com dois rapazes completamente diferentes. Matty Reynolds (Owen Wilson) também é esportista, milionário, narcisista e metido a conquistador. Já George Madison (Paul Rudd) é um executivo que leva uma vida mais leve, é sonhador e tem como principais qualidades a humildade e a educação. Já dá para saber com quem a mocinha vai ficar, não é? Entregando o jogo logo de cara, o roteiro então se alonga além do necessário para narrar as dúvidas e confusões de uma mocinha pouco cativante e com pretendentes que não chegam a duelar fisicamente, mas suas atitudes os colocam em guerra para saber qual o mais insosso. Escrito pelo próprio Brooks, há quem defenda o texto por fugir do esquematismo das comédias românticas tradicionais onde os diálogos soam piegas e decorados, mas o realismo pretendido em diversos momentos torna a fita distante do espectador, como se os assuntos discutidos fossem pertinentes unicamente ao universo dos personagens.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

PARA SEMPRE CINDERELLA

NOTA 9,0

Texto clássico ganha roupagem
moderna sem deixar de ser épico,
apresentando uma mocinha determinada,
corajosa e ainda assim doce e romântica
Os contos de fadas sempre foram fontes de inspiração inesgotáveis para as mais deferentes formas de fazer arte e o cinema explora ao máximo suas possibilidades. Do romance, passando pelo drama e a comédia, chegando até a flertar com o suspense e o terror e, obviamente, servindo de inspiração para animações, as clássicas histórias infantis já sofreram diversas modificações ao longo dos anos e hoje é até difícil reconhecer quais são as versões originais. Costumamos considerar como oficiais as antigas adaptações da Disney e essa ideia é perpetuada de geração para geração, mas na realidade tais produções talvez sejam as variantes mais floreadas e distantes do primeiro tratamento dado aos contos de Branca de Neve, Pinóquio e companhia bela. Ao longo dos anos, empresas menores também entraram no ramo da animação e lançaram suas adaptações, modificando ainda mais as histórias e nem sempre com resultados satisfatórios. No caso de Cinderela, o crédito é dado ao romancista Charles Perrault que publicou o conto pela primeira vez em 1697. Anos mais tarde, ele foi alterado sutilmente pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm e é justamente com a participação deles que o enredo de Para Sempre Cinderella começa a tomar forma. Da década de 2000 em diante tornou-se comum os live actions, continuações e spin offs dando sobrevida a textos clássicos, mas este filme não faz parte deste movimento, foi lançado alguns anos antes O diretor Andy Tennant antecipou esse modismo oferecendo uma versão mais realista do conto da gata borralheira e desde o lançamento já se apresentava como um clássico romântico no melhor estilo sessão da tarde e assim o passar dos anos veio a confirmar. A essência da trama é basicamente a mesma do conto que costumamos ouvir quando crianças, mas aqui temos o uso da metalinguagem para criar uma introdução original. Os irmãos Grimm são convocados pela própria rainha da França (interpretada pela lendária Jeanne Moreau) para irem ao palácio receberem seus elogios pessoalmente por conta de seus auspiciosos trabalhos, contudo, ela contesta que eles não foram realistas na forma como desenvolveram a história da simplória jovem que passou sua infância e juventude sendo maltratada dentro de casa, mas conseguiu dar a volta por cima e ser acolhida pela realeza.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O IMPOSSÍVEL

NOTA 9,0

Apesar de forçar a emoção de todas
as maneiras possíveis, através do drama
de uma família filme coloca o espectador
como personagem onipresente de uma tragédia
O título já diz tudo. Embora baseado em fatos reais, O Impossível narra uma história improvável, mas com uma essência dramática que fisga o espectador logo em seus primeiros minutos não apenas apostando no emocional, mas também reativando lembranças ou despertando curiosidades a respeito do dia 26 de dezembro de 2004. A Tailândia era agraciada com mais um belo dia ensolarado, mas poucas horas depois de encerradas as comemorações natalinas o clima de paz e harmonia fora literalmente devastado por uma tragédia da natureza. Um tsunami agitou o oceano e provocou ondas gigantescas que varreram do mapa de modestos casebres à suntuosas mansões e hotéis. Milhares de moradores e turistas vieram a falecer ou tiveram graves ferimentos, um prato cheio para qualquer cineasta trabalhar um roteiro no esquema do filme-mosaico, estilo em que diversas tramas são contadas simultaneamente podendo convergir ao final ou não. No entanto, o diretor catalão Juan Antonio Bayona, do elogiado O Orfanato, optou em sua estreia no cinemão de Hollywood por narrar o sofrimento de um grupo específico. Inspirado no drama vivido por uma família espanhola, para tornar o argumento mais universal e obviamente melhorar os lucros, os protagonistas foram substituídos por britânicos, todos com pele, olhos e cabelos claros, assim mesmo sujos e feridos suas figuras não causam tanta repulsa. Quando se juntam as centenas de sobreviventes inevitavelmente acabam se destacando na multidão, mas não vamos entrar na discussão de possíveis preconceitos, afinal o elenco é talentoso e consegue despertar a almejada piedade com a força de suas interpretações. O casal Maria (Naomi Watts) e Henry (Ewan McGregor) planejavam férias tranquilas e divertidas junto aos três filhos, Lucas (Tom Holland), o mais velho, Thomas (Samuel Joslin) e do caçula Simon (Oaklee Pendergast), em um luxuoso resort à beira-mar, porém, mal tiveram tempo de desfrutar do local. Ondas de até trinta metros de altura atingiram tudo o que estava em seus caminhos e só conseguiram se salvar aqueles que por ventura estavam mergulhando naquele exato momento ou que foram agraciados por alguma força divina de proteção.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A BELA E A FERA (1991)

NOTA 10,0

Clássico Disney sobrevive a
ação do tempo e mantém o
frescor, a emoção e a
magia da obra intactos
A Disney sempre foi uma fértil fábrica de desenhos animados, sejam eles produções para a TV, curtas ou longas metragens. Todas as animações do estúdio foram feitas com muito capricho, mas após a morte de seu fundador na década de 1960 a empresa entrou em declínio. Hoje as produções desse tempo são lembradas com orgulho, mas na época de seus lançamentos não trouxeram bons frutos, embora o período tenha sido marcado por produções com roteiros originais ou baseados em contos pouco conhecidos. O prestígio voltou a bater na porta do estúdio em 1989 com A Pequena Sereia e embalados pelo sucesso os criadores e animadores da casa adaptaram e modernizaram outro conto clássico para as telas em seu projeto seguinte. A Bela e a Fera só por sua história e visual já merecia lugar de destaque na história do cinema, mas a obra foi além e honrou o privilégio de ocupar a vaga de 30º longa de animação da Disney. Baseado no conto homônimo escrito por Jeanne-Marie Le Prince de Beaumont, a obra alia perfeitamente romance, drama, suspense, aventura e certa dose de ousadia, além de terem sido utilizadas técnicas de computação gráfica (hoje simplórias) aliadas ao desenho tradicional para criar cada fotograma desta história que não só conquista a atenção de crianças como de adultos também. Não é a toa que se tornou a primeira animação a ultrapassar a barreira dos cem milhões de dólares nas bilheterias mundiais e foi a única a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme até 2010, quando a Academia de Cinema ampliou o número de concorrentes permitindo que um desenho animado bem sucedido ocupasse uma vaga independente de também estar entre os concorrentes em sua categoria específica. Além disso, também foi o primeiro longa animado a receber o Globo de Ouro de Melhor Filme Musical ou Comédia e a ganhar o Annie Award.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

OUTONO EM NOVA YORK

NOTA 6,0
Fotografia, locações e
figurinos salvam produção
cujo roteiro entrega todas
as emoções logo no início
Richard Gere já estrelou produções de diversos gêneros, mas é praticamente um sinônimo de filmes românticos, tal qual Julia Roberts também tem uma imagem significativa ligada ao gênero. Ambos explodiram juntos na comédia romântica Uma Linda Mulher e quase uma década depois voltaram a se unir, sem fazer tanto barulho, em Noiva em Fuga. Além destas duas produções, o ator participou de diversos outros filmes feitos especialmente para agradar o público feminino, como Dança Comigo?, mas nem sempre conseguiu êxito investindo em terreno seguro, como prova o esquecido Dr. T e as Mulheres. O caso de Outono em Nova York fica em cima do muro. É um daqueles títulos que tem suas qualidades, como uma belíssima fotografia e locações, conta com um enredo agradável, porém, faltam um ou mais ingredientes para transformá-lo em algo acima do regular. Apostando em um romance com pitadas de drama, este segundo trabalho da atriz Joan Chen como diretora chega a um resultado tão frio quanto a própria passagem que serve de pano de fundo para uma história bonitinha e sem grandes pretensões que mostra o nascimento de uma relação amorosa entre um homem mais velho e uma jovem. Will Keane (Gere) é um cinquentão que prometeu a si mesmo nunca mais ter um compromisso sério com uma mulher, assim ele paquera a vontade e cultiva sua fama de conquistador. Quando ele conhece a delicada Charlotte Fielding (Winona Ryder) logo se interessa em viver um romance com a moça, mas talvez não imaginasse que ia acabar se envolvendo tanto com ela. Disposto a esquecer de sua promessa, Keane se surpreende com a recusa da parceira em tornar o caso deles em algo para valer e que dure para sempre. Bem, não é preciso muitos minutos de projeção para descobrir qual o motivo do impedimento e para começar a choradeira. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

2012

NOTA 6,0

A Terra é destruída em
mais um filme sobre
catástrofes naturais, neste
caso com base em crendice
21 de dezembro de 2012. Esta foi uma data que nos últimos tempos assombrou muita gente. Bem, se você estiver lendo esta crítica após o dia 22, pode estourar o champanhe e comemorar: você sobreviveu à profecia apocalíptica maia. Séculos atrás este lendário povo deixou escrito o calendário de milhares de anos à frente, mas os escritos acabam justamente na data mencionada. Desde então astrólogos, religiosos, sensitivos, cientistas, geólogos, autoridades e pessoas de muitas outras áreas passaram a estudar o que isso poderia significar e muitos concluíram que esse seria o dia da extinção da humanidade através de eventos que alterariam drasticamente clima, relevo, direção dos ventos, força das águas entre outras coisas relacionadas à fúria da natureza. Baseando-se nesta impactante crença, muitos produtores trataram de explorar o tema, mas a grande produção batizada óbvia e simplesmente de 2012 foi criada pelo diretor Roland Emmerich. Ninguém melhor que ele que já convocou extraterrestres para acabar com os EUA (Independence Day), trouxe um mega lagarto de terras orientais para arrasar territórios ocidentais (Godzilla) e que mostrou a revolta da natureza contra os maus-tratos que recebe dos humanos (O Dia Depois de Amanhã) para se encarregar de dar o ultimato à população da terra. A trama roteirizada por Harald Kloser em parceria com Emmerich começa em 2009 quando o cientista indiano Satnam Tsurutani (Jimi Mistry) descobre que em poucos anos algumas alterações nas explosões solares esquentariam o núcleo do planeta, assim provocando diversas catástrofes naturais. O governo dos EUA fica sabendo disso através do geólogo Adrian Helmsley (Chiwetel Ejiofor) e logo passa a estudar medidas para evitar o pior. Porém, o profissional erra nas contas e as catástrofes anunciadas começarão antes do previsto. Já em 2012, o divorciado e fracassado escritor Jackson Curtis (John Cusack) está em meio a uma viagem com os filhos para tentar reconquistar o afeto deles. Quando vai acampar, ele recorda de momentos que viveu com Kate (Amanda Peet), mas divide seu tempo ouvindo as teorias paranoicas de Charlie Frost (Woody Harrelson), um sujeito que acredita piamente nas lendas sobre o fim do mundo. Curtis não dá bola para tais ideias, porém, não demora a mudar sua opinião.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A MENINA E O PORQUINHO

NOTA 7,0

Adaptação de clássico literário
infantil pode soar inocente demais
para os novos tempos, mas sua
essência ainda é encantadora
Já faz algum tempo que os adultos estão invadindo a praia das crianças e curtindo desenho animado. Aliás, essas produções às vezes agradam mais aos pais que os próprios filhos ou propositalmente os estúdios já realizam as animações visando essa ampliação espontânea de público. Porém, quando a magia do universo infantil deixa o colorido dos desenhos de lado e é transportada para os filmes com atores de carne e osso o resultado não é o mesmo. Os adultos tendem a não se entreter com piadas batidas, enredo melancólico próprio para dar lições de moral aos pequenos e atuações consideradas fracas, a receita que frequentemente é utilizada neste tipo de produção. Pior ainda quando há bichinhos falantes na trama e os realizadores se concentram tanto em tornar críveis tais criaturinhas que acabam conseguindo um resultado frustrante, pois se esquecem de encontrar um equilíbrio com os demais elementos da produção. Contudo, algumas vezes esses filminhos água-com-açúcar podem ser perfeitamente assistidos e com prazer pelos mais crescidinhos graças ao trunfo da nostalgia que carregam em sua essência. É nesse ponto que A Menina e o Porquinho, protagonizado por Dakota Fanning, consegue um reforço. Esta é mais uma adaptação do clássico livro infantil "A Teia de Charlotte", de E. B. White, que já ganhou uma famosa versão em desenho animado em 1973 que foi repetida a exaustão na TV pelas duas décadas seguintes em todo o mundo. A garotinha que outrora era uma grande promessa de Hollywood interpreta Fern, uma das poucas pessoas a perceber que Wilbur não é um simples porquinho da fazenda onde vive, mas sim um animal muito especial. Com seu carinho e atenção, a garota ajuda o bichinho, que era o menor membro de sua família, a se tornar um porco vistoso e radiante. Quando se muda para um novo celeiro, Wilbur faz amizade com a aranha Charlotte e os laços de amizade entre eles influenciam para que os demais animais da fazenda vivam como se fizessem parte de uma grande e feliz família. Porém, o tempo passa e Wilbur cresce e está a caminho do triste fim de qualquer porquinho criado com tudo de bom e do melhor: virar assado. Quando surge a notícia de que em breve ele será abatido, a esperta e sensível aranha arma um plano para retardar a morte de seu amigo suíno.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SPLASH - UMA SEREIA EM MINHA VIDA

NOTA 8,5

Mesmo envelhecida, comédia
romântica com toques de fantasia
conquista com sua inocência,
humor leve e simpatia dos atores
Qualquer adulto tem guardada a memória de alguns filmes que marcaram sua infância ou adolescência e o pessoal que está na casa dos 20, 30 e poucos anos tem o bônus de ter vivido o período áureo das videolocadoras e da combalida “Sessão da Tarde” da Rede Globo, isso sem falar no finado “Cinema em Casa” do SBT. Para o pessoal vidrado hoje em dia nas facilidades de canais pagos e serviços de download pode parecer loucura que teve uma época em que a centésima reexibição de um filme na TV aberta ou a locação repetida de uma fita tornavam-se um evento e tanto. Pode parecer mais doido ainda que os títulos mais famosos da época transbordem uma ingenuidade que não é compatível com os dias atuais, mas ainda bem que continuam existindo nostálgicos para manterem vivo esse espírito e pessoas das novas gerações com vontade de descobrir qual o segredo do sucesso de tais produções como a famosa comédia romântica com toques de fantasia Splash – Uma Sereia em Minha Vida, produção que se tornou tão popular que o nome da protagonista, Madison, tornou-se um dos mais escolhidos pelos pais norte-americanos para batizar as garotas que nasceram na segunda metade da década de 1980. Com direção de Ron Howard, que anos mais tarde viria a conquistar o Oscar com o sério Uma Mente Brilhante, o início pode não soar muito interessante, principalmente porque já existe uma natural repulsa ao áudio e imagem que por mais que passem por remasterizações ainda guardarão resquícios que revelam sua idade, o que para muitos felizmente não são empecilhos, pelo contrário, tornam o programa ainda mais especial, um respiro à perfeição contemporânea que por vezes escamoteia a total falta de conteúdo. Desabafos quanto a mediocridade de nossos tempos à parte, quem quiser mergulhar nesta opção já deve estar ciente de sua previsibilidade e reunião de clichês. O filme começa com cenas em tom sépia mostrando um garoto que durante uma viagem de navio com a família acaba caindo no mar e é salvo por uma sereia adolescente, mas provavelmente ninguém acreditou no que seus olhos viram. Allan Bauer (Tom Hanks), 25 anos depois, é um responsável homem de negócios que trabalha com o irmão Freddie (John Candy), mas está estressado com o trabalho, o abandono repentino da namorada e então decide tirar um dia de folga e ir para o litoral. Mesmo com o acidente na infância, este era o único lugar que julgava lhe tranquilizar.

domingo, 18 de dezembro de 2016

LINHAS CRUZADAS

Nota 4,0 Velho argumento da reunião familiar em momento difícil neste caso não dá linha

Uma atriz balzaquiana sinônimo de comédias leves. Uma veterana premiada e com boa aceitação junto ao público feminino aqui também atacando como diretora. Uma jovem em ascensão em um seriado de TV e buscando seu espaço no cinema. No comando do texto uma roteirista experiente com temáticas que aliam comédia, drama e romance. De quebra, um conflito familiar de fácil identificação e uma pequena dose de clima natalino no ar. Linhas Cruzadas tinha os ingredientes básicos para cair nas graças da mulherada, no entanto, a receita desandou. Aqui o humor existe, mas é diluído em diversas sequências lacrimejantes. Frustrações, alegrias e sonhos desperdiçados são colocados em pauta quando três irmãs forçosamente se reencontram por conta da iminente morte do pai. Baseado no livro "Hanging Up" escrito por Delia Ephron narrando suas próprias memórias familiares, a trama tem como protagonista Eve (Meg Ryan), uma mulher que desdobra-se para dar conta do seu trabalho e de cuidar da casa, do marido e do filho pequeno, no entanto, nos últimos anos tem praticamente abdicado de seus afazeres para cuidar pai idoso. Lou Mozell (Walther Matthau) está com a saúde bastante debilitada e com problemas de memória e precisou ser internado em uma clínica, assim sempre que o telefone toca sua filha já aguarda por más notícias, mas quando não é seu próprio pai ligando para dizer impropérios são suas irmãs que estão na linha. Na verdade quase sempre é Eve quem tenta manter contato com elas que fazem de tudo para se esquivarem de qualquer tipo de compromisso com o idoso. A caçula Maddy (Lisa Kudrow) é uma atriz frustrada e que também não tem sorte na vida amorosa enquanto Georgia (Diane Keaton), a mais velha, é uma solteirona, porém, bem sucedida editora de revistas que só pensa no trabalho. Embora não morem juntas, ambas são de certa forma dependentes de Eve que aproveitando a situação delicada do pai vai tentar reatar os laços familiares e desfazer mal entendidos do passado.

sábado, 17 de dezembro de 2016

O BARBEIRO

Nota 1,0 Apesar do bom argumento, longa é uma tremenda enrolação para explicar o óbvio

Em um filme cujo enfoque é a investigação de assassinatos o mínimo que se espera é uma trama bem amarrada que nos instigue a brincar de detetive, mesmo que no final das contas a identidade do criminoso seja a mais óbvia. De qualquer maneira, se o tempo dedicado a essa brincadeira for de qualidade isso compensa um pouco a frustração da conclusão. E qual seria o atrativo de uma produção do tipo cujo vilão já sabemos de antemão sem precisar assistir uma única cena? A fita O Barbeiro só pelo título já entrega o ouro, mas poderia ao menos reservar uma trama que tentasse jogar a culpa em cima de outros suspeitos ou quem sabe fazer aquele jogo em que a plateia sabe de tudo, mas os demais personagens não, assim criando aquela angústia de nos sentirmos impotentes diante de uma situação tão óbvia enquanto o verdadeiro assassino se diverte. O diretor Micheal Bafaro é preguiçoso e desde a primeira aparição do personagem Dexter Miles (Malcolm McDowell) deixa claro que ele não é flor que se cheire. Muitas de suas aparições ilustram narrações em off, na verdade seus pensamentos maquiavélicos, críticos e sarcásticos. O efeito inicialmente parece mesmo corresponder as expectativas de que o público está sendo convidado a ser cúmplice de suas ações, mas a partir do momento que frases comprometedoras começam a sair de sua boca em alto e bom som para quem quiser ouvir o interesse na fita cai totalmente. O criminoso está praticamente se entregando e quem ouve faz cara de paisagem. A trama escrita pelo próprio diretor em parceria com Warren Low se passa em Revelstoke, uma pequena e pacata cidade no Alasca que é tão insignificante que nem aparece na maioria dos mapas dos EUA. Sofrendo com invernos rigorosos e com dias em completa escuridão tal qual a noite, as pessoas que visitam o local chegam a compará-lo a uma prisão perpétua, mas os pouquíssimos moradores já se acostumaram com a ambientação tranquila, porém, a morosidade é quebrada quando é achado o corpo de Lucy Waters. Assim que a notícia chega ao único salão de barbearia da cidade o mistério para o espectador já acaba. Em pensamento, Dexter entrega que jamais esperava que achassem os restos da mulher tão rapidamente. Depois de tal revelação o que esperar?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O INFERNO DE DANTE

NOTA 7,0

Apesar de algumas falhas e
situações inverossímeis, longa
cumpre o que promete, divertindo e
fazendo o espectador roer as unhas
Os filmes-catástrofes tornaram-se populares nos anos 70 com produções que narravam histórias acerca de naufrágios e desastres de aviões, por exemplo, mas bem antes disso a segurança da humanidade já era colocada em xeque com invasões alienígenas. Conforme a indústria dos efeitos especiais avançava, tal subgênero também ia se aperfeiçoando e então foi possível investir em tramas que mostravam a fúria da natureza contra o desrespeito e a ganância do homem, algo bem-vindo para ajudar discussões a respeito de preservação de recursos naturais e afins. O problema é que tudo que é demais enjoa e logo a fórmula se esgotou, assim muitas produções literalmente fizeram jus ao seu rótulo e tornaram-se retumbantes catástrofes de críticas e bilheterias. Escapando dessa maré de azar, mas não chegando a ser um super sucesso, podemos citar O Inferno de Dante, suspense com toques de ação que ajudou a consolidar o ator Pierce Brosnan como astro e chamariz de audiência. Após vários tipos coadjuvantes, ele assumiu dois anos antes o lendário papel de James Bond e já se preparava para estrelar a sua segunda aventura como o Agente 007 e nesse intervalo protagonizou este filme onde deu vida a Harry Dalton, um perito em fenômenos vulcânicos que junto com seu chefe, Paul Dreyfus (Charles Hallahan), e sua equipe de pesquisadores vão para a pequena cidade de Dante’s Peak verificar os arredores de um vulcão que parece estar dando sinais de atividade. Quando chegam, o local está festejando a boa fase. Após a cidade ter sido destruída por fenômenos da natureza, ela conseguiu ser reconstruída e agora ostenta posição de destaque nas pesquisas oficiais de qualidade de vida, tudo isso graças aos esforços de Rachel Wando (Linda Hamilton), a prefeita que está recebendo uma equipe de empresários interessados em instalar uma indústria na região, o que geraria muitos empregos e consequentemente outros benefícios como publicidade para o turismo. A cidade fica aos pés do vulcão que está inativo há quase uma década, mas mesmo assim Rachel atende atenciosamente a equipe de geólogos que passam alguns dias por lá para certificarem-se da segurança da região.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

IRONIAS DO AMOR

NOTA 6,5

Apesar do início estranho,
romance encontra seu caminho,
embora previsível e deixando
piadas de lado para apostar no drama
É comum que as pessoas consolem alguém que está sofrendo por amor ou por nunca o ter experimentado de verdade dizendo que quando menos se espera uma grande paixão pode surgir em seu caminho. Quem se apega a tal pensamento pode achar ridículo, mas inevitavelmente passa a idealizar o momento desse encontro com toda pompa de filme hollywoodiano, sendo capaz até de se imaginar vivenciando situações e diálogos um tanto clichês. Alimentadas por essas fantasias, milhares de pessoas vão tocando suas vidinhas até que o grande dia chega. O amor da sua vida finalmente está próximo, mas você nem percebe devido as circunstâncias que não lembram em nada seus sonhos. É dessa forma que começa o amor do casal protagonista de Ironias do Amor, baseado no romance de Ho-sik Kim que investe no humor sutil para conquistar o espectador, mas na reta final apela para o melodrama. O filme começa nos apresentando a Charlie Bellow (Jesse Bradford), um jovem que está sozinho em meio a uma paisagem outonal dizendo que para entender como ele chegou até lá é preciso conhecer sua história desde o início. Ele cresceu em uma pacata cidade e seus pais fizeram de tudo para lhe dar uma boa educação a fim dele ingressar em uma universidade de renome para estudar administração e quem sabe seguir os mesmos passos profissionais do pai. Educado em ambiente tradicionalista e com seu futuro parcialmente traçado, não havia muito com o que Charlie se preocupar, mas e quanto a sua vida pessoal? Ele deixa os pais no interior de Indiana e vai morar sozinho em Nova York sonhando com uma colocação melhor no mercado, mas ao contrário da maioria dos solteiros não é um cara namorador e tampouco adepto do sexo casual, o que soa estranho para muitos como seu amigo Leo (Austin Basis) que tenta incentivar o rapaz a se divertir e ser mais descolado. Certa vez questionado sobre qual tipo de garota o faria perder a cabeça sem pensar duas vezes, coincidentemente Charlie bate os olhos aleatoriamente em Jordan Roark (Elisha Cuthbert), uma loirinha que parece cheia de atitude e personalidade. Já diz o ditado popular que os opostos se atraem, assim ela seria a garota perfeita para um jovem mais pacato e pé no chão.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

UMA FAMÍLIA EM APUROS

NOTA 6,0

Ícones das comédias no passado

protagonistas tentam achar 
espaço em meio ao mundo moderno
na ficção e na realidade
Conflitos entre gerações são boas matérias-primas para filmes e quando usadas no campo de humor costumam gerar ótimas produções familiares. Bem, a visão otimista fica por conta do público-alvo que gosta justamente de rever piadas e situações, mas é sempre bom lembrar que o que é previsível para os mais velhos pode ser uma grande novidade para as crianças que ainda estão em contato com suas primeiras experiências cinematográficas e se familiarizando com os clichês. Uns quatro ou cinco filmes de temática semelhante e provavelmente eles já conseguirão narrar um longa baseando-se em uma breve sinopse sem necessariamente precisar assistir. Contudo, se produções do tipo ainda são realizadas é porque existe público e, diga-se de passagem, um filme-pipoca bobinho e sem um pingo de apelação às vezes faz uma falta danada. Para assistir com os pais ou os avós, e ninguém chegar ao fim constrangido, uma boa opção é Uma Família em Apuros, fortíssimo candidato a futuro clássico da “Sessão da Tarde”. A trama escrita por Lisa Addario e Joe Syracuse reúne dois grandes astros do humor de um passado não muito distante, mas parece que Billy Crystal e Bette Midler estão tendo dificuldades para encontrar espaço no cinema contemporâneo e é justamente essa adaptação à modernidade o ponto principal do enredo e que eleva esta comédia de patamar. Os veteranos astros dão vida a Artie e Diane Decker, um casal pré-terceira idade que apesar de muita disposição percebe na marra que estão desatualizados, praticamente peças de museu para os tempos atuais. Ele dedicou a sua vida a narrações esportivas, mas inesperadamente foi demitido com a justificativa de que seu estilo de trabalho, piadas e linguajar não condizem mais com a realidade, o que reflete diretamente em sua popularidade nas redes sociais. Hoje o talento pouco importa, o que vale é a quantidade de curtidas no Facebook.  Sempre muito amável, sua esposa tenta consolá-lo e uma proposta inesperada cai dos céus para animar os dois: cuidar dos três netos por uma semana. Bem, na realidade a vovó se mostra muito mais entusiasmada, ainda que saiba que eles foram a segunda opção após a recusa dos avós paternos. Como ela mesma diz, a filha não mantém nem mesmo fotos dos pais em cima da lareira, apenas dos sogros felizes com os netinhos. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A PROMESSA (2001)

NOTA 7,0

Apesar da introdução poder
indicar um típico suspense
policial, longa explora a solidão
e a paranoia de seu protagonista
Policial prestes a se aposentar se envolve no caso da morte de uma garotinha prometendo a sua família fazer de tudo para capturar o assassino, assim tomando a responsabilidade de um último trabalho para honrar sua carreira. A premissa é tão genérica quanto o título, mas A Promessa é um suspense que envereda mais pelo caminho do drama fugindo do lugar comum. Esqueça aqueles mirabolantes roteiros em estilo quebra-cabeça para se chegar a identidade do criminoso ou o famoso jogo de gato e rato entre policial e bandido. O roteiro de Jerzy e Mary Olson Kromolowski opta por desnudar a alma de um homem atormentado por uma promessa, o dilema moral de cumprir o juramento que fez quando iniciou sua vida profissional de sempre lutar pela proteção dos inocentes e buscar a verdade custe o que custar. Será isso mesmo? O caminhar da história sugere outra interpretação. Em um pequeno vilarejo no Estado de Nevada, nos EUA, Jerry Black (Jack Nicholson) é um policial veterano que está prestes a se afastar do trabalho após décadas de serviços, mas em seu último dia na instituição recebe uma incumbência que adiará a sua aposentadoria, ou melhor, ele mesmo é quem decide posicionar-se no caso. Durante a festa de despedida promovida pelos colegas, chega a notícia do assassinato de uma garotinha de apenas oito anos, estuprada e violentamente mutilada, e ele insiste para averiguar a cena do crime, mas também usa toda a sua experiência para dar a notícia triste para a família da vítima. Comovido com o desespero da mãe, A Sra. Larsen (Patricia Clarkson), Black promete que assumirá as investigações e não sossegará enquanto não ver o responsável sendo punido. Para tanto, ele será auxiliado pelo policial Stan Krolak (Aaron Eckhart) e juntos eles chegam até o nome de Toby Jay Wadenah (Benicio Del Toro), um descendente de índios com problemas mentais e antecedentes criminais que sob pressão assume a autoria do estupro e logo em seguida se suicida na própria delegacia, mas Black não está convencido que o caso está encerrado. Mesmo com a recusa do colega, investigador mais “relaxado” e que usou seu poder de persuasão e aproveito-se da mentalidade fraca do suspeito morto par dar um ponto final o mais breve possível nesta história, o veterano decide levar o caso adiante por conta própria. Em meio a averiguações de pistas e momentos de reflexão enquanto pratica a pescaria, o passatempo predileto do protagonista, é nesse ponto que a obra deixa de ser um suspense comum para ganhar força dramática e psicológica.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

CHERI

NOTA 7,5

Michelle Pfeiffer empresta sua
beleza natural acrescida de algumas
rugas para drama acerca do amor
de uma cortesã madura e um jovem
Stephen Frears é um diretor bastante conhecido e suas produções, geralmente marcadas pelo requinte visual, costumam marcar presença em festivais e premiações. Comparável a uma grife, seu nome é sinônimo de trabalhos de qualidade e não é a toa que sempre consegue reunir elencos talentosos e com pelo menos uns dois astros de peso para atrair o público que então pode conhecer rostos menos conhecidos. Na primeira década do século 21, sua obra de maior repercussão foi A Rainha pela enorme quantidade de prêmios recebidos pela atriz Helen Mirren e a natural curiosidade acerca de um episódio delicado vivido pela família real britânica, mas sem dúvida seu filme mais famoso até hoje é o clássico Ligações Perigosas lançado no fim dos anos 80 e que abordava a perversidade escondida por trás da beleza de fachada da vida dos nobres. Talvez tentando recuperar o prestígio daquela época, mais uma vez o diretor se uniu a atriz Michelle Pfeiffer e ao roteirista Christopher Hampton para realizar Cheri, drama romântico com pitadas ácidas de crítica social passado em Paris antes da Primeira Guerra Mundial, período conhecido como Belle Époque, tempo de exaltação das artes, costumes mais liberais e apogeu da hipocrisia da burguesia. Infelizmente, poucos conhecem a obra no Brasil, quiçá até mesmo em seu próprio país de origem. Baseado no livro homônimo escrito em 1920 pela francesa Sidonie-Gabrielle Colette, já adaptado para o cinema outras três vezes, o longa começa com uma belíssima arte para ilustrar os créditos iniciais mostrando várias mulheres de vida fácil que se tornaram famosas ou que se deram bem na vida para então conhecermos Lea de Lonval (Pfeiffer), uma cortesã que desde muito jovem estava acostumada a participar da alta sociedade, com direito a pitacos em intrigas sociais, mas que está tomando consciência de que está envelhecendo e seu prestígio declinando, principalmente quando se apaixona de verdade, algo impensável para uma acompanhante. Sempre dedicada a oferecer prazer e fazer companhia a homens muito ricos, geralmente por um encontro apenas, sentir a necessidade de criar laços com alguém é sinal de que sua aposentadoria está próxima. Lea se aproxima de Fred, a quem apelidou carinhosamente de Cheri (Rupert Friend) ainda na infância, jovem de 19 anos muito saliente e que acha muito divertido ser desejado por uma mulher mais velha que já teve aos seus pés os homens mais bonitos e ricos da região. Juntos eles vão passar alguns anos no campo, tempo suficiente para o rapaz se divertir, mas ao mesmo tempo amadurecer, descobrir pormenores do amor pelas mãos de uma mulher experiente.

domingo, 11 de dezembro de 2016

UMA AVENTURA ANIMAL

Nota 3,0 Apesar dos esforços dos animadores, não há desenho que se sustente sem boa trama

O cinema italiano é conhecido por bons dramas, romances e comédias, algumas produções inclusive tornaram-se clássicas na História da sétima arte. Nos últimos anos o país também passou a investir em filmes de suspense, policiais e até no campo da animação, contudo, pelo que se vê em Uma Aventura Animal, a turma de lá ainda precisa comer muita macarronada e beber muito vinho para chegar a um mercado competitivo do gênero. Fora a tentativa de forjar em vários momentos uma interação entre os personagens e quem assiste, a produção não traz nada de novo, pelo contrário, é um amontoado de equívocos. A trama escrita por Francisco e Sergio Manfio, este último também diretor, acompanha as aventuras de uma turma de animaizinhos em busca de um segredo secular. Aldo, para variar uma sábia coruja que cuida de uma importante biblioteca na cidade de Veneza, está muito interessado em saber mais sobre o chamado “Código de Marco Polo”, escritos feitos pelo lendário viajante após uma viagem à China. Alda, a irmã do bibliotecário, já está em campo na cidade de Kebab em busca deste material histórico e em breve ganhará a ajuda do irmão e seus amigos nesta expedição. Contudo, gente do mal também está atrás desta misteriosa informação. Cambaluc e Cuncun, dois furões um tanto atrapalhados, descobrem os planos da turminha e avisam a bruxa Gralha que também está interessada no tal código. Ela vive com seu fiel escudeiro Ambrósio no Himalaia em uma região isolada literalmente sob as trevas. Sua casa é o Palácio da Magia, local descoberto pelo próprio Marco Polo há 800 anos. Fascinado pela construção, local que abrigava os mais antigos feitiços orientais, seus escritos após seu regresso da China tratam justamente sobre a construção de um palacete idêntico na Itália, mas desconhecido. Tal segredo está contido em uma pedra desaparecida a qual Alda estava prestes a encontrar, mas Rajin, um macaco a serviço da bruxa, consegue colocar as mãos primeiro no objeto que quando posicionado sobre o piso da mais antiga biblioteca de Veneza revela o código. Obviamente tal local é onde trabalha Aldo o que o obriga a viajar rapidamente com seus amigos para voltar a tempo de evitar que Gralha tenha a revelação só para si.

sábado, 10 de dezembro de 2016

MARCAS DO PASSADO (2006)

Nota 4,0 Drama aborda de forma superficial tentativas de homem comum mudar seu futuro

Muitos filmes já investiram na fórmula da pessoa que descobre que seu futuro não é lá muito auspicioso e corre contra o tempo para tentar mudar seu destino. Geralmente tais produções são ligadas ao gênero fantasia, horror ou suspense e garantem um filme razoavelmente divertido, tudo o que Marcas do Passado não é. Seguindo a linha de um drama policial, o longa dirigido por Mark Fergus, roteirista de Filhos da Esperança e Homem de Ferro, é um tanto arrastado, desinteressante e repleto de personagens sem função que apenas servem para confundir o espectador. O roteiro de Scott Hastings nos apresenta a Jimmy Starkys (Guy Pearce) que está viajando sozinho por uma estrada deserta quando tem um problema no carro. No pequeno vilarejo mais próximo ele consegue auxílio, mas terá que aguardar praticamente o dia todo até que o veículo fique pronto. Para passar as horas, o rapaz começa a vagar pelas redondezas e encontra o vidente Vacaro (J. K. Simmons) e só por distração paga por uma consulta mediúnica, embora não acredite em visões e caçoe a cada novo comentário que o homem faz. Sua atenção muda quando é avisado que em breve uma grande quantia de dinheiro chegará até ele de Dallas, mas subitamente o vidente começa a se sentir mal e interrompe a consulta. De volta a sua casa, Jimmy, que é vendedor, logo se vê envolvido em um negócio lucrativo, a venda de jukeboxes (tipo de toca-músicas antigos e próprio para estabelecimentos comerciais). O negócio começaria justamente por Dallas por ser um importante centro comercial, mas junto com essa novidade ele também passa a receber misteriosas correspondências e seu telefone quando toca fica mudo. Não demora muito para que o rapaz descubra que quem está por trás dessas pequenas brincadeiras é Vincent (Shea Whigham), um antigo parceiro de comércio ilegal que passou um bom tempo na cadeia por conta de um episódio mal explicado envolvendo Jimmy, este que ligando as evidências se apavora ao perceber que pode ser morto pelo ex-amigo que está sob liberdade condicional e cheio de ódio. Segundo a profecia, confirmada por uma cigana, o rapaz estaria a salvo apenas até a primeira nevasca do ano.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A COLINA ESCARLATE

NOTA 9,0

Inspirado na cultura gótica e com
estética de filme antigo, obra é um
espetáculo visual, mas narrativamente
mostra-se limitada e até previsível
O cineasta Guillermo del Toro é um visionário, não há dúvidas. Como ele poucos conseguem equilibrar conteúdo narrativo com estética que ultrapassa os limites da imaginação. Transitando entre o cinema independente, como no suspense A Espinha do Diabo, e os blockbusters americanos, como na aventura Círculo de Fogo, o mexicano consegui um perfeito híbrido de estilos com sua obra-prima O Labirinto do Fauno, mescla de drama, fantasia e terror na qual os atributos técnicos não apenas saltam aos olhos, mas reforçam suas importâncias para contar uma boa história. Seguindo a mesma linha de raciocínio, A Colina Escarlate é um leve sopro de criatividade e bom gosto em meio ao combalido, e por vezes grosseiro, gênero do terror. Projeto acalentado por mais de uma década, o longa é calcado no estilo gótico e uma declaração de amor ao estúdio Hammer, berço das produções de horror entre as décadas de 1950 e 1970. Não por acaso o cenário principal é um suntuoso casarão envolto em aura de mistério e melancolia, algo ressaltado pela fotografia propositalmente envelhecida. A opção além de colaborar para o clima de tensão constante, também destaca os elementos em vermelho carregados de mensagens subliminares. À primeira vista a trama é bem simplória evocando o tema-clichê da casa mal-assombrada, porém, como a protagonista Edith Cushing (Mia Wasikowska) deixa claro em sua narração, esta não é uma história sobre fantasmas e sim uma trama com a presença de seres do além, uma sutil diferença na forma de se expressar, mas que faz toda a diferença narrativamente. Ela é uma jovem aristocrata americana aspirante a escritora devota ao pai, o Sr. Carter (Jim Beaver), e que se apaixona pelo misterioso Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), um lorde que apesar da banca de ricaço na verdade está praticamente falido e busca alguém para financiar um projeto envolvendo a extração de uma argila vermelha encontrada sob o solo de sua residência na Inglaterra. Não demora muito e o rapaz desposa a garota e a leva para viver em sua decadente mansão localizada na tal colina que dá nome à fita, porém, o casal terá que dividir sua privacidade com Lucille (Jessica Chastain), a irmã mais velha dele, uma mulher com personalidade tão fria quanto a casa em que vive. Ela simplesmente ignora todas as iniciativas da cunhada para serem amigas e de certa forma parece exercer algum poder controlador sobre Thomas, o que leva Edith a acreditar que os irmãos possuem algum segredo em comum.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

ENCANTADORA DE BALEIAS

NOTA 8,5

Através da manutenção de
uma crença de uma tribo em
extinção, drama leva a reflexão
da tradição versus modernidade
Em tempos de sociedade globalizada, é uma atração e tanto quando podemos assistir ou participar de festejos tradicionais de outras nacionalidades, no entanto, geralmente quando o cinema quer abordar tal assunto acaba utilizando o viés do humor apostando no clichê da guerra entre os mais velhos tentando defender crenças e costumes contra os mais jovens que inevitavelmente acabam seduzidos pelos fascínios e novidades da modernidade. Quando o tema já envolve povos seculares e com risco de serem dissolvidos a coisa já ganha um tratamento mais respeitoso como é o caso do drama Encantadora de Baleias que enfoca uma tribo Maori tentando preservar suas tradições ao mesmo tempo em que procura evitar a degradação cultural e o choque de gerações. Produzido entre a Alemanha e a Nova Zelândia, o longa escrito e dirigido por Niki Caro, de Terra Fria, é baseado na obra “The Whale Rider”, de Witi Ihimaera. A trama se baseia em uma antiga lenda do povo neozelandês que afirma que um dia, cavalgando nas costas de uma baleia que domou, surgiu um líder de nome Paikea, uma espécie de semideus que após ter sua canoa virada conduziu seus semelhantes até um local seguro para viver. Os maori, povo típico local, acreditam ser descendente deste herói e que um dia ele reencarnaria em um membro das novas gerações para mais uma vez guiá-los para tempos melhores. Assim como todos os demais indígenas, os maori sobrevivem em grupos pequenos e tentam resistir a passagem do tempo e a diluição de sua cultura primitiva. A fim de manter os ritos de seus ancestrais, Koro (Rawiri Paratene) está a procura de um futuro líder para a sua comunidade, porém, se decepciona com a surpresa que o destino lhe reservou. Descendente dos chefes da tribo Whangara, linhagem com ligação direta a Paikea, ele tinha certeza que assim que tivesse um neto este seria o líder natural de sua aldeia seguindo a crença de que o primogênito de cada geração dos seus nasceria com uma missão a ser cumprida para o bem de seu povo. No entanto, sua nora dá a luz a um casal de gêmeos, mas o parto complicado acabou levando a morte mãe e filho. A menina é batizada com o mesmo nome do lendário líder, porém, é mais conhecida como Pai (Keisha Castle-Hughes) e cresce sob os cuidados dos avós já que seu pai traumatizado com os problemas do parto preferiu se mudar para a Alemanha para reconstruir sua vida.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

MATINÉE - UMA SESSÃO MUITO LOUCA

NOTA 8,0

Comédia homenageia os
filmes trashs e o espírito
nostálgico da obra ajuda a
cativar os espectadores
Quem nunca se divertiu algum dia na vida com um filme trash, aqueles cuja produção é precária e as interpretações amadoras ou canastronas, que atire a primeira pedra. Obras do tipo, por mais que hoje possam ser criticadas, certamente marcaram a infância ou a adolescência de muitas gerações, inclusive a turminha que se divertia em casa nos tempos áureos da “Sessão da Tarde”. Aparentemente tolos, é preciso ressaltar que trabalhos do tipo tiveram seu período de importância na História da sétima arte. Durante as décadas de 1950 e 1960, a população de todo o mundo respirava um pouco mais aliviada com o fim do pesadelo que foi a Segunda Guerra Mundial, embora alguns focos conflituosos ainda existiam em diversos países e a Guerra Fria já dava sinais de vida. Mesmo assim, a época parecia propícia para mudanças e assim muita coisa foi modificada no cotidiano de milhares de pessoas e os modismos americanos se espalharam por todos os cantos do mundo, incluindo o modelo de produções representantes de um cinema escapista que visava atender aos anseios de platéias que desejavam esquecer as tristezas e se divertir sem culpa alguma, afinal de contas não se sabia se no outro dia estaria vivo. Subgênero que há décadas faz sucesso, os populares trash movies antigamente eram os responsáveis por lotar salas de exibição com adolescentes querendo se assustar, dar risadas ou simplesmente ter uma desculpa para namorar. Eram os tempos da liberação feminina e da rebeldia dos jovens e um programinha que para os adultos poderia ser considerado maldito para os adolescentes era um respiro, a maneira que encontravam para extravasar a ansiedade e matar curiosidades. Apesar de parecerem super datadas, as produções B continuam vez ou outra dando as caras, principalmente no mercado de locação, onde ganhou sobrevida nas duas últimas décadas do século 20 com a popularização das fitas VHS. Mesmo hoje em dia, ainda há filmes trash pipocando por aí protagonizados por monstros nojentos, trazendo ao público situações bizarras ou com títulos e enredos engraçados, assim perpetuando a arte de fazer cinema com poucos recursos, simplesmente por amor ao ofício ou para fazer a alegria do público. É justamente este entusiasmo que sentimos na interpretação de John Goodman em Matinée – Uma Sessão Muito Louca, uma divertida comédia com apelo nostálgico. Ele dá vida a um excêntrico cineasta que, apesar de pensar muito nos lucros, deixa transparecer em suas falas e gestos a emoção de se fazer cinema e levar entretenimento a tantas pessoas.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

LICENÇA PARA CASAR

NOTA 4,0

Religioso aloprado tenta evitar
o aumento das estatísticas de
divórcios com testes que são uma
verdadeira prova de fogo para noivos
A instituição do casamento está em crise! Embora ainda existam muitos casais dispostos a se unir seguindo todas as convenções do matrimônio religioso, é fato que a quantidade de divórcios é assustadora, inclusive de uniões que chegam apenas a durar alguns meses. Se os convidados da festa podem se sentir magoados ao descobrirem que seus presentes nem chegaram a ser usados pelos noivos imagine a sensação de frustração das famílias dos pombinhos que gastaram horrores com igreja, burocracia, roupas e comes e bebes. No fundo quem lucra com esses fracassos são costureiros, cabeleireiros, buffets e lojas de apetrechos domésticos e eletrônicos. Chega a ser absurdo pensar que o casamento no fundo se tornou um comércio e um veículo de ostentação e os verdadeiros sentimentos que deveriam estar envolvidos no evento ficam em segundo plano. Talvez pensando nisso é que  os roteiristas Kim Barker, Vince Di Meglio e Tim Rasmussen, este último com o ótimo Entrando Numa Fria Maior Ainda no currículo, tiveram a ideia para a comédia Licença Para Casar. Assumidamente água-com-açúcar e com final feliz garantido, a pergunta que não quer calar é se realmente eram necessárias três cabeças para roteirizar um filme tão previsível e irregular. A trama tem como protagonista um jovem casal que apesar de já morar junto a algum tempo decide regularizar a situação no cartório e perante a igreja. Sadie (Mandy Moore) e Ben (John Krasinski) passaram todo o período de namoro às mil maravilhas e nem a ligeira diferença de classe social estremeceu a relação, assim o casamento tinha tudo para dar certo. Ironicamente os problemas surgem justamente nos preparativos a festa. Eles resolvem aceitar a sugestão da família da moça e pretendem se casar na mesma igreja em que os pais da noiva se casaram. O local é comandado a punhos de ferro pelo reverendo Frank (Robin Williams), figura querida e respeitada pela comunidade e que até da uma forcinha neste caso para os noivos e encontra uma data na disputada agenda de matrimônios. Eles terão apenas três semanas para preparem a festa, mas dos males esse é o menor. O grande problema é o tal curso preparatório ministrado pelo pároco.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

EDWARD MÃOS DE TESOURA

NOTA 10,0

Embora para muitos seu valor
tenha diminuído com as reprises
na TV, esta fantasia ainda diverte
e emociona como poucas obras
Qualquer pessoa que conheça o mínimo possível de cinema sabe que a parceria do diretor Tim Burton e do ator Johnny Depp é uma das mais longas e produtivas de todos os tempos. É um daqueles raros encontros cuja emoção ultrapassa os limites da ficção e mesmo quando o filme não é lá grande coisa os fãs da dupla estão apostos para exaltá-lo afinal este seria mais um tijolinho a reforçar esta sólida amizade e é um prazer inenarrável ser testemunha sentimental da construção desta relação, ainda mais sabendo que nos bastidores desta indústria a guerra de egos é intensa e os amigos da onça existem em peso. Esta trajetória começou no início dos anos 90 e provavelmente no futuro deve render alguma homenagem cinematográfica afinal ambos têm carreiras com projetos interessantíssimos e eles próprios são figuras que despertam curiosidades. Revisitar tal história é delicioso, ainda mais se voltarmos ao início de tudo. Burton é um cineasta que escreveu sua trajetória no cinema na base de bizarrices praticamente. Dono de um visual um tanto excêntrico e adepto do estilo gótico para ornamentar seus trabalhos, o campo do terror e do suspense poderia ser seu habitat natural, mas não é bem assim. Apesar de já ter trabalhado com histórias de arrepiar, o que ele mais gosta mesmo é de fazer as plateias sonharem de forma diferenciada. Com muita sinceridade e sensibilidade o diretor já conseguiu construir verdadeiros clássicos das sessões da tarde que agradam a todas as idades, desde crianças bem pequenas até os idosos, e sempre imprimindo suas marcas. Dificilmente alguém não tenha a lembrança de ao menos uma vez na vida ter esperado com ansiedade a exibição na TV ou ter entrado na fila de espera da locadora para assistir Edward Mãos de Tesoura, um daqueles filmes que marcam época mesmo contando uma singela e até certo ponto previsível história. É óbvio que aqui também faz diferença o apuro visual, mas esqueçam os efeitos especiais mirabolantes. A magia desta produção se concentra em seu aspecto artesanal, atestando que tudo realmente foi feito por mãos talentosas e precisas. O cineasta demonstra criatividade para mesclar a fantasia e referências cinematográficas e literárias de forma que até o público infantil se sentisse atraído para entrar nesse misterioso e fascinante mundo, não se assustando nem mesmo com os primeiros minutos que são mergulhados em uma atmosfera dark. Todavia, o tom de fábula está presente em todas as sequências do filme, a começar pela opção de uma senhora de idade logo na introdução passar a contar para a neta a história do personagem-título como se fosse um conto de ninar. A cidade onde a trama se passa parece um paraíso, os vizinhos se dão bem, as casas são bonitas e padronizadas e seus moradores em geral são estereotipados propositalmente, cada qual com um papel bem delineado. Tem a mulher bondosa, a sedutora, a gordinha fofoqueira, o jovem valentão, a mocinha romântica... O que tira o projeto da mesmice é justamente seu protagonista cuja personalidade, postura e visual destoam totalmente do restante da população provinciana. Pode-se dizer que tal criação seria uma metáfora, um grito para chamar a atenção. Ainda tentando ter seu trabalho aceito pelo mercado cinematográfico, Burton na época se sentia um esquisitão no meio, mas não se rendia as exigências de Hollywood e tocava sua carreira com projetos pessoais e correndo atrás dos recursos financeiros.

domingo, 4 de dezembro de 2016

SEREIAS

Nota 7,5 Sexo versus religião, este é o tema central de suposta homenagem à pintor australiano 

No outro lado do globo terrestre também tem cinema. A Austrália é um país que não tem uma filmografia expressiva, mas vez ou outra surge algum produto de lá. Inclusive já tivemos um filme com o mesmo nome deste território popularmente conhecido como a terra dos cangurus e dos coalas, embora fosse uma produção americana dirigida pelo cineasta Baz Luhrmann e estrelada por Nicole Kidman, ele natural do continente enquanto a atriz apenas naturalizada. Daquelas longínquas terras, no passado, recebemos o romance Sereias. O diretor e roteirista John Duigan se inspirou na história do pintor Norman Lindsay, artista praticamente desconhecido no Brasil, que ousou nas suas obras e foi criticado por cutucar a moralidade de seu tempo. Sexo versus religião. Este é o conflito que serve como pano de fundo para narrar a história do pastor inglês Anthony Campion (Hugh Grant) e sua esposa Estella (Tara Fitzgerald) que em meados da década de 1930 chegam a Austrália a pedido de um bispo local. A missão dada é barrar os trabalhos do pintor Norman Lindsay (Sam Neill) cujas obras supostamente atentam a moral e os bons costumes ao reunir mensagens eróticas e religiosas em uma mesma tela. O jovem pároco deveria convencê-lo a retirar de uma exposição internacional seu quadro “A Vênus Crucificada”, no qual uma mulher nua é retratada se balançando na cruz enquanto aos seus pés se rebaixam membros da Igreja. O casal visita o artista para convencê-lo a mudar o foco de seus trabalhos, mas acaba descobrindo o porquê do apelo sensual de seus quadros. Ele vive em um ambiente rodeado de belas mulheres. Além de sua esposa Rose (Pamela Rabe), eles conhecem Sheela (Elle MacPherson), Gidia (Portia de Rossi) e Pru (Kate Fischer), três belas modelos que lhe servem como fonte de inspiração. No momento em que os Campion chegam elas estão justamente posando para uma nova tela intitulada “Sereias”. Neste universo exuberante e aparentemente de luxúria ainda há espaço para Lewis (Ben Mendelsohn), um camponês deficiente visual que também faz as vezes de modelo.

sábado, 3 de dezembro de 2016

MATADORES DE ALUGUEL

Nota 3,5 Enfadonho e desperdiçando talentos, mescla de drama e suspense é um bom sonífero

Quais critérios você utiliza para avaliar se um filme é ruim, regular ou excelente? Teoricamente, um filme minimamente bom deveria deixar alguma lembrança positiva em sua memória ao seu término, podendo a mesma perdurar ativamente por tempo indeterminado. Porém, o que não faltam são filmes que prometem muito, mas no final das contas nos deixam com uma sensação estranha, de desagrado, ainda que um ou outro ponto relevante positivamente possa ser identificado. No caso de Matadores de Aluguel o destaque estaria na premissa, mas é uma pena que o enredo aos poucos vai ficando desinteressante, perde o foco e quando percebemos estamos contando ansiosamente os minutos para que o filme termine logo. O roteiro de William Lipz começa de uma forma clichê. Vemos um pouco da difícil infância de um garoto negro que mais a frente saberemos que sofreu um grande trauma, um problema que certamente o influenciou a entrar para a vida criminosa. Ele é Mickey (Cuba Gooding Jr.), ou simplesmente Mike, um matador de aluguel que conta com a parceria de Rose (Helen Mirren), uma mulher mais velha e que está enfrentando um período difícil por conta de um câncer. Certo dia a dupla recebe uma nova tarefa: matar Vicky (Vanessa Ferlito), esposa do inescrupuloso Clayton (Stephen Dorff) que acredita ter sido traído. Na emboscada, Rose não pensa duas vezes antes de atirar friamente na moça, mas se arrepende ao perceber que ela estava grávida. Com o coração amolecido por conta de seu estado de saúde, ela acaba fazendo o parto e abrigando o bebê e a mãe em sua casa, aliás, residência comprada exclusivamente para se tornar realmente um lar feliz e saudável para uma criança crescer. O tempo passa, Mike e Vicky acabam se apaixonando, mas fatalmente chegará a hora em que Clayton descobrirá que o serviço que contratou não foi bem feito e vai querer cobrar. A trama é tipicamente de produções menores e super previsível, mas o trabalho do diretor Lee Daniels, estreando no cargo, acaba ganhando certo status por trazer dois nomes de atores consagrados encabeçando o elenco (Dorff poderia ser o terceiro, mas acabou sendo apenas um projeto de sucesso esquecido). Todavia, Gooding e Mirren ganharam papéis sem brilho, assim como a história no conjunto deixa muito a desejar. Talvez seja por isso que foi tão difícil fechar o elenco após muitas especulações de possíveis nomes como Anjelica Houston e Ryan Phillipe para os papéis principais.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

RUA CLOVERFIELD 10

NOTA  7,0

Claustrofobia, pânico, insegurança
e melancolia se misturam em suspense
que resgata de certa forma a temática e
ambientação de Cloverfield - Monstro
Lançado em 2008, Cloverfield - Monstro não faturou horrores e tampouco caiu no gosto popular, mas por outro lado conquistou a crítica especializada por conta de seu leve sopro de originalidade.O diretor J. J. Abrams, então em evidência com a repercussão do seriado "Lost", era apenas o produtor da fita, porém, seu nome atrelado certamente deu um reforço para a campanha de marketing. Com cerca de 80 minutos de duração, a obra é bastante tensa e claustrofóbica, deixando aberto o caminho para uma continuação, mas a agenda cheia do criador acabou postergando a ideia. Demorou, mas de certa forma ela foi lançada. Com argumento de Josh Campbell e Matthew Stuecken e roteiro final de Damien Chazelle (do premiadíssimo musical La La Land - Cantando Estações), Rua Cloverfield 10 não é exatamente uma sequência. Além de aspectos técnicos mais hollywoodianos, nenhum ator do filme anterior e nem mesmo o personagem-título dão as caras. Ainda assim, Abrams dá um jeito deste trabalho guardar certo parentesco com a produção sobre a ameaça gigantesca que assola Nova York. Enquanto a grande metrópole era destruída, nesta espécie de sequência não-oficial, conhecemos a jovem Michelle (Mary Elizabeth Winstead) que no começo do filme aparentemente está abandonando o lar e seu companheiro. Desconhecendo a situação caótica que a cidade vive, a moça pega a estrada rumo ao interior e acaba sofrendo um acidente de carro que a deixa inconsciente. Quando acorda ela se vê presa em um cômodo desconhecido e sob os cuidados do misterioso Howard (John Goodman) que lhe afirma que todo o planeta está inabitável devido a um ataque químico provocado por uma invasão alienígena. Agora um dos poucos lugares seguros seria seu "bunker", um tipo de abrigo subterrâneo preparado para proteger das piores ameaças possíveis. Por ter salvo a vida da jovem, o anfitrião deixa claro que ela precisará obedecer suas regras, assim como Emmett (John Gallagher Jr.), outro sobrevivente resgatado.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

CLOVERFIELD - MONSTRO

NOTA 7,0

Sem se preocupar em revelar a
ameaça fisicamente, mas deixando
clara sua presença, longa se preocupa
em mostrar as reações das vítimas
Assim como dinossauros, dragões e até um gorila super desenvolvido já invadiram a cidade grande, seja ela qual for, destruindo tudo o que viam pela frente, mais uma criatura gigantesca tentou repetir a façanha no mundo cinematográfico. Cloverfield - Monstro tem como chamariz mais um desses animais gigantescos que aparecem de tempos em tempos para amedrontar as pessoas, mas não trouxe novidades ao subgênero dos filmes catástrofes, a não ser o fato de preferir sugestionar ao invés de apresentar escancaradamente a ameaça, embora tal técnica fosse mérito do clássico Tubarão, mas de pouco uso. Outras referências já testadas e aprovadas em outras produções do tipo foram alinhavadas em uma produção claustrofóbica e com uma inteligente e instigante campanha de marketing. Talvez nisso esteja o segredo do projeto ter bombado nos cinemas americanos, ao contrário do que ocorreu no Brasil onde longa não pegou e a publicidade não foi tão maciça. O grande objetivo do roteiro de Drew Goddard, estreando no cinema, era acompanhar um pequeno grupo de pessoas e ver suas reações diante de uma situação de apuro extremo. O jovem Rob Hawkins (Michael Stahl-David) está de mudança para o Japão e ganha do irmão Jason (Mike Vogel) e da cunhada Lily (Jessica Lucas]) uma festa surpresa de despedida. Para registrar o encontro, seu amigo Hud (T. J. Miller) resolve fazer uma gravação caseira de alguns momentos e depoimentos do grupo embora esteja mais interessado em xavecar Marlena (Lizzy Caplan) que mostra-se indiferente ao cortejo. Beth (Odette Yustman), a ex-namorada do homenageado, também comparece à festa junto com seu novo companheiro, Travis (Ben Feldman), para rolar aquela cena clássica de ciúmes com o rejeitado. Para que perder tempo apresentando essa turma? A ideia é que o espectador se envolva a ponto de sofrer com o que vai acontecer a eles, mas é só uma intenção, ok? Durante a festa uma explosão ocorre e na sequência surgem tremores, barulhos ensurdecedores, queda de energia e mortes começam a acontecer. A cidade de Nova York está sendo destruída por um animal desconhecido e gigantesco e agora todos precisam correr para tentar achar algum lugar seguro, se é que existe algum.

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