segunda-feira, 31 de maio de 2021

CURTINDO A VIDA ADOIDADO

 

Nota 9 Clássico absoluto, comédia prega que fugir da rotina para viver bons momentos é essencial


Qual criança ou adolescente nunca faltou a escola ou deixou de fazer alguma atividade só para curtir um filminho na clássica "Sessão da Tarde" da Globo? Bem, as novas gerações provavelmente não fazem mais isso porque tem a facilidade dos canais fechados e serviços de streaming para ver e rever filmes, mas quem era jovem até o final da década de 1990 provavelmente engambelou vários compromissos para se divertir com produções como Os Goonies, De Volta Para o Futuro, Os Aventureiros do Bairro Proibido, entre tantas outras que marcaram época. Mesmo tendo a disposição os títulos na maioria das videolocadoras, fazia parte da diversão saber que você e seus amigos naquele mesmo dia e horário estavam assistindo a algo que serviria para pautar as conversas e brincadeiras no dia seguinte na escola ou na rua. Boas lembranças como essas fazem parte do amadurecimento, assim como as broncas que podiam vir como consequências por não ter estudado ou faltado ao dentista, por exemplo. Curiosamente, uma das produções mais representativas da citada faixa de filmes na TV tem como tema principal justamente um adolescente que inventa situações simplesmente para viver um dia de prazer e, como muito bem define o título, Curtindo a Vida Adoidado.

Ferris Bueller (Matthew Broderick) certa vez acorda decidido a tirar o dia para se divertir, como se já não tivesse a manha de fazer isso com certa frequência, mas desta vez a curtição seria como nunca antes. O velho truque de aquecer o termômetro na lâmpada do abajur ainda fazia efeito entre tantas outras malandragens suficientes o bastante para seus pais, Katie (Cindy Pickett) e Tom (Lyman Ward), irem trabalhar preocupados, mas o molecão está pouco ligando pra isso. Ele convence Sloane (Mia Sara), sua namorada, e Cameron (Alan Ruck), seu melhor amigo, a lhe acompanharem em um dia cheio de passeios e travessuras, mas enquanto isso Ed Rooney (Jeffrey Jones), o diretor da escola, ciente de que o jovem mente descaradamente para encabular aulas, está disposto a desmascará-lo, mesmo que seja necessário invadir a sua casa para colher provas ou surpreendê-lo, o que culmina em divertidos contratempos  com um cachorro e com Jeanie (Jennifer Grey), a irmã do rapaz que não se conforma como ele consegue se desvencilhar de problemas facilmente e sempre enganar os pais. Também na tentativa de revelar quem Bueller realmente é, a moça vai parar até na cadeia onde conhece Garth (Charlie Sheen), um rapaz detido por envolvimento com drogas e que obviamente servirá de interesse romântico para ela parar um pouco de reclamar da vida. Como de costume, é claro que o ato final será marcado por uma série de encontros e desencontros dos personagens, mas não resta dúvidas de que nosso mocinho com pinta de anti-herói conseguirá mais uma vez se safar de qualquer castigo. 


E a trama resumida é essa, algo razoavelmente simplório vivido por personagens pouco aprofundados. Entretanto, o que faz o filme atravessar gerações ainda despertando nostalgia aos mais velhos e curiosidade entre os mais novos? A resposta está em sua simples, otimista, necessária e atemporal mensagem. O argumento ganha vigor nas mãos do diretor John Hughes, também autor do roteiro, um especialista em projetos feitos por e para adolescentes. Ele é o responsável por outros clássicos oitentistas, como Gatinhas e Gatões e O Clube dos Cinco, e conseguiu como poucos capturar e documentar os sentimentos de uma geração ávida para viver liberdades que então deixavam de ser tabus, mas ao mesmo tempo ainda se sentindo atrelada a convenções sociais. Bueller seria o expoente máximo desse perfil, o jovem preso a um sistema de educação um tanto conservador, tanto na escola quanto em casa, mas que vislumbra que a vida pode não ser tão rígida, basta ser ousado para fazer diferente. O protagonista simplesmente quer viver sua adolescência de forma leve e sem pressões, afinal seus pais já mostram o quanto ser adulto implica responsabilidades. Sendo assim, por que abreviar uma fase tão curta de nossa evolução sendo escravos do relógio? Vendo por esse prisma, é compreensível que tal obra ainda desperte interesse. O tema não se restringe a adolescentes, afinal quem nunca pensou em jogar tudo para o alto para viver ao menos um dia de folga fazendo tudo o que bem entendesse? Alguns anos depois, Hughes reciclaria tal tema escrevendo os roteiros de Esqueceram de Mim e suas continuações.

A vida é muito curta e você precisa parar para aproveitá-la de vez em quando ou ela passa sem ser percebida. Esse memorável pensamento proferido em outras palavras por Bueller é a justificativa perfeita para ele faltar a aula, enganar seus pais, mentir que alguém próximo faleceu, entre outras peripécias. Frustrado por não ter ganho um carro de aniversário, ele convence Cameron a pegar emprestada a Ferrari que é o xodó de seu pai, diga-se de passagem, o veículo também será tomado emprestado por algumas horas pelo pessoal do estacionamento, e junto com Sloane partem para um dia de diversão explorando o centro da cidade de Chicago. Ironicamente, um dos pontos visitados é um museu, local que dificilmente seria escolhido por adolescentes rompendo com os estudos, mas dentro do propósito do protagonista a opção é perfeita, afinal se quer bancar o jovem bem sucedido e independente ter cultura é essencial. O ápice do passeio é a emblemática sequência em que o protagonista invade um desfile folclórico local para cantar e dançar a música "Twist and Shout" dos Beatles, trazendo assim a alegria e a jovialidade que o caído evento carecia. Logo todos os participantes e espectadores estão embalados no mesmo ritmo chamando a atenção até mesmo da mídia. Importante frisar que em nenhum momento álcool ou drogas entram em cena, deixando claro que não é preciso "ficar doidão" para curtir bons momentos.


Curtindo a Vida Adoidado não seria a mesma coisa sem Broderick. Seu personagem por si só é de fácil identificação, seja homem ou mulher e independente da idade, afinal todos querem aproveitar o que a vida tem de melhor. A escolha do ator foi certeira. Sua carinha de bom moço ajuda a sustentar as farsas de Bueller que mostra-se um adolescente seguro e com propósitos firmes. A ideia de colocá-lo para dialogar com quem assiste olhando diretamente para a câmera é genial e só ajuda a nos aproximarmos do rapaz, como se fossemos seus confidentes e cúmplices. Uma pena que não seja trabalhado um paralelo entre o seu comportamento altivo em comparação ao jeito tristonho de seu amigo. Aos poucos vamos descobrindo que Cameron tem alguns problemas a resolver, como de autoestima e uma relação complicada com seu pai, e graças as doideiras de Bueller aprende a ver a vida de forma mais leve, ainda que a mudança seja repentina e mesmo após ficar em estado de choque com o passeio de carro acabando literalmente ladeira abaixo. Entretanto, a obra assumidamente escapista não faz questão e nem tem o dever de assumir complexidades, mas nem por isso é apenas um passatempo, como justifica sua fama que perdura até hoje. Os momentos finais são dedicados à corrida contra o relógio do protagonista tentando chegar em casa ao final da tarde e a tempo de dar continuidade a sua farsa, ou melhor, encerrá-la no melhor estilo menino de ouro. Divirta-se, viva a vida, mas tenha ao menos um pingo de responsabilidade, esse é o recado de Bueller que certamente para todo o sempre encontrará público.

Comédia - 102 min - 1986

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