segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

STELLA (2008)

NOTA 8,0

Drama tem enredo de fácil
identificação e prova que o
incentivo à cultura e o convívio
social podem sim mudar vidas
A integração, a motivação, conceitos de disciplina, lições de respeito, entre tantas outras coisas, são alguns dos benefícios que o esporte proporciona a uma criança ou a um adolescente e ajuda a torná-lo um adulto vencedor e exemplo de vida. Isso o cinema já mostrou em inúmeras oportunidades, mas as vezes o foco é no argumento das artes e das amizades como instrumentos de incentivo para despertar potenciais e colocar nos eixos rotinas desordenadas ou tristes. Geralmente só enxergamos isso em produções cujos protagonistas são pessoas indiscutivelmente de classe baixas e a mercê das drogas e de todo tipo de violência, mas ainda bem que existem variações como o longa francês Stella. A talentosa Léora Barbara dá vida com extrema naturalidade à garota do título, uma francesinha de 11 anos de idade que não tem uma existência paupérrima, pelo contrário, aos olhares mais desatentos até  pode ser considerada uma criança privilegiada, mas na realidade vive na periferia de Paris e sem grande expectativas de um futuro melhor. Estamos no final da década de 1970, época de intensa movimentação no mundo todo com importantes quebras de tabus, rebuliços políticos e cultura disseminada. A garota mora com seus pais, Roselyne (Karole Rocher) e Serge (Benjamin Biolay), em um edifício decadente que fica em cima do bar da família frequentado por marginais, viciados e prostitutas, assim ela cresceu em um ambiente que lhe proporcionou aprender certas malandragens e a tocar a vida de acordo com a forma que a banda toca. Dá mesma maneira ela encara os estudos, sendo extremamente desatenta nas aulas e tirando as piores notas possíveis na escola que a admitiu. A garota sente que sua origem humilde é alvo de humilhações por parte de professores e alunos da instituição de nível acima da média para seus padrões de vida, o que lhe desperta certos instintos de rebeldia. Sua mãe finge não se importar com a situação da única filha, mas insiste na ideia de que se ela não estudar seu destino será atender clientes no bar.

As coisas mudam quando Stella faz amizade com a nova aluna de sua classe, a judia argentina Gladys (Mélissa Rodriguez). Através desta amizade a francesinha rebelde conhece um mundo diferente de tudo o que conhecia até então. Por influência da nova companhia, ela descobriu um novo caminho a seguir na vida entrando em contato, por exemplo, com a música e a literatura, enquanto as coisas no ambiente que vive estão em ruínas, tanto no bar quanto em sua casa. O longa aparentemente pode parecer ter sido feito sob encomenda para agradar a um seleto público e para concorrer em festivais de cinema. Não por acaso ganhou como Melhor Roteiro no Festival de Flanders. Contudo, acompanhando sem tecer pré-conceitos, esta obra da diretora e roteirista Sylvie Verheyde pode conquistar um maior número de espectadores. Não é apenas um filme sobre ritos de passagem cheios de clichês aos moldes que Hollywood produz às pencas e, curiosamente, quase sempre estrelados por algum astro juvenil em ascensão ou em evidência. Também não traz o tédio e a depressão tão comuns aos dramas franceses. A trama é autobiográfica, pois a própria cineasta também cresceu próxima a um bar de periferia, estudou em uma famosa escola parisiense e sofreu para se adaptar a um ambiente escolar elitizado. Justamente por adicionar suas memórias afetivas de forma simples e com um olhar inocente e as vezes deliciosamente perverso, o roteiro é de fácil assimilação tanto por cinéfilos de plantão quanto pelo público casual em busca de uma opção de qualidade. O cinema francês sempre gostou de abordar assuntos ligados ao cotidiano de crianças que são jovens demais para serem consideradas adultas, mas ao mesmo tempo demasiadamente maduras para receberem tratamento de forma infantilizada, e aqui temos mais um forte representante desta corrente cinematográfica. Com muita suavidade a trama tem a pretensão de explorar os conflitos da personagem-título e dos demais que a cercam sem fazer julgamentos, simplesmente registrando o cotidiano destas pessoas que se fecharam em um grupinho devido as características em comum, como se fossem os excluídos de uma Paris conhecida por uma população refinada, suas riquezas e produtos caros e cobiçados. Verheyde despreza tais características e apresenta uma visão menos glamorosa da cidade-luz.

Stella já se habituou a ser diferente das outras crianças de sua escola, mas sua trajetória não difere muito a de outras tantas de sua idade e de qualquer parte do mundo. Ela passa por problemas em sua casa, vive as dificuldades inerentes à fase escolar e precisa aprender a lidar com as novidades que o amadurecimento traz, além de administrar o seu semi-isolamento imposto por uma sociedade preconceituosa com os menos abastados. A menina, apesar de se dizer conhecedora do universo dos adultos, ainda mantém uma pureza e ingenuidade cativantes, com destaque para as narrações em off deliciosamente genuínas e puras da protagonista. Interessante observar na obra uma nova perspectiva dos anos setentistas através da percepção de um país diferente que não os EUA. A cultura da época é muito enraizada em referências ianques. As músicas, os filmes, a política, os ídolos entre tantas outras coisas que estão na memória coletiva mundial são provenientes de terras norte-americanas, mas cada país também teve a sua forma particular de vivenciar o período. Isso é perceptível prestando atenção, por exemplo, nas canções e figurinos que pontuam e ajudam na reconstituição de época do longa. Outra característica nostálgica é a fotografia levemente amarelada, um efeito proposital e muito eficiente para ajudar o espectador a submergir na trama. Contada de forma ágil e leve, ainda que a meia hora final mude ligeiramente o tom, a trama de Stella merece ser conhecida e ter sua grande mensagem compreendida:o ambiente em que vivemos, as pessoas com quem nos relacionamos e nossos hábitos  podem sim determinar quem foi você ontem, a pessoa que é hoje e como será no futuro. Em busca de melhores chances na vida, sempre é hora de mudar e isso só depende de cada um e suas escolhas. Em tempo: este foi o último filme do ator Guillaume Depardieu, que não conseguiu sustentar a fama do sobrenome do pai Gerard em sua curta carreira. Ele faleceu cerca de um mês antes do longa estrear nos cinemas franceses.

Drama - 102 min - 2008 

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Um comentário:

Daniel Sousa disse...

Filme interessante! Muito legal : )
http://danielhorizonte.blogspot.com/

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