quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

MUITO GELO E DOIS DEDOS D'ÁGUA

NOTA 4,0

Comédia nacional tem boas
intenções, mas tropeça em suas
próprias pretensões exagerando no
visual e situações de humor negro
Daniel Filho se tornou uma espécie de Midas do cinema nacional com o sucesso de Se Eu Fosse Você. Tudo que faz gera lucros. Será mesmo? Embora tenha repetido o feito com a sequência da comédia protagonizada por Glória Pires e Tony Ramos, o diretor tem colecionado mais fracassos que sucessos. Experimentando outros gêneros e formas de fazer cinema, ele se arriscou a lançar o filme de humor negro Muito Gelo e Dois Dedos D’Água, mas a recepção não correspondeu as expectativas. Elenco com nomes famosos e talentosos, direção segura, inovações visuais e narrativas e apelo cômico que parece ser o eixo de sustentação do cinema nacional. A receita não poderia dar errado, mas a opção por piadas pesadas e excessos de palavrões e de atitudes condenáveis dos personagens acabou afastando o público. Bem, quem já acompanhava os seriados de TV assinados pela dupla Fernanda Young e Alexandre Machado, como “Os Normais”, já sabia o que podiam esperar, mas é certo que muitos se surpreenderam com o que encontraram. Se em sua comédia anterior Filho investiu em um humor próximo ao feito na televisão brasileira, desta vez ele entrou no espírito dos roteiristas e procurou trabalhar com o politicamente correto, algo corriqueiro em series e filmes americanos. Se ajudamos a indústria dos besteiróis ianque, por que não podemos ter produtos similares brasileiros? Na teoria faz sentido, mas na prática não. Pelo menos não neste caso. Para expor melhor os problemas vamos primeiro ao enredo. As irmãs Roberta (Mariana Ximenes) e Suzana (Paloma Duarte) possuem personalidades e vivem cotidianos muito diferentes, mas há um detalhe em comum no passado delas que trata de reaproximá-las quando adultas: o desejo de vingar-se dos maus tratos da avó (Laura Cardoso). Quando eram crianças, a idosa as atormentava com conceitos rígidos a respeito de educação e etiqueta e o convívio era ainda mais torturante na época das férias quando costumavam passar vários dias em uma casa de praia. Para exorcizar os demônios do passado, elas armam um plano para sequestrar a avó e a levarem para um “agradável” final de semana na residência que foi palco de verdadeiros pesadelos das garotas. Roberta consegue golpear a avó com um objeto decorativo e a coloca em seu carro desacordada e parte para buscar a irmã para começarem a esperada vingança, mas o trio terá companhia nessa louca viagem.

Francisco (Thiago Lacerda), marido de Suzana, implora para que ela não faça a viagem usando como desculpa o aniversário do filho deles, mas na verdade ele não quer a esposa na companhia da irmã que julga ser um mau exemplo em vários aspectos. Contudo, o desejo de vingança fala mais alto e esta mãe de família decide sair da linha o que obriga Francisco a segui-las para evitar alguma catástrofe. Detalhe, ele nem desconfia dos planos contra a avó da esposa, simplesmente estranha a decisão repentina dela viajar e acha que ela poderia estar usando entorpecentes por influência da irmã. Mal sabe ele o que está para acontecer. Roberta também terá companhia masculina. Ela conhece Renato (Ângelo Pares Leme), um advogado um tanto careta, por acaso quando já estava prestes a colocar o plano de sequestro em prática. Salvando o rapaz de uma confusão em um restaurante, ele cai de gaiato nesta história aceitando participar da viagem sem desconfiar que uma idosa desmaiada esteja no porta-malas do carro. O prato principal do longa é justamente os acontecimentos do passeio que podem curiosamente tanto provocar gargalhadas quanto constrangimentos. Entre belas locações litorâneas de Alagoas, provavelmente fazendo as vezes de alguma praia deserta carioca, Francisco se perde do rastro das irmãs e acaba perdido e protagonizando cenas bastante divertidas, principalmente por conta de um cachorro bravo que encasqueta em persegui-lo e seus apuros com a polícia. Todavia, é na abandonada casa de praia que o bicho pega. Ambientes sujos, móveis empoeirados e quintal atolado de folhas secas e mato. Dos males esses são os menores para a vovó dopada. Seguindo as regras que a própria impunha no passado, as netas passam a colocá-la para se bronzear de forma forçada, afinal de contas uma pele corada é sinal de boa saúde. Também fazem depilação, alisam seus cabelos e fazem suas unhas, pois mulheres peludas, com cabelos desgrenhados e mãos mal tratadas passam más impressões. Todos esses cuidados são aplicados com aquele jeitinho especial que só a vovó sabia ensinar. Bagunça é a palavra de ordem nessa casa e o exagero é onipresente, tanto que até contagia o recatado Renato que acaba caindo na farra com as garotas em uma das poucas cenas realmente divertidas do trio quando eles se divertem fazendo strip-tease (comportado) ao som de canções nostálgicas como “Sandra Rosa Madalena” e “O Amor e o Poder”, hits inesquecíveis nacionais. Talvez esse seja o único momento que alguns espectadores conseguem estabelecer algum tipo de conexão com os personagens devido a memória afetiva provocada (quantas meninas não dançaram como uma deusa na frente do espelho no passado), mas no geral há um distanciamento do público que a narrativa não consegue impedir simplesmente porque os personagens são rasos, pouco sabemos deles. É como se assistíssemos a um aglomerado de esquetes humorísticos no estilo “Zorra Total”, divertidos, por vezes constrangedores, mas que não faz diferença saber os motivos que os originaram e tampouco suas consequências.

Young e Machado estão mais acostumados a escrever textos em que o importante é a piada do momento, mas o esquema da TV não serve para sustentar um longa-metragem. O texto se sustenta com diálogos ruins, absurdos e muitos palavrões, uma forma talvez do próprio roteiro procurar reafirmar ao espectador a cada dois minutos que ele está acompanhando uma comédia e que rir deve ser essencial. O problema é que não estamos acostumados a assistir filmes de estilo besteirol sem o áudio inglês e isso é um entrave e tanto. Muitos gargalham ao ouvir um gracejo à uma formosa mulher acompanhado da imagem de seu bumbum e peitos em closes generosos, mas ainda nos impactamos ao ouvir alguém falar em alto e bom som o nome chulo dado a genitália feminina como no caso de uma frase marcante profanada por Ximenes que tenta dar alguma dignidade ao longa com mais uma boa interpretação, surpreendendo com um visual rebelde. Já Paloma, Leme e Lacerda apresentam atuações corretas dentro daquilo que lhes pediram, no entanto, é uma pena ver um talento como Laura Cardoso sendo desperdiçado em nome do riso fácil e praticamente sem falas. Colocar uma idosa em situações ridículas é garantia de gargalhadas? Talvez sim em um país como o nosso em que o idoso é desrespeitado, mas se no início é divertido ver a veterana atriz se submetendo a maus tratos como um trabalho diferenciado em seu currículo não demora muito para nossa paciência se esgotar, ainda mais pela dor de cabeça que causa o ritmo frenético impresso pela edição e o excesso de poluição visual por conta de efeitos especiais que não raramente parecem defeitos. A introdução apresentada em animação com aspecto de rascunho aponta para novos conceitos de como fazer filmes no Brasil, mas logo as frescuras de pós-produção como cortes ultra-rápidos, sobreposição de planos e deformações nos corpos dos personagens via computação gráfica passam a não contribuir em nada com a trama, inclusive os flashbacks em desenho que soam desnecessários já que nos diálogos ficam claras as humilhações pelas quais Roberta e Suzana passaram. Nada contra inovações técnicas e apostar em um humor mais escrachado, mas é fato que uma boa premissa foi desperdiçada. A abordagem dos conflitos entre gerações não precisa necessariamente servir a apenas dramas, mas a forma encontrada para explorá-la aqui no campo do humor é praticamente um retrocesso na história do nosso cinema que embora tenha crescido a passos largos ainda carece de um reconhecimento maior e quebrar preconceitos. Contudo, o anarquismo da produção na reta final abre caminho para resoluções sentimentais, mas já é tarde para salvar o longa. Muito Gelo e Dois Dedos D’Água hoje pode ser visto com algum valor pela ótica de ser um projeto experimental, uma tentativa de fazer algo diferente e que surpreendesse o público que na época já estava acostumado que comédia nacional era sinônimo de especial de TV esticado. Filho com sua experiência poderia ter entrado em acordo com os roteiristas e ter feitos alguns ajustes no texto durante as filmagens, mas talvez tenha se apegado a ideia que a estratégia comercial da Globo Filmes mais uma vez daria certo, porém, não adianta nada dois meses de intensa publicidade na TV antes da estreia para um produto ruim que em questão de poucos dias pode ser massacrado pelo boca-a-boca negativo. Em tempo: o título é uma referência a forma como Roberta prefere beber uísque já que não gosta do sabor da bebida, só de seu efeito entorpecente. O próprio filme é um porre que não tarda a subir à cabeça. Você desliga o cérebro e embarca nessa viagem ou então prepare-se para uma ressaca precoce. 

Comédia - 96 min - 2006 

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